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João do Rio: sobre a pertinência da obra do cronista das ruas

Numa época de embates éticos na política nacional e remodelações urbanísticas na Cidade da Copa, nunca foi tão atual ler o autor de 'A alma encantadora das ruas'

TEXTO Adriana Dória Matos

01 de Maio de 2016

João do Rio

João do Rio

Imagem Manuela dos Santos/Arte sobre imagens de divulgação

A situação é a seguinte: você tem pavor daquele recanto lúgubre, sujo, perigoso da cidade, o que não significa que não tenha curiosidade a respeito dele. Você jamais iria ali, Deus a livre. De vez em quando, como num assombro, imagina-se perdida, jogada ali, naquele campo de miséria. Um arrepio a percorre (ainda bem que não era verdade!). Mas eis que alguém aparece para fazer o trabalho sujo, ou seja, alguém se enfia naquele buraco e conta como ele é para você. Esse tem sido, em boa medida, o trabalho da reportagem jornalística, ir a lugares aos quais uma parcela da população não tem acesso, ou por interdição ou por deliberação própria.

Um dos camaradas que cumpriu muito bem esse papel foi o carioca João do Rio (1881–1921), que entrou para a história da literatura e do jornalismo brasileiros como o autor das ruas, como aquele que não teve pudor de sujar os sapatos nem de se misturar com todo tipo de laia (e veremos que, com a laia da banda chique, ele também chafurdou).

Num dos textos de sua autoria, que representam com brilhantismo essa relação com a cidade proibida, Visões d’ópio, João do Rio se disfarça de fornecedor da droga e revela aos leitores cenas de horror nas fumeries repletas de viciados. Usando uma estratégia recorrente – a de se fazer acompanhar por alguém que conhece melhor aquela realidade e serve de guia – o escritor-jornalista provoca o leitor: “Nunca frequentou os chins das ruas da cidade velha, nunca conversou com essas caras cor de goma que param detrás do Necrotério e são perseguidas, a pedrada, pelos ciganos exploradores? Os senhores não conhecem esta grande cidade que Estácio de Sá defendeu um dia dos franceses”. Essa crônica-reportagem foi publicada no jornal Gazeta de Notícias em 1905 e, depois, em 1908, no genial livro A alma encantadora das ruas. Permanece, passados 111 anos, melancolicamente atual em vários aspectos. Esse fato torna não apenas este, mas vários outros textos do carioca nascido João Paulo Alberto Coelho Barreto, e celebrizado como João do Rio, um documento efusivo da sociedade em que vivemos. Um testemunho de que não, não somos ainda capazes de nos despir dos nossos medos e preconceitos e adentrarmos na cidade proibida. E que, portanto, pessoas despidas desses limites continuam a ser importantes para colocar a realidade aos nossos pés.

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Em maio de 1903, João do Rio estreou no jornal Gazeta de Notícias a coluna A cidade, na qual defendia: “Esta seção da Gazeta vai acompanhar, de passo em passo, o trabalho do renascimento. Um aviso, um conselho, um reparo, uma censura, um elogio – tudo haverá nesta curta e sóbria coluna”. O “renascimento” a que ele se referia era o do Rio de Janeiro, que passava por reformas urbanas radicais, de demolição de morros e bairros inteiros para dar passagem a largas avenidas, um desenho urbanístico calcado naquele empreendido pelo prefeito Haussmann da Paris da segunda metade do século XIX, que inspirou, por exemplo, várias das capitais republicanas nascentes na América Latina.

A coluna A cidade atesta as contradições das nossas repúblicas, demagógicas e assentadas na divisão de classes com o privilégio das elites, nossos passos errantes, interesseiros, e também as opiniões cambiantes do colunista que foi tanto um entusiasta das mudanças, mesmo um promotor delas em vários momentos, quanto um crítico mordaz de todo o cenário, seja no sentido estrutural, urbanístico, seja no social e humano. Ainda que entusiasmado com a modernidade que se instalava, João do Rio reservou-se o saudosismo, a crítica ao que de nocivo aquele progresso apresentava (inclusive, criando a conformação urbana que viria a se chamar favela) e o comentário irônico do novo comportamento social decorrente das mudanças em curso.


