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Ensaio

O diário de Flora

Anotações da esposa do diplomata Oliveira Lima, cujo sesquicentenário se comemora este mês, registram sua rotina como secretária do marido e sintetizam ambições tolhidas das mulheres

TEXTO Teresa Malatian

01 de Dezembro de 2017

O casal Flora e Oliveira Lima, na maturidade

O casal Flora e Oliveira Lima, na maturidade

Foto Arquivo Público Estadual João Emerenciano/PE

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 204| dezembro 2017]

Entre os papéis
abrigados pela Oliveira Lima Library, em Washington, desperta particular interesse o Boudoir diary escrito em 1915 por Flora de Oliveira Lima, esposa do diplomata e historiador Manoel de Oliveira Lima. Durante grande parte de sua vida, Flora atuou como secretária de seu marido, partilhou posicionamentos políticos por ele assumidos, participou de rodas de intelectuais, diplomatas e políticos no Brasil e na Europa, no contexto da belle époque. Percebe-se no seu diário a presença de uma narradora com interesses próprios, que construiu uma interpretação no feminino de muitas dessas vivências. Trata-se não apenas de uma narrativa de sua vida, mas também dos acontecimentos da vida do casal, em que a preocupação com a imagem pública se impõe ao desvendar da vida íntima, com a certeza de que esse registro seria lido um dia.

Os diários femininos constituem registros sujeitos à destruição, sendo, no entanto, de grande interesse para a História pela riqueza de seus conteúdos. Na França, por exemplo, no século XIX e início do XX, esses registros íntimos faziam parte da cultura das moças solteiras como uma forma de controle de si, segundo recomendações de professores e educadores. Os diários escritos naquela época constituem não apenas produtos da moral vigente, mas também indicadores de movimentos de contestação e emancipação das mulheres mediante práticas de elaboração do eu. Tal característica de sua produção justifica a ausência de temas como sexualidade, mudanças corporais, emoções fortes, de modo que os registros atenderam a uma função social específica: a disciplinarização das moças para torná-las boas esposas e mães cristãs.

O Boudoir diary evidencia códigos vitorianos burgueses de relações entre público e privado, coletivo e individual, ostensivo e íntimo, masculino e feminino, combinados num jogo de ocultamento/revelação, normativos da construção e apresentação de uma imagem pessoal, extremamente adequados ao conceito de privacy. Compreende-se assim a adequação sugestiva do tipo de suporte escolhido para o registro, uma caderneta impressa cujo título remete ao espaço do toucador, a saleta reservada de um mundo essencialmente feminino, destinado ao arranjo pessoal da mulher, no qual o espelho tem papel fundamental. Espelho em que a autora se olha, se vê e lhe devolve uma imagem a ser partilhada com o leitor.

Iniciado em Londres (1º/1/1915) e encerrado em Worcester, Massachussets (20/12/1915), inteiramente escrito em inglês (), revela ambientação da personagem no cenário londrino, no qual o casal se estabeleceu em 1914, após a aposentadoria de Oliveira Lima do serviço diplomático.

O que teria motivado a escrita desse diário? Tudo indica ter sido o desenrolar da Primeira Guerra Mundial, pois a constatação da transitoriedade e fragilidade do instante, além da possibilidade de morte trágica, são evidentes. A vida em Londres ressentia-se dos posicionamentos políticos pró-Alemanha assumidos por Oliveira Lima durante a guerra e, não por acaso, o texto inicia-se com a referência à perda do transatlântico H.M.S. Formidable pela Inglaterra, evento que motivou a pergunta inicial de Flora: “How long will it last?”. Por trás dessa pergunta, subsiste oculta a indagação: O que você leitor quer que eu conte da minha vida, que sinto concretamente ameaçada?

