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'Samico': Todas as etapas de feitura da obra

Livro que tem como título o nome do artista, de autoria de Weydson Barros Leal, destaca seu labor meticuloso

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Janeiro de 2012

Samico mantém em sua casa tudo que é necessário à criação

Samico mantém em sua casa tudo que é necessário à criação

Foto Helder Ferrer/Divulgação

Gilvan Samico é uma espécie de artista em extinção. Não pela excepcionalidade de sua obra ou por ter conseguido, como diz, a “sorte” de poder viver do fazer artístico. A raridade de Samico, hoje com 83 anos, está na maneira como pratica seu ofício artístico, numa dedicação que o levou ao nível do virtuosismo. Há cerca de 60 anos, um processo de labor meticuloso e inventivo faz desse pintor e gravador um artista incomum, que leva a cabo o que poucos dominam no campo contemporâneo das artes plásticas: o trabalho artesanal.

“É preciso saber que há artistas que fazem apenas o desenho e depois mandam alguém gravar. Eu desenho, gravo e pinto.” O depoimento de Samico sintetiza como ele encara sua ocupação e pode ser lido no livro sobre o artista que acaba de sair pela editora Bem-Te-Vi. Com prefácio do escritor Ariano Suassuna, textos do crítico Weydson Barros Leal e fotografias e reproduções de Helder Ferrer, as páginas de Samico estão à altura do nome que o batiza. Edição criteriosa, com projeto gráfico cuidadoso, o livro é o primeiro publicado sobre ele. Embora haja muitos textos sobre o morador da Rua de São Bento, em Olinda, grande parte se encontra em catálogos de exposição, revistas e jornais, muitos dos quais publicações esgotadas ou de difícil acesso.

Além de suprir essa lacuna, o livro surge com o papel de zelar pela memória da arte pernambucana, fecunda na criatividade, mas ainda carente em referências bibliográficas. Nos últimos anos, pesquisadores como Joana D’Arc, Clarissa Diniz e o próprio Weydson Barros Leal, idealizador e curador do trabalho sobre Samico, vêm ajudando a mudar um pouco essa história. O crítico, aliás, já assinou volumes sobre outros nomes de peso no estado, como Francisco Brennand, Corbiniano Lins, João Câmara e Abelardo da Hora, o “pai” de muitos desses, incluindo Samico. Weydson diz ter tido a sorte de poder conviver com grandes artistas pernambucanos, muitos ainda vivos.

O livro de Samico, especificamente, começou a ser desenvolvido em 2004. Amigo do artista, Weydson passou a frequentar a casa dele com maior assiduidade naquele ano, principalmente a cozinha, em que os dois gastaram longas horas de prosa e café. Já com o projeto da publicação em vista, o crítico pediu ao artista, que tem ojeriza a gravadores e holofotes, para fazer o registro das conversas. Meio descrente no que aquilo pudesse dar, ele topou. E foi assim que Weydson conseguiu garimpar um material de mais ou menos 14 horas de áudio em fitas. Durante quase sete anos, elas ficaram na estante do escritório-biblioteca do autor. Primeiro no Recife, depois no Rio de Janeiro, onde voltou a morar há três anos. De vez em quando, as fitas saltavam, exibiam-se. “Era pra lembrar que eu estava devendo um livro ao meu amigo. Um dia eu iria fazer.” A promessa se cumpriu quando, bem por acaso, encontrou uma velha amiga, Liana Schipper, editora da Bem-Te-Vi. Ela acabou sendo responsável pela coordenação do projeto, após ter sido submetido ao crivo do conselho editorial da empresa.


Gravura foi desenvolvida durante 2011, especialmente
para o livro. Foto: Helder Ferrer/Divulgação

FONTE DE PESQUISA
Para produzir as páginas de Samico, Weydson levou mais ou menos um ano. Uma escuta das conversas e um exercício de apreciação crítica conduziram a escrita, reunida sob o título de Entre a poesia e o papel. São seis fragmentos textuais ou capítulos mais ou menos curtos e simples, que proporcionam uma leitura acessível e informativa. Não há reflexões densas sobre o artista no livro, mas um relato amplo, que dá conta daquilo que a publicação parece adotar como foco: mostrar quem é esse homem talentoso, legitimando-o do ponto de vista biográfico e artístico – dimensões tratadas de maneira inseparável pelo autor.

