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Geneton Moraes: O homem que sabe perguntar

Com 40 anos de profissão, o jornalista pernambucano, que passou pela mídia impressa e televisiva, dedica-se à História, afirmando que "fazer jornalismo é produzir memória"

TEXTO Homero Fonseca

05 de Junho de 2019

Geneton Moraes Neto

Geneton Moraes Neto

Foto Elizabeth Passi/Divulgação

A redação do Diario de Pernambuco, nos começos dos anos 1970, parecia uma velha repartição pública: entre as paredes de cor ocre com barras de 1,5 m de um marrom a óleo tenebroso, espalhavam-se caoticamente altos armários de madeira escura descascada e trôpegas escrivaninhas de aço sobre as quais pousavam robustas máquinas Olivetti. O clima geral condizia com o ambiente físico: sob o guante da censura (e sua filha dileta, a autocensura), a maior parte dos jornalistas compactuando gostosamente com o ideário da ditadura vigente, um punhado de renitentes tentava praticar o jornalismo possível naqueles anos de chumbo.

Corria o ano de 1972. Uma tarde, o marasmo cotidiano foi quebrado pelo crítico de cinema Fernando Spencer. Dirigindo-se ao chefe de reportagem Ricardo Carvalho, a mim, então editor da 1ª página, e outros companheiros, Spencer mostrava o tabloide Junior, com incomum entusiasmo: “Vocês prestaram atenção nesse menino que escreve todo sábado para o suplemento infantil? É um arretado!”.

Com efeito, os textos do garoto eram surpreendentemente bons. Mandaram chamá-lo. Aparece um adolescente guenzo, cara de palestino, sorriso encabulado. Chamava-se Geneton, tinha 16 anos, ainda não ingressara na universidade, mas topava ser jornalista. Uma das primeiras matérias de que foi incumbido seria uma reportagem sobre o Hospital da Tamarineira, o depósito de loucos do estado. Tontonzinho, como o chamávamos, infiltrou-se no inferno e saiu de lá formado em jornalismo. Viu cenas degradantes e ouviu lamúrias desconexas dos internos. Depois, apresentou-se como repórter à direção do hospício e lhe deram uma versão cor-de-rosa da situação. Nascia ali um dos grandes repórteres da imprensa brasileira.


O tropicalismo era uma das paixões musicais do repórter. Foto: Reprodução

Décadas depois, Geneton Moraes Neto ouviu de um jornalista inglês, Louis Heren, o conselho dado por um editor: “Sempre que você estiver entrevistando um ministro ou um líder sindical, um empresário ou um astro de rock, seja quem for, pergunte sempre a si próprio: Por que será que esse bastardo está mentindo para mim?”

Era a mais perfeita tradução da primeira experiência que o jovem foca tinha vivido no Recife naquele seu batismo de fogo na reportagem.

Poucos anos depois daquela estreia fulgurante, o magricela, já com uns fiapos de barba, ingressou no curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Aí, aflorou uma paixão que duraria toda a vida: o cinema. Ele, Amin Steple, Paulo Cunha e Camilo Brolo formavam uma turma unida que, além do cinema, amava os Beatles & os Rolling Stones, Gláuber Rocha, os tropicalistas e, pelo menos no caso de Geneton, o futebol de botão. Com uma câmera super-8 na mão e muitas ideias na cabeça, fizeram filmes que causaram algum estardalhaço na cena cultural do Recife.

Essa experiência seria um ingrediente importante no caldo de cultura de sua formação, que desembocaria na síntese atual: o brilhante repórter televisivo que, na maturidade, alcançou o status de documentarista. É um dos poucos profissionais desse meio que produz matérias rigorosamente autorais. Ele se pauta, pesquisa, cai em campo, faz entrevistas e edita seus próprios programas.




Geisel (à frente), em evento que teve cobertura do jornalista (ao fundo). Foto: Reprodução

JORNALISMO DE GUERRILHA
Pouco tempo depois de sua chegada ao sesquicentenário DP – que foi como que uma lufada de vento fresco a levantar a poeira do marasmo da velha repartição –, Geneton transferiu-se para a sucursal do Recife do Estadão, na qual estávamos eu e Ricardo Carvalho, mais Paulo Cunha, Paulo Moraes e o fotógrafo Josenildo Tenório, sob o comando sereno de Carlos Garcia.

