Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Boi de Maracanã: Folguedo que mobiliza milhares de pessoas

Agremiação centenária de São Luís comemora 40 anos de atividade ininterrupta de seu mestre mais antigo, Humberto, o Guriatã, com eventos que se estendem por vários meses

TEXTO EDUARDO JÚLIO CANAVIERIA
FOTOS MÁRCIO RM

01 de Agosto de 2012

Colorido marcante das vestes e acessórios dos brincantes

Colorido marcante das vestes e acessórios dos brincantes

Foto Márcio RM

Quando chega o mês de maio, matracas e pandeirões começam a ecoar em toda a zona rural da Ilha de São Luís. São os ensaios dos inúmeros grupos de bumba-meu-boi da capital maranhense, que anunciam a aproximação do período junino. É o momento de reencontro dos brincantes e de preparação para a grande festa que percorre quase todo o mês de junho.

Um dos grupos mais importantes de São Luís, o Boi de Maracanã, este ano realizou uma festa especial, pois além de comemorar o aniversário dos 400 anos da cidade Patrimônio da Humanidade, o grupo folclórico festejou os 40 anos de atividade de Humberto de Maracanã, 73, também conhecido como Guriatã, amo do boi, principal cantador e compositor da brincadeira. “Estou muito feliz de fazer parte dessa festa. Fico orgulhoso de ter participado de 10% da história da capital do Maranhão”, brinca Humberto.


As matracas são os ruidosos instrumentos de madeira que dão nome a essa variedade de bumba-meu-boi

Sobre os festejos de São João, ele comenta: “É ao mesmo tempo um momento de alegria e devoção, mas é também de responsabilidade, porque tenho que compor toadas novas e comandar o grupo em muitas apresentações. Mas ainda tenho disposição”. Há um terceiro motivo para comemorar: ano passado, o bumba-meu-boi do Maranhão conquistou o reconhecimento como patrimônio imaterial brasileiro.

Como acontece em todos os anos, o primeiro encontro do Boi de Maracanã é realizado no Domingo de Páscoa, momento em que os organizadores se confraternizam e discutem o cronograma de atividades com vistas aos festejos juninos. Afinal, são sempre mais de 50 apresentações nos arraiais e terreiros de São Luís, além de quatro ensaios oficiais a céu aberto, na comunidade, divididos entre maio e junho, que costumam atravessar a madrugada até o dia clarear. “É quando damos as boas-vindas aos organizadores, e cada cantador apresenta as novas toadas compostas para a temporada”, ressalta Maria José Soares, coordenadora da brincadeira e esposa do amo Humberto, sobre o primeiro encontro.

Com mais de um século de existência, o Boi de Maracanã é formado por cerca de 300 integrantes fantasiados, entre percussionistas e brincantes, a maioria oriunda da comunidade homônima situada a aproximadamente 25km do Centro de São Luís, onde se localiza a sede da agremiação. A área do Maracanã é famosa pela natureza exuberante e pelas plantações de juçara, a denominação maranhense do açaí. Lá, inclusive, ocorre todos os anos a Festa da Juçara, durante o mês de outubro.


Principal cantador e compositor da agremiação, Guriatã destaca
alegria e responsabilidade de sua tarefa

O Boi de Maracanã é de sotaque de matraca, também chamado sotaque da ilha, típico da zona rural de São Luís. Sotaque é como chamam no Maranhão o tipo de bumba-meu-boi. Cada um deles se origina de uma região do estado e se difere pelas vestimentas, personagens, instrumentos e variação rítmica. Além do de matraca, existem outros quatro sotaques: baixada (também chamado de pindaré), orquestra, zabumba e costa de mão. Em comum, a célula rítmica e a encenação do auto do boi, que conta a história do desejo de Catirina, cujo marido (Pai Francisco) corta a língua do boi preferido do dono da fazenda para satisfazer a vontade da esposa grávida.

Os grupos de matraca produzem uma massa sonora mais pesada que os demais. São orquestras percussivas, devido ao uso de muitas matracas e pandeirões, instrumentos de percussão tocados exaustivamente pelos participantes. Compõem, ainda, a sonoridade deste sotaque o tambor-onça (espécie rústica de cuíca) e o maracá, que é sacudido somente pelos cantadores.

Índias, vaqueiros, rapazes, caboclos e miolo (boi) são alguns dos personagens que integram os bois de sotaque de matraca. Uma multidão costuma seguir esses grupos. Não é à toa que são chamados de batalhões. O Boi de Maracanã, por exemplo, chega a reunir, aproximadamente, mil pessoas durante as apresentações. Outro detalhe: os bois de matraca costumam ser batizados com o nome da comunidade na qual nasceram. Assim, existem os bois de Iguaíba, Ribamar, Madre Deus e Maioba, entre outros, que disputam com o Boi de Maracanã o posto de mais querido de São Luís.


