Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Eugène Ionesco: Estética do desconcerto para um teatro absurdo

Autor franco-romeno foi responsável por consolidar o gênero teatral, com peças como 'A cantora careca' e a obra-prima 'Rhinocéros'

TEXTO Fernando Monteiro

01 de Novembro de 2012

Eugène Ionesco

Eugène Ionesco

Foto Reprodução

Em 1948, o francês de origem romena Eugène Ionesco consolidava um importante gênero teatral, ao escrever a peça – de um único ato – intitulada A cantora careca, levada ao palco em 1950. A base para o inusitado texto havia sido um livro-texto para o ensino da língua inglesa, cujo desdobrar de lições didáticas apresentava um certo casal Smith informando um ao outro que eles eram ingleses porque haviam nascido na Inglaterra, tinham três filhos e viviam em Londres, na companhia da empregada Mary, que trabalhava seis dias por semana na residência deles, na qual o teto era em cima e o chão era em baixo etc.

Estava ali o involuntário surrealismo verbal pronto para servir de inspiração à mente inquieta do filho de um advogado romeno que emigrara para Paris, pouco antes da Primeira Guerra Mundial – a “guerra que iria acabar com todas as guerras”. O pai de Eugène viria a deixar o menino de saúde frágil e a irmã aos cuidados da mãe francesa, para voltar à Romênia dos velhos contos populares, às vezes, com diálogosnonsense, mais ou menos no estilo da conversa daquele casal “Smith”. E o garoto iria encontrá-los em Bucareste, a partir de 1922, nas idas e vindas da família dividida entre dois países bem diferentes.


O mote da peça Rhinocéros é a chegada de um rinoceronte a uma pacata cidade.
Foto: Divulgação

O que se tornaria uma peça-cânone do Teatro do Absurdo contaria também com a cacofonia de outro casal (Martin), bombeiros e demais criações saídas duplicadas do livro-texto ionescamente transformado numa “anticomédia”, também extraída das primeiras experiências do jovem Ionesco.

Não havia comédia nas situações bizarras que o filho do catedrático em Leis vivera, algumas vezes, nos bancos do liceu francês e, depois, na Universidade de Bucareste (na qual fez amizade com o lúcido pessimista Cioran e com o místico Mircea Eliade, o criador da cátedra de Religiões Comparadas).

DESCONCERTO
O emprego num banco que o fazia anotar duas vezes o movimento do seu lote de contas de clientes vips não pareceu nada engraçado ao futuro escritor, e o primeiro texto que ele escreveu, intitulado Nu! (Não!), provocou estranheza, mesmo na redação da revista literária que o publicou, em 1934. A sua “estética do desconcerto” já estava em marcha desde as brincadeiras domésticas, e continuaria pela vida afora, com foco central no labirinto da linguagem (“o horror de um labirinto sem centro”), frequentemente levando da falta de sentido para a incomunicabilidade que pode gerar pequenas e grandes catástrofes do “irracional pleno, numa simples esquina ou numa frenética declaração de guerra”.


Com um único ato, A cantora careca consolidou, em 1950, o Teatro do Absurdo enquanto gênero. Foto: Divulgação

Por rigor cronológico, cabe lembrar que a base antes das bases do Teatro do Absurdo, provavelmente já despontara, no final do século 19, na obra do francês Alfred Jarry (1873-1907), cuja peça Os poloneses trazia o personagem emblemático do Ubu-Rei, a criação mais conhecida de Jarry como autor teatral e também de um excêntrico modo de viver (baseado na herança de pequena fortuna). Alfred Jarry está presente no imaginário das primeiras reuniões parisienses do Surrealismo, mas a base do seu teatro, eminentemente visual, inicialmente de marionetes, fornece chave mais para gags do que para o bem-fundamentado teatro que se firma com as obras de Eugène Ionesco, do irlandês Samuel Beckett e dos franceses Arthur Adamov (de origem russa) e Jean Genet, escritas não unicamente para o palco, mas também na forma de romances, contos e ensaios.

Diferentemente de um Gestos e opiniões do Doutor Faustroll do “patafísico” Jarry, com eles não estamos no território da comédia, mas da seriedade existencial que põe em cheque a comunicabilidade humana através de situações comuns do dia a dia que “mascaram” o sentido dos gestos cotidianamente repetidos de forma no mais das vezes automática.

