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"É um trabalho de mais de 30 anos"

Anita Leocádia Prestes, filha dos militantes Luiz Carlos e Olga Benário Prestes, conta como foi a produção da biografia acerca do pai, que durou três décadas

TEXTO Roberto Arrais

01 de Junho de 2016

Anita Leocádia Preste escreveu biografia sobre o pai, Luiz Carlos Prestes

Anita Leocádia Preste escreveu biografia sobre o pai, Luiz Carlos Prestes

Foto Divulgação

Anita Leocádia Prestes nasceu em 27 de novembro de 1936, na prisão de mulheres de Barnimstrasse, em Berlim, na Alemanha nazista, filha dos revolucionários comunistas Luiz Carlos Prestes, brasileiro, e Olga Benário Prestes, alemã. Anita é graduada em Química Industrial pela UFRJ, doutora em Economia e Filosofia na URSS. Com doutorado também em História pela UFF, ela é professora do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da instituição. Presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes, ela passou mais de 30 anos pesquisando, entrevistando e escrevendo sobre a vida do líder comunista. No final do ano passado, o resultado desse empenho foi apresentado aos leitores, a biografia Luiz Carlos Prestes - Um comunista brasileiro (editora Boitempo). Nesta entrevista à Continente, ela destacou o cuidado com os fatos e suas referências, falou com admiração sobre o pai, que foi uma das mais destacadas figuras do mundo político brasileiro no século XX.

CONTINENTE Como a senhora construiu este livro e como isso ocorreu?
ANITA PRESTES Este livro é uma biografia política de Luiz Carlos Prestes, que visa exatamente retratar os fatos da forma mais comprometida possível com com a verdade, seguindo a orientação do grande historiador marxista inglês Eric Hobsbawm, que dizia que o historiador tem compromisso com a evidência; então, pontuei-me muito por essa visão.

É um trabalho que levou mais de 30 anos para ser realizado. Comecei a trabalhar na temática da participação política de Luiz Carlos Prestes na história do século XX, lá no início dos anos 1980, quando meu pai estava ainda presente, vivo. A vida dele foi muito longa, 92 anos, dos quais 70 de intensidade política no Brasil e no exterior. Então, como num trabalho de historiador era impossível abordar estes 70 anos de uma vez, fui por partes. No início, não tinha nem clareza, certeza de que seria possível elaborar uma biografia, porque realmente era uma tarefa de longo prazo, não sabia o tempo que ia levar, se eu teria vida que me permitisse chegar lá. Comecei pela Coluna Prestes, até porque meu pai tinha uma memória privilegiada, principalmente sobre os acontecimentos da Coluna. Gravamos depoimentos com ele, pesquisei vários anos em diversos arquivos no Brasil, nos depoimentos dele e dos participantes da Coluna, que ainda havia nos anos 1980.

Anos atrás, fui a Moscou para pesquisar nos arquivos da Internacional Comunista, reuni todo este material, refazendo muita coisa, fazendo a pesquisa. Pesquisei períodos em que havia lacunas e cheguei, afinal, a conseguir escrever e publicar esta biografia, para a qual a editora Boitempo fez uma revisão muito cuidadosa. Trabalhamos vários meses com revisores para chegar à publicação deste livro, enriquecido com uma grande quantidade de fotos, mais de 100, com reprodução de documentos inéditos, fotos inéditas, enfim, foi um trabalho cuidadoso, feito pela Ivana Jinkings, a presidente desta editora, e de toda equipe que trabalhou no projeto. Realmente, ficou uma edição primorosa, que todas as pessoas estão achando bonita, bem-feita. A minha preocupação foi deixar uma obra comprometida com a evidência, com a verdade sobre o que foi a vida de Luiz Carlos Prestes para as gerações atuais e futuras.

