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Jonathas Andrade: A insurgência dos carroceiros como metáfora

Artista alagoano, que chegou a Pernambuco no fim dos anos 1990, recorre à Sociologia para pensar o processo de “modernização” das cidades e do povo brasileiro

TEXTO Carolina Leão

01 de Fevereiro de 2014

Documentário de ficção 'O levante' registra a tomada da cidade por cavalos, carroças e charretes

Documentário de ficção 'O levante' registra a tomada da cidade por cavalos, carroças e charretes

Foto Josivan Rodrigues/Divulgação

A melancolia e a crítica diante do progresso não são apenas insatisfação idealista. São um descontentamento legítimo. E se justificam diante de um infinito número de projetos empreendedores que alargaram ruas, destruíram monumentos históricos, criaram novo tecido social e ordenamento urbano, mas tiveram consequências drásticas a médio e longo prazo.

Só para lembrar uma delas: a Liga Social Contra os Mocambos, no Recife dos anos 1940, aterrou mangues e levou a ocupações miseráveis nos morros dos bairros da Zona Norte, com a retirada dos mocambos à beira do Capibaribe e nenhuma política de assistência social a longo prazo, para a população negra, marginalizada, destituída de seus abrigos. Ou a destruição de construções arquitetônicas como os Arcos de Santo Antônio e a Igreja dos Milagres, esta última, no alargamento da Avenida Dantas Barreto, executada para a passagem da frota de automóveis, que aumentava com o desenvolvimento econômico nos anos 1970.

A história nos mostra também momentos de resistências e enfrentamentos com os quais a arte se tornou um dos mecanismos de crítica e ativismo contra as consequências mais negativas do parâmetro cabal da modernidade: o progresso tecnológico. Baudelaire e o seu Spleen de Paris ainda é a maior referência sobre a ansiedade frente à construção de uma nova cidade e a destruição dos signos tradicionais que marcaram a sua identidade urbana.

Atualmente, o Recife vive mais uma etapa dessa expansão capitalista, cuja lógica, se não for imoral, como sugere André Comte Sponville, não tem bons sentimentos. E, como o Mefistófeles de Goethe, não se intimida nem desencoraja diante do mais prosaico e elementar indício de símbolos que compuseram sua tradição e identidade. Os sentimentos sobre essa querela inflam as redes sociais e vão do tédio (que a ignora) à ironia (com slogans de oposição como: “Recife eu te amo, mas não sou correspondido”), passando também por vários tipos de ativismo: o de sofá e o de corpo presente.

Interessado em questionar a verdade histórica, documentada como oficial, o artista plástico Jonathas de Andrade recorre à Sociologia e a outros campos do conhecimento teórico para compor sua produção criativa. E investiga, de forma irônica e provocativa, a legitimidade dessas ações. Em 40 nego bom é um real, Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste e Educação para adultos, Jonathas percorreu as heranças escravocratas do Brasil moderno em seus efeitos mais diretos – como o analfabetismo, e a reprodução do discurso elitista – em cartazes, fotografias e colagens.

Agora, prepara um dossiê com documentação sobre o projeto O levante e as contradições dos carroceiros. O plano de ação é resultado do projeto O levante, que contou com um evento coletivo, em 2012, e um documentário de ficção, em 2013. O vídeo foi exposto no Stedelijk Museum Amsterdam, no Wexner Art Center, Columbus – EUA, e vai para a Bienal de Gwangzu, na Korea, em setembro próximo.

Dessa forma, aquece o debate sobre o embate entre tradição e modernidade (ou tecnologia) que norteia o pensamento social nas ações modernizantes da América Latina, em que os efeitos do empreendedorismo capitalista são mais recentes e estão sendo analisados à luz de uma sociedade cada vez mais segregacionista.

Jonathas é enfático. Acredita que a nova lei que determina a proibição dos carroceiros no Recife usa o direito dos animais como pretexto, mas é, segundo ele, uma medida paliativa para o excesso de trânsito na cidade. “A lei se disfarça em proteção dos animais, mas é um golpe extenso numa população desprivilegiada e no seu modo de viver”, coloca. Jonathas teve o timing para perceber o momento e o exemplo dessa dicotomia entre tradição e modernidade e compor um trabalho original, no qual se unem a sua curiosidade etnográfica e a ironia.


