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Cobogó: Elemento chave da construção moderna

Usado para facilitar a ventilação e a iluminação de edificações, esse objeto genuinamente pernambucano encontra usos na arquitetura assinada e na vernacular, em que se aclimatou bem

TEXTO ADRIANA DÓRIA MATOS
FOTOS JOSIVAN RODRIGUES

01 de Maio de 2014

Foto Josivan Rodrigues

Alguns fatos transformam a nossa vida e deixam testemunhos. Isso aconteceu a Josivan Rodrigues, Antenor Vieira e Cristiano Borba que, juntos, realizaram o belo Cobogó Pernambuco, livro sobre o encontro entre um comerciante português, um importador alemão e um engenheiro pernambucano que engendrou a criação do elemento construtivo tornado marca registrada da arquitetura moderna brasileira e, por extensão, tropical: o cobogó. A ideia de encontro fica mais evidente quando sabemos que o nome de tal objeto resulta da junção das primeiras sílabas dos sobrenomes de cada um deles: Amadeu Coimbra, Ernst Boeckmann e Antônio de es.

Bem podemos imaginar, naqueles fins dos anos 1920, o alemão suando com o calor das terras daqui e matutando duas coisas: como atenuar aquela situação desagradável e ainda ganhar algum dinheiro. Em conversa com o português – que ele tinha conhecido ainda na Europa e de quem se tornara sócio –, Boeckmann lembra uma viagem à Índia, quando pôde observar certos balcões (conhecidos como jharokas) com elementos vazados (as treliças), que ajudavam na ventilação e resguardo das casas. Aquilo levou Coimbra à memória dos muxarabis árabes, tão bem apropriados pela arquitetura portuguesa.


No livro Cobogó Pernambuco, Josivan Rodrigues empreende vasto registro do elemento

Quase ao mesmo tempo, os dois concluíram: eram recursos muito semelhantes aos usados em duas casas de influência moura localizadas na Cidade Alta de Olinda. Bastava adaptar essas boas ideias dos árabes e indianos – que bem conheciam o calor – aos materiais de então. O alemão importava cimento, estruturas de ferro, entre outros produtos da industrialização, que serviriam perfeitamente àqueles fins. Era encontrar alguém que pusesse em prática a proposta. O terceiro elemento viria a ser o engenheiro pernambucano Antônio de Góes, que concebeu os tijolos vazados fartamente apropriados pela arquitetura moderna, numa invenção com carimbo pernambucano.

A patente do “novo systema de blocos de concreto para construção denominado ‘blocos perfurados COBOGÓ’” foi registrada em 1929 e, cinco anos depois, o elemento construtivo seria usado de forma plena e extravagante em projeto do arquiteto carioca, radicado no Recife, Luiz Nunes. Se a Caixa D’água de Olinda contrasta hoje com as edificações coloniais do Alto da Sé, dimensione isso nos anos 1930... Foi um projeto tão criticado, à época, como têm sido hoje os de espigões envidraçados erguidos prodigiosamente no Recife. Mas, como tudo está relacionado às circunstâncias políticas e econômicas, o cobogó foi se firmando entre os construtores e especialistas hegemônicos do período, a despeito das reações negativas iniciais à Caixa D’Água.



Como sintetiza o arquiteto Cristiano Borba, na introdução ao Cobogó Pernambuco, os profissionais se apropriaram de elementos da tradição arquitetônica associados às características climáticas locais (sobretudo considerados os fatores luz e vento), à redução de custos e à industrialização dos processos construtivos, numa correlação que resultou numa “linguagem própria para a arquitetura moderna local, sintonizada com o discurso da modernidade brasileira deflagrado desde a Semana de Arte Moderna de 1922”.

