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Da vida feliz

TEXTO José Cláudio

01 de Outubro de 2013

Bico de pena de Ivan Carneiro, com tinta sépia, 14,5 x 19,7cm, em álbum de Leonice Ferreira da Silva, 1955

Bico de pena de Ivan Carneiro, com tinta sépia, 14,5 x 19,7cm, em álbum de Leonice Ferreira da Silva, 1955

Imagem Reprodução

Agora acordo feliz. Dava para escrever a crônica somente com a frase. Ou cada palavra. Mas não vamos partir para excentricidades. “Agora acordo feliz” me lembra a época em que acordava infeliz, a pior da minha vida, nos meus vinte e poucos anos, na ressaca de todos os fracassos, no estudo, na loja de meu pai, em tudo, como registrado no livrinho Ipojuca de Santo Cristo: “Minha cor era de hidrópico e cada vez sentia mais preguiça de me levantar cedo e ir abrir a loja. Da cama ouvia a conversa dos fregueses, dos caixeiros, do meu pai, no balcão. (...) Me asilava no sono”. Tinha deixado de estudar, passado um tempo na Bahia, uns meses, e voltara a Ipojuca para trabalhar na loja de meu pai como seu possível sucessor, medíocre, desinteressado, “envergonhado” é o termo, depois de “acadêmico de Direito” como se dizia então. Voltara a Ipojuca como, desculpe o exagero, Modigliani a Livorno depois de uma primeira temporada em Paris, pensando poder escapar da pena máxima: a pintura.

Sei, li em Santo Agostinho, não existir felicidade completa nesta vida, porque efêmera, acabando na morte, e somente possível na eternidade. De fato não se pode chamar de “felicidade” uma coisa sujeita a interrupção, bastando a ideia dessa interrupção para acabar com qualquer presunção de felicidade. Acordar feliz, pois, só depois da morte. Resta-nos essa felicidade menor, circunstancial. Feliz, não se sabe até quando. Mas feliz, ainda assim. Nem que seja, no meu caso, por contraste, pelo oposto daquele outro acordar, em Ipojuca.

De certo modo já morri, como morremos todo dia, e todo dia ressuscitamos. De mil formas. Somente acordar sem nenhuma dor física nos oitenta e um, já me dou por feliz. E apresso-me em comemorar. “Antes que seja tarde”, dirão. Também correto é dizer que já morri, pelo menos pedaços, como os dentes, por exemplo, ou o preto dos cabelos. Quanto aos dentes, implantes quebram o galho, o que não havia no tempo de Cervantes nem de Voltaire, e até com vantagens, como não doer, não precisar fazer canal, não ter medo de abscesso numa raiz. No branco dos cabelos vejo também certa melhora: estou ficando com o cabelo bom, como já observara o poeta Daniel Lima no dele. E veja, raciocine comigo, eu era infeliz no auge da juventude, na maior forma física, tudo no lugar. Logo, não terá sido esse o ponto crucial, pelo menos no meu caso. Como disse Santo Agostinho, “todo mundo vive dizendo ‘ah como era bom quando eu era jovem’ mas ninguém quer voltar a ser mais jovem nem um dia”. Por outro lado, o fato de não possuir bens materiais, a começar pelo dinheiro, não creio ter sido fonte de angústia, porque, se não tinha do que viver, também não tinha despesas, ficando a conta pela receita. Nunca me preocupei em amealhar, havendo até de minha parte uma certa prevenção, um certo temor, de possuir seja lá o que for, sabendo que posses são encargos, avesso de nascença a qualquer tipo de responsabilidade. Sigo a lição de Axel Munthe, O Livro de San Michele: quando você ganhar um dinheiro, distribua imediatamente; se não tiver a quem distribuir, enfie na primeira sarjeta. Sempre fiz tudo para não ter nada. Deve ter sido incutido na senzala a doutrina de que tudo no mundo é dos outros, como se temesse ser dono até de mim mesmo. Não foi dito que devemos nos desapegar de nós próprios, que o inútil apego ao eu é fonte de infelicidade, que tudo pertence a Deus?

Acordei feliz, primeiro pelo fato em si de acordar; depois, acordar sabendo o que fazer e gostando do que tinha a fazer; feliz porque meu olho abriu e viu a claridade no quarto entrando pelos vidros do alto das portas; porque a tela no cavalete me esperava para ser pintada, a vida aí para ser inaugurada por mim como se fosse hoje o primeiro dia da criação do mundo, o universo inteiro à espera de ser acionado pelo meu singelo ato de despertar, eu ali sentado na cama pronto para o fiat lux, para o pontapé inicial. Nenhuma dúvida no horizonte, nenhuns olhares recriminatórios a mim dirigidos, somente o espírito soberano na face da terra, na ópera do mundo.

Naquele tempo em Ipojuca, tudo o que eu fazia parecia errado. Se lia, romance, poesia, lia o que não devia, melhor os da faculdade, os livros do curso de direito que eu havia abandonado, por frouxidão, seguindo a tradição dos homens da minha família, dizia minha mãe, que nunca deram para nada. Escrevia sem necessidade, miolo de pote, desperdício de papel e tinta. Pintar, até que podia, nas horas vagas, contanto não pretendesse fazer disso finalidade. Eu pintava pintura, que não servia para nada (engraçado, mais adiante, mais amadurecido, já tendo largado tudo para pintar, dedicação exclusiva, sem volta, compreendi que nisso consistia a essência da arte: não servir para nada, não estar a serviço de coisa nenhuma, mas aí já é outra discussão; como a de que o homem não serve para nada, a natureza melhor servida sem ele, sem a espécie humana, já houve quem chegasse a tal conclusão). Em todo lugar que estivesse, estava em lugar errado. Tudo que estava fazendo, devia estar fazendo outra coisa. Parecia os versos de Nicolás Guillén: “Se trabalho, me matam/Me matam se não trabalho/Sempre me matam”. A comida que eu comia, parecia não merecer. A coisa passava até para o direito dos animais, de alimento e abrigo.

Já agora é diferente. Tudo o que faço, e são as mesmas coisas, agora me parece certo. E não somente isso, mas o melhor, o máximo, o mais brilhante e curioso é que são as mesmíssimas coisas pelas quais ontem era execrado. Tudo o que outrora eu queria fazer e não podia, e por isso me infelicitava, agora me faz feliz. Só não se sabe até quando. E dependeu de eu encontrar por acaso um ex-colega do Colégio Marista, Ivan Carneiro, na Rua de Santa Cruz, e ele ter perguntado: “Você ainda gosta de desenhar?”. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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