Era o auge da ditadura militar. O jornalão dos Mesquita assumiu uma corajosa postura de oposição e por isso era açoitado impiedosamente pela censura. No lugar das matérias vetadas, começou a publicar receitas de bolo, inclusive na primeira página. E, depois, os versos de Camões (desconfio que todo Os Lusíadas foi desfiado). Era uma maneira de fazer os leitores entenderem a situação, uma forma tão sutil e ardilosa de denunciar a censura, que os próprios censores não tinham como impedir. Meninos, vocês que vieram depois não sabem como viver (e trabalhar em jornal) era perigoso naquela era. Carlos Garcia foi preso e torturado pelo coronel Cúrcio Neto, sua casa vasculhada e sua família ameaçada pelos esbirros da repressão. Aprendemos todos a fazer uma espécie de jornalismo de guerrilha: ocupar os espaços possíveis para denunciar o totalitarismo e fazer eco às aspirações democráticas de políticos oposicionistas, profissionais liberais, intelectuais, estudantes, sindicalistas, parte do clero.



Joel Silveira é tema do documentário Garrafas ao mar, dirigido por Geneton. Foto: Divulgação

Invariavelmente, ao fim do expediente, quase sempre tenso, formava-se na sucursal uma roda de dominó, esse “esporte nacional” do Recife. Geneton era dos mais assíduos. Aquilo funcionava como espécie de catarse.

No Estadão, pela reduzida equipe, a convivência era inevitavelmente intensa. Então, pude observar de perto o cara que ainda não completara 20 anos no seu afazer jornalístico. Em primeiro lugar, não era um deslumbrado, apesar dos constantes elogios – dos chefes, dos colegas, dos leitores – ao seu trabalho. Em segundo lugar, era um leitor voraz e, portanto, bem formado e informado. Em terceiro lugar, nunca caía em campo sem antes pesquisar e estudar minimamente o assunto (esse minimamente é por conta das vicissitudes da profissão, os prazos curtíssimos para elaborar as matérias). E isso, garotada, é mais incomum do que pensa nossa vã filosofia (é cruel ver a enxurrada de repórteres tontos que, no dia a dia de uma redação, saem às ruas para entrevistar alguém ou cobrir um assunto sobre os quais não têm a menor ideia).

Por fim, mas não menos importante, uma característica de GMN é a total ausência de arrogância no trato com as fontes ou com quem quer que seja. No nosso meio, onde a fatal combinação de ego inflado com insegurança produz toneladas de prepotência, chega a ser espantoso. Mas isso não é só fruto do caráter amável do camarada. É também a consciência do seu papel de transmissor de informação ao público. (Quão patéticos são jornalistas que competem com seus entrevistados ou que se valem do texto para arrotar erudição! Desconfiem de entrevistadores que, comumente, fazem perguntas mais compridas do que as respostas dos entrevistados!)


Repórter entrevista ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter. Foto: Divulgação

CARRAPATO
Mas, voltando ao nosso personagem, aquela velha paixão pela arte da imagem em movimento levou-o à televisão, onde está desde 1985. Foi repórter, correspondente em Londres, editor do Jornal da Globo e do Fantástico. E nessa armadilha que pode ser mortal para quem se forma no jornalismo impresso (ou escrito, como ele observou outro dia, face às novas mídias digitais), seu texto se manteve incólume – criativo e refinado, levemente superlativo. Nessa labuta televisiva, revelou-se outro traço considerável do sujeito: a persistência. Pense num repórter carrapato!

Para fazer uma boa matéria ou uma entrevista exclusiva, liga ou bate à porta da “vítima” 10, 12, inúmeras vezes. Leva muito “não”, mas consegue façanhas. A célebre entrevista com Carlos Drummond de Andrade, feita por telefone, menos de um mês antes da morte do poeta (e que rendeu um livro notável), é exemplar. Geneton descobriu que o vate mineiro, avesso a entrevistas, tinha mania por conversar ao telefone. E foi utilizando esse aparelhinho neutro que conseguiu fazer 75 perguntas, obtendo revelações até da vida íntima do arisco poeta.

