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Inédito

“Seu pai”

Autor pernambucano traça uma crônica afetiva sobre a intensa correspondência – nunca publicada – do escritor Osman Lins com suas três filhas, Litânia, Letícia e Ângela

TEXTO José Luiz Passos

01 de Agosto de 2017

O escritor Osman Lins, suas filhas e as cartas entre eles

O escritor Osman Lins, suas filhas e as cartas entre eles

ARTE FOTOS DE ACERVO PESSOAL/REPRODUÇÃO

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 200 | agosto 2017]

Quando a filha de Osman tinha sete anos, na segunda série, num teste em sala de aula, ela desenhou um balão com palavras ligadas por setas e escreveu, as casas das formigas ficam em geral perto das árvores, para que elas possam usar a sua casca para construir uma casa forte, com quartos fortes, que não vão ser destruídos por nenhum dos inimigos das valentes formigas, que constroem tudo isso escondidas, com coisas seguras que encontram nos diferentes lugares por onde viajam, quando não estão ocupadas e têm mais tempo para descansar do trabalho, assim como as férias, que nós, os humanos, gostamos de ter depois de um longo ano na escola, onde aprendemos todo dia coisas novas para mostrar ao nosso pai, quando ele vem e nos visita. E essas eram as visitas de Osman. Agora, maior, a menina que adivinhava a intenção das formigas corrige o pai em cartas trocadas entre o Recife e São Paulo. Osman sorri. A primeira imagem que lhe vem à cabeça, revendo as cartas num maio abafado, neste momento difícil pelo qual está passando, é, sem dúvida, o nascimento da filha, ela saltando com surpresa de dentro da mulher que ele viu amadurecer, saltando num gesto súbito, violenta e de olhos fechados, suja de sangue, presa ao umbigo. Nada se compara a isso, à criança abrindo os olhos enquanto ele lhe penteava as mechas coladas à carequinha, como a careca dele, que aumenta mais e mais neste meio ano de quimioterapia. Osman tentou pôr esse nascimento, qualquer nascimento, dentro de um romance. Mas, por escrito, é mais fácil matar alguém do que mostrar o seu parto. E nesses últimos meses ele passa mais tempo imaginando as suas despedidas. O nascimento é o contrário disso. É um oi supremo. Pois, que início e fim se atem com paixão, ele pensa. Nem tudo cabe num romance, embora o essencial da vida só se possa alcançar à sombra da fantasia. Por isso, Osman volta à cena do nascimento e, mais recentemente, às tiradas risonhas da filha mocinha, tiradas contra ele próprio, o seu pai estrangeirado. É assim que ele afinal lança mão, nepótica e egocentricamente, das próprias criaturas, de suas azias, da graça desconcertada nas personagens das quais se orgulha, que são como filhas, porque só mesmo o humor de um rebento seu poderá, talvez, dissolver-lhe o mal de hoje, e hoje, ele escreve, é o último dia de maio. Sabe? Tenho uma certa fixação no espírito, em reação ao mês de maio. Todos os anos, fico pensando na possibilidade de descobrir alguma igreja suburbana, onde seja rezado o terço, com a ladainha cantada e meninas oferecendo flores à Virgem, como antigamente. Osman levanta os olhos, vê o Cristo em cruz de dois palmos, numa peanha em cima da mesinha do quarto, ao lado do pássaro de vidro azul. Mas sempre acontece que estou ocupado, ele escreve, e os dias se passam, passam-se as noites, vai-se o mês, e vou sempre adiando a procura para o ano seguinte. Talvez seja melhor nem procurar. Vai ver que essas cerimônias se acabaram, só existem na minha memória, ele pausa, pensa, e lhe faz a pergunta. Há por aí, ainda, minha filha, alguma coisa de parecido com isto? Faz a pergunta e, então, tira os olhos do papel na máquina. Do lado de fora, pela janela, Osman acompanha uma revoada de pardais. A luz da manhã desce leitosa de um céu paulista nublado, e ele recomeça. Uma vez, na Itália, em Assis, a cidade de São Francisco, eu estava na Basílica, ao anoitecer. Era em maio. Nessa época do ano, em certa parte da Europa, os dias acabam tarde. Não sei que horas eram. Ainda estava claro. Não, porém, dentro da Basílica. De repente, escutei vozes que cantavam. Era a ladainha dos monges e dos seminaristas. Traziam velas e sobrepelizes vermelhas, ou é minha memória que inventa esses detalhes? Não sei. Mas é assim que os vejo. Fiquei lá sentado num canto, eu, estrangeiro, vindo de tão longe, escutando aquelas vozes, cantando a mesma música que eu tantas vezes já tinha escutado quando criança, na minha cidadezinha do interior. Depois, saí, fui embora. Foi a última vez, creio eu, anos atrás, que reencontrei, numa noite de maio, alguma coisa dessas antigas noites tão lembradas. E agora novamente ele para, a filha entenderia isso? Talvez, da idade que tem, já sinta que o que ficou para trás às vezes volta sem aviso. Um pássaro e as suas mangas, um peixe e os seus recifes. A memória e os seus gatilhos. Ao lado da máquina de escrever há uma xícara de café. O gato chamado Concriz está ao pé da poltrona. Quando a gente se explica, quando procura esclarecer as coisas, ele escreve, tudo fica mais fácil e natural. E sabe? Suas palavras de certo modo me tocaram. Sou muito sensível às nossas relações com o tempo. A aventura humana me impressiona muito, e as nossas reações ante a vida, mais ainda. No ano passado, quando cheguei a Paris, tive uma profunda tristeza, das maiores que senti. Na mesma noite em que cheguei, procurei ver os espetáculos, queria tomar contato, logo nessa primeira noite, com a cidade. Mas quase todos os espetáculos começavam às oito. Então, só havia cinema. Saí à procura do cinema, os meus pés doíam com o sapato de sola grossa, por causa do frio, não achei logo o cinema e de repente percebi que não estava sentindo encanto algum em sair em busca de uma sala em Paris, estava sem alegria na alma, descobri isto e uma melancolia me invadiu, pensei que havia mudado muito desde que estive ali pela última vez, dois anos atrás, pensei que devia ter envelhecido, nesses dois anos, mais do que supunha, e que talvez certa luz que conservava em mim e que de certo modo me ilumina, uma luz que é certa expressão de viço, agora estava extinta. A minha juventude tinha passado e eu, enfim, começava a envelhecer.