Capa da série de publicações. Foto: Reprodução

O Rio de Janeiro em estado de “renascimento” de João do Rio se aproxima da contemporânea Cidade da Copa em muitos sentidos, desde a demolição de bairros inteiros para dar lugar a estádios à glorificação da arquitetura do espetáculo do Museu do Amanhã, o Calatrava da Baía de Guanabara, às contradições de uma capital que continua a jogar para as bordas a sua população de baixa renda que, agora, devidamente articulada e armada, vai direto ao revide.

Em outra de suas grandes reportagens, João do Rio sobe o Morro da Providência. Em um texto não assinado, mas em que se identifica sua autoria, Na favela – Trecho inédito do Rio (Gazeta de Notícias, 1903), ele conta, no início da travessia: “Subimos o morro, por um íngreme caminho bordado de águas empoçadas, por onde vão negras maltrapilhas, moleques desnudos, tipos suspeitos, de lenço no pescoço. É impossível imaginar que ali, no centro da cidade, habite gente tão estranha e com uma vida tão própria”.

É evidente – sobretudo quando lemos “gente tão estranha” – o lugar de fala do nosso repórter, de como ele se coloca diante desse “outro” pobre e amedrontador. Podemos até reagir mal à leitura por isso, tender a acusar o autor de preconceito; esta seria uma reação comum ao leitor contemporâneo, que está habituado a essa coisa tão “estranha” e inadmissível que é a nossa pobreza e que já diluiu alguns preconceitos sociais. Quando lemos um autor – do presente ou do passado –, nossa reação comumente responde aos nossos padrões atuais e à nossa maneira de ver o mundo, que não corresponde, em absoluto, à reação do leitor vizinho (como se constata, são reações as mais díspares).

Sendo assim, vamos aproveitar o melhor da reportagem de João do Rio, que, afinal, se deu ao trabalho de agir diferentemente dos seus colegas de então, que praticavam a imprensa de gabinete, e garantiu o ganha-pão dos engraxates. Ainda no texto citado, depois de registrar impressões da Providência, ele parte para a conclusão:

“Nós saímos da Favela perfeitamente assombrados. As cenas que secamente narramos são a expressão da verdade e relembram as mais furibundas páginas do rodapé-romance.

É possível que ali, à boca da Rua da América, no centro da cidade, as casas sejam de barro e folha de flandres, construídas por proprietários que delas retiraram grossas rendas sem o mínimo de escrúpulo? Será crível que, a dous passos da Rua do Ouvidor, haja uma Favela, reduto inexpugnável de desordeiros conhecidos e gatunos temíveis?

Pois há, e, o que é mais, com alguns dos mais valentes prestando serviço à polícia”.

(Precisamos falar, mesmo, da atualidade da obra de João do Rio.)

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Quando estava dedicada aos seus estudos de doutorado, a jornalista, tradutora e editora Graziella Beting se reencontrou várias vezes com a obra de João do Rio. Ela estava estudando em Paris outro jornalista, o francês Jules Huret, que ficou conhecido, sobretudo, pelas entrevistas que realizou com escritores, pelos relatos de viagem e pela crítica teatral. Era um cenário de jornalistas literatos que interessava a Graziella, que se deteve no surgimento do folhetim e da crônica. Concluída a tese e já voltada para os projetos editoriais da Carambaia, da qual é sócia, ela começou a estruturar o que viria a ser a Coleção João do Rio. Foi um mergulho sensacional em arquivos do autor em acervos públicos, como o da Biblioteca Nacional, e, sobretudo, no legado pessoal do autor, a biblioteca dele, doada ao Gabinete Português de Leitura por sua mãe, depois de sua morte precoce, de um ataque cardíaco, aos (quase) 40 anos. Nela, por exemplo, Graziella encontrou vários pontos de contato entre Jules Huret e João do Rio, pois havia entre os livros do carioca obras do jornalista francês, com grifos de João. Emoção em cima de emoção, você encontrar autores que admira e estuda em diálogo vivo, pelas anotações e comentários de próprio punho.