Na literatura e no Teatro do Absurdo, há um fio narrativo que logo se desata, e não uma “história” cômica construída com os itens tradicionais de apresentação-resolução, embora subsista a perfeita observação de trejeitos e maneiras de ser dos senhores e senhoras “Smith” que Ionesco seguiu desenvolvendo surrealisticamente, como num pesadelo que se adensa, desde o começo até a ausência de fim. A ação, esvaziada de sentido “lógico”, apenas ressalta nossas incongruências, à maneira do Tomorrow, o conto de Joseph Conrad que prenuncia o vazio instalado nos diálogos assim como Bartleby de Herman Melville prenunciava Kafka diante do muro bianco-nero do abismo da rotina.


Divulgação de montagem francesa recente de texto de Ionesco.
Imagem: Reprodução

Essa questão, então, dos “antecessores” do gênero do Absurdo poderia ser objeto de lições e ligações inúmeras – algumas talvez absurdas. O que há de claro (e obscuro), pelo menos no teatro, é amise-en-scène da angústia metafísica no centro da observação da condição humana, insuficientemente assistida da base racional. “Base racional”? Essas duas palavras não fariam sentido para o célebre romeno de formação francesa que visitou o Recife, em 1982, com o semblante de um Akim Tamiroff ainda perplexo com alguma escala inesperada do avião.

Dezenove peças se seguiram à primeira do mestre reconhecido pela Academia Francesa, ao longo dos anos (até 1975). Entre elas, as já clássicas A liçãoAs cadeirasO mestreVítimas do dever e a obra-primaRhinocéros – essa suma nada teológica do teatro de Ionesco, encenada exatamente no início de uma década (1960).

Na pacata cidade que lhe serve de cenário, coisa nenhuma permanecerá igual após a passagem de um rinoceronte por ruas surpreendidas pelo animal inesperado. De onde poderia ter vindo aquela criatura cujo fascínio irá se tornando força de transformação insidiosa?


Imagem: Reprodução

Rinoceronte começa – como não poderia deixar de ser – por diálogos estúpidos entre os habitantes da cidadezinha, a partir da passagem do ser estranho que primeiro motiva a intensa curiosidade daquela população de gente comum e indecisa quanto ao rumo de suas vidas sem brilho. Uns recusam admitir que o rinoceronte não seja um sonho, uma visão; outros o aceitam imediatamente, e passam a discutir o desleixo das autoridades que deixam circular livremente um animal daqueles. Por fim, há quem ignore a passagem dele, continuando no mundinho interior da monotonia. Um personagem não se abala com o rinoceronte (Bérenger) enquanto se preocupa apenas com o objeto do seu amor (Daisy) e sente ciúmes do colega de escritório. Quando o animal reaparece em meio aos diálogos de surdos – e seu peso esmaga um gato desprevenido –, a conversa inútil passa a ser sobre a natureza do mamífero perissodátilo: “Bicórnio ou unicórnio? Veio da Ásia ou da África?”...

A besta se espalha pelas casas e surge uma obsessão de Ionesco – os bombeiros (a força vinda “de fora”). As confusões se sucedem e as mentes paralisadas dão chance ao mimetismo que é o centro da peça: aquelas pessoas irão se transformando naquilo que temem, desenvolvendo uma carapaça a mais, perdendo a fala e, pouco a pouco, a humanidade. Em palestra no Recife, o dramaturgo contou que seu ponto de partida foi o relato que lhe fez Denis de Rougemont, escritor francês que se encontrava em Nuremberg por ocasião das impressionantes reuniões nazistas de massa, conduzindo a multidão à histeria que quase contagiava o próprio Rougemont. “Ele se achava já próximo de render-se àquela estranha magia, quando parou para se perguntar sobre que espécie de demônio estaria agindo sobre o seu alto senso crítico”...

Só o tímido Bérenger pretende também resistir à transformação em animal urrante, embora o faça ainda medrosamente: “Eu me defenderei contra todo o mundo... Eu sou o último homem. Não me rendo”. Eugène Ionesco também não se rendeu, e levou a expressão do Absurdo tão longe quanto pôde, antes de falecer no dia 28 de março de 1994, em sua residência parisiense, aos 82 anos. Ou melhor, aos 85 anos, porque o grande romeno diminuiu três anos da sua idade, durante muito tempo, no qual enciclopédias e outras obras de referência deram a data de 26 de novembro de 1912 como a do seu nascimento, por informação do vaidoso autor careca de saber que havia nascido no mesmo dia e mês de 1909. Coquetterie nada absurda... 

FERNANDO MONTEIRO, escritor e cineasta.

Publicidade

veja também

O design dos não designers

Um olhar sobre o tempo dos trambolhos

Os autores no centro do espetáculo

comentários