Mas agora estou lendo o meu próximo romance. Por sinal, é a primeira vez que faço uma leitura corrida do livro, do princípio ao fim. Não imaginava que houvesse escrito um livro tão angustiado e tão triste. Apesar dos meus momentos de alegria, e de que eu amo profundamente a alegria, acho que não sou mesmo alegre. Meu apelido, nos tempos de colégio, era Tristeza. E, no eco deste apelido, ele para. Havia, também, um sentimento novo em Osman. Quando se começa a circular por aquele despojado quarto lotado de personagens, partícipes de vidas diferentes e incomunicantes, provisoriamente bloqueados ao redor do autor que, com segurança, está esboçando novas paisagens, enfim, uma vez que se chega à extremidade direita deste quarto, é possível ver Osman sentado em sua cadeira giratória, absorto na carta que escreve. Ele é o único, entre seus contemporâneos, a ostentar a própria ausência. Ao lado da máquina de escrever, Osman pôs a reprodução da pintura do rosto de uma mulher, que lembra o que ele descreveu como a face nunca vista de sua própria mãe. Com grande insistência ele transforma a mãe em anjo oculto, em espectro. Quando a imagem finalmente aflora da máquina, seus traços se impõem a várias personagens. Como seria se a sua filha sentisse essa mesma ausência, a falta dele, já então refeito em musa e esfinge? Osman espanta a ideia, sacudindo a cabeça, e volta a escrever, este é só um bilhete para lhe dizer que, voltando à casa, tive muitas saudades da sua presença, minha filha. Lembrei-me de você lendo na cadeira e rindo, e lembrei-me dos seus cuidados, recomendando que não deixasse a porta aberta. Isto aqui, evidentemente, é sempre muito vazio, mas esta semana pareceu mais deserto ainda. Sinto muito a sua falta. E sabe? Não imagina como essas passagens da sua juventude, por cá, me fazem bem. É como um sol, um verão, uma festa. Quando tinha mais ou menos a sua idade, morava em frente a uma casa de um vendeiro chamado Montinho. Ele tinha três filhas solteironas. Não me lembro mais como se chamavam, embora recorde muito bem seus rostos e até suas vozes. Tinham um irmão meio doido, cego de um olho, com a cabeça pelada, mas bonzinho. Pois bem, na véspera de São João essas solteironas soltavam, de suas janelas, centenas de fogos. Não havia quem soltasse mais do que elas. O irmão, nessa noite, metia-se no quarto para ficar longe dos fogos, tinha medo que algum estourasse e fizesse mal ao olho bom. Essa história não tem sentido nenhum. Mas acaba de saltar da minha memória, pelo simples fato de ser véspera de São João. Mas não é engraçada? Diante da máquina, Osman ri sozinho, e continua. O nome do Recife está hoje em todos os jornais daqui, por causa da bomba que explodiu no aeroporto e que era destinada ao general Costa e Silva. Triste. Por compensação, sonhei esta noite com você. Estava de saia, não me lembro da cor, blusa de quadrinhos azuis e brancos, por onde lhe aparecia a barriga, e um chapeuzinho cor-de-rosa, sem aba, com um laço atrás. Eu passava você por cima de um portão de madeira. Você ria, e eu também. Osman pausa. Descansa as mãos no colo. Olha Concriz ressonando, ouve o rumor do trânsito lá fora, buzinadas, motores acelerando entre os intervalos do sinal vermelho. Antigamente, já que hoje estou no antigamente, diz Osman, quando