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Coletânea: Para entender uma filmografia

Em uma caixa com 20 DVDs, 'Antologia do cinema pernambucano' reúne 200 filmes de momentos históricos importantes da cinematografia local

TEXTO Luciana Veras

01 de Fevereiro de 2015

Imagem Arte sobre capas de coletâneas

Em A misteriosa chama da rainha Louana, publicado em 2005 no Brasil pela editora Record, o escritor italiano Umberto Eco descreve a trajetória de Yambo, um livreiro que, aos 60 e poucos anos, descobre-se portador de uma condição tal, que lhe surrupia a memória mais recente – nome da mulher, das filhas, endereço, ocupação, amigos próximos e mesmo seus flertes – e lhe deixa apenas com parcas recordações da infância. Em determinado instante de sua busca pelas lembranças, e numa espécie de cruzada para recuperar, e emular, a sensação de frescor e descoberta do primeiro amor, o protagonista vaticina: “quem não tem memória não tem alma”.

E é da preservação do que já foi feito, de tudo que já é história, que se erige o projeto Antologia do cinema pernambucano, uma caixa com 20 DVDs a reunir pouco mais de 200 filmes rodados no estado, em vários momentos dessa pluralidade que é o audiovisual local. São duas centenas de obras que radiografam desde o período do Ciclo do Recife – os clássicos Aitaré da praia (1925), de Gentil Roiz, e A filha do advogado (1926), de Jota Soares, estão lá – à produção contemporânea, com curtas-metragens que incitaram reflexões e/ou saíram angariando troféus em diversos festivais, a exemplo de Até o sol raiá (2007), de Fernando Jorge e Leandro Amorim; Superbarroco (2008), de Renata Pinheiro; Recife frio (2009), de Kleber Mendonça Filho; Aeroporto (2010), de Marcelo Pedroso; Mens sana in corpore sano (2011), de Juliano Dornelles; A onda traz, o vento leva (2012), de Gabriel Mascaro; e Au revoir (2013), de Milena Times.


Isabela Cribari e Germana Pereira aprovaram o projeto em Lei de Incentivo.
Foto: Divulgação

Mais: a explosão do super-8 é documentada com diversos títulos de Jomard Muniz de Brito e Fernando Spencer (entre eles, Vivencial I, de 1974, Recinfernália, de 1978, e Olho neles, de 1982, do primeiro; e RH positivo, de 1978, e Almery e Ary: Ciclo do Recife e da vida, de 1981, do segundo). O box traz o raro curta Elástico (1992), um registro da parceria criativa entre Lírio Ferreira e Paulo Caldas que desembocaria naquele considerado o marco zero da retomada do cinema pernambucano - Baile perfumado, de 1996. E nele também encontram seu lugar o experimentalismo de Paulo Bruscky e Daniel Santiago no final dos anos 1970, início dos anos 1980, a estreitar as relações entre artes visuais e cinema; e os curtas de cineastas já acostumados aos sabores e dissabores da direção de um longa-metragem, como Adelina Pontual, Camilo Cavalcante, Cláudio Assis, Daniel Aragão, Daniel Bandeira e Marcelo Gomes.

Ou seja, ao descortinar reminiscências e histórias recentes, a Antologia, tal qual foi pensada pelas produtoras Germana Pereira e Isabela Cribari (à frente, respectivamente, da Tangram Cultural e da Set Produções Audiovisuais), funciona para injetar um pouco mais de “alma” nessa instituição apreciada e discutida que é o cinema pernambucano. “Precisamos olhar para os elos mais enfraquecidos da cadeia produtiva”, acredita Cribari, que produziu vários filmes, como Entre paredes (2005), de Eric Laurence, presente na coletânea. “Temos que tirar o foco da produção e pensar na exibição, na difusão e na preservação. As pessoas só querem fazer filmes, sem se preocupar onde exibir e, principalmente, onde guardar”, complementa.

Em 2012, ela e Germana aprovaram a criação do site Cinema pernambucano no Funcultura, mecanismo de incentivo do Governo de Pernambuco. “Começamos a cadastrar os filmes, porque vimos que ninguém se lembrava mais de nada. Como assim? O cinema pernambucano está na maior visibilidade, em alta, e ninguém sabe quem faz o quê? Tinha cineasta que nem lembrava onde estavam seus primeiros curtas. Por outro lado, quantas vezes eu, como produtora, recebia um telefonema de gente de fora que vem filmar aqui e queria indicação de profissional para trabalhar?”, recorda Cribari. Partindo desse propósito funcional, o site cresceu para se tornar uma janela para essa produção mal-arquivada.


Clássico do Ciclo do Recife, Aitaré da Praia, integra a caixa. Foto: Reprodução

De um outro projeto inscrito e aprovado no Funcultura, sua subsequente injeção de recursos e uma parceria com a Ateliê Produções (também com o selo do governo estadual), nasceu a Antologia do cinema pernambucano. A tiragem, de mil caixas, será distribuída gratuitamente e não comercializada. “A ideia sempre foi não comercial, mas de preservação da memória e democratização do acesso a essa produção. Queremos municiar todos os cineclubes do estado, que são mais de 150, para que possam exibir – e as pessoas possam conhecer –, e também distribuir para os cursos de cinema, cinematecas do país, Ministério da Cultura e Socine”, detalha Isabela Cribari, aludindo à Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual.

