Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Día de los muertos: Para festejar os que já se foram

Com música, comida e flores, Cidade do México homenageia seus falecidos, costume que remonta a vários povos indígenas mesoamericanos, de pelo menos três mil anos

TEXTO Carolina Albuquerque

01 de Novembro de 2014

Foto Divulgação

Ao chegar ao Mercado de Jamaica, ou das Flores, na Cidade do México, deparamo-nos com o caos encontrado nos muitos mercados públicos Brasil adentro. Lixo empilhado, tendas ocupando a calçada, o fluxo intenso de pessoas em todas as direções. Mas estamos àsvésperas do Dia dos Mortos, tempo de preparar o altar para lembrar e homenagear um falecido querido. Nessa época, visitar o mercado se torna uma experiência única. Os caminhões descarregam montanhas de cempasúchil, nome dado à flor onipresente em qualquer ornamento durante essa festividade, vivida da noite do dia 31 de outubro ao 2 de novembro. A homenagem aos que partiram tem perfume e cores vibrantes: laranja, amarelo, rosa, fúcsia. Mulheres, crianças e homens saem com verdadeiros carregamentos dessas flores que, segundo a crença, guiam a alma dos mortos.

Nesses mercados regionais, espalhados por todo o país, encontram-se todos os artigos tradicionais da data. As calaveritas de açúcar e também de chocolate. Coloridos picados de papéis com as imagens das catrinas. A maquiagem para a pintura do rosto. Pão dos mortos, de vários tamanhos, os doces tradicionais à base de frutas.

A crença popular diz que, na noite do dia 31, chegam as almas das crianças. Na manhã do dia seguinte, o 1º de novembro, a oferenda se presta a agradar os chiquitos. Com flores brancas e delicadas, o altar se põe com doces, calaveritas de chocolate, frutas em miniatura, um punhado de açúcar, o tradicional pão dos mortos, polvilhado com açúcar e canela, a escultura do cachorro da mitologia mexicana (el izcuintle). Tudo no esforço de alegrar o café da manhã deles.


Atividades culturais do Dia dos Mortos concentram-se nas praças e incluem desfiles e fantasias. Foto: Divulgação

Mesmo com muita interferência da cultura norte-americana do Halloween, ainda se sente o “espírito” da tradição pré-hispânica no Día de los Muertos nas ruas da capital. Alguns já começam a abrir a caixinha do seu altar particular e se preparar. As bandeiras recortadas em papel colorido em vários formatos e tamanhos começam a ser vistas nas janelas, portas, vitrines de lojas, em restaurantes, museus, cafés. Ouve-se: “Vai pôr o altar este ano? Para quem?”. Uns, os mais jovens, principalmente, fazem o altar para cantores e artistas famosos já falecidos, como Jonh Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin e outros. Os mais velhos ou mais dados à tradição, costumam colocar para seus entes queridos ou amigos falecidos. Os canteiros da cidade também mudam a jardinagem, dando lugar às flores típicas da data. O Zócalo, praça central da capital, ganha esculturas de caveiras mexicanas. As iguarias gastronômicas, como a galinha ao molho de cacau (imperdível) e os tamales (espécie de pamonha, embrulhada em folhas de bananeira) são pratos que não podem faltar às refeições.

PUEBLA
A duas horas de ônibus da Cidade do México, Puebla, com 1,5 milhão de habitantes, ainda mantém um ar de cidade pequena. O poder municipal tem um calendário especial para o Día de los Muertos, que inclui teatro popular (inclusive no cemitério), desfile de calaveras, concurso de fantasia e altar, apresentações de dança e música tradicional, exposições de arte que fazem referência à festividade e releituras do simbolismo presente à comemoração. É para a praça central – encontrada em várias cidades México adentro – que todos convergem. Principalmente nos três principais dias da festividade, o fluxo de pessoas aumenta enormemente.