se queria dizer que uma jovem estava muito bonita, ou que um sujeito tinha feito um discurso muito bom, quando enfim se queria exprimir admiração por alguém, dizia-se, Fulano deu de macaca, Fulana está dando de macaca. Pois quando olho para sua fotografia, digo cá comigo, esta mocinha está dando de macaca. E para Osman, essa revelação lhe traz a fartura de uma nova tristeza. A casa está calada. Esta cidade, o rosto da mãe, os pássaros, a distância da filha em outra cidade que ele deixou para trás, tudo colabora com o enjoo do café. De cabeça, ele lista palavras, lembra as que usou, um fausto declinante. Ensambladas, gavelas, estuque, obsedar, avelório, carunchos, iólipo, lucarnas, imota, salmodia, lianas, adejantes, ambarinas, aflar, nédio, racimo e ameias. Hoje a vida corre no sentido dos novos objetos. E a propósito, Osman escreve, meus parabéns pelo carro novo. Estou admirado. Você, que leva meses para comprar um par de sapatos, comprou um carro tão depressa. Parabéns pelas duas coisas, pelo carro e pela decisão. Está bom mesmo? E você? Está contente agora, que possui o famoso Volkswagen dos seus sonhos? Mas tenha cuidado. É um carro mais possante e mais rápido, e aí no Recife há muitos acidentes. Quanto ao piano, minha filha, já lhe disse há muito tempo que deveria vendê-lo. Não sei se você tem algum apego sentimental a ele. Seja como for, é desnecessário conservá-lo, já que abandonou a música. Ainda lembro a primeira vez que você tocou em público, vestida de organdi, seu pai com um terrível desarranjo intestinal. A sua calma surpreende. É verdade, a calma dela o impressionava, Osman joga os olhos para o lado da estante, a parede coberta de livros, pilhas crescendo do assoalho até a altura da segunda prateleira, em nenhuma ordem aparente senão a da memória. No seu livro mais recente Osman se pergunta, poderei, entretanto, descrever as cidades que flutuam no seu corpo como refletidas em mil pequenos olhos transparentes? As cidades que flutuam, Amsterdã, Veneza, o Recife, se confundem com o corpo das mulheres que amou e referiu, inventadas. Solerte, ebriez, proxeneta, auguraz, tisnado, lesto, aflar, nastros, báculo e efebos. E da mesma forma que os pavões ostentam as cores da cauda, logo ocultando-a, as cidades que elas abrigam, todas radiosas nesta noite em que, extasiado, esqueço o peso do mundo, tornam-se visíveis, sem que elas interrompam a frase iniciada e sem que gesto algum me autorize a concluir que a revelação é voluntária. Osman sacode a cabeça, como se espantasse insetos. Estou muito contente de fazer essa próxima viagem com você. Por vários motivos. Um deles é a alegria de lhe proporcionar esse presente, principalmente levando em conta que você não vem tendo férias há muito e quase não sai do Recife. Outro é que passaremos alguns dias juntos, o que há tanto não sucede, a não ser por estas cartas e pelas reportagens que lhe mando. Viu a revista desta semana? Meu livro, que entrou em décimo lugar, na semana seguinte subiu para o sétimo e agora já aparece em quarto. Disseram que a contagem de pontos foi igual à do terceiro lugar, mas que, não sei por que motivo, colocaram o meu em quarto. Não faço questão. O quarto lugar naquela lista é muito mais do que eu jamais esperaria para um livro elaborado como o meu.