Os biógrafos de Flora ressaltam sua origem de sinhazinha do município de Vitória de Santo Antão. Nasceu no Engenho Castanha Grande, município de São Luís do Quitunde, em Alagoas, a 26 de agosto de 1863, e ainda menina mudou-se com a família para Pernambuco. Passou a infância no Engenho Cachoeirinha, de propriedade de seu pai, o Coronel Minô, personalidade representativa do mundo açucareiro.


Engenho Cachoeirrinha, onde Flora de Oliveira Lima passou sua infância Foto: Arquivo Público Estadual João Emerenciano/PE

O casamento foi um momento de ruptura com o mundo dos engenhos e proporcionou a Flora Cavalcanti de Albuquerque a oportunidade de uma nova vida. Não existem, porém, registros memorialísticos acerca do seu encontro com Oliveira Lima, em 1890, no Recife, quando o jovem pernambucano radicado em Portugal ali esteve, recém-nomeado para o cargo de secretário da legação de Lisboa.

Flora foi privilegiada quanto ao nível de instrução, se considerarmos o padrão brasileiro da época, mesmo para as famílias abastadas. Nele, a instrução feminina era limitada a ler, escrever, o conhecimento das quatro operações, da doutrina cristã, de trabalhos de agulha. Diante da falta de escolas, muitas moças recebiam instrução em suas próprias casas, ministrada por irmãs mais velhas, padres e professoras particulares, em geral, europeias. Colégios femininos eram raros e o acesso ao ensino superior, inexistente para elas. Algumas faziam cursos nas Escolas Normais e se preparavam para o magistério primário, profissão tipicamente feminina. Flora teve uma trajetória adequada a esse modelo, porém, após o casamento, reelaborou valores e normas para se adequar ao papel de esposa. Na época da residência em Londres, estampava no diário seu desagrado com a administração doméstica. O mesmo ocorria com a escrita das cartas de housekeeping, sobre as quais assim se manifestava:

Isto é o que eu chamo minha literatura, a qual certamente não é nenhuma obra de ficção mas antes, de fato, exposição do enorme aborrecimento que é o cuidado com a casa em Londres.

Mas, para além desse mundo doméstico, seu desempenho na vida intelectual do marido foi relevante, apesar de pouco reconhecido. Logo uma dúvida se apresenta ao leitor: quando, exatamente, Flora começou a ser secretária do marido? O primeiro livro de Oliveira Lima, Pernambuco, seu desenvolvimento histórico (1895), foi ditado a ela pelo historiador. Desde então, essa parceria não fez mais que crescer e se consolidar numa empresa familiar de grande produção intelectual, instalada, na época da escrita do diário, no home londrino relativamente abastado. A adequação a esse papel, que não estava previsto pelos códigos de condutas das mulheres do seu meio social, constitui uma adaptação à peculiar vida de um escritor.

À medida que o conflito mundial atingia a vida do casal nesse tumultuado ano de 1915, as tensões em torno dos papéis iam fazendo-se mais nítidas. Ao descrever o cotidiano, Flora revelou a renúncia aos seus próprios interesses, devido ao trabalho absorvente de assistente do marido em registros como este:

Eu nunca menciono o que faço antes do almoço porque é sempre a mesma coisa: escrever para Emmie em seu ditado. Com frequência ele está nervoso sobre seu trabalho, descontente porque ele gostaria de ter alguém que pudesse estar livre para trabalhar para ele o tempo todo, durante o dia todo, e eu não posso provavelmente fazer isso tendo tantas outras coisas por fazer. Esta foi uma dessas manhãs, mas, por outro lado, eu penso que é uma bênção para ele que eu não possa dar a ele todo o meu tempo que ele gostaria de ter para seu ditado ou eu estou certa de que isso apenas seria mau para sua saúde.