Nesses 40 anos de profissão, passaram pelo crivo de Geneton, só para citar os mais cintilantes: Jorge Amado, Millor Fernandes, Jarbas Passarinho, Roberto Carlos, Leonel Brizola, Geraldo Vandré, Mário Quintana, Nelson Rodrigues, Pelé, Luiz Inácio Lula da Silva, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Francisco Julião, João Saldanha, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, o ex-presidente americano Jimmy Carter, o Nobel José Saramago, o cardeal sul-africano Desmond Tutu, os escritores Carlos Fuentes, Cabrera Infante, Norman Mailler, Anthony Burguess, o cineasta Woody Allen, o jornalista Gay Talese, a atriz Janet (Psicose) Leigh, o astronauta Eugene Cernan (o homem que bateu o recorde de permanência na Lua), Theodore Van Kirk (o navegador do avião que jogou a bomba atômica sobre Hiroshima), Eva Schloss (sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz).


O escritor norte-americano Norman Mailler foi um dos seus entrevistados. Foto: Divulgação

Publicou mais de uma dezena de livros de reportagens, entre os quais Hitler/Stalin: o pacto maldito Nitroglicerina pura (ambos em parceria com Joel Silveira), Dossiê 50: os onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro, Dossiê Moscou e Dossiê Brasília: os segredos dos presidentes. Ano passado, recebeu a Medalha João Ribeiro, da Academia Brasileira de Letras, por proposta do acadêmico Ledo Ivo, na qual comentou, modestamente, o poeta “comete exageros – a meu favor”. Se pesquisarmos no Google, seu nome obtém 86.100 resultados. No seu perfil, no Facebook, na seção em que as pessoas escrevem sua autobiografia, registra apenas: repórter.

DOCS
Aos 56 anos, casado com a cenógrafa Elizabeth Garsón, três filhos (Clara, jornalista; Joana, pintora; e Daniel, estudante), quatro netos, o recifense tem se preocupado com a História (“Fazer jornalismo é produzir memória”, afirma, convicto). Deu um passo decisivo em sua carreira, ao largar a edição do Fantástico para fazer matérias especiais e editá-las no canal GloboNews, onde já produziu documentários de fôlego como Canções do exílio (com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner) e o mais recente Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças, sobre Joel Silveira, que ele reputa o maior repórter brasileiro de todos os tempos, de quem se tornou amigo, parceiro e filho espiritual, digamos assim, e com quem gravou horas de entrevistas, um valioso documento sobre a imprensa brasileira.

Nessa linha de reportagens históricas, um exemplo são as conversas com os quatro ex-presidentes do Brasil pós-ditadura (Collor, Itamar, FHC e Lula), em que arrancou revelações sobre as entranhas do poder, e as entrevistas com personagens centrais dos “anos de chumbo”, dos dois lados do espectro ideológico, como os generais Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz e o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Paz, comandante militar da Ação Libertadora Nacional (ANL).


Geneton posa ao lado do mestre do jornalismo literário, Gay Talese. Foto: Divulgação

Essas três últimas entrevistas são especialmente reveladoras do “método” GMN: nas duas primeiras, afável, mas incisivo, fez algumas perguntas que foram “devolvidas” com certa agressividade pelos dois militares. Impassível, continuou a inquiri-los. (“Nem sempre respondi, porque meu papel, ali, não era o de fazer ‘discurso’, mas o de ouvi-los, para levar ao público o que duas figuras importantes do regime militar tinham a dizer”, pontuou.)

Na conversa televisiva com Carlos Eugênio Paz foi direto a um ponto muito delicado: os rumores de que teria participado da execução de um companheiro de luta. O ex-guerrilheiro confirmou o fato e explicou por que não tinha confessado antes: “Os jornalistas nunca me perguntaram diretamente sobre o assunto”.

Repórter, demonstra Geneton, é essencialmente um ser que pergunta. 

HOMERO FONSECA, jornalista, blogueiro e escritor. É autor, entre outros, de Roliúde e Pernambucânia.

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