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Gonzaga Leal: A saudade como trilha

Após quatro anos sem gravar, músico pernambucano lança 'De mim', álbum guiado por silêncios e mudanças

TEXTO Marina Suassuna

01 de Outubro de 2013

Foto Helder Ferrer/Divulgação

Foi em seu apartamento, no Bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife, que Gonzaga Leal desfrutou como nunca da presença da cantora, compositora e amiga Marília Medalha. Para ela, que vive praticamente reclusa, a permanência de uma semana na casa do músico, em maio deste ano, foi um êxito e tanto, visto que permitiu a sua participação no novo trabalho de Gonzaga, intitulado De mim, que estava sendo gravado naquele período.

Parceira de Edu Lobo na interpretação de Ponteio, que conquistou o primeiro lugar no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, Marília é considerada por Gonzaga uma das artistas mais nobres da MPB. Os dois já haviam trabalhado juntos em 2012, quando criaram o repertório em homenagem à Clementina de Jesus para a primeira edição do projeto Receita de samba, comandado por Gonzaga. Este ano, ele teve o prazer de acompanhá-la na gravação de Deusa da lua para seu novo trabalho. A música, um reisado que fala da saudade, reitera os temas de domínio público como marca da discografia de Gonzaga.

Assim como Marília, Cida Moreira foi convidada a participar do novo CD. Conhecida por suas interpretações viscerais, a cantora paulista veio ao Recife gravar A janela da casa do tempo, que contou com a participação do Grupo Treminhão, e cuja letra é de autoria de Xico Bizerra, a quem Gonzaga atribui a maestria de traduzir imagens poéticas como ninguém. A melodia, por sua vez, foi assinada por Públius Lentulus, um dos músicos mais requisitados em Pernambuco, que teve papel fundamental no repertório e no conceito que viriam a nortear De mim.

“Costumo dizer que um disco é feito de conspirações, não de canções. As músicas foram chegando a mim e, quando me dei conta, o tema foi se costurando”, reflete Gonzaga, referindo-se, sobretudo, à primeira composição que recebeu, Da saudade, escrita e enviada por Públius. “Ele pediu que eu me encarregasse dela. Imediatamente, fiquei fascinado pelas imagens do texto. A música ativou uma saudade em mim de mim mesmo. Saudade do Gonzaga de outra época. Mas tudo isso com muito frescor, sem ressentimentos.”

A chegada da canção de Públius coincidiu com a época em que Gonzaga completara 55 anos, quando vieram as indagações sobre o tempo, responsáveis por conduzir cada escolha de De mim. A começar pela voz que, segundo Gonzaga, está diferente em função da idade, avizinhando-se do tom grave, característica que ele respeitou. “O conceito de voz que usei no disco foi determinado por mim. Eu a queria menos emoldurada e mais despida.” O efeito do tempo na voz do artista é audível na faixa que abre o CD, Água serenada, composta por Déa Trancoso: “Eu não canto do jeito que eu já cantei. Bebi água serenada, até a voz eu mudei…”.

O tempo também fez o músico questionar-se sobre o ofício de artista. Para ele, estar no palco é um misto de sofrimento e êxtase. Por isso a escolha de gravar a música Show, de Luiz Tatit, que traduz a visão de Gonzaga sobre a experiência solitária e, ao mesmo tempo, contemplativa do artista diante do público.

De mim é também um disco de memórias. A saudade que o permeia vem do Gonzaga, que experimentou o fundo dos rios e do mato intrincado em Serra Talhada, sua cidade natal, de onde saiu aos 13 anos para vir ao Recife. Apesar de ter vindo cedo para a capital, o “apetite pelo brejeiro, pelo agreste e pelo sertão”, como escreveu certa vez, nunca lhe foi arrancado. O espírito interiorano com sotaques de urbanidade está bem-delineado na canção Sonho imaginoso, na qual o intérprete se revela um exímio e lírico compositor. Aqui, ele teve a parceria de Guito Argolo e J. Veloso, neto de Dona Canô.

VIOLA ACOMPANHA
Olhando para suas raízes, Gonzaga também arquitetou a sonoridade do disco, elegendo, em meio a uma instrumentação pequena, a viola como principal condutor das melodias. “A viola brasileira tem várias afinações. Por isso quis reunir alguns amigos meus violeiros que representassem essa diversidade.” Para isso, convidou Jaime Além, representante da viola de 10 cordas do interior paulista, além de nomes da geração mais nova, como Juliano Holanda, com quem divide os vocais na mesma faixa, e Hugo Lins, correspondendo à viola dinâmica, de cantador de feira. A viola nordestina ficou a cargo de Cláudio Moura, produtor, diretor musical e regente do disco, que trabalha com Gonzaga há 15 anos. Moura também assinou o arranjo da faixa Arco do tempo, mas a função foi designada, na maior parte do disco, a Marcos FM e Nilson Lopes.

De mim é um disco que valoriza o silêncio, as pausas que, por sua vez, são tão musicais quanto o som. Trabalhar com poucos instrumentos é difícil. A sorte é que temos grandes músicos para dar conta do recado. Acho que esse disco reflete bem a maturidade musical de Gonzaga e de nós, músicos”, disse Mauricio Cezar, pianista e arranjador de uma única faixa, Show. Fiel à sua equipe, Gonzaga não abriu mão de trabalhar com os músicos que o acompanham nos últimos anos. São eles: Mauricio Cezar (piano), Tomás Melo (percussão), George Rocha (percussão), Adilson Bandeira (clarinete, sax e clarone), Alex Sobreira (violão de sete cordas) e Cláudio Moura (viola nordestina). O sexteto revezou-se nas faixas com outros músicos convidados, entre eles Lucas dos Prazeres (percussão), Ricardo Fraga (bateria) e Julio Cesar (acordeon).

“O resultado do álbum vai na direção das pessoas que se identificam com o meu trabalho. Gravar canções é diferente de gravar um disco. Este último requer pessoas especiais que tenham o dom da contemplação. Eu quis trabalhar com calma, no tempo de cada músico, caso contrário, seria um trabalho sem alma”, explica Gonzaga, que se recusa a trabalhar com pessoas “sem potência criativa, sem histórias para contar e sem intimidade com o silêncio”.

De mim nasce depois de um jejum de gravação que durou quatro anos. “É um disco de respiração do meu fazer artístico, no qual me indago como pessoa e como artista.” O último trabalho de Gonzaga foi E o que mais aflore (2010). Desde então, não viu sentido em entrar no estúdio apenas para gravar canções e, com isso, justificar mais um disco. “Não dá para brincar, ser irresponsável e negligente com a música. A música é da ordem do sagrado, é um dos grandes senhores.” Para não deixar dúvidas sobre as suas motivações, ele recorreu a Déa Trancoso como sua porta-voz no texto de apresentação do disco: “De mim é de dentro pra fora, é o auge do rigor gonzaguiano. Uma disciplina que ele traz de rigoroso convívio com a música, sua segunda expressão. A primeira foi e continua sendo a contemplação”. 

MARINA SUASSUNA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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