Os carroceiros se reuniram no centro do Recife, lugar onde são proibidos de circular.
Foto: Josivan Rodrigues/Divulgação

O projeto levou, em 2012, dezenas de carroceiros ao coração da cidade do Recife, os bairros de São José e Santo Antônio – onde os mesmos são proibidos de circular. Lá, participaram de uma corrida. O roteiro utiliza o campeonato entre carroceiros para criar um falso documentário de tomada da cidade por cavalos, carroças, charretes. Um universo que desafina do tom progressista do Recife urbano, moderno em seu atual momento histórico. Mas com o qual convivemos diariamente no trânsito, onde eles ocupam vias de grande circulação, como as avenidas Norte, Abdias de Carvalho, Conde de Boa Vista e Agamenon Magalhães.

RECIFE RURAL
Esse universo foi tema de matéria publicada na Continente, em abril de 2012. Na ocasião, percorri, junto com o fotógrafo Ricardo Moura, os arredores de dois bairros, Cordeiro e Beberibe, que agregam um volume significativo de carroceiros e trabalhadores em atividades como ferradores, construtores de charretes, vendedores de porcos, galos e cavalos. A realidade, nesse ambiente urbano, contradiz frontalmente o argumento estatístico e social do Recife como uma cidade urbana.

Os índices de um mundo rural são claros e mostram, nas duas periferias, pontas do mapa geográfico, áreas de ocupação tardia como a zona oeste e Beberibe, negociações, dinâmicas, artefatos e construções típicas de cidade rurais. Muitos desses trabalhadores vieram, de fato, do interior do estado, onde a carroça é um meio de locomoção como outro qualquer.

Aqui, fizeram dela seu meio de vida e subsistência. E estão inegavelmente à margem dos signos modernos do Recife. As trocas comerciais que nesse universo se operam são primárias: há escambo, troca de favores, utensílios e até alimentos e bebidas. Muitos têm celulares de última geração, alguns, internet com wi-fi, mas o uso da tecnologia também é primário. Eles não estão nas redes sociais, nos blogs, nas compras do e-commerce, nos downloads de aplicativos.

São “medievais”, porque utilizam cruelmente os animais como força de trabalho, dizem os defensores da proibição das carroças de tração a cavalo. Mas são medievais não por isso. Focar a questão nos maus tratos aos animais desloca o principal problema. O cavalo faz parte de uma opressão muito maior, que é a de um sistema que exclui, ignora e oprime seus cidadãos por estarem distantes da lógica modernizante.

O homem e o cavalo estão, assim, como no mundo medieval, excluídos de um pensamento centralizador e dominante no qual, agora, a tecnologia e o progresso são medidas da riqueza de uma cidade. Mas não são apenas isso. Herdaram o trabalho dos pais, das comunidades interioranas ou locais, onde a vida rural coexiste junto ao comércio e aos serviços gerais. Herdaram não somente um modo de trabalho, mas toda a cultura que envolve a vida rural. Mesmo sendo um grupo socialmente heterogêneo, ele é marcado por crenças e modos de convivência como qualquer outro. O desconhecimento de sua realidade, porém, reduz sua compreensão sobre o princípio que norteia a sua disseminação na cidade como entrave ao processo civilizador.

Em depoimento à matéria da edição 143, mencionada há pouco, a pesquisadora Conceição Oosterhout, socióloga da UFPB, afirma que o tempo em si não anula uma prática cultural apenas pela passagem de décadas na história. “A relação entre os carroceiros e a parte urbanizada do Recife, por exemplo, não deve ser entendida apenas como convivência de mundos equidistantes, sobrevivência de valores culturais. Se a cidade fosse pensada para atender aos diferentes grupos sociais que por ela circulam (como ocorre também com os ciclistas), poderíamos desfrutar de um olhar diferente nessa paisagem, com vias adequadas para esse tipo de transporte, uma vez que ele persiste na história”, defende.