Outra passagem revela sua ascendência sobre o marido, quando se tratava de organizar o trabalho intelectual:

De novo esta manhã Emmie estava muito nervoso, reclamando de que eu não tenho tempo suficiente para seu ditado. Eu fingi estar magoada por ele não ter apreciado meu esforço em fazer o melhor para ajudá-lo e ele ficou com pena. Por vezes, quando ele começa a trabalhar, ele se sente um pouco perdido, tantas coisas ele quer dizer, sua cabeça cheia de tudo que ele leu sobre diferentes assuntos, as deduções a tirar de tudo isso, e naturalmente ele tem alguma dificuldade em colocar suas ideias juntas, especialmente quando dita. É muito diferente e mais fácil quando ele escreve. Eu suponho que deve ser a sugestão da pena. Mas, depois que ele começa, o ditado corre muito fluentemente, quase como se ele estivesse falando. E então ele fica muito satisfeito, um homem bem diferente.

Flora sentia satisfação em revelar-se uma interlocutora à altura: estava inteirada de toda a correspondência, além de trabalhar na catalogação dos livros da sua biblioteca, oferecendo ao leitor de seu diário detalhes precisos sobre o modo como o tempo era ocupado pelo casal. Era trabalho conjunto, assim definido – we worked –, portanto, sua contribuição era valorizada nos registros e, mesmo que aparentemente subalterna, fazia-se indispensável ao escritor e tornava sua produção intelectual partilhada. Se num dado momento a sobrecarga de trabalho acabou levando o casal a cogitar de uma segunda secretária, Flora resistiu à perda desse papel privilegiado, reservando-se o direito de ser “naturalmente a primeira”, por seus conhecimentos de gramática, ortografia e, não menos importante, de inglês. Não constitui detalhe irrelevante, pois o fato de sempre usar o “nós” ao se referir ao trabalho intelectual realizado em conjunto sugere indagações: Até onde ia sua participação nele? Suas opiniões eram ouvidas?

Tudo leva a pensar que o Boudoir diary expressou grandes resistências ao papel feminino que afastava o destino das mulheres das tentações literárias. Mais do que expor um conflito, o documento é a vívida construção de um eu literário que encontrou esse caminho privado para expressar-se em uma escrita própria. Ele constitui o testemunho do modo como Flora vivenciou e interpretou o casamento, que não lhe deu filhos. Viveu na Europa numa época em que ocorriam avanços femininos na vida pública, as suffragettes faziam campanhas públicas de grande repercussão e a emancipação da mulher era pauta de discussões. Embora não se possa ver nela uma militante feminista, construiu no seu diário um eu questionador dos papéis tradicionais relacionados ao destino de gênero.

Em sua correspondência, Flora cultivava amizades femininas, de casal e familiares, prática comum entre mulheres do seu meio social, que mantinham intensa atividade epistolar. O tempo disponível para isso nunca lhe parecia suficiente, pois se queixava de não conseguir escrever suas próprias cartas, devido ao trabalho com “Emmie”. Experimentava grande satisfação em receber cartas e, portanto, a necessidade de construir uma individualidade, na qual o trato com as letras, considerado ofício masculino, tivesse um lugar significativo. O mesmo se pode dizer do seu interesse pela política, pois o diário traz também registros relevantes sobre a Primeira Guerra Mundial.


Flora ainda menina de engenho, e já adulta, em vários momentos, quando residia com o marido fora do país. Fotos: Arquivo Público Estadual João Emerenciano/PE

***

Durante o período de residência em Londres, o casal sofreu as consequências das posições germanófilas assumidas por Oliveira Lima na imprensa, sobretudo nos artigos Ecos da Guerra, publicados em O Estado de S. Paulo, os quais lhe causaram problemas políticos na Inglaterra, tendo sido afinal impedido de lá regressar em 1916, após a estadia nos Estados Unidos. Sob suspeita, com a casa vigiada, o casal enfrentou esse período conturbado com intensa produção intelectual, engajamento em redes de auxílio a refugiados políticos e apoio a movimentos pacifistas. Flora revela então em seus registros novamente a oscilação entre a admiração incondicional ao marido, numa clara postura de casal, e a tentativa de oferecer ao leitor com quem dialoga uma imagem de independência de opiniões. Seus comentários sobre a guerra avisam o leitor desse engajamento compatível com a participação política cada vez maior que as mulheres vinham tendo na Europa, e particularmente em Londres, onde o direito de voto era reivindicado:

Desde que estourou a guerra, quase tudo que ele [Oliveira Lima] faz está relacionado a isso. Ecos da Guerra é o título de uma longa série de artigos tratando de cada incidente que ocorre, especialmente no campo diplomático. As responsabilidades da guerra é uma outra grande luta na qual a Alemanha entrou arrastada pela ação combinada da diplomacia inglesa e francesa dos últimos 15 anos.


A Primeira Guerra Mundial e os bombardeios na Inglaterra são relatados e comentados nos diários de Flora. Foto: Reprodução


A casa era local de reunião de um grupo amplo, de origem diversificada, constituído por intelectuais e diplomatas, com quem mantinham laços de amizade desde o período de residência na Bélgica. O casal era procurado pelos que necessitavam de intermediação para a resolução de seus problemas, proteção e auxílio na busca de empregos para os estrangeiros impedidos de retornar ao seu país, para o que muito contribuía a intermediação junto à Legação do Brasil. A roda de amigos oferecia também suporte psicológico mútuo, amparando os deprimidos e privados de contatos com seu país e com seus familiares. Nesse particular, o diário é bastante minucioso na apresentação dos relacionamentos, das conversas mantidas e das opiniões políticas externadas.

O relato baseou-se, sobretudo, nos contatos estabelecidos com o grupo de diplomatas e intelectuais, além de diferentes experiências pessoais. Seu interlocutor constante e maior nesse aspecto era o marido e os artigos que ele escrevia para a imprensa brasileira, em que eram abordados diferentes aspectos do conflito. Como afirmou Flora,

Eles são particularmente interessantes para mim, porque através deles eu tenho uma boa ideia sobre o que está acontecendo sem o incômodo de ler os jornais. É um meio fácil de estar informada sobre este grande evento da história da humanidade, a guerra que parece visar à destruição do trabalho que representa 20 séculos de civilização cristã.

No entanto, em seguida a esse registro, Flora se retratou desse comentário ao afirmar sua independência de opiniões: “Eu estava lendo esta tarde, após a saída de M. para o Record Office, um número do jornal socialista Labour Leader e também notas triviais sobre a guerra por Bernard Shaw. Aquelas são minhas ideias”.

Vários temas tecem a teia dos registros sobre a guerra: as notícias sobre os atos bélicos, como o afundamento de navios, o bombardeio de Londres, as atrocidades alemãs, as dificuldades de abastecimento, as suspeitas de adesão ao inimigo da Inglaterra. O tempo todo, Flora manteve-se germanófila e realizou uma leitura das notícias e de suas vivências a partir desse prisma. A guerra invadiu sua vida, ocupou sua correspondência, mobilizou as conversas com as visitas, permeou as relações de amizade. Particularmente vivas, são as descrições dos bombardeios de Londres, nas quais a observação à distância dos estragos causados pelas bombas mistura temor e fascínio, compaixão e sentimento de vingança:

Londres vive agora no terror das bombas dos zepelins que são aguardados para apresentar seus cumprimentos aos habitantes da Grande Metrópole a qualquer momento. O povo inglês, graças à sua posição geográfica e à sua poderosa marinha, nunca pensou que seus lares poderiam correr perigos de nenhum tipo, não importando quão terrível, quão cruel e sangrenta a guerra os empurrasse contra outras nações. Mesmo quando eles começaram esta contra a Alemanha nem por um momento pensaram que poderiam ser atacados na Inglaterra e em Londres. Pode-se ver uma grande mudança em seu modo de considerar as coisas desde o primeiro ataque sobre Dove e outros pontos. Eles perderam muito de sua arrogância, a qual deu lugar ao medo.

