Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Uma casa para o Vivencial Diversiones

Grupo surgido nos anos 1970, em Olinda, volta à cena cultural, montando sede no Recife e estreando espetáculo em comemoração aos seus 40 anos

TEXTO Mateus Araújo

01 de Outubro de 2015

O ator e diretor Henrique Celibi ocupou, junto com elenco inicial, prédio no Bairro do Recife

O ator e diretor Henrique Celibi ocupou, junto com elenco inicial, prédio no Bairro do Recife

Foto Roberta Guimarães

Entre as vigas largas interligadas por tapumes de madeira transformados em um provisório chão, o ator e diretor Henrique Celibi se equilibra para apresentar os dois andares da nova república do Vivencial Diversiones. Num casarão abandonado, no Bairro do Recife, o símbolo da transgressão teatral dos anos 1970 em Pernambuco vai ressurgindo, quatro décadas depois de extinto. O prédio – que um dia foi boate underground e há 12 anos deixado de lado por seus donos, servindo de depósito de metralhas e abrigo para moradores de rua – hoje faz parte de um sonho ousado do coletivo anárquico e de afiada crítica ao moralismo social.

O grupo – surgido em 1974, em Olinda, como braço artístico da pastoral da juventude da Arquidiocese de Olinda e Recife – foi expulso pelos beneditinos logo depois da estreia por encenar esquetes ligadas à homossexualidade, violência, massificação e drogas. Abrigados por cinco anos no Teatro Guadalupe, também na cidade histórica, os atores juntaram dinheiro e conseguiram criar sua própria sede no Complexo de Salgadinho, o Vivencial Diversiones, espaço de peças, apresentações músicas e shows de travestis que funcionou até 1983.

O desejo de reabrir o Vivencial 40 anos depois surgiu de Henrique Celibi. Cria da verve transgressora do grupo olindense, o ator descobriu sua potência artística mirando-se no espelho das travestis e transformistas que habitavam aquele ambiente vertiginoso da república irreverente.

Aos 14 anos, em 1979, ele fez sua estreia no cabaré teatral e entrou para o elenco sem papas nas línguas e vergonha no corpo. “Eu morava na Ilha do Maruim (periferia de Olinda) e na escola era chamado de ‘bichinha’. Nunca quis jogar bola; queria ser artista. Quando minha mãe morreu, fiquei sem ninguém, e o Vivencial me acolheu”, lembra, sem medo aparente de andar nas madeiras frágeis que substituem o chão inexistente do prédio.

Com o fim do grupo, Celibi passou a integrar equipes de outras companhias pernambucanas, seja como diretor ou figurinista, e criando personagens memoráveis do humorístico local, como Cinderela, vivido pelo ator Jeison Wallace, e sucesso de público no estado na década de 1990.


O espetáculo Cabaré Diversiones comemora os 40 anos do Vivencial.
Foto: Roberta Guimarães

Há 15 anos fazendo figurinos e adereços para o Grupo Experimental de Dança, que funciona num prédio maltratado no histórico Bairro do Recife, Henrique Celibi observava o casarão vizinho abandonado e vislumbrava fazer dele um espaço de arte. Entre as tantas puladas de muro para usar aqueles escombros como oficina de criação, o diretor pensava em reavivar o Vivencial ali, numa simbólica metáfora de reconstrução.

OCUPAÇÃO
O número 139 da Rua Vigário Tenório foi invadido há dois anos por Celibi e Guilherme Coelho, um dos fundadores do grupo mítico, numa “ocupação pacífica” – como eles chamam. Os donos do prédio sequer questionaram a invasão, e em breve a casa deverá estar legalmente nas mãos do grupo de teatro. “Essa casa é de uma senhora. Ela já sabe que estamos aqui, mas nunca procurou brigar por isso. Temos advogados resolvendo o processo e em breve o IPTU virá para o nosso nome”, explica Celibi.

Foram necessários seis caçambas de papa metralha e três caminhões para tirar os entulhos amontoados dentro do casarão. O trabalho foi feito por Celibi e Guilherme, ajudados, a partir de então, por Fábio Coelho, também ex-integrante do coletivo, e hoje morador do local.

As pretensões para a casa são generosas. No térreo, já ocupado por objetos de cenário e figurino, deverá existir um espaço de leitura e pesquisa de linguagem cênica. Acima, ainda sem chão, o mezanino se transformará num teatro para as apresentações das vivecas – como são chamados os integrantes do elenco. E o segundo andar, uma espécie de hostel, hospedará grupos e artistas que vierem ao Recife em turnê.