As celebrações do bumba-meu-boi são também marcadas por orações de seus integrantes

DATAS DE SANTOS
No calendário oficial, as datas principais dos festejos de junho em São Luís são os dias 13 (Santo Antônio), 24 (São João), 29 (São Pedro) e 30 de junho (São Marçal). Mas é no dia 23 de junho que a maioria dos bois recebe as bênçãos de um padre para brincar pelas ruas. É o chamado batizado, quando o “couro” do boi recebe a nova vestimenta e está autorizado para divertir o público. Ao contrário do calendário junino da maioria das cidades do Brasil, a data mais importante do período em São Luís é o Dia de São Pedro, 29 de junho, quando é feriado municipal.

Durante a festa, o Boi de Maracanã rivaliza, principalmente, com o Boi da Maioba. Os dois grupos são os que mais dividem os corações dos ludovicenses. Enquanto o Boi de Maracanã é o mais pesquisado e admirado pelos intelectuais, o da Maioba é o mais popular. É como se fosse Vasco e Flamengo. Por isso, quando estão em campo, os amos cantam toadas que satirizam o boi opositor. São as chamadas toadas de pique, feitas de improviso, que costumam empolgar a multidão. E essa disputa é tratada de forma lúdica, sem violência. “É uma rivalidade sadia. Nós brincamos com isso. Quando um cantador de outro boi satiriza com o nosso batalhão sempre tem alguém que nos avisa para a gente dar o troco. Mas, ultimamente, não costumo responder mais às provocações”, conta Humberto.

Passado o período junino, as atividades anuais do Boi de Maracanã só encerram no segundo sábado de agosto, quando é realizada a festa da morte do boi. No Carnaval deste ano, o grupo folclórico levou mais de 60 brincantes para desfilar na Marquês de Sapucaí, integrando uma ala da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, que homenageou São Luís, em razão do aniversário de 400 anos.


São Pedro é o santo junino mais festejado do Maranhão e seu dia - 29 de junho - é feriado municipal em São Luís

DEDICAÇÃO
Humberto de Maracanã não é somente considerado um dos mais importantes amos de bumba-meu-boi, mas é também uma das personalidades mais reverenciadas da cultura popular maranhense. Ele exalta em versos a natureza, a vida na comunidade e ainda tece críticas à cena política local. Ao longo da vida, já compôs centenas de toadas e, no Maracanã, o compositor é considerado um líder, um mestre, um poeta, uma autoridade querida por todos.

O cantador conta que, desde criança, inventa toadas de bumba-meu-boi e que, quando tinha 11 anos, chegou a participar de um boi mirim na comunidade em que morava. “Quando entrei na adolescência, me convidaram para cantar no Maracanã, mas no começo eu hesitava, porque não queria assumir essa responsabilidade. Afinal, ainda era muito jovem... Com o tempo, não teve jeito, resolvi aceitar”, lembra. É de Humberto a toada Maranhão, meu tesouro, meu torrão, um dos hinos mais populares e cantados da cultura do estado. Assim diz a letra: “Maranhão, meu tesouro, meu torrão/Fiz esta toada pra ti, Maranhão/ Terra do babaçu, que a natureza cultiva/ Essa palmeira nativa que me dá inspiração”...

Somente os cantadores compõem as toadas do boi. Além dele, o Boi de Maracanã conta com mais sete: Roberto Ricci (famoso compositor e instrumentista popular do Maranhão), Valdete, o Cabeça Branca, Toinho Rocha, Gaguinho, Ribinha, Humberto Filho e Teteco. Os três últimos são filhos de Humberto.


Com o couro “batizado”, o boi desfila a nova vestimenta pelas ruas por onde circula

Além das festas, o Bumba-meu-boi de Maracanã também contribui para a formação profissional e técnica dos jovens da comunidade. Desde 1979, o folguedo é uma associação; hoje, um Ponto de Cultura. Na sede, diversas oficinas são oferecidas a jovens de 7 a 25 anos, entre as quais, percussão, dança, bordados, confecção de fantasias e instrumentos e inclusão digital. Ao todo, mais de 200 pessoas estão aprimorando a sua formação na entidade.

O curso mais procurado, segundo Maria José Soares, esposa de Humberto, é o de informática. “A cada período, temos que adaptar os horários para adequar o número de participantes.” Ela também relata o crescimento da credibilidade da brincadeira junto à comunidade, depois que se tornou Ponto de Cultura e passou a investir mais em arte-educação.

O Boi de Maracanã já contou com a colaboração de músicos e produtores de renome nacional. Em 2000, depois de algumas viagens a São Luís, o músico pernambucano Siba, na época integrante do Mestre Ambrósio, e o produtor musical Beto Villares realizaram o CD Luz de São João, do Boi de Maracanã. No ano seguinte, Beto Villares assinou sozinho a produção dos discos Desejo de São João e Graça de São João, lançados como um CD duplo. E, em 2007, o grupo paulista A Barca produziu para o grupo folclórico um CD e o documentário Rio do Mirinzá, que teve lançamento nacional. 

EDUARDO JÚLIO CANAVIEIRA, jornalista.
MÁRCIO RM, fotógrafo.

Publicidade

veja também

Armando Lôbo: Eterno estudante dos sons que virão

"Mata?"

A morte da inocência norte-americana

comentários