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Já ninguém lê

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Maio de 2016

Ilustração Manuela dos Santos

Paga-se 3 euros para entrar na livraria Lello, na cidade do Porto. O valor é descontado na compra, se alguém faz. Poucos adquirem livros, a multidão de turistas está mais interessada em se fotografar nas escadarias, ou fazer selfies mirando as paredes e o teto de madeira, ricamente trabalhado. Na calçada, um atendente nos aborda em inglês e orienta a adquirir os ingressos num guichê montado à frente. A Lello tornou-se um templo do turismo e a literatura ficou em segundo plano.

Chove sem parar, faz frio, o piso encharcou. Dos vidros partidos na clarabóia, caem pingos d’água. No segundo pavimento, estrangeiros amontoados em sofás bebem café em meio ao barulho infernal. Nada lembra um ambiente de leitura. As prateleiras são belíssimas, porém inacessíveis. Não consigo descobrir como se chega àquelas alturas.

Numa mesa, logo à entrada, estão expostos volumes de José Luis Peixoto, Gonçalo Tavares, Walter Hugo Mãe, Mia Couto, Inês Pedrosa e Pepetela. Ao lado, romances de António Lobo Antunes e José Saramago. Um pouco adiante, o único brasileiro: Chico Buarque e seu O irmão alemão. Procuramos uma atendente, coisa difícil de achar em meio ao caos. Encontramos uma moça ocupada com um jovem português, que insiste em ler a boa literatura de sua terra. Ela aponta a mesa da entrada e afirma generalizando o lusófono: essa é a melhor literatura produzida no país. O rapaz duvida, regateia, mas a vendedora não dá chance a outros escritores.

Uma poetisa, com quem almoçamos, tinha nos indicado Lídia Jorge, Maria Velho da Costa e Mário de Carvalho, pouco referidos no Brasil, e apreciados por uma geração de leitores e intelectuais em Portugal. Quando referimos os nomes que fazem sucesso por aqui, a poetisa botou um pé atrás. Argumentei:

– Mas esses são os escritores de língua portuguesa aclamados no Brasil, presentes em todos os eventos literários e premiações, exaltados pela crítica, estudados nas universidades, traduzidos na França, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.

A poetisa não abria mão dos seus critérios de qualidade, rebatia forte.

– Vocês lêem e cultuam o que nós portugueses sequer conhecemos.

Ela certamente não faz compras na primeira mesa da Lello.

Havia notado a mesma resistência num professor da Universidade do Porto, que esteve conversando comigo sobre textos do mundo. E bem maior reserva noutro jovem mestre de literatura portuguesa. Escutei e deixei que falassem. Na década de 90, quando levei um espetáculo de teatro para itinerância em Portugal, percebi no meio acadêmico certo desdém por José Saramago.

Portugal possui menos de 11 milhões de habitantes morando no próprio território e quase 5 milhões espalhados pelo mundo, sendo 1 milhão no Brasil. Os jovens migrantes não pensam em voltar para casa, quem vive na França ou nos Estados Unidos deseja se arranjar por ali mesmo. Tende a desaparecer a figura do retornado, como se tornaram célebres alguns moradores da cidade de Fafe, no Minho, que depois de enriquecerem no Brasil voltaram à sua terra e edificaram casas, clube e teatro, copiando nossa arquitetura. Em 2015, ao invés de crescer, Portugal perdeu 5% da população.

Mesmo com a emigração acentuada, o crescimento populacional negativo e o mercado pequeno, há zelo pela literatura produzida ao longo dos anos. Mas, em Portugal não é diferente do restante do mundo, seus habitantes lêem cada vez menos. Os educadores se queixam de que nos outros países da União Europeia as estatísticas são melhores e tentam formar novos leitores. Em Fafe, visitei uma escola municipal e participei de um encontro com professores, pais e alunos. Tentavam convencer os pais de que eles são os principais motivadores da leitura e esse hábito precisa nascer em casa. A biblioteca do município possui acervo grande e instalações perfeitas. Cultuam-se os clássicos, mas isso não torna menos difícil formar leitores em tempos de face book e whatsapp.

Num festival literário em Buenos Aires, conversei com o escritor colombiano radicado no México, Fernando Vallejo. Ele achava o Brasil um país promissor à leitura, pois nele 210 milhões de pessoas falam o mesmo idioma, sem dialetos, com raras particularidades. Bem diferente da suposta hegemonia do espanhol, diverso em cada país onde é falado. Penso nisso, desde a conversa. Nos últimos 12 anos houve um enorme investimento na compra de livros para as escolas públicas, na melhoria dos acervos das bibliotecas, na circulação de escritores pelas cidades pequenas, falando das suas experiências. Mas estamos longe de uma tradição literária, até o nosso patrimônio oral ameaça desaparecer. A literatura de cordel, responsável por tiragens milionárias, como a do Romance do pavão misterioso, caiu em desprestígio. Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Carlos Drummond, escritores canônicos, são lidos nas escolas e nos vestibulares por obrigação. E mesmo Clarice Lispector, cujas frases viralizam na internet, é bem mais lida nos círculos literários.

Em Fafe, hospedei-me na Quinta do Ermo, casa que pertenceu a José Vieira Cardoso de Castro, amigo de Camilo Castelo Branco, e que lhe serviu de refúgio quando ele cometeu crime de adultério, raptando Ana Plácido, por quem era apaixonado há dois anos. Foi durante a fuga que Camilo, em 1860, passou por São Vicente de Passos, onde fica a Quinta. Todos na região conhecem a história. Vários livros de Camilo falam do Minho, do Ermo e de suas Memórias de Cárcere.

Às vezes, sentado em frente à lareira, tentava escutar a voz do escritor romântico, que eu pouco li. Mas o som que me chegava era o de um regato, correndo ao lado da casa. Quando eu dizia às pessoas onde haviam me hospedado, elas pronunciavam um sonoro Ah! E assumiam um tom nostálgico e cúmplice. Nunca soube se essa intimidade decorria da leitura dos livros de Camilo, ou se era pura excitação com o escândalo que foi sua vida. 

RONALDO CORREIA DE BRITO, escritor.

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