A curadoria do acervo é de Rodrigo Almeida, que mergulhou nas centenas de filmes já telecinados e passou “meses e meses assistindo a esse material para selecionar as produções mais representativas de cada período – Ciclo do Recife, Super 8, Retomada”, como descreve no texto do encarte. “Terminei optando por separar em três blocos os resultados desse imenso material de referência”, acrescenta. Os três eixos começam com Cinema/transcinema, com incursões metalinguísticas, experimentações estéticas e intercâmbios com outras linguagens artísticas – entram aí desde filmes de Vincent Carelli, mais conhecido pelo projeto Vídeo nas aldeias, até uma parcela representativa da obra da Telephone Colorido, produtora que se destacou no início dos anos 2000, em especial pelo iconoclasta Resgate cultural – o filme (2001).

O segundo eixo, Câmera/cidade, traz olhares sobre o Recife, suas periferias, contradições urbanas e conflitos entre marginalidade e violência – Veneza americana, joia de Ugo Falangola e Jota Cambieri, rodada em 1924, encabeça a lista, que inclui ainda Recife 0 km (1980), de Celso Marconi, A perna cabiluda, de Beto Normal, Gil Vicente, João Junior e Marcelo Gomes, de 1995, e Pausas silenciosas (2013), de Mariana Lacerda. O terceiro é Áridos movies, cujo foco se afasta da capital para incidir sobre cultura popular, Zona da Mata, Sertão e reflexões sobre aspectos regionais. Desse último subgrupo constam tanto Oh, segredos de uma raça (1979), de Fernando Monteiro, como Acercadacana (2010), de Felipe Peres Calheiros, passando por Sertão de acrílico azul piscina (2004), de Marcelo Gomes e Karim Ainouz, Ave maria ou a mãe dos sertanejos (2009), de Camilo Cavalcante, tendo Jurando vingar (1925), de Ary Severo, como uma das maiores preciosidades.


O filme Pausas silenciosas se insere no eixo Câmera/cidade. Foto: Reprodução

Realizadores louvam a oportunidade de aproximação com esse extrato significativo do conteúdo produzido no estado. “Achei superinteressante a recente discussão proposta pela Continente sobre o que seria o cinema pernambucano (edição de janeiro/15). Ter um monte de filmes relevantes à disposição é um passo para perceber coisas em comum, o que antes não seria possível”, aponta Chico Lacerda, diretor, membro do coletivo Surto e Deslumbramento e pesquisador, na compilação com quatro curtas – Hipnose para leigos (2005), O incrível trem que alçou voo (2008), A banda (2010) e Estudo em vermelho (2013).

Eisenstein, curta de 2006 dirigido por Leo Lacca, Tião e Raul Luna, é o representante da Trincheira Filmes na Antologia do cinema pernambucano. Para Tião, que reservou outros curtas seus (a exemplo de Muro, de 2008) para o DVD de comemoração dos 10 anos da produtora, a iniciativa merece aplausos. “Além de ser abrangente, trazendo muitos filmes de diferentes épocas, o projeto dá a chance de qualquer um acessar boa parte de uma produção que é muito falada, mas nem sempre muito vista. A maioria desses filmes não pode ser encontrada. Agora, podendo ser vistos, é como se existissem de novo”, comenta.

Já Tuca Siqueira, que contribui para a coleção com Homine – costurando identidades urbanas (2003) e O caso da menina (2008), sente-se honrada por participar. “Esses filmes são meu primeiro documentário e minha primeira ficção. Tenho a leitura e a clareza de que são muito verdes, de descoberta de cada linguagem, de começo de tudo, da minha descoberta de que audiovisual é uma construção coletiva. Fora isso, tenho um enorme sentimento de curiosidade pelo conjunto, de expectativa até, para ver filmes que nunca vi”, diz.


Superbarroco, curta de Renata Pinheiro, está entre os contemporâneos. Foto: Reprodução

A realizadora Mariana Lacerda atenta ainda para a relevância material desse “gesto de salvaguarda”. “Nossos arquivos digitais são tão frágeis”, lamenta. “Gosto também da reunião de títulos distintos, porém postos lado a lado, pois acho que quando duas narrativas se intercruzam há uma possibilidade de surgir uma terceira narrativa. A coleção cede espaço ainda para filmes pequenos, como os meus, que tocam em questões pertinentes e caras à nossa sociedade”, ilustra a diretora.

Em tempos de excesso de imagens, de profusão de prêmios e de constantes debates sobre convergências e divergências do cinema pensado e produzido em Pernambuco, ter acesso a esse material catalisa a preservação da memória e, como diria o Yambo de Umberto Eco, afaga a alma. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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