Depois de uma longa pausa e um gole de café morno, Osman olha o envelope em cima da mesa, a postos com selos e o endereço da destinatária. Ele escreve, tenho observado que o Correio, nos últimos tempos, está pior. Com a numeração por zonas, o que deveria apressar enormemente a entrega, esta passou a ser feita mais devagar. Não sei por que, tudo no Brasil é assim. Vou lhe mandar, também, justamente com esta carta ou logo depois, um cheque correspondendo à renovação de assinatura da revista, e me alegra saber que está interessada. Deve-se ter uma ideia, pelo menos aproximada, já que a censura hoje é grande, do que vai pelo mundo e pelo país. Tépido, desquieto, esbate, engastes, senectude, ataviado, radioso, zurzir, ubres, esmaecer, tosão, azo, períneo, esconso. Como lhe dizer isso? Para a nossa viagem, leve uma bagagem tão leve quanto possível. Sapato não leve mais de um par, fechado, mais ou menos cômodo. Meias compridas, que não precisam ser de lã. Camisetas, se possível de mangas compridas, mas no máximo três camisetas. Uma saia mais ou menos grossa e um par de calças compridas. Por mim, dispensaria tailleur ou coisa parecida. Levarei, comigo, no avião, uma blusa de malha, de mangas compridas, para você vestir na viagem daqui para Lisboa. Levarei também um mantô e talvez um chapéu de pele. Veja se consegue aí, com alguém, tomar emprestado um par de luvas. Luvas boas, quentes, são muito caras e seria bom se não precisássemos comprá-las. Pijama e chinelos. Objetos de toalete. Lenço para a cabeça. A quem presenteei uma dessas sombrinhas que encolhem? Seria bom levá-la. Vá pronta para lavar suas roupinhas à noite, antes de dormir. De manhã, com o aquecimento nos quartos de Paris, estão secas. Mas agora, lhe confesso, que absurdo. Quase me alegro com a sua doença, por causa das cartas, que ficaram mais longas, mais despreocupadas. Como eu dizia, tudo, ou quase tudo, tem seus pontos positivos. Também não estou me sentindo bem. Sem forças. Afinal, é novembro. Felizmente está chegando o fim do ano letivo. Desde que comecei a ensinar, foi este o ano que me deu mais trabalho. Por cima de tudo, ainda me meti a dirigir a tal peça, com os meus alunos. Mas confesso que me deu prazer. De tudo que fiz até hoje na área do ensino, foi esse trabalho que mais me alegrou. Osman nota o fato com um certo humor, na tolerância de outras inconveniências. Mas também se pergunta, o que me destrói fisicamente, além do tempo? Escrever, para mim, virá talvez a adquirir, algum dia, um sentido mais preciso e elevado. No momento, representa um modo de não sucumbir, de não ir levando ao azar o curso da minha vida. Resta a memória. O Recife, muros cor de chumbo da Casa de Detenção, São Pedro dos Clérigos com sua esbelta fachada e as pedras do calçamento cheirando a frutas podres, barcaças de pequena cabotagem, seus mastros oscilando no Cais da Alfândega, a lua refletindo-se no rio, do Recife, fração do mundo, muitos dos seus habitantes não mais distanciados, não mais estranhos, estão integrados no meu ser através deste amor e de minha filha. Venusta, livor, fuste, plastrons, jarretes, riba, abonaxis, ruflo, sedenho, ceroso e coruscante. Mesmo assim, ainda me sinto mal. E Osman conclui, apenas uma última coisa, minha filha, em resposta ao que você me contou. Para fazer com que alguém nos escute, é indispensável que esse alguém tenha uma certa predisposição para nos escutar. Que, de certo modo, já aguardasse as nossas palavras. Qualquer pessoa que pretenda dirigir-se aos demais tem de estar preparada para isto, para essa surdez. A humanidade não pede para ser exaltada, mas para ser adormecida. O que nos sustenta, se queremos falar, se queremos escrever, é reconhecer que o verdadeiramente importante não é tanto ser ouvido, mas dizer. Se alguém chega a fechar os ouvidos para não escutar o que dizemos e assim não ser perturbado, abalado, alertado, já conseguimos bastante por, apenas, dizermos isto, a pura e simples verdade daquilo que nos toca. Beijos, seu pai. 

JOSÉ LUIIZ PASSOS escritor pernambucano, autor de Nosso grão mais fino (2009), O sonâmbulo amador (2012) e O marechal de costas (2016).

EXTRA | Assista abaixo o vídeo Quarteto, sobre essa troca de cartas:


EXTRA |
Confira AQUI o especial da Continente #31 sobre o escritor Osman Lins.

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