Foto: Divulgação

A data guarda o sincretismo religioso, tão integrado também à construção da sociedade brasileira. O ato de cultuar os mortos remonta a vários povos indígenas mesoamericanos de três mil anos, pelo menos. No contato com missionários, as populações locais passaram a agregar elementos da religião católica, criando cerimônias sincréticas. Por isso, nessa data, não causa espanto encontrar uma mesa de oferenda (que carrega na aura mística profana) ao visitar igrejas e catedrais católicas. Imagens de santos e do purgatório são colocadas em muitos altares. A cidade também faz uma mostra de altares, aberta à visitação, que tem lugar no Instituto Municipal de Arte y Cultura de Puebla (IMACP). As oferendas são uma aula sobre a tradição dos pueblos mágicos, aqueles que ainda guardam a tradição indígena, no estado de Puebla. Os ornamentos vão dos mais simples, compostos da simbologia básica, aos de grandes dimensões. Na exposição, são lembrados defuntos anônimos e também cantores, artistas, escritores e personagens que fazem parte da cultura e história poblana e mexicana.

Na noite do dia 2, dedicada aos finados adultos, o Zócalo fica repleto de pessoas devidamente fantasiadas e maquiadas. Crianças, jovens, famílias inteiras entram no espírito do festejo. Muitas atividades culturais acontecem ao mesmo tempo, seja em ambientes fechados ou na rua.

Na nossa visita, chamou a atenção um grupo de artistas que se intitula Coletivo Los Tamalistas, com oito anos de estrada. O nome é uma alusão à iguaria chamada tamales, um prato mesoamericano. Os membros do coletivo passam o ano construindo as caveiras gigantes e saem em desfile pela cidade. Por princípio, não recebem nada por isso. A intervenção artística é um alerta, como explica um dos integrantes, José Isaías Bréton, para a necessidade de se abrir espaços democráticos dedicados à arte popular.


As bandeiras coloridas e recortadas enfeitam fachadas, ruas e altares. Foto: Divulgação

O desfile passa pelo centro histórico e vai até a sede do coletivo, localizada em um bairro pobre. Lá, o palco fica aberto a bandas locais e, ao final, os tamales são distribuídos gratuitamente entre o público presente. O coletivo também tem um viés social, pois agrega crianças e jovens ao esforço de repassar o saber fazer das calaveritas gigantes.

EL PANTEÓN
O cemitério, ou el panteón, em nada carrega o espírito mórbido e de lamentação comum a outras culturas nessa data. É o destino de muitas famílias, que fazem vigília e prestam as homenagens aos seus mortos. Para se ter uma ideia, em alguns dias, durante a festividade, o horário é alargado, ficando o cemitério aberto até a madrugada. Muitos chegam ainda bem cedo e começam o cuidadoso manejo de limpar e adornar. Todos os dias, existe uma programação cultural para animar os que passam por ali. Logo à entrada, são montadas várias barracas onde se vendem flores e comidas aos visitantes. O fluxo é incessante.


Tumbas recebem ornamentos coloridos, que contrastam com o ambiente acinzentado.
Foto: Divulgação

As tumbas recebem um ornamento especial durante esse tempo de festa, que foi considerada em 2003, pela Unesco, Patrimônio da Humanidade. Flores, papéis picados, comidas, frutas e todo tipo de adorno são depositados nas tumbas. O colorido se impõe sobre o cinzento comum a qualquer cemitério. São girassóis, crisântemos, margaridas e, principalmente, as flores de cempasúchil.

Percebem-se, a todo momento, famílias inteiras, da criança ao mais idoso, reunidas em volta dos seus antepassados. Fazem suas rezas com resignação, mas não raro se ouvem gargalhadas. Diz a tradição que esse momento também é dedicado a lembrar os causos e cenas engraçadas do defunto. Não há espaço para lamentação.

Um grupo de jovens munidos de uma viola também circula pelo local, disposto a ganhar um trocado para tocar a música preferida do ente querido que se foi. Outros trabalham com a tarefa de colocar a mão na massa. Homens ficam estrategicamente situados a cada esquina do cemitério, com pás e baldes. No ritual do Dia dos Mortos, a terra que encobre o caixão é renovada, trocada por uma fértil, adubada e molhada. Nesse caso, as tumbas com a terra revirada não são violação, mas uma homenagem. Assim, as plantas que são trazidas não morrem, florescem. 

CAROLINA ALBUQUERQUE, jornalista, repórter de política do Jornal do Commercio.

Publicidade

veja também

Iberê Camargo: Um gigante e sua solidão

'Boa sorte': Um conto do primeiro amor

Um olhar sobre a nossa belle époque gastronômica

comentários