Em 16 de abril de 1915, Flora registrou um ataque alemão sobre diversas cidades da costa leste da Inglaterra como sensational news. Por terem sido lançadas muitas bombas sem causarem danos, considerava que os alemães poderiam testar a qual distância poderiam voar e “deixar seus cartões de visita” para avisar que um dia iriam de fato bombardear Londres sem serem perturbados em “sua obra de destruição”.

No entanto, à medida que se intensificaram os bombardeios, cada vez mais próximos de Londres, Flora passou a temer pela sua sobrevivência e registrou o primeiro estrago causado pelos zepelins a essa cidade. Comentou a censura que impedia a divulgação desses eventos e ressaltou que ninguém em Londres pensava ser possível essa nova face da guerra, pois, até então, o conflito restringia-se ao mar e às trincheiras no continente.

O bombardeio trouxe a guerra para perto de sua vida e das pessoas mais próximas, os noticiários de jornais foram colocados sob suspeita e as notícias propagadas sobre vitórias dos exércitos ingleses e de seus aliados passaram a ser desacreditadas. Nesse clima, ocorreu o único relato de observação direta de Flora de bombardeio, dos zepelins com bombas e shells no Nortwest e em London Bridge, atingindo Holborn, Liverpool Street e Marble Arch. Em sua casa, todos se refugiaram no porão e, depois, Oliveira Lima e o mordomo correram à rua para ver o ataque, podendo assim testemunhar a queda de algumas bombas nas proximidades da casa. No dia seguinte, Flora verificou os estragos, registrando o número de 20 mortos.

Os registros sobre os ataques dos submarinos alemães contra barcos de passageiros ou mercantes chegaram ao ápice com o espetacular afundamento do transatlântico Lusitânia.

Preocupada com a viagem que o casal faria aos Estados Unidos, bem como com a vinda de sua irmã Neomísia para encarregar-se da casa, Flora teceu comentários angustiados sobre a tragédia, procurando os culpados. Procurou isentar os atacantes e atribuiu ao almirantado inglês a leviandade de não ter levado a sério as advertências feitas com antecedência de 10 dias pelo inimigo:

Por fazer pouco da capacidade dos submarinos alemães e escarnecer de seu poder de fazer qualquer estrago àqueles grandes navios, tão perfeitamente protegidos pela esquadra britânica. É claro que aqueles passageiros americanos tinham maior confiança na proteção britânica do que em qualquer coisa na terra, e somente riram para os avisos dados pela Embaixada Alemã em Washington e pelos amigos alemães na Europa, então, pagaram com suas vidas a sua fé na Inglaterra.

***

O ponto crucial do posicionamento de Flora está nas notícias sobre as atrocidades alemãs, largamente utilizadas pela propaganda dos aliados. Impedida de verificar pessoalmente, descrente da imprensa, ela se informava junto a amigos e conhecidos para tirar a limpo essas histórias. Seu esquema de referência oscilou entre acreditar nas notícias sobre relacionamentos amistosos entre os soldados ingleses e alemães nas trincheiras, com a trégua para o Natal de 1914, e a dúvida sobre a capacidade dos alemães de cometerem atos desumanos. Entre as notícias sobre os soldados que confraternizavam com apertos de mãos e fumavam cigarros juntos, e as notícias de violações e sevícias a seres humanos e animais, Flora se angustiava sem saber onde obter informações seguras. Nem mesmo Oliveira Lima podia socorrê-la, pois as fontes de informações eram as mesmas: amigos intelectuais e diplomatas, refugiados, feridos hospitalizados.

Nessas batalhas da memória, que colocaram em choque versões concorrentes que atendiam aos interesses dos diferentes grupos envolvidos na guerra, Flora fez uma escolha. Recusou-se a dar aos boatos mais crédito que o de histoires de paysans destinadas a provar a crueldade dos alemães. Recusava-se a crer nessas notícias, considerando-as “absolutamente incríveis”, meras invenções. Em abril, chocada pelo modo como os ingleses encaravam a guerra, como se ela não existisse, procurava na leitura de jornais franceses e alemães a comparação com os jornais ingleses para fundamentar uma atitude mais crítica diante do noticiário. Pôde constatar, com surpresa, que as vitórias inglesas eram as mesmas celebradas pelos alemães.

