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Minha tarde de herói

TEXTO José Cláudio

01 de Abril de 2014

'A Virgem com o Menino e anjos', de Jean Fouquet. Óleo sobre madeira, 1450, 91 x 81 cm. Museu de Belas Artes de Antuérpia

'A Virgem com o Menino e anjos', de Jean Fouquet. Óleo sobre madeira, 1450, 91 x 81 cm. Museu de Belas Artes de Antuérpia

Imagem Reprodução

Fui fabricado antes da guerra, como costumava dizer Paulo Vanzolini, guerra de 38 a 45, sendo eu de 32 e Vanzolini de algum tempo antes. Durante a guerra não houve Copa do Mundo. A de 38 consagrara Leônidas, o Diamante Negro, e outros, Nariz, Fausto, o goleiro Batatais, nomes a ecoarem até 1950 nas nossas mentes infantis. Meu pai odiava esse tal de “fitibó”, como os matutos diziam: engraçado ser feet (fit) o plural de foot (fut) em inglês, como se a voz inculta apenas divergisse em questão de número da que prevaleceu. Mesmo meu pai, odiando futebol, empregava o adjetivo “batatal” a respeito de qualquer assunto, indicando uma coisa de qualidade, onde não havia como duvidar: “Ali é batatal”, por exemplo, sobre um freguês pontual nos pagamentos, ou um trabalho bem feito.

Realizada no Brasil, a Copa de 50, eu com 18 anos, a primeira depois do longo jejum da guerra, terminou no chamado “maracanãzaço”. Final Brasil x Uruguai. O Brasil jogando pelo empate. É comum time que joga pelo empate perder. Mas ninguém no mundo acreditaria que o Brasil perdesse, um time que tinha o pernambucano Ademir, conhecido como Queixada, por causa do queixo comprido, o meio-de-campo Danilo, que saiu de campo chorando, o goleiro Barbosa, considerado grande goleiro até aquele dia. Ter engolido aquele gol foi sua pena de morte, como ele próprio declarou, porque toda pena no Brasil acaba, menos a dele, como de fato durou até o seu falecimento. A certeza era tanta da vitória do Brasil que no segundo tempo os jogadores brasileiros entraram em campo a camisa de campeão por baixo da outra. Dizem. Ghiggia, autor do gol, como Barbosa falecido há pouco, disse: “Somente três pessoas calaram o Maracanã: o papa, Frank Sinatra e eu”. Nunca consegui torcer por nenhum clube, tanto porque não encontrava eco dentro de casa como, principalmente, pela derrota de 50.

Ao chegar em Roma, Dia de Finados, 57, na mensa onde almoçava me falavam de um tal de “Zulinho”, jogador brasileiro da Fiorentina, isto é, Julinho. Como no alfabeto italiano não tem a letra j, pronunciam como se em português se escrevesse com z (o z italiano é pronunciado sempre tz ou dz, qualquer coisa assim).

Um belo dia, não lembro mais a cidade, meados de 58, um papà albergatore (papai albergador), se fosse mulher mamma albergatrice (ixe), título que se dava ao senhor que tomava conta do albergue da juventude (albergo della gioventù), me convidou para ver um jogo de futebol na televisão. Como nunca tinha visto televisão, aceitei o convite, mais para ver a televisão do que para ver o jogo. Chegamos num bar, o papà solenemente vestido de paletó, gravata e capa se responsabilizando pela consumação mínima, qual ingresso, talvez para exibir esse bicho raro na época, um brasileiro, no meio da torcida maciçamente anglófila diante da derrota do Brasil dada como certa. O mais exaltado era um professor de história da arquitetura de quem eu era aluno na Accademia di Belle Arti de Roma, que, braços levantados, andando de cócoras para não atrapalhar a visão dos sentados atrás, gritava diante da televisãozinha preto-e-branco encarapitada na geladeira: Lo fanno! Lo fanno! (vão fazer, vão fazer), toda vez que a Inglaterra ia para cima do Brasil. Mas parece que o jogo ficou no 0 x 0. Por isso, como vim a saber anos depois, Feola substituiu Mazzola por Pelé, que chegou para ficar.

Continuei ignorando totalmente essa tal de Copa. A Copa não me ignorava, porém. Uma tarde em Veneza, voltava no vaporetto, ônibus aquático como podia ter aqui no Recife, para o albergue na Ilha da Giudecca, quando, no pátio amplo onde desembarcávamos, uns meninos batiam bola, já quase no escuro. Um deles veio rebatê-la junto de mim dando de calcanhar e gritou: “I brasiliani fanno così!” (os brasileiros fazem assim). Perguntei-lhe por que dizia isso e ele, já se distanciando, respondeu: “Brasile a vinto la Russia!” (o Brasil venceu a Rússia). Parece que a Rússia era o bicho-papão do torneio àquela altura. Mas só senti o tamanho do feito quando, ao entrar no salão do albergue, vi todo mundo falando nisso. O porteiro do albergue, um rapaz agalegado do cabelo meio ruim, diríamos sarará se fosse brasileiro, me acenou de uma espécie de cátedra ou púlpito de madeira onde ficava, gritando cheio de entusiasmo: “Gárrinca! Péle! Dídi! Váva!” Demorei para entender que se tratava de Garrincha, Pelé, Didi e Vavá.

Mas nem isso conseguiu me contagiar. O meu time favorito era formado por Carpaccio, Tiziano, Giorgione, Tintoretto.

Murilo Mendes, professor de literatura brasileira em Roma, casado com Maria da Saudade Cortesão, filha do grande crítico literário português Jaime Cortesão, gostava de reunir brasileiros e italianos em sua casa no Viale Castro Pretorio (Avenida Castro Pretório). Num desses saraus conheci o maior pintor italiano da época depois da geração de Sironi, Carrá, Morandi, Casorati, De Chirico: Emilio Vedova (Emílio Védova). Murilo Mendes considerava A Virgem com o Menino e anjos de Jean Fouquet o mais belo quadro que já foi pintado, o mais belo que já existiu, fazendo-me prometer ir lá vê-lo no Museu de Antuérpia. Com esse fito, cheguei uma tarde de domingo em Louvain, na Bélgica, ou Lovaina em português, para me hospedar numa casa do estudante mantida pelo casal Morrin. O recepcionista de plantão, um rapaz moreno assim do meu tope, que evidentemente já tinha lido a minha ficha, quando eu disse meu nome pulou em cima de mim, ali mesmo na porta da rua, me deu um grande abraço abrindo-se num riso de pura felicidade. Disse em espanhol: “Nós viemos mostrar a esses europeus o quanto valem nossos índios!” Era mexicano. Eu me perguntei o que teria havido e não me tinham contado, alguma guerra talvez. Aí ele completou: “O Brasil venceu a Copa do Mundo!”. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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