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Crítica

O pensamento 'queer' entre o íntimo e o político

TEXTO BÁRBARA BURIL
ILUSTRAÇÕES MANUELA DOS SANTOS 

01 de Junho de 2018

ILUSTRAÇÃO MANUELA DOS SANTOS

Em um filme sobre Jacques Derrida, o entrevistador pergunta ao filósofo franco-magrebino: “Se você pudesse ver um documentário sobre um filósofo, sobre Heidegger, Kant ou Hegel, o que você gostaria de ver nele?”. Responde Derrida: “Que eles falem de suas vidas sexuais… Quer uma resposta rápida? A vida sexual deles”. A pergunta que passa por trás dos grandes sistemas filosóficos: o que eles dizem sobre a vida íntima de seus criadores? A filosofia se mostra aqui como uma espécie de caminho torto dentro da própria intimidade, do mesmo modo como a literatura também se denuncia como uma forma de volta para si mesma. Afinal, nem todo pensamento literário ou filosófico tem um interesse puro pelas coisas do mundo – educação, política, leis, personagens, acontecimentos, tramas –, mas se voltam para si mesmos. Em outras palavras (e talvez mais profundamente), é interessante questionar até que ponto o pensar sobre as coisas do mundo também não se trata, no fundo, de pensamentos sobre nós mesmos. O budismo nos perguntaria: o que, afinal, não é nosso?

Partindo da premissa de que a experiência particular nos abre para questões mais universais, a escritora norte-americana Maggie Nelson escreve Argonautas e transforma as suas intimidades afetivas em uma escrita que desafia gêneros, passando por teoria literária, teoria queer, autoteoria, crítica de arte e relato pessoal (leia trecho do livro). Vencedor do National Book Critics Circle Award em 2015 e publicado no ano passado no Brasil pela editora Autêntica, com tradução de Rogério Bettoni, Argonautas inaugura a série Argos da editora, voltada para a publicação de obras sobre afetos, sexualidade e gênero, como Foucault e a teoria queer, de Tamsin Spargo, e Desejos digitais, de Richard Miskolci. A vida íntima entra aqui em questão, inclusive quando Nelson busca problematizar questões políticas como visibilidade e invisibilidade dos corpos, direitos civis, feminismo e maternidade. Além disso, o amor está no pano de fundo de toda a obra.

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