Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Fios e contas: Símbolos de fé e proteção

Produzidos em diversos materiais e cores, cujos sentidos variam entre nações, os colares significam a ligação sagrada entre os praticantes e os orixás do candomblé

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS ROBERTA GUIMARÃES

01 de Agosto de 2013

Foto Roberta Guimarães

A riqueza de materiais, cores e adornos é evidente nas práticas e rituais das religiões afro-brasileiras. Nas cerimônias sagradas, a plasticidade e o simbolismo se impregnam nos gestos, roupas e adereços das ialorixás, babalorixás e iaôs. Nelas, o imaterial e o material mantêm um tênue limite, como se os orixás e os seus devotos fossem uma única pessoa.

“Ao contrário de alguns sistemas religiosos, nos quais a perfectibilidade moral e espiritual se adquire pelo distanciamento ‘das coisas deste mundo’, inclusive dos prazeres provenientes do corpo, nas religiões afro-brasileiras, as coisas deste mundo são elementos fundamentais para a manifestação do sagrado”, escreveu Vagner Gonçalves da Silva, professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).

O texto de Vagner Gonçalves, um reconhecimento à peculiaridade e originalidade desses cultos, foi escrito como apresentação de um livro que mostra, com detalhes, a multiplicidade dos adornos nas religiões de matriz africana: Joias de axé, fios de contas e outros adornos do corpo – a joalheria afro-brasileira, elaborado pelo antropólogo Raul Lody.

Obra rara e bem-vinda sobre os objetos sagrados da joalheria africana, o livro destaca as muitas vertentes e habilidades adquiridas pelos artesãos dos cultos afros nos últimos séculos. Sejam aquelas trazidas dos países do Continente africano, sejam as adquiridas em território brasileiro, ao qual chegaram como escravos.

Mas o que chama especial atenção no trabalho de Lody é a importância dos fios de contas, objetos sagrados e de reconhecimento para o povo de santo. Presentes em nosso cotidiano, mesmo entre os que não pertencem ao candomblé, os fios são elementos de extrema importância na proteção e afirmação do devoto. Um item que abre as portas para que o indivíduo receba proteção e o habilita a participar das cerimônias dedicadas aos orixás.


Para Iemenjá, as contas podem ser azul turquesa, brancas
ou cristais. O peixe é apenas um elemento decorativo

FILIAÇÃO
Os fios de contas desempenham inúmeros papéis para os povos dos terreiros. Através do sistema de cores, identificam os orixás. Quando usadas como colares, braceletes, bordadas nas palhas ou nas vestimentas, associam quem as utiliza às divindades em termos de filiação mítica ou outros laços de devoção. Seu uso é obrigatório para quem quer se tornar um filho de santo do candomblé.

No seu trabalho, Lody aborda os usos e funções dos fios de contas em vários estados brasileiros, em especial, na Bahia, no Maranhão e no Rio de Janeiro. Destaca que seu uso se diferencia de acordo com as nações do candomblé, mesmo as que se encontram numa mesma região. Mas afirma que os fios de contas não obedecem um padrão único. São encontrados – e utilizados – em variedade de materiais e formatos. Podem ser de contas de vidro, bolas confeitadas, miçangas, cerâmica, marfim, louça, corais e, ocasionalmente, trabalhos de ourivesaria, com bolas de prata ou ouro banhado. O uso depende das práticas do terreiro em questão.

Existem, ainda, colares feitos de contas que levam o nome de guias. Eles são usados, principalmente, pelos que procuram uma proteção para o corpo. “Alguns exibem símbolos básicos como cruz, seta, estrela, machado, espadim e medalhas de santos populares”, escreve Lody, lembrando que os que trazem santos católicos, normalmente, pertencem aos adeptos da umbanda.

Nas nações da Região Metropolitana do Recife, objetos com formatos de peixe são usados em homenagem à Iemanjá; machado, em alusão a Xangô; pombas, referência à Oxalá; e raios, símbolo associado à Iansã. São fartamente utilizados pelos filhos de santo, na maioria das vezes fixados nos próprios fios de contas. Mas os babalorixás e ialorixás consultados pela Continente destacaram que essas alegorias não fazem parte dos “fundamentos da religião”, são apenas adornos.