Como muitos dos prédios do casario que compõe o Bairro do Recife, este é mais um que grita por recuperação. O Vivencial pretende fazer do prédio uma ocupação teatral sonhada não só pelos integrantes do grupo, mas por muitos outros artistas pernambucanos que desejam potencializar o bairro como um centro de resistência cultural. Em frente à casa está o Espaço Cênicas; ao lado, o Grupo Experimental de Dança.

O projeto de criação aprovado no Prêmio de Fomento às Artes Cênicas da Prefeitura do Recife fez Celibi concretizar parte do seu sonho. Ele uniu um elenco de 10 pessoas para remontar o Cabaré Diversiones e gastou mais de R$ 10 mil do próprio bolso para colocar o espetáculo em cena outra vez – já que o pagamento do edital atrasou e ele não “deixaria as pessoas na mão”. Com essa dezena de artistas – a maioria atores de humorísticos populares e apenas uma ex-viveca, Sharlene, o trabalho estreou no final de agosto no Teatro Hermilo Borba Filho. “Era importante comemorar os 40 anos do Vivencial (celebrados no ano passado) fazendo uma montagem”, lembra o diretor.


Henrique Celibi, nos anos 1970, atuando no grupo teatral.
Foto: Acervo Vivencial

A VOLTA
A montagem, ainda sem data para voltar ao cartaz, lotou a plateia de gente ansiosa para rever – ou conhecer, no caso dos mais novos – o falado grupo tropicalista de quatro décadas atrás. Desse sucesso, parte se deve ao filme Tatuagem (2013), do diretor Hilton Lacerda, que lança luz sobre a subversão do grupo teatral, transformando o coletivo em pano de fundo para a história de amor entre o soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) e o ator Clécio (Irandhir Santos).

Sob direção de Henrique Celibi, o Cabaré une com sarcasmo esquetes antigas do grupo, costuradas com temas atuais, como a crise política brasileira, os preconceitos de gênero e a desvalorização da arte. Já a repressão que pairava como fantasma para os integrantes do grupo nos anos de ditadura militar agora é substituída pelo contexto em que o discurso conservador se apresenta tão forte como no passado.

“O espetáculo é um agradecimento ao grupo que me tirou de uma possível marginalidade. Se não fosse o Vivencial na minha infância, eu poderia ter seguido um caminho perdido como outros meninos que conheci”, afirma Celibi. Na peça, além de estar no elenco, ele foi um faz-tudo: dirigiu, fez cenário, figurino, coreografia e coassinou o texto.

Se um dia esteve à margem dos olhares da sociedade e dos próprios artistas do Recife, seja pelos seus deboches ou pela “falta de profissionalismo”, agora o Vivencial retorna em um momento de valorização. “Hoje somos santificadas, mas sempre fomos mesmo demônios”, brinca Celibi. “No passado, as pessoas faziam ‘beijinho no ombro’ para a gente, e nem todo mundo queria chegar perto do Vivencial. O elenco não era de atores profissionais e, por isso, nem sempre era respeitado”, conta.

O diretor lembra que ele e seus amigos brigavam pela igualdade e tinham a transgressão como arma de discurso. “A gente não queria que as pessoas fossem caretas. Muitas vezes, nas festas que aconteciam na república, em Olinda, a gente ficava de garçom, e quando via as pessoas morgadas, mexíamos na música e começávamos a tirar a roupa. A gente chocava todo mundo, transcendia a festa dos outros”, comenta, às gargalhadas.

Quarenta anos depois, a nudez ainda é algo que causa estranhamento, segundo Celibi, e, dessa vez, para o próprio elenco. No passado, o motivo era a censura; hoje, a religião. “Tive problemas com a nudez na peça. Quando falei da possibilidade de ficar nu em cena, alguns atores desistiram e os que ficaram só relaxaram depois da estreia”, lembra. “Tenho atores de famílias evangélicas, que não posso nem marcar nas fotos do Facebook. Mas o Vivencial sempre foi de transformar a realidade, e eles terminam sendo transformados”, completa ele, para quem o casario, com previsão de abrir as portas em 2016, servirá não só de ocupação de arte e oficinas culturais, mas de mudanças humanas. “O futuro, a gente quer que venha.” 

MATEUS ARAÚJO, jornalista, repórter do Jornal do Commercio.

Publicidade

veja também

Comer e descomer

Claudia Andujar: Entre a realidade, o sonho e a epifania

Tristes partidas

comentários