CONTINENTE A Coluna Prestes termina sua trajetória invicta, não foi derrotada. Mas, depois desse período, Prestes foi chamado pelos defensores da Revolução de 30, inclusive por Getúlio Vargas, para aderir a esse movimento armado. Como se deu o posicionamento dele diante da solicitação desse apoio à adesão ao movimento de 30?
ANITA PRESTES O ano de 1930 foi muito importante na vida de Prestes e na história do Brasil. Porque, depois da Coluna, que foi encerrada em 1927, como você disse, invicta - quer dizer, embora tenha enfrentado 53 combates com as forças governistas, nunca foi derrotada. E derrotou 18 generais do exército brasileiro, percorreu 25 mil quilômetros pelo Brasil, 13 estados; foi uma epopeia. Ele compreendeu que não havia forças sociais e políticas, que o Partido Comunista era clandestino, pequeno, sem condições de influir nos acontecimentos políticos. Se ele aceitasse ir para o poder, como os camaradas tenentes queriam, ele viraria uma marionete nas mãos daquelas oligarquias agrárias que fizeram o movimento de 30. Então, ele recusa. Este é um momento importante na vida dele e na história do Brasil, porque pela primeira vez uma liderança, a maior liderança política do Brasil na época, rompe com as classes dominantes, se recusa a ser uma liderança a serviço daquelas oligarquias agrárias que fizeram o movimento de 30, e passa por cima da trincheira da luta de classes e vai se colocar ao lado dos trabalhadores, dos explorados, dos oprimidos e vai sempre, a partir daí, de 1930 até morrer, em 1990. Ou seja, 70 anos lutando contra a burguesia, contra as classes dominantes, solidário e participando da luta dos trabalhadores, dos revolucionários brasileiros.


Luiz Carlos Prestes. Imagem: Reprodução

CONTINENTE Qual a posição de Prestes em 1935, diante da Insurreição Popular?
ANITA PRESTES Ele estava no exílio e regressa ao Brasil para participar da luta contra o fascismo, sendo apenas um militante aceito nas fileiras do PCB. Mas, no Brasil, havia um decreto que considerava Prestes desertor do Exército. Significava que ele só podia atuar clandestino, porque senão seria preso. E ele vai ser o grande nome a aglutinar as forças democráticas antifascistas, anti-integralistas, em torno da ANL, maior frente única que existiu no Brasil, que agrupou diversos setores da sociedade brasileira, civis e militares. Muitos desses militares sob a influência do prestígio de Luiz Carlos Prestes, que vinham também do tenentismo. Foi um movimento heroico, nobre, com objetivos nobres. A derrota foi séria, a repressão enorme, com muita gente presa, torturada. Olga Benário Prestes, minha mãe, e outra comunista alemã, Elise Ewert, foram entregues à Alemanha nazista nesse contexto.

CONTINENTE A senhora falou da importância de Olga na vida de Prestes nesse período da decisão do governo de Getúlio Vargas de extraditá-la para a Alemanha nazista. Qual a sua avaliação sobre esse momento?
ANITA PRESTES Olga recebeu a tarefa da Internacional Comunista de acompanhar Prestes no seu regresso ao Brasil no início de 1935, porque ela era já uma comunista conhecida, com experiência em luta na Alemanha e participando do trabalho da Internacional, na juventude comunista na Europa, na Inglaterra, na França. Então, ela recebe essa tarefa e vem, simulando que era um casal em lua de mel, mas era uma tarefa. Nesse processo, eles realmente se entendem muito bem e acabam se apaixonando, viram marido e mulher. Ela desempenhava o papel de cuidar da segurança do Prestes e de servir como pombo-correio, de apoiá-lo, de garantir segurança para ele. Ele mesmo reconhecia que, ao ser preso, foi ela que lhe salvou a vida, porque se interpôs entre ele e os policiais que tinham ordem de matá-lo e vacilaram. Foi uma decisão de Getúlio Vargas e Prestes sempre dizia que foi a forma que Vargas encontrou para torturá-lo, extraditando, mesmo ilegalmente, Olga para a Alemanha nazista para ser assassinada.