Em Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste, o artista observa a herança escravocata brasileira. Foto: Divulgação

Através dos personagens, Jonathas discute a invisibilidade social desse grupo do ponto de vista da lei. “A presença deles contrasta com o tráfico, o asfalto, as torres de 40 andares e todo um projeto de civilização que vai na contramão dessa cultura com ecos fortíssimos na ruralidade e que aponta para a origem da nossa região. Aos poucos, me dei conta de que os carroceiros integram um circuito de ruralidade muito maior, que atravessa toda a cidade, na qual o projeto civilizatório está apoiado em outro paradigma. É um Recife não hegemônico, protourbano”, coloca.

POLÍTICA DO CORPO
Em seu trabalho, o artista defende o que define como política do corpo. “Sentia em minha geração uma inquietude política que se resolvia apenas com o consumo de literatura e de uma coleção de afinidades, mas nunca com uma reação presencial, corporal nas ruas ou uma ação efetiva de qualquer ordem. Vejo que as manifestações de 2013 movimentaram um modo de reação.” Em O levante, ele propõe mais um registro etnográfico, um olhar antropológico, a exemplo do que foi feito com Educação para adultos, no qual ele trabalhou previamente com um grupo de lavadeiras analfabetas antes de criar as provocações irônicas do projeto desenvolvido para a 29ª Bienal de São Paulo.

O levante teve diversas negociações para que os carroceiros aceitassem ir às ruas do Centro. “Depois de muito atraso e um medo danado de não aparecer ninguém, apareceram 40 carroças e vários cavaleiros e tudo ganhou proporções massivas, difícil de controlar. Com dificuldade de manejo e organização, a corrida aconteceu com 10 carroças que ganharam bodes como prêmios. E, antes da premiação, foi puxado um cortejo pela cidade com todos os presentes. Num grande bolo de gente, cavalo, carroça, todo mundo foi se misturando, subindo nas carroças, nas calçadas, e o cortejo foi ganhando corpo de massa e ação”, descreve.

Por essa aproximação, ele descreve a realidade muito mais ampla dos carroceiros. Uma realidade que vai além de sua circulação pela cidade como veículo. “Eles carregam restos de comida e verduras dos mercados para vários currais e quintais em diversos lugares da cidade. Mas eles estão também na feira de cavalos que acontece durante toda a semana em vários bairros e cidades vizinhas; nas corridas competitivas de argolinha, nas cavalgadas, e na cavalgada a São Severino dos Ramos, a grande procissão de cavaleiros e carroceiros que acontece todo fim de ano.”

Jonathas define sua compreensão da atual realidade urbana no Recife como uma tristeza absoluta. Alagoano, chegou aqui em 1997, época da efervescência manguebeat, quando ser recifense passou a ser cool, após os soturnos anos 1980 e seus muros pichados de “Recifede”, “Recifílis”. “Era uma cidade desde já confusa, que me engolia, mas seduzia.” Mas era uma cidade utópica, com o reconhecimento de suas mazelas e enfrentamentos que tornaram possíveis projetos criativos.

O desencantamento agora é desafio criativo para que, por meio do que ele chama de espelho invertido, possam ser confrontadas as ambiguidades tanto do seu processo criativo como social. “O desenvolvimento tal qual entendido atualmente no Recife sempre é excludente em alguma medida, mas é inaceitável que seja desta maneira. Existem possibilidades de integração das carroças ao desenvolvimentismo corrente, sem que se aniquile a subsistência desse grupo social. Medidas fundamentais como reconhecer no Recife áreas urbanas e rurais seriam o primeiro passo, a definição de rotas legalizadas para os carroceiros em algumas avenidas, até medidas mais progressistas, como a criação de currais públicos para suporte a um modo de viver na cidade ainda conectado com uma cultura do campo e dos animais, que são as raízes originais desta terra”, acredita. 

CAROLINA LEÃO, jornalista e doutora em Sociologia pela UFPE.

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