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Festivais: Uma festa para o teatro

Março é o mês das artes cênicas, com a realização do Festival de Teatro de Curitiba, que comemora 25 anos, e da MITsp, que assume protagonismo nacional

TEXTO Pedro Vilela

01 de Março de 2016

Mito de Sísifo motiva a obra 'Still Life', de Dimitris Papaioannou

Mito de Sísifo motiva a obra 'Still Life', de Dimitris Papaioannou

Foto Julian Mommert/Divulgação

Quando, em 1961, o Instituto Internacional de Teatro da Unesco cravou o 27 de março como o Dia Mundial do Teatro, tomando como referência a data da inauguração do Teatro das Nações, em Paris, este período do ano acabou por se tornar um dos mais movimentados para as artes cênicas no mundo. Não à toa, é este o mês da realização, no Brasil, de importantes mostras teatrais, com destaque para o grandioso Festival de Teatro de Curitiba e a MITspMostra Internacional de Teatro de São Paulo, como se compusessem um coro à mensagem enviada pela ONU aos seus países-membros, no dia de cada celebração sobre a importância da arte teatral em nossas sociedades.

Celebrando 25 anos de existência, o Festival de Curitiba costuma reunir um público estimado em 200 mil pessoas por edição, tornando a cidade paranaense na capital do teatro brasileiro, durante um período de 12 dias. O Fringe, mostra paralela do evento, por exemplo, condensa comumente cerca de 400 espetáculos de diferentes partes do país, possibilitando um panorama da atual produção brasileira – ainda que, por não possuir um recorte curatorial ou ao menos um criterioso processo de seleção, nos apresente um desnivelamento grande entre os trabalhos em cartaz.

Do outro lado, com trajetória ainda recente, a MITsp vem assumindo o papel de principal mostra do Brasil, com uma programação prioritariamente internacional que leva à terra da garoa os principais nomes da produção contemporânea mundial, além de reunir um público cada vez maior em busca de suas diferentes ações. Em sua primeira edição, em 2014, a mostra trouxe ao país importantes criadores sul-americanos, como o argentino Rodrigo García, com sua visão do calvário de Jesus Cristo sob uma perspectiva crítica aos valores de adoração e à mercantilização da fé no espetáculo Gólgota picnic. Trouxe também o chileno Guilhermo Calderón com Escuela, a partir de questões relacionadas à ditadura militar no Chile, além da celebrada escritora e performer espanhola Angélica Liddel, com o trabalho Eu não sou bonita, criado em torno de uma experiência de abuso sexual sofrido pela artista.


Espetáculo Ça Ira é definido como uma ficção política contemporânea.
Foto: Elizabeth Carechio/Divulgação

No ano passado, a MITsp investiu em grandes encenadores, manipulando clássicos da dramaturgia mundial, com destaque para a potente encenação, com duração de quatro horas, de A gaivota, obra do russo Anton Tchekhov dirigida pelo seu compatriota Yuri Butusov. Outro destaque foi a dupla encenação do texto Senhorita Julia, de August Strindberg, sob os olhares da brasileira Christiane Jatahy, com a carioca Cia. Vértice, e da diretora britânica Kate Mitchell, que friccionaram os limites da representação no teatro, dialogando ainda com a linguagem cinematográfica no palco.

Se nas edições passadas o idealizador e diretor artístico da mostra, Antonio Araújo, apontava para a preocupação do evento em trazer “espetáculos e artistas arrojados, comprometidos com a pesquisa cênica, radicais em suas experimentações e posicionamentos, além de antenados com sua época e lugar”, este ano, vemos na programação o esforço em permanecer com essa premissa. A edição de 2016, de 4 a 13 deste mês, será composta por espetáculos da França, Polônia, Grécia, Bélgica, Congo, Alemanha e Brasil, prometendo um olhar voltado para o teatro e o processo social.

INTERNACIONAIS
Pela primeira vez no Brasil, a companhia polonesa Nowy Teatr apresentará o espetáculo (A)Pollonia, sob a batuta do renomado encenador Krzysztof Warlikowski. Realizando um conciso trabalho de dramaturgia a partir de textos clássicos e contemporâneos, sobretudo fragmentos de Alceste, de Eurípides, Oresteia, de Ésquilo, e Apolonia, de Hanna Krall, o artista polonês busca refletir sobre a ambígua e sombria história do sacrifício e, especialmente, do autossacrifício em nossas sociedades. A crítica de teatro Armelle Héliot, do jornal francês Le Figaro, descreveu (A)Pollonia como um “rio longo correndo que nos leva com materiais diferentes, rosnando ruído e fúria, fabricando conhecimentos e fluxo de emoções fascinantes, derretendo como a saída de um vulcão em erupção violenta e cuspindo pensamentos como sentimentos, fatos estabelecidos com análise rigorosa de como as verdades e fantasias agem na história”.


Francês Joël Pommerat trará dois espetáculos à MITsp, Ça Ira e Cinderela. Foto: Divulgação

Do criador da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas de 2014, o grego Dimitris Papaioannou, o público brasileiro poderá assistir à sua mais recente criação, Natureza morta (Still life). O bailarino de maior projeção em seu país utiliza-se de uma meditação sobre o mito de Sísifo, personagem castigado pelos deuses e fadado a rolar diariamente uma pedra até o topo da montanha, mas que, com o peso e o cansaço, acaba deixando-a rolar novamente até o chão, levando-o a cumprir essa subida cotidianamente e para todo o sempre. Como faz o escritor Albert Camus em O homem revoltado, ao associar o mito de Sísifo com a vida dos homens, que comumente seguem uma rotina diária, Papaioannou faz um “trabalho sobre o trabalho”, relaciona-o, na atualidade, aos países em desenvolvimento e aos da Europa ocidental.