CONTINENTE Como ocorreu o surgimento do PCdoB?
ANITA PRESTES O grupo que realizou a cisão e criou o PCdoB, em que estavam à frente João Amazonas, Mauricio Grabois e o Pedro Pomar hoje em dia falsifica a história, querendo dizer que o PCdoB vem desde 1922. Não é verdade, o PCdoB surgiu concretamente na cisão em 1962. Combateu violentamente o PCB e Prestes, que era chamado de traidor, inimigo, vendido. Hoje em dia, ficam querendo aparentar que são admiradores do Prestes. Prestes não pode mais protestar, está morto, então eles procuram se utilizar do prestígio da sua figura e do PCB para, enfim, justificar sua existência, sua política. No livro, resgato esse processo, com documentação citada e fontes que as pessoas que quiserem podem consultar sobre a criação do PCdoB.

CONTINENTE Como a senhora avalia a primeira biografia escrita sobre Luiz Carlos Prestes, de Jorge Amado, denominada de O Cavaleiro da Esperança
ANITA PRESTES Esse livro, escrito em 1941, abrange metade da vida do Prestes. Jorge Amado é um grande escritor, mas um romancista que não tinha o preparo de historiador. Estava fora do Brasil, exilado na Argentina, em Buenos Aires. Enfim, ele consegue informações, corresponde-se com pessoas aqui no Brasil, inclusive com minha avó (que estava no México), que lhe mandam informações. Foi assim que, de forma precária, fez uma biografia mais romântica, no estilo da época que, hoje em dia, não se usa mais.

CONTINENTE Em 2014, saiu outra biografia sobre Prestes, feita por Daniel Aarão Reis, Luís Carlos Prestes - Um revolucionário entre dois mundos. A senhora fez um artigo crítico sobre esse livro, o que destaca nele?
ANITA PRESTES Publiquei um artigo sobre o livro porque achei que era importante esclarecer a opinião pública acerca dele. Esse artigo está publicado no site do Instituto Luiz Carlos Prestes. Foi muito difundido. É um livro que, mesmo escrito por um historiador, faz uma falsificação da história. Em que o autor, mesmo sendo da esquerda no passado, hoje em dia virou a casaca, tornou-se um intelectual a serviço dos interesses dominantes, que se dedicam a falsificar a história de Luiz Carlos Prestes, ao apresentar o líder comunista de uma forma negativa, na tentativa de invalidar o seu legado. É um livro cheio de mentiras, mexericos, fofocas, tipo da obra que um professor de História pode apresentar aos seus alunos em sala de aula como do tipo de trabalho que não deve ser feito – porque é um livro que não tem seriedade, não está baseado em fontes, as fontes não são citadas. Tem, inclusive, calúnias, como a de que a minha mãe teria abandonado um filho, o que é um absurdo. É uma tentativa de desmoralizar a figura de Olga Benário Prestes, que é uma figura muito prestigiada, que todo mundo admira, sobretudo a partir do livro do Fernando Morais, do filme Olga. Trata-se, portanto, de uma tentativa de contribuir para desqualificar a figura de Olga, da mãe de Prestes, Leocádia; é toda uma tentativa de desqualificar Prestes e toda a família dele.

CONTINENTE Qual o grande legado de Luiz Carlos Prestes para as atuais e futuras gerações?
ANITA PRESTES O principal legado do Prestes foi a dedicação à causa revolucionária, ou seja, à causa do socialismo ou, falando mais explicitamente, à causa de realizar transformações profundas na sociedade brasileira, que garantisse justiça social, democracia, liberdade para todos os brasileiros. Esse era o objetivo a que ele dedicou toda a vida, sem receber nada em troca. Não medindo sacrifício, tendo em vista que, para ele que conhecia bem o marxismo, avaliava que só o socialismo poderia garantir os direitos sociais, liberdade, democracia para todos os brasileiros. Dedicou a vida a isso. Digo até no meu livro que, da mesma maneira que os revolucionários cubanos resgataram o legado de José Martí para a Revolução Cubana, nós, os revolucionários brasileiros, comunistas, não poderemos avançar no processo de transformação revolucionária do Brasil sem resgatar o legado de Luiz Carlos Prestes. 

ROBERTO ARRAIS, jornalista.

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