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Circuito: Laços musicais com os hermanos

Pesquisadores mapeiam o circuito da música independente da América Latina e as possíveis conexões entre esses artistas

TEXTO AD Luna

01 de Março de 2015

Dupla de jornalistas passou por festivais como o Contrapedal

Dupla de jornalistas passou por festivais como o Contrapedal

Foto Divulgação

Nós, brasileiros, vivemos uma situação paradoxal em relação aos nossos vizinhos que falam espanhol. Com exceções, sabemos pouco sobre o que é produzido no universo pop do Chile, Argentina, Uruguai, México, Colômbia, entre outros, comparada à nossa aproximação com músicos e bandas dos Estados Unidos e Reino Unido. A relação fica ainda mais restrita, se pensarmos no circuito independente. Foi com a ideia de conhecer melhor essa realidade que a jornalista Elayne Bione e o cineasta Alex Guterres, da Dozão Produções, partiram de Pernambuco e percorreram cinco nações da América do Sul.

A dupla produziu imagens de shows, bastidores e entrevistas com músicos, produtores e curadores de festivais como o Fest by Contrapedal (Montevidéu), Circulart (Medellín), Amplifica (Santiago do Chile), Festival del Bosque (La Plata), além dos eventos brasileiros Rec-beat (Recife), El Mapa de Todos (Porto Alegre) e o Festival de Música de Rua (Caxias do Sul). Eles também tiveram contato com artistas de outros locais, como Porto Rico, Panamá, Venezuela e Cuba.

Atualmente, Bione e Guterres trabalham na montagem do road-movie, que necessitará da captação de recursos para sua edição e finalização. O principal objetivo da dupla é poder voltar aos locais onde o documentário foi gravado para exibi-lo e estimular o debate acerca da (pouca) integração entre as cenas de Pernambuco, do Brasil e da América Latina. “Grande parte dos festivais que mapeamos tem, em sua programação, palestras, rodas de negócios, oficinas e debates sobre o mercado musical atual na América Latina. As primeiras viagens foram como uma pesquisa que foi se aprofundando, quando percebemos que poderia virar um documentário”, conta Elayne Bione.

De acordo com ela, em 2011, o Contrapedal recebeu pela primeira vez um artista brasileiro. No caso, Fernando Catatau, guitarrista cearense radicado em São Paulo. O trio carioca Autoramas desembarcou em 2014 no Vive Latino, realizado na cidade do México, inaugurando a participação de brasileiros no evento. “Na Colômbia, ano passado, a sergipana Coutto Orchestra foi a primeira a representar o Brasil no Circulart. O filme quer debater isso. Por que o Brasil não aparece mais?”, questiona Elayne.


A banda Descartes a Kant, formada em 2001, destaca-se no cenário musical mexicano.
Foto: Divulgação

Enquanto o filme não fica pronto, os dois resolveram criar um podcast voltado para a música da América Latina. O roadcast, como eles o apelidaram, é produzido, gravado e apresentado pela dupla. “Contamos algumas experiências ligadas às bandas que escolhemos na seleção musical. Nas duas primeiras edições, tocamos músicas do Uruguai, Chile, Argentina, Colômbia, Brasil e El Salvador. Além disso, recebemos convidados que também mochilam pelo mundo ou estão envolvidos com arte em geral”, detalha Elayne Bione. Para ouvir, basta acessar o link da Dozão no Soundcloud.

INÍCIO
O estímulo inicial para o projeto do filme surgiu em 2012, quando Bione e Guterres conheceram Gabriel Turielle. O uruguaio os convidou para trabalhar na equipe de comunicação do seu evento, o Fest by Contrapedal, em abril do ano seguinte. Lá, aproveitaram para registrar shows e trocar ideias com integrantes de bandas e produtores. Esses contatos os fizeram notar que a proposta de divulgação de cenas independentes era algo comum também em outros locais. “Percebemos que as mesmas bandas estavam circulando em festivais diferentes. Vimos também que os shows são apenas ‘a ponta do iceberg’”, expõe a jornalista, indicando a existência de uma cadeia produtiva da música independente de considerável amplitude.

Entre os aspectos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores, destacam-se a organização colaborativa e o profissionalismo demonstrado nos lugares por onde passaram. Há políticas públicas que estimulam e facilitam a circulação dos artistas por vários países. A infraestrutura apresentada também é algo que merece destaque. O citado Contrapedal, por exemplo, dura três dias, funciona com dois palcos, tenda eletrônica e abre espaço para a realização de palestras e workshops sobre o mercado da música. Ele foi criado em 2006, para celebrar o aniversário do selo homônimo. Os patrocínios partem de setores públicos e privados, o que garante a qualidade da programação, dos equipamentos de som, iluminação e de todos os outros itens que compõem grandes espetáculos musicais.

“Na Argentina, visitamos um festival em La Plata que reúne a música tradicional e folclórica local com artistas e bandas novas e independentes. A estrutura é de primeira, palcos enormes, som de qualidade, devido ao apoio das secretarias de cultura da província de Buenos Aires. Na Colômbia, também encontramos o mesmo movimento”, informa Alex. Em Santiago, capital do Chile, ele e Elayne assistiram ao debate realizado em uma feira de música no qual foi discutida a chamada “Ley dos 20%”. Como o nome já indica, ela prevê a execução de, no mínimo, 20% de música chilena nas cerca de 1.200 rádios locais. “A intenção é aquecer o mercado musical chileno e tentar diminuir a hegemonia das grandes corporações da música comercial. Muitos artistas nos disseram que essa seria a chance de conseguir tocar nas rádios do seu próprio país”, diz o videomaker.


