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As múltiplas faces de Wilton de Souza

A exposição 'Bela Aurora do Recife' traz ao público um breve recorte da obra do artista, composta por pinturas, desenhos, projetos gráficos e esculturas

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Abril de 2013

As cenas urbanas e a inspiração nas coisas da rua são características do seu trabalho

As cenas urbanas e a inspiração nas coisas da rua são características do seu trabalho

Imagem Reprodução

Certo dia, uma professora da extinta Escola Maurício de Nassau, situada na Rua Velha, no centro do Recife, chegou à sala de aula e viu nas mãos de um dos seus alunos, Wilton de Souza, um caderno de desenhos. Admirada, ela perguntou ao estudante se aqueles trabalhos eram dele, ao que ele respondeu positivamente. A professora pediu, então, que ele desenhasse, durante a aula, a escultura que lhe apresentava. Wilton enrolou e, no final do encontro, disse-lhe que terminaria o desenho em casa e traria no outro dia.

Ao chegar em casa, o garoto voltou-se para seu irmão mais velho, Welington Virgulino, verdadeiro dono do caderno, e pediu que ele fizesse o desenho solicitado pela professora. O irmão se negou a entrar na farsa. Wilton insistiu, mas não conseguiu convencê-lo. A sua única alternativa era tentar soltar a mão e ver o que conseguiria criar. O resultado não foi satisfatório e, no dia seguinte, teve que explicar tudo na escola.

Mas a mentira terminou aproximando Wilton de Souza das artes. Mesmo sem apoio familiar, ele e o irmão Welington trilharam caminhos dentro desse universo, num momento bastante especial, quando os artistas locais agregavam a seus trabalhos princípios da arte moderna e o Recife passava por um grande processo de urbanização. A relação de Wilton com a cidade é bastante destacada pela curadora da mostra Bela Aurora do Recife, Betânia Corrêa de Araújo. “Os trabalhos dele estão em sintonia com o processo de mudança que a cidade vivia à época. Artífice de um tempo, Wilton de Souza confunde-se com a história cultural do Recife da segunda metade do século 20”, afirma.

A exposição, em cartaz até o fim de maio, no Centro Cultural Correios, faz um pequeno recorte da produção de Wilton de Souza como pintor, desenhista, capista, gravurista, escultor, cenógrafo edesigner. Chama atenção a variedade de suportes utilizados por ele, ao longo dos mais de 60 anos de atividade. Entretanto, parece haver entre todos os projetos elementos condutores que os unem. “Em meados do século passado, ele era um homem disposto a defender a estética moderna ainda em conflito no Recife”, resume a curadora.


O artista atua na administração do Mamam, desde a sua fundação, no início da década de 1980. Foto: Maíra Gamarra/Divulgação

A rua está presente nos trabalhos de Wilton, sejam pinturas, desenhos ou capas de livros e discos. O artista recorda que, ainda menino, como não alcançava a janela de sua casa na Rua Velha, seu pai comprou-lhe um banquinho, de onde tinha uma vista particular do entorno, com a estação de trem e a antiga Casa de Detenção na paisagem. “Aprendi a ver o mundo a partir da janela da Rua Velha”, diz ele.

AQUELES MODERNOS
No citado ambiente de mudança e urbanização da cidade, uma nova geração de artistas começou a se articular, trabalhar juntos e trocar ideias, defendendo uma estética moderna, diferente daquela preconizada pela Escola de Belas Artes. Wilton integrava esse grupo e, por isso, não chegou a fazer o curso formal de artes. Optou pelos encontros do Atelier Coletivo, fundado em 1952, pela Sociedade de Arte Moderna. Ali, ele se unia a um grupo formado, entre outros, por Ionaldo, Abelardo da Hora, Gilvan Samico, José Cláudio, Ladjane Bandeira, Corbiniano Lins.

“Os modernos da Rua Velha”, como eram conhecidos, já que o ateliê se instalava ali, abandonaram as grandes dimensões e as paisagens bucólicas que inspiravam os alunos da Escola de Belas Artes. Voltaram a atenção para as cenas e os espaços urbanos, e as manifestações da cultura popular, apostando no realismo social. O resultado dessa mudança de foco foi a reação negativa do público, e a polarização da crítica, entre o aplauso e o rechaço. “Lembro-me do Salão Oficial de Pintura de 1952, quando nosso grupo levou a maioria dos prêmios, pois fugíamos daquela coisa da natureza-morta, da paisagem convencional. Como quem subvencionava o prêmio era a Escola de Belas Artes, eles não quiseram pagar”, recorda.


