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Edição #155

Novembro 13

Nesta edição

Biografias

No início da década de 1980, a editora Record lançou no Brasil a autobiografia Roman, de Polanski. Pouco antes, em 1977, o cineasta havia sido protagonista de um escândalo que colocou a opinião pública contra ele: o estupro de uma garota de 13 anos. Naqueles anos, sem internet, os comentários demoravam muito mais para se expressar, difundir e replicar, de modo que, mesmo com as agências internacionais propagando o acontecimento, a sua repercussão foi menor que as que hoje se dão com as celebridades mundiais. Assim, Roman Polanski teve tempo de preparar sua “defesa”, que foi escrever um livro sobre sua atuação profissional, minimizando sensações em torno de sua vida pessoal, pontuada por fugas e lances macabros.

A primeira linha de Roman é exatamente esta: “Desde quando posso me lembrar, a linha entre a fantasia e a realidade tem estado irremediavelmente embaçada”. A que poderíamos emendar: E com quem não tem sido assim?

No episódio brasileiro cheio de lances, que se intitulou “Batalha das Biografias”, há muitos interesses em jogo – artistas, produtores, editores, biógrafos e jornalistas são os protagonistas do embate –, mas certamente novembro 2013 se trata do direito (ou da sua interdição) de dar a sua versão dos fatos, ou, para continuar com Polanski, de escrever uma história em que não se distingue fantasia e realidade. Porque é isto que ocorre às narrativas da vida dos outros e da nossa própria vida, já que estamos lançando eternamente versões para elas.

Juntando os depoimentos que têm sido selecionados pela imprensa, o que está aborrecendo os famosos brasileiros – concentrados no campo da música – é a possibilidade de que biografias a respeito deles sejam produzidas à sua revelia e sem partilhamento de lucros. Para evitar isso, proíbese a sua simples realização.

Há cerca de um mês, estamos nessa pisada, pois a Batalha não encontrou desfecho, por não ser mesmo um caso simples. Enquanto ela segue seu curso, decidimos nós também da Continente entrar no campo da discussão. Embora concordemos que todos têm direito à privacidade – garantida por lei –, políticos e artistas (entre outros célebres) deixam de ser indivíduos, porque representam uma comunidade. Os primeiros, porque são eleitos para isso, os segundos, porque conquistaram o “direito” à representação. E isso tem um preço, que os artistas não estão querendo pagar.

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