NAGÔ
Para quem leva o candomblé a sério, o uso de fios de contas jamais pode ser feito de maneira aleatória. “Eles fazem uma ligação entre o orixá e a matéria como elemento de proteção”, explica Manuel do Nascimento Costa. Conhecido como Manuel Papai, ele é um dos líderes da nação nagô pernambucana e um dos babalorixás mais respeitados do país. É o responsável pelo Centro de Cultura Pai Adão, o Obá Ogunté, terreiro fundado em 1875 pela ialorixá Inês Joaquina da Costa, e que, pela sua importância, foi tombado pelo governo estadual em 1985.


Masculino e feminino, Oxumaré é associado ao arco-íris, e seus fios podem ser em verde raiado de amarelo

“Os fios representam a segurança do filho, além de identificar para a sociedade qual é seu orixá. Eles, obrigatoriamente, têm que ser consagrados. Se isso não acontecer, têm apenas valor decorativo. A pessoa até pode usar, mas é como uma bateria que não foi carregada ”, afirma Manoel, que descreve todo processo de sacralização dos fios.

“Quando a pessoa quer ‘carregar positivamente’ as suas contas, tem de se submeter a um ritual de consagração. Tanto os que querem usar apenas como proteção, como os que vão passar pelo batismo. O primeiro passo, para todos, é fazer uma lavagem com as plantas sagradas da nossa nação, entre elas o calumbi, a corama, o malvavisco, o pega-pinto e o cajá. Por esse motivo, Ossaim – que é o dono das plantas – é o orixá mais importante, no que diz respeito aos fios de contas. É com as folhas dele que os fios são batizados e se tornam elementos sagrados.”

Se a pessoa quiser apenas proteção, o trabalho termina por aí. Mas, se quiser tornar-se filho de santo (iaô), é apenas o começo da tarefa. “Para quem vai fazer a cabeça, as contas seguem para o ibá do orixá, onde serão feitos os sacrifícios dos animais. Quando finalmente o iaô se faz, recebe 16 fios de contas, o que nós, da nação nagô, chamamos de xumbetá”, completa o babalorixá.

Após esse processo, os fios só serão alterados quando o devoto completar sete anos de cabeça feita. “Até então, os fios ficavam soltos. A partir desse período, eles passam a ser amarrados em seis gomos, se forem filhos de Xangô, ou sete gomos, se forem dos outros orixás.”

No terreiro Obá Ogunté, contas de plástico, as miçangas miudinhas tão comuns nos mercados públicos, não são aceitas. “Não admitimos material que não seja nobre e durável. Até compramos de terceiros, mas preferimos usar as fabricadas pelos nossos filhos. Temos pessoas que fazem fios com pedras, canutilhos, contas de vidro (que não podem ser usados por orixás masculinos) e de outros materiais, alguns importados da Europa e da África. Mas hoje isso é bobagem: o Brasil já tem empresas que produzem pedras tão boas quanto as africanas. O Maranhão tem uma produção de pedras muito importante, muito poderosa para a confecção de fios de contas”, diz o babalorixá, que lembra os rituais usados pelos seus antepassados. “Antigamente, os colares de contas dos nossos iniciados vinham com um patuá, cheios de axés, realizados pela mãe ou pelo pai. Eles não sabiam o que tinha dentro, mas era nossa marca registrada. Deixamos de usar há muito tempo, devido à perseguição que houve, em décadas passadas, aos terreiros. Perdemos essa tradição por culpa dos marginais da polícia que nos perseguiram.”


Mais de um orixá pode estar relacionado a um devoto. Neste caso, os
colares reverenciam Xangô, Iansã e Oxum

XAMBÁ
Representante da nação xambá, o babalorixá Adeildo Paraíso da Silva, o Ivo de Xambá, comanda o terreiro Santa Bárbara Ilê Axé Oya Megué, próximo ao Portão do Gelo, no bairro olindense de São Benedito. Com a autoridade de quem é líder de uma das nações mais respeitadas de Pernambuco, Pai Ivo explica que o ritual dos fios de contas pelos seus filhos se assemelha, apenas em parte, ao da nação nagô.

“Elas (as contas) são como um amuleto. É uma identificação com seu orixá. Como cidadão, você tira RG, CPF, certidão de nascimento para ser identificado na sociedade. Como filho de santo, as contas são a identificação sagrada com sua nação”. Para que a conta seja consagrada, devem ser observadas várias práticas.