Mas o grande destaque deste ano na MITsp é, sem dúvidas, a presença do francês Joël Pommerat. O dramaturgo e diretor que ficou conhecido no Brasil em 2013, com a montagem de sua obra Esta criança, pela Cia. Brasileira de Teatro (PR), ao lado da atriz Renata Sorrah, trará ao festival dois trabalhos de sua autoria: Ça ira e Cinderela.

Quebrando o ineditismo da presença de um espetáculo infantojuvenil, Cinderela foi também escolhido para a abertura da mostra. Em parceria com os artistas do Teatro Nacional da Bélgica, o espetáculo apresenta um Pommerat pouco conhecido do público brasileiro, retomando o exercício realizado por ele nos últimos anos, a partir da manipulação de contos clássicos, como Chapeuzinho Vermelho e Pinóquio. Com Cinderela, ele propõe uma experiência intensa e desconcertante, como destacou o jornal Le Monde, ao fazer uma estimulante reflexão sobre a dor e a culpa, e apontar para o fundo trágico da infância: o medo, a solidão, os pesadelos e as esperanças a partir da morte da mãe.

Em Ça ira, encontramos o artista explicitamente mais politizado. Definida como uma ficção política contemporânea, a obra reflete sobre a luta pela democracia e os mecanismos que regem as ações dos indivíduos, enfatizando a dimensão coletiva da ação política. Para o autor e diretor, importa nesse momento – quando a Europa está abalada pelo retorno do nacionalismo, da extrema direita e do conservadorismo – o mergulho na história da Revolução Francesa.


Companhia polonesa Nowy Teatr também virá ao país, com (A)Pollonia.
Foto: Stefan Okolowicz/Divulgação


NACIONAIS
Esperado com ansiedade pela crítica teatral, o grupo Teatro de Narradores (SP) estreia na MITsp o espetáculo Cidade vodu. O terremoto de 2010 que atingiu o Haiti, matando quase 200 mil habitantes e gerando um fluxo de emigração para o Brasil, impulsionou o grupo a levantar questões como o preconceito racial e cultural, além da liberdade de trânsito pelo mundo. Com atores haitianos e brasileiros, utilizando-se também de falas em crioulo (dialeto do Haiti), o espetáculo joga luz na situação dos imigrantes em São Paulo (SP) e Rio Branco (AC), articulando teatro, cinema e música, sob encenação do diretor José Fernando de Azevedo.

Após experimentar o uso de obras da literatura brasileira contemporânea no seu espetáculo anterior, intitulado Puzzle, o diretor Felipe Hirsch retoma esse procedimento na composição de seu novo trabalho, A tragédia latino-americana. Com direção de arte de sua fiel escudeira Daniela Thomas, o espetáculo é composto por meio de fragmentos, adaptações de obras ou parte de obras da literatura contemporânea da América Latina. O elenco conta com atores brasileiros, argentinos, chilenos e mexicanos, com destaque para a presença do pernambucano Pedro Wagner.

Além da seleção de espetáculos, um dos maiores pontos de diferenciação da mostra paulista, em relação às inúmeras outras realizadas, é o seu forte investimento nas atividades reflexivas e formativas. No que intitula de Olhares Críticos, a mostra desenvolve sete atividades, que vão desde debates realizados logo após as apresentações à publicação de um programa-livro com ensaios desenvolvidos por importantes pensadores do país. Mas o momento de maior vitalidade diz respeito ao Pensamento em Processo, no qual os artistas da mostra são convidados a falar sobre seus processos de criação, arquiteturas de composição e realidades geográficas. Soma-se ainda a atenção especial para a Prática da Crítica, composta por palestras e lançamento de publicações que refletem sobre o papel da crítica nos dias atuais, além da Crítica Performativa, executada pela revista Antro Positivo. Durante oito horas ininterruptas, em tempo real e em frente ao público, a publicação reflete sobre uma das obras apresentadas (este ano será o Ça ira), convidando o leitor a também interferir na composição da escrita.


Nowy Teatr virá sob a direção de Krysztof Warlikowski. Foto: Divulgação

CURITIBA
Após tamanha potência vinda da mostra paulista, o Festival de Teatro de Curitiba passa atualmente por um importante processo de restruturação. Com a redução de recursos de patrocinadores (alguns migraram seus investimentos para a MITsp), o FTC aposta, neste ano, numa nova equipe de curadores, em busca da retomada de sua força. Para isso, deverá repensar questões que se fazem urgentes, como a recorrência, em sua programação, de frágeis produções, amparadas apenas pela presença de atores globais, e os altos valores praticados nas bilheterias, ainda que faça uso de investimentos de recursos públicos através das leis de incentivos. Além disso, a compreensão de que nem sempre quantidade corresponde à qualidade, falando sobre a sua mostra paralela.

Os espetáculos escolhidos para a mostra oficial, que acontece de 23 de março a 3 de abril, possuem claro investimento no trabalho dos mais atuantes grupos teatrais brasileiros, trazendo uma oxigenação à celebração dos seus 25 anos. A presença de coletivos com As Travestidas (CE), com Quem tem medo de travesti?, e o Teatro Kuny (SP), com Orgia ou de como os corpos podem substituir as ideias, pela discussão sobre gênero e sexualidade, apontam para um novo horizonte.

A certeza que temos é de que, com tamanha capacidade de produtores, curadores e artistas em refazerem suas próprias trajetórias e questionarem seus modos de produção, poderemos bradar em São Paulo ou em Curitiba o título do espetáculo do francês Pommerat (Ça ira): “Vai rolar”. 

PEDRO VILELA, gestor, diretor artístico e idealizador da Trema! Plataforma de Teatro.

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