Então Graziella pensou em como fazer a composição dos títulos – a coleção traz três volumes, Crônica, Folhetim e Teatro – mantendo o critério que norteia o projeto de sua editora, de trazer textos de qualidade de autores de qualidade, que, por motivos diversos, ficaram fora do cânone literário (ou, pelo menos, do mercado editorial). Joiazinhas e achados, digamos assim. Ao mesmo tempo em que a saída mais tentadora para o impasse das escolhas poderia ser concentrar-se nos inéditos – afinal, há um monte de textos de João do Rio que ficou restrito à publicação em jornais e revistas, seus veículos por excelência –, cutucava sua consciência a necessidade de reunir ali também os textos que notabilizaram João do Rio – e mais, que foram escolhidos por ele mesmo para integrar edições posteriores em livros. Pronto, ela chegou ao modelo: mesclar na coleção material inédito e obras notabilizadas.

O conjunto que ficou mais conhecido da obra de João do Rio foram suas crônicas-reportagens. Elas são muito bem-escritas, vivazes e competentes como documentos da belle époque brasileira, cuja síntese foi, sem dúvida, a capital federal, com seu afã de desenvolvimento e afetação de costumes. Certa vez, João do Rio afirmou seu absoluto interesse nas classes “de baixo” e “de cima” e o menosprezo pela classe média, à qual, não resta dúvida, pertencia. Assim é que sua obra toda é assentada em narrativas que dizem respeito a essas duas categorias sociais, os ricos (e poderosos) e os pobres (e renegados). Na Coleção João do Rio, podemos dizer, grosso modo, que os “de baixo” estão melhor representados no volume de Crônicas, e que os textos selecionados para Teatro e Folhetim exemplificam melhor seu interesse pelos “de cima”, aquele segmento que ele frequentou, o dos políticos e novos-ricos, que, na maioria das vezes, são expostos em seu ridículo pela irônica pena do autor.

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Há uma peça de João do Rio que ficou conhecidíssima, sendo, possivelmente, sua obra-prima no gênero, A bela madame Vargas, que estreou no Teatro Municipal em 1912, sendo sucesso de crítica e público. A história, baseada num crime passional ocorrido no Rio de Janeiro em 1906, correu mundo. Depois de uma longa temporada carioca, foi levada para Portugal, Paris, Espanha, Estados Unidos. Foi a consagração do dramaturgo, que começou sua carreira jornalística, garoto de 18/19 anos, escrevendo justamente críticas teatrais.

Mas não é a Madame Vargas que adensa o volume Teatro da Coleção João do Rio, e, sim, uma peça ambientada no interior paulistano que também obteve sucesso de público, Eva – A propósito de uma menina original. Nela, estamos diante da fina flor paulistana, personagens hospedados numa fazenda de café e orbitando em torno da bela jovem Eva e, depois, constrangidos pelo desaparecimento de uma joia da anfitriã, Madame Adalgisa Prates. Uma comédia de costumes sem grandes diferenciais, exceto pela presença do irônico Godofredo de Alencar, jornalista, alter ego de João do Rio, que convive e aprecia o ambiente de frivolidades, mas dele zomba o tempo inteiro.

É, entretanto, no sainete (peça curta e leve, da qual participam, no máximo, três personagens) Que pena ser só ladrão, que João do Rio apresenta sua melhor versão dramatúrgica nesta seleção da Carambaia. Deliciosamente paradoxal, a peça conta com dois personagens do submundo, um ladrão e uma moça alegre que – ninguém podia esperar, porque pouco se espera deles – agem com honra e honestidade.

E não é que precisamos falar da atualidade da obra de João do Rio? 

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora da revista Continente.

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