“Primeiro, jogam-se os búzios, para confirmar os orixás. Só a partir daí é que se compram os fios, que têm que ser da cor própria do santo. Depois se fará o amaci, lavagem com as ervas sagradas para purificá-las. Se for apenas para proteção, estão prontas, mas quando se vai fazer cabeça, realiza-se também o sacrifício, e, nesse momento, no nosso caso, elas são colocadas no altar”, descreve Ivo de Xambá.

Da conta do orixá de cabeça, o ori, os filhos também devem usar as contas dos outros dois orixás revelados pelos búzios, os ajuntos, que vêm a ser o segundo e o terceiro orixás protetores. “Isso vale apenas para quem faz iaô”, comenta o babalorixá, ressaltando que, entre os seus filhos, usa-se entre uma ou sete voltas. “No último caso, só quando se faz o santo”.

Os devotos também têm que ter alguns cuidados, quando portam seus fios. “Com eles, não se pode ter conjunção carnal, beber ou fazer qualquer tipo de recreação que não obedeça aos preceitos de celebração. Temos que ter respeito aos orixás”, observa Ivo.


Ossaim, o orixá das plantas, é o mais importante na consagração dos fios: somente após serem lavados com elas, tornam-se objetos imantados

Na Nação Xambá, as exigências com a qualidade das pedras não é rígida. “Para nós, não importa se são de plástico ou de ouro. A gente prefere que sejam de qualidade, pela durabilidade. Mas nossos filhos podem comprar de qualquer material. Porque o que interessa nelas é a ritualidade do candomblé. É isso que as tornará especiais, que lhes dará purificação, proteção e identificará a pessoa como filho da nossa nação”, explica Ivo, lembrando que, entre os xambás, os orixás masculinos podem optar por usar os fios pendurados no pescoço ou atravessados.

KETU
Entre os ketu (queto), pelo menos os que frequentam o terreiro da Mãe Valda de Pirapama, ou Valderez Gonzaga Ferreira, no Cabo, o uso de fios obedece a critérios rigorosos. “Eles não podem ser comprados fora do terreiro. A gente usa miçanga e cordão encerado. Temos também guias particulares: umas só para os babalorixás e ialorixás e outras usadas em festas especiais, no xirê do santo.”

Na nomenclatura ketu, os fios especiais, de quem já “pagou o santo”, são chamados de rujevi, os fios de conta simples são os abiãs. Os mocãs, feitos de palha-da-costa, são guias especiais e próprios da nação, obrigatórios para os que fazem a cabeça.

Nos rituais executados por mãe Valda, as cores dos orixás podem ser mescladas. “Por exemplo, se uma pessoa é filha de Ogum e de Oxalá, a gente chama de Ogumjá, e ele vai usar uma guia com sete miçangas brancas e sete azuis, as cores de cada santo”, explica. No ritual de purificação, também há diferenças em relação às outras nações: além da limpeza das contas, o devoto também é purificado.”

As cores das contas dos orixás sofrem pequenas alterações, dependendo da nação do candomblé. Exu, normalmente, tem contas pretas intercaladas com vermelhas ou cinzas, apesar dos xambás usarem as cores branca e preta. As de Ogum alternam-se entre o verde ou o azul-marinho. As de Ossaim são verdes, ou verdes rajadas de branco. Para Oxóssi, é utilizado o azul-turquesa. Omolu tem cores que variam entre brancas raiadas de preto e marrom. Oxumaré, o orixá do arco-íris, aceita as verdes raiadas de amarelo. Oxum, a deusa da beleza e do ouro, adorna seus filhos com contas douradas ou de âmbar (alguns aceitam o amarelo). Iansã, a senhora dos ventos e tempestades, se associa às contas marrom ou cor de coral. Iemanjá, a rainha do amor, é cultuada com contas brancas translúcidas ou de cristal (apesar de alguns utilizarem um azul-turquesa). Xangô, o mais popular orixá dos terreiros pernambucanos, traz contas vermelhas ou marrons, intercaladas com contas brancas. Os filhos de Oxalá, que no sincretismo religioso brasileiro é equiparado a Jesus, usam contas brancas leitosas. Em todos os casos, independentemente do orixá ou das cores, todas trazem o seu axé. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.
ROBERTA GUIMARÃES, fotógrafa.

Publicidade

veja também

Sick-lit: Eles estão doentes

Herança da visita de Dom Pedro II

Ricardo Ribeiro: O fadista fora do tempo

comentários