Em sua tentativa de construção de um relato adequado ao grupo de que participava, Flora procurou outros testemunhos autorizados sobre a guerra com pessoas com quem convivia no cotidiano, como caixeiros, fornecedores, prestadores de serviços. Com os visitantes reunidos na casa de Wetherby Gardens, a guerra era assunto indefectível nas reuniões e separava os amigos em campos opostos, segundo seus posicionamentos em relação às potências beligerantes.

Nesses diálogos, Flora tentava compreender os motivos da guerra, e alinhava explicações plausíveis: a guerra poderia ter sido evitada, não havia motivo para ela, tratava-se de uma guerra comercial, produto das diplomacias secretas. Nessas conjecturas, afirmou que a guerra fora motivada basicamente pela oposição entre república e monarquia: “De fato, o radicalismo juntou as mãos por toda a Europa para esmagar desta forma o governo que tinha feito da Alemanha o único país onde um progresso sem paralelo havia saído de uma sólida organização”. Esqueceu-se de que na liderança dos lados opostos havia duas monarquias, a britânica e a alemã.

A escolha do lado alemão causa surpresa, pois o casal havia preferido fixar residência na Inglaterra, onde a estabilidade política se assentava em sólido parlamentarismo e a família real simbolizava a unidade nacional. Seu posicionamento indica sugestivamente o fascínio que a Alemanha exercia sobre muitos intelectuais na época, inclusive no Brasil, e não pode ser separado do grande progresso material e científico que aquele país alcançou na virada do século. Tais escolhas levaram Flora a polarizar a guerra como evento travado apenas entre as duas potências, deixando de lado as alianças, entendendo a guerra como luta desigual entre a Alemanha e os Aliados. Nem mesmo suas amizades com os belgas exilados, e o fato de ter residido na Bélgica de 1908 a 1912, conseguiram abalar suas convicções germanófilas após a invasão desse país em 1914. Sua leitura estava imersa na rivalidade anglo-alemã e, pautada pela estrutura dos faits divers, constituía uma apreensão da realidade na qual a civilização e o progresso da Alemanha deveriam ser preservados.

Aplaudiu vitórias alemãs, como a tomada de Varsóvia: “Varsóvia deve cair em mãos dos alemães ou titãs como eles podem bem ser chamados”. Essa conquista foi por ela comemorada com a degustação de um vinho especial com amigos, celebrando o avanço da “nação (que) estava inteiramente caída, esmagada pelo poderoso inimigo e clamando por paz”. Quando os jornais noticiaram a queda de Varsóvia, registrou: “Assim os alemães celebraram o primeiro ano da grande guerra”. Ao mesmo tempo em que escolheu o lado alemão, opção perigosa para quem vivia num país do grupo dos Aliados, engajou-se nos esforços pacifistas e lamentou a perda de milhares de vidas devido à estupidez humana, que considerava sem limites:

De outro modo, como se pode explicar uma guerra como esta na qual 99% dos que estão combatendo tão desesperadamente não têm a menor ideia, eu estou certa de suas razões, boas ou más, que os levaram a esta condição de meros animais selvagens cheios de sede de sangue, quando eles não são compelidos por nenhum tipo de ódio e, em sua maioria, levam vidas comuns como criaturas afetuosas, pacíficas.

