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Laerte: um olhar sobre si mesma

Artista lança 'Modelo vivo', livro em que empreende um olhar sobre a própria trajetória a partir de acervo publicado

TEXTO Carol Almeida

01 de Março de 2017

Modelo vivo: desenhos resultam do curso livre ministrado por Larte e o filho, Rafael, em 2013

Modelo vivo: desenhos resultam do curso livre ministrado por Larte e o filho, Rafael, em 2013

Imagem divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 195 | março 2017]

Em 2011, Laerte me contou que uma das autoras de quadrinhos que mais a instigava naquele momento chamava-se Alison Bechdel. Hoje, Bechel, que é mais conhecida por dar nome a um teste que identifica o quão machista um filme pode ser, era já naquele momento a mais bem-sucedida quadrinista norte-americana. Sua obra se projeta sempre a partir de um lugar autobiográfico, marcadamente construído a partir de experiências muito pessoais, algumas divertidas, mas outras bastante doloridas, do que é ser uma mulher lésbica e do que foi ser filha de um homem gay. Na ocasião, perguntei então a Laerte se ela teria disposição (a palavra, na verdade, foi “coragem”) de fazer o mesmo, descascar-se em sua própria história, tornar públicas questões íntimas que a moviam de alguma forma. E ela respondeu: “Não sei dizer. Mais do que coragem, não sei se teria capacidade de dar esse mergulho”.

Pouco mais de cinco anos depois dessa entrevista, cedida então para um portal de notícias, Laerte ainda não publicou nenhuma história em quadrinhos autobiográfica per se. No entanto, quando olhamos seu trabalho hoje e, particularmente, quando observamos a produção de anos atrás com mais atenção – uma atenção particularmente dirigida para o fato de que a artista passou a se identificar como uma mulher trans já com 57 anos –, é latente a percepção de que, de formas bastante sutis e sofisticadas, Laerte sempre vestiu seus personagens com sua própria pele, indagações e desejos mais profundos. Em várias dessas histórias, é óptica e háptica a presença de um rastro autobiográfico da autora, seja no que diz respeito a suas inclinações e percepções políticas, seja quanto a inquietações pessoais de identidade. O recém-lançado livro Laerte – Modelo vivo, publicado pela editora Barricada, é testemunho disso.

Com nove HQs – sendo apenas uma delas inédita –, essa edição organizada pela própria artista traz histórias que dão conta de palhaços mudos (um arco que chegou a ser adaptado para o teatro em 2008, pelo grupo La Mínima), a irrefreável pulsão autodestrutiva do ser humano, a sociedade que vigia e pune, o terror de ter seu corpo consumido pela máquina do sistema, o horizonte medieval do futuro, o amor pelos quadrinhos. Em todas elas, o questionamento sobre a normatização das coisas como elas são dadas. Mas, em três dessas histórias, é possível ver como, desde sempre, já havia um tema constante na obra de Laerte: o atrito entre o corpo e sua representação social.

Na mais antiga delas, publicada originalmente em 1988, um sujeito que começa a ver penas surgindo em sua pele. As penas que, em um primeiro momento, são indicativos de um privilégio, logo têm seu significado socialmente alterado, quando mudam de cor. Em outra história, de 1989, Laerte faz uma visita à mitologia grega, mais precisamente à parábola do Minotauro, para construir um roteiro estritamente visual de como o confronto entre Teseu e o monstro meio homem meio touro é, também, uma fábula sobre heróis que, ao se posicionarem como tais, podem se transformar em monstros que, abatidos por sua monstruosidade, se transformam em heróis.

Na única HQ inédita do livro, desenhada no começo dos anos 2000, apenas alguns anos antes de Laerte se identificar como uma mulher trans, o roteiro mais pessoal do livro: um homem e uma mulher, isolados e entediados numa ilha, gastam o tempo trocando de corpo. São apenas duas páginas de história, mas já há ali alguém exercitando a ideia de outra pele e outro gênero. Tal como nos quadrinhos sobre o Minotauro, Laerte brinca com a metamorfose dos corpos.

