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Evandro Sena: O inquieto da Rua do Sossego

Músico e produtor é proprietário do mais autêntico espaço alternativo de cultura do Recife, o Iraq, onde acontecem festas, shows e lançamentos

TEXTO Débora Nascimento

01 de Abril de 2014

Evandro Sena, morador e

Evandro Sena, morador e "gerente" do Iraq, em um dos cômodos de sua residência

Foto Débora Nascimento

Por entre mesas e cadeiras, Biribela transitava com a habitual tranquilidade dos animais domésticos, inconsciente de que havia um mundo ao redor em busca de sensações tão boas quanto a sua, inata. Sem incomodar os presentes, a cadela circulava como se estivesse checando se todos estavam sendo bem-atendidos, como se conferisse se tudo permanecia sob controle. A sua presença discreta, em vez de apressados garçons, intensificava no ambiente o clima de uma boa acolhida num oitão de algum lar da periferia do Recife. Mas ela residia numa casa situada na Boa Vista, embora na parte menos hostil do bairro, a aprazível rua cujo nome lhe faz jus, a do Sossego, onde os espigões ainda não chegaram para destruir a utopia de uma cidade horizontal. É lá onde funciona o espaço de convivência artística mais autêntico, alternativo e diversificado da escassa e restrita agenda cultural recifense, o Iraq.

Apesar de abrigar semanalmente eventos diversos, o Iraq é a casa de Evandro Sena, também conhecido como Evandro Q?. Até contarmos a história do lugar que pode ser considerado, em menor escala, como uma espécie de mistura entre a casa de shows punk o CBGB e o Chelsea Hotel, vamos resgatar um pouco o extenso currículo do músico, produtor e agitador cultural que nasceu, há 40 anos, em Olinda. Ele cresceu no Bairro de Ouro Preto, ouvindo música no rádio e na TV, como no programa do apresentador Chacrinha. Ainda na adolescência, estudou no Centro de Educação Musical de Olinda (Cemo), no qual foi aplicado aluno de violão clássico, recebendo boas notas, até que uma crítica grosseira de um professor o levou a desistir dos estudos. Mas a ligação com a música não foi perdida. O rapaz já assistia a seus primeiros shows de rock (que nessa época aconteciam apenas na periferia da cidade), fazia suas primeiras composições e queria montar uma banda. Recife e Olinda, nesse período, ensaiavam o despertar de um período de marasmo cultural, principalmente na área musical. “Encontrei outras pessoas que curtiam rock, que queriam mudar o mundo, a comunidade. Vi gente crescer, morrer, sumir, virar evangélico. Alguns eram músicos bastante sonhadores”, lembra Evandro.

Ele, então, formou com amigos a banda Garapa Nervosa e participou ativamente da mudança de paradigma do antigo Matadouro de Peixinhos, situado num bairro estigmatizado pela violência, uso de drogas e, principalmente, pobreza. O músico integrou o Movimento Cultural Boca do Lixo. Tempos depois, aos 21 anos, realizaria um de seus primeiros sonhos, abrir um estúdio, o Panaceia. O local funcionava na Rua Gervásio Pires, no Bairro da Boa Vista. Nele, passou a ter contato mais frequente com a cena musical da cidade, conhecendo instrumentistas de vários gêneros. Devido a problemas financeiros, o estabelecimento não vingou, mas os equipamentos musicais passaram a ser alugados por artistas e bandas.

Em 2000, o músico concretizava outra idealização, um local de encontro, no qual a música seria o elemento aglutinador. Nascia ali o “bar” mais incomum da cidade, o Garagem 27, instalado no pé da Ponte da Torre, reunindo, de quinta a sábado, centenas de pessoas. Em 2002, Evandro desfez-se da sociedade e o Garagem seguiu funcionando com uma outra administração até 2009, quando foi demolido pela Prefeitura do Recife, deixando saudade em muita gente que, sentada às poucas mesas ou em pé na calçada, se sentia fazendo parte de uma agitação underground. Até hoje, é difícil contabilizar quantos se conheceram ali, tiveram ideias de criar ou montar algo, dividiram sonhos ou simplesmente tomaram uma cerveja, contando com a sorte de nunca ser atropelado por algum maluco que descesse a ponte em alta velocidade.


A casa é "assinada" com desenhos de alguns artistas, como Derlon. As festas do Iraq acontecem às sextas-feiras, e vários DJs da cidade já discotecaram no lugar.
Fotos: Reprodução

A ausência foi tão sentida, que os órfãos do Garagem criaram no Orkut o grupo “Evandro, abra um bar”. Digamos que aquele boteco alternativo de beira de rua foi o embrião do que Evandro queria fazer com o Iraq. Antes do músico chegar à casa da Rua do Sossego, a editora Livrinho de Papel Finíssimo ocupava o lugar, que já havia sido transformado em residência de um grupo de amigos. Moraram por lá a atriz Olga Torres, o artista plástico Diogo Todé, o designer Moa Lago, os desenhistas Henrique Koblitz e Greg. Aos poucos, o local começou a realizar ou acolher eventos. Foi palco para as primeiras reuniões do grupo teatral Magiluth. Abrigou palestras, como a do escritor Lourenço Mutarelli.

