Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Reportagem

Reza, benze, cura

A persistência da prática das benzedeiras e rezadeiras, que aprendem o ofício por hereditariedade, dando seguimento ao ritual de tratamento familiar e comunitário

TEXTO EDUARDO MONTENEGRO
FOTOS PRISCILLA BUHR

05 de Abril de 2018

Iraci Rodrigues é espírita e se utiliza também do conhecimento dos orixás

Iraci Rodrigues é espírita e se utiliza também do conhecimento dos orixás

Foto Priscilla Buhr

Galho de pinhão-roxo
Nas mãos da rezadeira
Tira mau-olhado, com fé verdadeira
Galho de pinhão-roxo
Antiga tradição
Passa da avó, pra mãe, pra filha
Grande devoção
(Trecho da música Pinhão roxo, de João Paulo Rosa)

Ser benzedeira é ter um dom. Nunca pensei que poderia ser na minha vida”, diz Severina Batista da Silva, de 72 anos, ou simplesmente Ciza, como é conhecida na sua comunidade, no município de Paulista, em Pernambuco. Deitada na poltrona da sala, lugar em que passou os últimos meses descansando devido a complicações de saúde, tem sempre fotografias no alcance da vista, como os retratos antigos de sua mãe – que foi benzedeira antes dela – e de seu pai. Na parede ao seu lado, o busto do Sagrado Coração de Jesus parece olhar diretamente para ela, como quem cuida de uma filha.

Seu dom é hereditário, como canta a música de João Paulo Rosa: sua reza vem da mãe, que a herdou de sua mãe, avó de Ciza, escrava de um senhor de engenho, seu bisavô. A avó de Ciza foi comprada para dar de mamar às crianças da casa-grande, mas rezava e benzia as pessoas da senzala. O filho do senhor de engenho, observando a negra (segundo a narrativa de Ciza), apaixonou-se por ela e a engravidou. Furioso com aquilo, o pai deserdou o rapaz, deixando “de presente” somente sua avó. A perda da herança não impediu os dois de se casarem na igreja.

Severina teve pouco contato com a avó, quando era recém-nascida, mas um episódio importante marca esse breve encontro. “Porque foi assim: meu nome ia ser Ciza. Com quatro dias de nascida, minha mãe teve um transtorno de parto, me tirou da rede, só que eu caí em cima de uma mala. Aí meu pai, quando me achou, em vez de me pegar pelo corpo, pegou pela mão”, conta ela, mostrando os punhos frouxos, moles.

A avó da benzedeira fez promessa para São Severino dos Ramos que, “se ele limpasse minhas mãos, ela botava meu nome de Severina”.


           
 
*A Continente pode ser encontrada ainda na plataforma de revistas GoRead e nas principais bancas do Recife e em livrarias especializadas do país.

ATENDIMENTO AO ASSINANTE:
0800 081 1201 | (81) 3183.2765
assinaturas@revistacontinente.com.br

 

Publicidade

veja também

Celso Hartkopf

Uma cidade tomada pelos quadrinhos

Neilton, por conta própria

comentários