Apesar disso, participou de reunião da International Women’s Congress, que trabalhava pela paz, e engajou-se na Permanent Peace Association, para a qual forneceu listas de brasileiras que poderiam ser convidadas para organizar um ramo brasileiro da associação no Rio de Janeiro, tendo escrito a elas e enviado uma cópia do jornal Towards Permanent Peace. Acompanhou o andamento e registrou diversos comícios pacifistas em Hyde Park, evocando valores cristãos e humanitários para fundamentá-los. Com tais informações e familiarizada com a atividade de Oliveira Lima na imprensa, permitia-se emitir opiniões sobre os Ecos da Guerra, que considerava bons demais para serem publicados nos jornais brasileiros, e o aconselhava a tentar sua publicação em jornais da América do Sul, especialmente Buenos Aires, quando O Estado de S. Paulo, pressionado por correntes pró-aliados, reduziu à metade a colaboração.


No período em que o casal viveu em Londres, as sufragistas faziam campanha pela emancipação da mulher. Foto: Reprodução

Flora informava aos leitores ter sido chamada a ouvir a leitura, pelo marido, de alguns artigos sobre as responsabilidades da guerra, perante o amigo Bandeira de Melo. À medida que se aproximava a data de sua viagem aos Estados Unidos, mais ansiava pela paz, a qual pensava não ser desejada pelos aliados, interessados apenas em levar adiante sua obra de destruição. Sem dúvida, pesavam nesses posicionamentos as dificuldades que encontrava em Londres, onde o fato de que seu mordomo e sua cozinheira serem alemães motivou visitas da Scotland Yard.

***

Em Boston, onde o casal se estabeleceu durante o período em que Oliveira Lima ministrou curso em Harvard (1915–1916), continuam as mesmas estruturas de registro, com a diferença provocada pela distância do palco da guerra. A escolha do tema da guerra como diretor da narrativa é de extrema importância para o sentido que a autora deu à sua biografia, bem como para a preservação desse documento.

A carga emocional desse evento não está apenas colocada nos riscos e privações ocorridos durante o conflito, mas em seus desdobramentos posteriores, como o impedimento de retornar à Inglaterra e a necessidade de redirecionar a vida, que culminou com o estabelecimento do casal em Washington, onde terminaram seus dias, ele em 1928, ela em 1940. Nesse sentido, o diário contém o desejo de justificar-se não apenas perante os seus contemporâneos, mas para a posteridade, possibilidade da qual Flora possuía aguda percepção. Na sua condição de mulher, acabou escrevendo sobre o chamado “lado menor” da história, uma guerra vista da retaguarda, por meio de leituras, relatos de terceiros e reduzido testemunho direto das batalhas. Seria possível outra posição?

Flora ultrapassou o destino de gênero ao assumir um lugar distinto daquele de dona de casa tradicional. Teve um papel importante na carreira do marido, partilhando com ele espaços públicos e privados. Nela, a “virtude doméstica”, valorizada tanto pelo meio onde nasceu, quanto na Inglaterra vitoriana, do período a que se refere o diário, encontrou escassa ressonância. Flora não se restringiu ao círculo social doméstico, do trato dos criados e da recepção aos amigos do marido, mas exerceu sobre este grande influência, embora não tivesse produzido obra sua visível, além dos papéis íntimos, dos quais o Boudoir diary é o mais significativo.

Mesmo exibindo com orgulho sua casa bem-situada, mobiliada, organizada e frequentada, sua vida integrou a senhora do lar da família patriarcal do Nordeste com a colaboradora do marido. Numa produção intelectual que pode ser caracterizada como empresa doméstica, mantinha posição bastante independente, ultrapassando o papel de mulher passiva, dócil, assumindo novos papéis para os quais não fora destinada. Seu grau de independência é notável, e o eu construído no diário indica a busca constante de opiniões próprias, que encontraram nas práticas epistolares canais de expressão para um desejo de escrita não autorizada pelas relações de gênero, numa vida marcada pelas âncoras da memória da diplomacia e do engenho. 

TERESA MALATIAN é historiadora, docente do programa de Pós-Graduação em História da Unesp/Franca, autora de Oliveira Lima – Historiador diplomata.

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EXTRA:
(Re)leia texto sobre a Biblioteca Oliveira Lima, publicado na Continente 148, em abril de 2013

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