O QUE FICOU DE FORA
A seleção dos trabalhos neste livro se mostra muito reveladora também por aquilo que ela não traz. Uma das HQs mais conhecidas da artista, Lingerie, tem como protagonista um sujeito tipicamente bronco (e notadamente “macho”) que, por ausência de cueca limpa, termina saindo de casa com uma calcinha de sua esposa, certo de ninguém nunca saberia do fato. Mas Jorjão é atropelado no caminho para o trabalho e eis que todos os seus amigos descobrem que ele vestia essa calcinha. Há nessa HQ um tom que pende muito mais para a piada machista (tão frequente na turma de cartunistas pela qual Laerte ficou conhecido) do que para o humor crítico a essas convenções que, cada vez mais, a artista pratica.

Rever sua obra à luz do que, certamente, ela não mais publicaria hoje não deixa de ser uma revisão também de tantas e tantas outras HQs que toda essa geração do Chiclete com Banana teria que rever (a lembrar que esse livro trabalha essencialmente com roteiros publicados originalmente nas revistas que circularam no fim dos anos 1980 e começo dos 1990, como Circo, Chiclete com Banana, Geraldão, Piratas do Tietê e Cachalote). Longe de desmerecer a potencialidade explosiva e o respiro criativo de Laerte, Angeli, Glauco e, pouco depois, Adão, naquele período de fim de ditadura militar, mas é importante notar como o humor desses próprios artistas – com exceção de Glauco que, tragicamente, se foi muito cedo – tornou-se muito mais sofisticado na arte de acompanhar e provocar debates contemporâneos, sendo Laerte e Angeli os pontos-referência dessa sofisticação, e abriu portas para outros artistas como André Dahmer e Arnaldo Branco, uma geração bem menos preocupada com a precisão do traço, mas igualmente atenta ao espírito de sua época.

MÃO MAIS SOLTA
A se falar em traço, esse novo lançamento com a assinatura de Laerte é intercalado por desenhos dos citados modelos vivos, feitos com uma mão mais solta e liberta de um condicionamento de representação narrativa. Esse traço figurativo, que às vezes beira o abstrato, é revelado no momento em que essa artista, a despeito de todos os prêmios e o reconhecimento entre seus pares de ser a melhor naquilo que faz, se coloca cada vez mais insatisfeita com seu próprio desenho. Explica-se: a insatisfação, neste caso, não é um sintoma de cansaço, mas antes uma evidência da vitalidade transformadora de alguém que foge do lugar de conforto como quem foge de uma partida de xadrez num filme de Bergman.

A própria Laerte se explica no texto introdutório do livro: “Talvez seja coisa só minha – mas tenho tido cada vez menos prazer e mais dificuldade com o desenho. É meio duro de dizer e de ouvir, e sinto que preciso afinar a ideia: a expressão ‘menos prazer’ não quer dizer ‘desprazer’. O termo dificuldade também pede uma luz – algum tipo de dificuldade sempre temos, porque faz parte do processo de desenhar, não importa quão ‘bem’ a pessoa pareça se defender com um lápis (ou seja o que for que use para isso). E mais: ‘dificuldade’ não significa uma coisa que a pessoa deva evitar (embora dê vontade). Há, embutida nos desafios que vão aparecendo, a chance de uma descoberta – ou a decepção de um fiasco temporário, que pode ser compensado mais adiante”.

Os desenhos de modelos vivos presentes aqui foram feitos no decorrer de um curso de desenho livre que Laerte e seu filho, Rafael Coutinho, fizeram em 2013. Depois de mais de quatro décadas desenhando profissionalmente quadrinhos, charges e cartuns com um traço humorístico muito particular e perfeitamente ciente da construção espacial das imagens (Angeli, o amigo cartunista e quadrinista, já disse, em uma entrevista, que sempre invejou a naturalidade e velocidade com que Laerte desenhava grandes cenários), Laerte se permite questionar seu próprio trabalho, entender o que a move a essa altura da carreira, tanto na sua relação com o desenho do corpo humano, como, particularmente, nas implicações do que desenhar esse corpo a provoca no campo íntimo, e eis aí sua não intencional exposição autobiográfica. Colocar-se na berlinda e assumir esse lugar de desconforto com o seu trabalho parece ser, para a mais importante cartunista brasileira hoje, o impulso que a move.

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