Evandro começou a frequentar o ambiente ao ser chamado para fazer ou colaborar com os eventos. Com a saída desses antigos moradores, acabou ficando como o único residente e promotor de realizações que estão ajudando a manter viva a troca de informações culturais da cidade, principalmente num momento em que parecemos viver uma nova crise na área, a exemplo do claro desequilíbrio entre a quantidade ínfima de espaços de convivência artística e a profusão de artistas locais.

MÚSICA
Um termômetro para isso é que o Iraq vem sendo bastante procurado por bandas que querem tocar por lá, mesmo sem cachê, mesmo sabendo que sequer há um palco. As apresentações acontecem no piso de mosaico, no qual os músicos se espremem para se apresentar no mesmo nível da plateia. No entanto, Evandro vem evitando shows e festas, para não incomodar a vizinhança com som alto. Em eventos promovidos à tarde, como o encontro dos Grudes (reunião de músicos para tocar rock no violão), é possível ver alguns desses vizinhos sentados em suas cadeiras de balanço e até receber um sorriso de um deles como cumprimento.

O Iraq não frequenta as páginas de cultura dos jornais. Seus eventos são divulgados apenas através de postagens no Facebook, num grupo específico, que hoje conta com cerca de 500 amigos de Evandro. Assim como qualquer casa, o dono só permite a entrada de quem ele quer. Em dia de bom público, o lugar chega a comportar 200 pessoas, como acontece no já tradicional Natal do Iraque (“Traga a ceia, mas não a família”). Antes, para poder controlar a entrada, toda sexta-feira era divulgada uma senha diferente para o acesso à festa N.A.d.A. Agora, o sistema foi abolido. Pelo menos, por enquanto.

Por lá já passaram mais de 20 DJs. Entre os mais frequentes, estão o músico Marcelo Frogger e o próprio Evandro Sena, que entregam um repertório com punk, pós-punk, indie rock, krautrock, psicodelia, afrobeat, noise, entre outros gêneros. Também de estilos diversos, tocaram cerca de 60 bandas e artistas. Dentre eles, Wander Wildner, Aire’N Terre, Paulinho do Amparo, Novanguarda, Black Soda, Matalanamão, Voyeur, Chambaril, Thelmo Cristovam, Subversivos, Zé Brown, Julia Says, Zefirina Bomba, The Trumps e os grupos que Evandro integra, Garapa Nervosa e Monstro Amor. O Iraq serviu ainda como vitrine para os primeiros shows de compositores como Juvenil Silva e Graxa, que, neste ano, foram atrações do palco do Rec Beat, festival de música alternativa do Carnaval do Recife.


The Trumps integra a lista de 60 nomes que tocaram no local. Foto: Divulgação

ARTE NO OITÃO
Como não é um bar, não há variedade de bebidas. Apenas cervejas geladas e um ou dois destilados servidos pelo simpático Rubens Del Rey, recrutado uma vez por semana para assumir o posto de barman. Talvez por sua escancarada informalidade, não se criou uma cultura nos frequentadores do lugar de que há pratos disponíveis, preparados pelo chef e consultor gastronômico Rubens Grunpeter. A maior parte dos frequentadores ainda não se acostumou a pedir as poucas e boas opções.

A casa onde funciona o Iraq é divida em 10 compartimentos. Fora a área de serviço e o quarto do proprietário, todos os outros, inclusive o oitão e o quintal, sombreados por árvores de pequeno porte, são frequentados pelos visitantes. As paredes têm grafites de Galo de Souza, Serjão, Greg, Arbos, Ricardo Tatoo (SP), Mozart Gomes, Grupo Acidum (CE), Magolombra, Flavão, Manoel Quitério, Derlon Almeida, Michael Dieter (Alemanha), Germana Oliveira, Leo Resende, Uiara Coelho e Henrique Koblitz.

Numa cidade que está constantemente se descaracterizando, perdendo prédios históricos, restaurantes, bares, casas de shows, em que lugares como a Soparia e o Poco Loco são apenas memória de roqueiros saudosos, o Iraq é mais um espaço cultural que vive sob ameaça de extinção. Por conta disso, já foi até criado grupo no Facebook para discutir os rumos do local, devido à sua importância para além da “casa de Evandro Sena”. Fechar suas portas está longe dos planos do dono. Mas as dificuldades se mantêm. “Queria saber onde é que o meu sonho cabe dentro da sociedade”, questiona o produtor, afirmando também que o Iraq é apenas um detalhe no seu histórico, que inclui os trabalhos realizados na coordenadoria de música da Fundarpe (em que produziu e apresentou o bem-sucedido projeto Observa e Toca) e na gerência de música da Prefeitura do Recife.

O inquieto morador da Rua do Sossego está cheio de planos, como a realização de um catálogo com os grafites de suas paredes, a gravação de seu primeiro disco solo e o lançamento do livro de poemas Cachorro e do show da banda God Save The Chico, com versões punks de clássicos de Chico Buarque.

Evandro Sena que, além de músico e sonhador resistente, é pai de duas meninas, tem também um sonho singelo e tão comum neste país: conseguir pagar suas contas com a mesma tranquilidade com que Biribela, falecida em dezembro do ano passado, transitava entre os “iraquianos”. 

DÉBORA NASCIMENTO, editora-assistente da revista Continente.

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