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Como ganhar concurso sendo fiel a si mesmo

O mineiro Sérgio Corrêa largou o birô para se dedicar às letras e teve seu romance como o vencedor do Prêmio Cepe Nacional de Literatura

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Dezembro de 2015

Sérgio Corrêa de Siqueira

Sérgio Corrêa de Siqueira

Foto Ana Paula Rosa/Divulgação

Ele vem de longe, das Minas Gerais, do Arraial de Santo Antônio da Casa Branca, onde vive, embora tenha nascido na cidade grande, Belo Horizonte, em 1961. Passou muitos anos nas minas, como engenheiro, e no birô, como jurista. Hoje, contudo, este é o seu veredito: “Morreram o engenheiro e o promotor, sobraram o fazendeiro e escritor”. E é sobre este último que estamos precisamente falando, sem perder de vista o quanto essa trajetória faz da sua vida, ou melhor, das suas páginas o que elas são. Sérgio Corrêa ainda é pouco conhecido no ofício das letras, mas já tem um percurso razoável para quem começou tarde – só há três anos, “à vera”. Desde 2012, quando resolveu, aposentado e morando em uma fazenda herdada do pai, se dedicar à literatura, ele publicou três livros, sendo um infantojuvenil. Tem também outros na gaveta, um deles está no Recife, à espera de publicação: o romance O grande massacre das vacas, vencedor, na sua categoria, da primeira edição do Prêmio Cepe Nacional de Literatura, da Companhia Editora de Pernambuco.

A história do livro é interessante. Na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, um sujeito chamado Capitão de Corveta Horácio Aubrey Trombeteiro recebe das forças armadas brasileiras a missão mais bizarra da qual já teve notícia: “viajar milhas e milhas num navio de guerra da Marinha do Brasil, só para matar duas centenas de vacas”. Sobre as vacas do enredo e do título ficamos sabendo nas páginas seguintes: são zebus trazidos da Índia para a Bolívia e cuja entrada em solos brasileiros foi proibida pelo governo, por conta do risco “de transmitirem febre aftosa ou peste bovina”, assim nos conta o romance. É justamente tarefa do navio Parnamirim, e sua tripulação de “74 homens” chefiada pelo Capitão Trombeteiro, vigiar a passagem dos bichos na região limítrofe do país. Embora pareça, o romance não é do tipo histórico ou documental, mas ficcional, ainda que tenha como ponto de partida um acontecimento real.

Segundo Corrêa, no posfácio de seu volume, “em 1955, um zebueiro chamado José Roberto Rodrigues da Cunha trouxe um lote de gado da Índia, mesmo com a importação proibida. Perseguido pela Marinha, e sabendo que o gado seria apreendido e abatido, desembarcou o gado em Puerto Bush, na Bolívia, e foi substituindo as reses por outras semelhantes, trazidas do lado brasileiro, e vice-versa” – um truque comum. “A entrada do zebu no Brasil sempre me fascinou, deve ser a melhor experiência de melhoramento genético do mundo – e foi feita por acaso”, conta o autor.

Nas suas palavras, “o zebu chegou aqui como animal de circo ou de carga”. Antes, o escritor havia pensado em produzir um romance histórico ou uma narrativa sobre os pioneiros, “talvez para vender para a ABCZ” (Associação Brasileira dos Criadores de Zebu), mas viu que havia muitos livros desse tipo. “Soube da história do José Roberto Rodrigues da Cunha por um vídeo, mas não consegui encontrar detalhes, como: qual o nome do navio brasileiro que o perseguiu? Daí, veio a ideia: pare de pesquisar a história dele e invente uma que seja plausível – como faz, por exemplo, o Giles Foden, um escritor escocês que aprecio, misturando personagens reais à ficção, disfarçando outros etc. Foi melhor assim, porque Minas é uma grande roça e todos se conhecem”, comenta Corrêa, em entrevista à Continente.

Assim os personagens do romance foram criados. O Capitão Trombeteiro, por exemplo, é “100% imaginário”, tendo “nascido” de um híbrido dos heróis ficcionais Jack Aubrey e Horatio Hornblower, criaturas de Patrick O’Brien e C.S. Forester, respectivamente, que fazem parte da juventude do autor. Como nos conta o romance, o capitão descendia dos ingleses pelos dois lados e “o ‘trombeteiro’ do sobrenome era o aportuguesamento” do nome de família de um de seus trisavós, o Hornblower. Falando sobre os heróis que o inspiraram, Corrêa acredita ser Horatio Hornblower “mais seco, com menos senso de humor, mais preconceituoso, bem caxias”, enquanto Aubrey “é um cara mais dotado de senso de humor, mais humano”. A despeito do nome, ele defende que “se o Capitão Trombeteiro tem os genes de algum, é do Aubrey”.

De fato, é no mínimo curioso, ou tragicômico, que um chefe militar vá parar na Amazônia para despender tamanha “seriedade” observando o movimento de vacas inimigas, enquanto o dinheiro público vai para o brejo e questões políticas rondam os gabinetes da União sobre se os bois devem ou não entrar no Brasil.

Os demais marinheiros da trama também foram inventados, enquanto outros personagens não são tão fruto da imaginação assim. É o caso de dois tios-avós do autor que foram parar na história: o Capitão Marildo e o Dr. Clóvis Junqueira. Ele, aliás, conta de suas influências familiares: a maior delas, o avô Merolino Corrêa, que foi jornalista e poeta bissexto. O tio-bisavô era o parnasiano Raimundo Corrêa (ou Correia), da poesia As pombas. Afora eles, o tio Luís Antônio Villas Boas Corrêa é escritor e jornalista, assim como o filho, primo do romancista, Marcos de Sá Corrêa. O autor premiado diz que as letras estão no “DNA dos Corrêa”.

Poderíamos dizer ainda que o mundo da pecuária e dos cavalos também está neste gene. O próprio Sérgio descende de uma família (materna) de pecuaristas e um dos tios – o que aparece no livro – era justamente zebueiro. “Cresci ouvindo as histórias deles e dando palpites, também tínhamos terras. Fui atirador muitos anos e fiz tudo o que se pode fazer em cima de um cavalo: polo, long riding, hipismo clássico…”, conta ele, que já teve insights literários cavalgando. Além disso, é também amante e curioso da cultura indiana, referência no romance.

Apesar da bagagem, diz não “escrever a sério”, que faz história de humor escrachado ou “meia farsa”, como no caso de O grande massacre das vacas. “Eu sou quem eu sou, não adianta fingir. Tentei escrever sobre pobreza, favelas etc., para vender e agradar. Ficou uma merda ilegível. Gosto mesmo é de ganhar concursos sendo eu mesmo, sem disfarçar. Quero ser lido”, diz o autor, cuja estratégia parece vir dando certo. Em 2014, ele já havia ganho o segundo lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski, com o texto Eu odeio Vinícius

OLÍVIA MINDÊLO, jornalista, mestre em Sociologia pela UFPE.

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