Coutto Orchestra, de Sergipe, representou o Brasil no colombiano Circulart.
Foto: Divulgação

ELEMENTOS DE CENA
Rock, eletrônico, rap e ritmos tradicionais são os principais gêneros musicais presentes entre as diversas bandas que os documentaristas conheceram. No entendimento de Elayne Bione, as propostas são muito criativas e não ficam restritas a um estilo ou estética. “Percebemos também que o show está muito conectado com o visual. Quase todas as bandas, além de tocar, também utilizavam outros aparatos, como videomapping, figurino diferente, elementos teatrais e circenses, tudo misturado com a música”, comenta Alex Guterres.

Dentre os artistas que mais chamaram atenção, Elayne Bione destaca três nomes. A mexicana Descartes a Kant foi criada em 2001, em Guadalajara, e canta em inglês. “Os seis integrantes consideram o som que fazem como ‘punk rock cabaretero’. As frontgirls Dafne, Sandra e Ana Cristina hipnotizam o público. O show é um espetáculo teatral com muitos figurinos e as letras são bem interessantes”, aponta. O uruguaio Max Capote, que tocou no Rec-Beat do ano passado, é considerado um dos mais relevantes nomes do rock independente do seu país. “Ele é um personagem. Sobe no palco sempre de preto, com óculos escuros e com um copo de uísque na mão.”

Do Brasil, mais especificamente de Sergipe, Bione exalta a complexidade sonora da Coutto Orchestra, que está na estrada há quatro anos. “O que nos impressiona no som deles é o uso dos ritmos regionais como a taieira, o maracatu de brejão, marujada e o forró em diálogo com o tango, a cumbia, o balkan, as valsas, as marchas, o house e o jazz manouche. No palco, os instrumentistas unem aparatos tecnológicos à sanfona, a percussões, sopros, vozes e cordas”, descreve.

O público que frequenta os festivais visitados costuma ser aberto a novidades. “Em todos os festivais, as pessoas, assim como nós, estavam lá para conhecer a proposta da banda que chegava de outro país. E nem todos eram shows gratuitos. Apenas alguns”, destaca Elayne Bione.

De acordo com ela, ao contrário de muitos brasileiros, as pessoas com as quais conversaram demonstram conhecimento, admiração e interesse pela música feita em nosso país. Essa poderia ser uma oportunidade para artistas e grupos do Brasil se comunicarem e armarem participações em festivais e/ou shows em parceria com produtores e bandas de países da América Latina. “Nesse âmbito da música independente, o Brasil está começando a entender a conexão latina e, aos poucos, entrando nesse circuito. Infelizmente, não por iniciativa das bandas, mas, sim, dos agenciadores e programadores, que reconhecem a importância do Brasil no contexto e terminam apadrinhando algum artista”, expõe Bione.


Max Capote é um dos nomes mais relevantes do rock independente uruguaio.
Foto: Divulgação

REC-BEAT
Além do El Mapa de Todos, que vai promover sua sexta edição em 2015, Elayne Bione e Alex Guterres destacam o Rec-Beat. O festival, que integra a programação oficial do carnaval do Recife, completa duas décadas este ano. “Ele é o único, aqui em Pernambuco, que mostra um pouco dessa proposta de integração entre artistas da América Latina”, observa Elayne.

Criado pelo jornalista e produtor paulista Antonio Gutierrez, o festival tem mantido a tradição de convidar sempre duas ou três bandas latinas ao Recife. “Creio que o Rec-Beat seja o pioneiro em fazer isso no Brasil. Nós somos ainda muito fechados para a produção latina”, lamenta Gutierrez, referindo-se aos brasileiros.

Todos os anos, ele viaja seis, sete vezes, para feiras de música em países da América do Sul, a fim de conhecer novos grupos e estabelecer conexões com produtores. “As pessoas de lá gostam muito da música feita no Brasil. Acho que deveriam existir mais políticas culturais por aqui, para que esse mercado seja mais explorado”, sugere.

Elayne Bione e Alex Guterres apontam certo desinteresse de bandas pernambucanas em fazer parte da cena latina. Isso porque, em dois anos de pesquisa, não identificaram nenhum artista do estado que tenha desenvolvido laços com outros países das Américas. A prioridade tem sido investir no mercado musical europeu. “Porém, com as mudanças no mercado econômico de lá, a América do Sul assume uma posição de novo mercado. A tendência será os artistas focarem seu trabalho no universo latino-americano”, acredita Bione.

CANAL ON LINE
Criado em abril de 2012, o site Yo No Hablo Su Lingua é uma boa fonte para aqueles que desejam conhecer cantores e grupos chilenos, argentinos, uruguaios, colombianos, mexicanos, porto-riquenhos, salvadorenhos, peruanos, entre outras nacionalidades. O veículo é mantido pela mineira Laís Eiras, que tem observado uma abertura maior dos brasileiros em relação à música em espanhol e à cultura dos países vizinhos. “Ainda há muito caminho a percorrer, mas, em relação ao início, percebemos uma receptividade maior”, comenta.

Em suas viagens, Laís se surpreende com o constante desenvolvimento das cenas latinas. Do México, ela destaca a qualidade das bandas de rock e as propostas musicais variadas. A Costa Rica vive um momento de profusão de bandas independentes. Os colombianos demonstram profissionalismo em tudo que se refere à cadeia produtiva da música. “O Chile teve um momento bem efervescente e mantém propostas interessantes. O Uruguai é para ficar perdido. Todos os dias existem bons eventos acontecendo”, conta.
Indagada se já ficou “rica” com o site, Laís Eiras se diverte com a pergunta e responde: “Milionária! Já não sei mais o que fazer com tanto dinheiro”, brinca. “A motivação é mesmo a paixão e ver que o objetivo tem sido alcançado; ainda que a cena latina venha se tornando mais unificada, a pasos de hormiga’” , arremata. 

AD LUNA, jornalista.

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