Se, de início, o cobogó foi utilizado em edificações “luxuosas”, assinadas por arquitetos renomados, com o tempo, ele foi ganhando popularidade, porque cumpria exatamente as funções a que se destinava desde o início: sendo barato, ajudava o cidadão comum a iluminar e ventilar sua residência com o simples recurso de aplicar no muro, na fachada e nas paredes da casa aqueles tijolinhos de diferentes tamanhos, materiais e formas geométricas que, ainda por cima, permitiam certa abertura entre o ambiente privado e o público (aliás, como observamos nos muxarabis árabes e jharokas indianas, cujo princípio era o de também “ver sem ser visto”). E mais, não esqueçamos, os cobogós poderiam servir a fins estéticos, compondo ricos adornos e paisagens construídas.

CATALOGAÇÃO VISUAL
Motivado pela “estética do cobogó”, o fotógrafo Josivan Rodrigues deu início à pesquisa imagética, que resultou em Cobogó Pernambuco. O projeto foi iniciado formalmente em 2010 (o livro foi lançado no segundo semestre de 2013), mas desde 2005 Josivan “anotava” mentalmente os lugares onde havia exemplares atraentes, no que se refere aos padrões gráficos e às tipologias. Ele só passou a fotografá-los quando encontrou o arquiteto Antenor Vieira (falecido antes da impressão do livro), que trabalhava em preservação de sítios históricos, com quem estabeleceu os critérios da publicação.

Com uma favorável propensão colecionista, Josivan Rodrigues passou um ano e meio registrando variados tipos de cobogós no Recife e em Olinda, no centro e na periferia. As duas ocorrências lhe interessavam: tais elementos aplicados na arquitetura vernacular e na arquitetura assinada, nos marcos arquitetônicos da cidade. Com o material registrado em mãos, a edição foi dividida em duas narrativas distintas e complementares, a fotográfica e a textual. Assim é que esse trabalho atingiu objetivos oportunos diante da escassez de publicações do gênero. Primeiro, pelo destaque do objeto e pela qualidade das fotografias, evidencia a função estética do cobogó, sua “poética”, com escreve Borba. Depois, serve como um testemunho inequívoco sobre a invenção pernambucana, esclarece sua origem, seus usos (a propósito, os pesquisadores encontraram, registraram e reproduziram no livro cópia da patente do produto), isto, por especialistas, os autores arquitetos.


À época em que foi construído, em 1934, o edifício Caixa d'Água recebeu críticas

Em suas andanças e registros, Josivan foi percebendo as idas e vindas no uso do elemento vazado na arquitetura local, durante o século 20. Ele constatou, por exemplo, que raras vezes o cobogó encontra protagonismo, sendo mais comumente encontrado nos bastidores, em corredores, áreas de serviço, em escadas de edifícios.

Também de uma coisa se sabe: muitas casas do Recife que destacavam o cobogó em suas fachadas e varandas foram demolidas. Um exemplo recente de desvalorização do cobogó foi a demolição do revestimento, conhecido como “Véu de Noiva”, que Luiz Nunes realizou – sob encomenda dos proprietários –, em 1959, para o edifício Luciano Costa, localizado à Rua Marquês de Olinda, no Bairro do Recife. Hoje, o prédio ostenta sua fachada eclética original, malconservada.


Formas de metal em desenhos variados recebem o preparo de cimento, que se tornará cobogó

O olhar crítico do fotógrafo o levou a considerações sobre como a arquitetura atual contrasta com aquela de baixo impacto ambiental que estava sendo proposta pelos modernos. Ele classifica a contemporânea como uma “arquitetura de confinamento” em estufas de vidro e ar-condicionado.

Então quer dizer que o cobogó é um elemento histórico em vias de extinção? Podemos dar uma resposta negativa a essa pergunta, quando observamos que há pessoas interessadas no uso desse material construtivo e que é possível encontrar fabricantes do produto, as duas pontas fundamentais para que ele continue a existir. Seja apropriado por populares ou por aqueles que querem dar às suas edificações um ar vintage, o cobogó persiste também entre pesquisadores e curiosos que – com a contribuição de gente como os autores de Cobogó Pernambuco – encontram nesse simples elemento vazado uma relação com a história e a arquitetura do Brasil antigo e de várias culturas que nos são relacionadas. 

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora-chefe da revista Continente.
JOSIVAN RODRIGUES, fotógrafo.

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