Entre seus trabalhoscomo designer, estão as capas de livros.
Imagem: Reprodução

Diferentemente de hoje, naquele período era preciso viajar para saber o que estava sendo produzido na Europa, o que não era acessível a todos. O Atelier Coletivo surgia, assim, como um espaço de troca de conhecimento entre os artistas, onde foram oferecidos os primeiros cursos livres de pintura, desenho, gravura e escultura do Recife.

Dessa experiência no Atelier, há na mostra Bela Aurora do Recife alguns pequenos desenhos feitos por Wilton, no esquema de “pose rápida”. Um dos integrantes posava durante alguns segundos para que os outros o retratassem. Um simples exercício que gerava trabalhos interessantes, feitos com um traço rápido, elegante e preciso. Embora houvesse uma disputa clara entre tradicionais e modernos, artistas como Mário Nunes chegaram a conviver com os modernos naquele espaço. Wilton lembra que, mesmo entre os membros do Atelier Coletivo, havia discordâncias que podiam levar as discussões às ultimas consequências.

O ARTICULADOR
Wilton de Souza acabou assumindo uma função importante na divulgação do trabalho dos artistas que faziam parte de sua geração. Seu papel como gestor de espaços destinados à arte tornou real a possibilidade de levar a produção dos artistas até o público. Desde cedo, sofreu a pressão pela autossuficiência. Ele queria ser artista, mas seus pais eram contra e, para se sustentar, aceitou um emprego numa agência de publicidade. De alguma forma, esse trabalho o aproximou mais da cidade. Wilton chegou a pintar propagandas do refrigerante Fratelli Vita nos paredões que circundavam as margens do Capibaribe.

Não demorou para ser fisgado para outro emprego, dessa vez, na fábrica de discos Rozenblit, onde ficaria responsável pelo desenvolvimento das capas. Nem bem começou a trabalhar, foi promovido a gerente da gráfica, ainda que tenha argumentado quanto à sua ignorância sobre o funcionamento de máquinas ofset (a primeira a funcionar no Recife foi a da Rozenblit).


De acordo com Wilton de Souza, o desenho é a técnica na qual
ele se sente mais à vontade. Imagem: Reprodução 

Seu talento e senso estético fizeram com que a fábrica o convidasse para atuar também numa loja de móveis que mantinha no centro da cidade. A proposta era de que Wilton montasse ambientações com os produtos do estabelecimento, para torná-los mais atrativos aos compradores, algo bastante comum, hoje, em qualquer loja de mobiliário, mas inédito naquele tempo. “Criei umshowroom onde dispunha os móveis vendidos na loja, tapetes, objetos e quadros, montando uma decoração.” Como bom gestor, ele propôs ao patrão a criação da Galeria de Arte Rozenblit, cuja concepção seria unir trabalhos de jovens artistas (muitos deles vindos do Atelier Coletivo) com os móveis comercializados na loja. “Assim, agregando arte e ambientação, conseguimos trazer um outro público para dentro do estabelecimento”, sublinha. Uma das primeiras mostras exibiu obras de Montez Magno.

Seu pioneirismo como decorador foi logo reconhecido, o que lhe garantiu colunas semanais sobre arte e ambientação em dois dos grandes jornais da cidade, o Jornal do Commercio e o Diario de Pernambuco. Mesmo sem formação em Arquitetura, era procurado por alunos, que queriam estagiar com ele, já que a faculdade não oferecia disciplinas ligadas ao design de interiores. O próprio Wilton viajou a São Paulo para fazer um curso na área. “Eu desenhava planta baixa. Pensava nos móveis, nos tapetes, em tudo, para criar um ambiente agradável e estético”, lembra. A proposta deu tão certo, que, mesmo depois de se desligar da Rozenblit, Wilton implantou um trabalho semelhante na Galeria Bela Aurora, nome que inspira o título da atual mostra, e mais tarde na Galeria Três Moedas.

O artista também segue colaborando com instituições públicas, como o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, que viu nascer com o nome de Galeria Metropolitana do Recife, no início da década de 1980, da qual, inclusive já foi diretor geral e diretor administrativo. Atuando e convivendo nesse espaço, cujo foco, nesses primeiros anos do século 21, voltou-se para a arte contemporânea, Wilton demonstra que sua habilidade e seu respeito pela experimentação permanecem vivos. 

MARIANA OLIVEIRA, repórter especial da Continente.

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