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Crítica

A tradição da contradição: o indivíduo para além da tribo

Por meio de ensaios sobre pensadores que foram fundamentais para sua trajetória, Mario Vargas Llosa contribui para o melhor entendimento da diversidade de manifestações da intelectualidade liberal

TEXTO EDUARDO CESAR MAIA
ILUSTRAÇÃO JANIO SANTOS

01 de Agosto de 2018

[conteúdo exclusivo para assinantes | ed. 2012 | agosto 2018]

A sensação de que
“já vi isso em alguma parte” me interrompeu por várias vezes durante a leitura de La llamada de la tribu, o mais recente livro de ensaios de Mario Vargas Llosa. A obra, ainda não publicada no Brasil, não é, de fato, um material completamente novo para os que acompanham desde sempre – para além da produção literária – seu trabalho crítico no jornalismo cultural e político. Neste O chamado da tribo (tradução apropriada para uma edição em português), o escritor se aproxima uma vez mais da autobiografia, mas, desta vez, com uma estratégia de escrita fundamentalmente diferente da que realizou em El pez en el agua, que enfoca mais concretamente suas experiências e vivências pessoais.

Nesse novo livro, o objetivo e os meios são distintos: trata-se de narrar sua trajetória intelectual e, mais particularmente, o movimento de radical mudança em suas ideias políticas, a partir dos pensadores que mais essencialmente o influenciaram. Vargas Llosa apresenta, assim, o caminho que foi traçando desde a “juventude impregnada de marxismo e existencialismo sartriano ao liberalismo de minha maturidade, passando pela revalorização da democracia para a qual me ajudaram as leituras de escritores como Albert Camus, George Orwell e Arthur Koestler”. Já a lenta e dolorosa transformação que acabou conduzindo-o aos valores propriamente liberais, por outro lado, seria consequência, segundo ele, de algumas experiências políticas e, principalmente, do estudo de sete pensadores cujas ideias e personalidades são o objeto central de La llamada de la tribu: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

Curiosamente, o livro que inspirou Vargas Llosa a escrever essa obra foi o já clássico ensaio Rumo à Estação Finlândia, de 1940, do crítico norte-americano Edmund Wilson, que traça um panorama histórico do desenvolvimento das ideias socialistas num determinado intervalo temporal a partir de perfis biográficos vívidos e consistentes de grandes intelectuais que contribuíram com aquela tradição. O propósito do autor de La llamada de la tribu, por sua vez, foi o de tentar emular não as ideias, evidentemente, mas a forma de “composição” de Edmund Wilson, para, no caso, arquitetar uma personalíssima apresentação de seus ideais liberais através daqueles pensadores que mais o influenciaram.

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