O livro é uma fonte de pesquisa substancial. Não só pelos textos, mas também pela seleção de imagens, que apresenta o processo de trabalho artístico orientado pelo perfeccionismo, pela busca insistente da autossuperação pelo artista. Tanto que ele tomou por hábito desenvolver uma gravura por ano, o que não deve ser confundido jamais com comodismo, como alguns já chegaram a cogitar. É, ao contrário, a opção por um esforço mais melindroso e demorado. A capa do livro, por sinal, estampa o trabalho inédito de 2011, produzido para a publicação.

O rigor de Samico em seu ofício pode ser identificado nos textos de Weydson, nas gravuras reproduzidas no livro – que evidenciam a precisão de sua mão –, e ainda em revelações sobre seu processo criativo. Visualmente, a escolha feita por Weydson de 35 estudos em desenho para a gravura A caça, de 2008, é bastante ilustrativa nesse sentido. Uma das partes mais valiosas da publicação. Página a página, é como se o autor nos ciceroneasse, ao abrir a porta da sua casa-ateliê, e desnudasse o mundo de alguém que costuma ser recluso. Samico é conhecido pela timidez e simplicidade, mas basta falar um pouco para conhecermos seu espírito sagaz, bem-humorado e perseverante.

Um dos méritos da obra é revelar como o artista empreendeu a busca pela perfeição de suas gravuras, a partir do apuro técnico que faz dele um artista incomum. Se arte não existe sem o meio que a materialize – no caso, a técnica –, essa é uma máxima imprescindível para entender o trabalho de Samico. Weydson nos evidencia isso, mostrando como o gravador criou e recriou muitas de suas próprias ferramentas, para solucionar problemas, de acordo com a necessidade de sua poética.


Gráfica e simétrica, a obra de Gilvan Samico tem nas narrativas da tradição popular referências profundas. Foto: Helder Ferrer/Divulgação

O exemplo da goiva, ferramenta usada para talhar o desenho na madeira, ilustra essa questão. Percebendo que o fio talhado dificultava a precisão do seu traço, porque enrolava à medida em que o instrumento rasgava a superfície da matriz, Samico inventou uma goiva própria, capaz de atender ao seu rigor. E o mesmo vale para as etapas de pintura e impressão das xilogravuras, para as quais empreendeu novos instrumentos e buscou o papel ideal. Isso tudo também foi possível porque ele mantém uma serralheria em casa, na qual aprimora constantemente o ofício de artesão, criando objetos utilitários, como móveis e caixas marchetadas. Portanto, sua relação com a madeira é intensa: domina cores, cheiros, espécies, texturas, e se diz tão obcecado pelo material, que brinca a esse respeito. Em depoimento reproduzido em Samico, diz que os cupins devem odiá-lo, porque compete com eles.

O PINTOR
Afora as inconfundíveis gravuras de Samico, nessa obra, é possível apreciar suas pinturas, menos conhecidas. Nela nos deparamos com um óleo sobre tela de 1957. Retrata a mulher do pintor, Célida. Nas páginas seguintes, há a reprodução de uma série de paisagens pernambucanas datada de quase 30 anos depois, tempo em que participava do Ateliê Coletivo de Olinda, ao lado de artistas como Giuseppe Baccaro, Guita Charifker, Luciano Pinheiro e José Cláudio. O grupo costumava sair ao ar livre para pintar paisagens. Naturezas-mortas, mulheres e outros temas também compõem a temática pictórica do artista, selecionada para a publicação.

É interessante notar que a pintura nunca deixou de existir em seu repertório artístico. Repare na reprodução da tela A pesca, de 2011. A obra é marcada, como em muitos de seus quadros e trabalhos de outros pintores de sua geração, pelo ritmo das pinturas modernas da primeira metade do século 20, como atesta o próprio Weydson. O autor identifica, no pintor Samico, elementos de artistas como Cézanne, Braque e Morandi.

Apesar de bem diferentes de suas gravuras, as pinturas apontam a mesma predileção pela arte figurativa, por meio da qual, como escreve Ariano Suassuna, vem levando a cabo a tentativa de atingir “as verdades mais nobres e altas da realidade”. Mesmo que esse processo de interpretação do real esteja repleto de seres fantásticos e míticos, como os que habitam suas criações.


Embora escasso, pintura é um gênero que também integra o acervo do xilogravurista.
Foto: Helder Ferrer/Divulgação

OLHAR ESTÉTICO
Apesar de ter escrito textos de naturezas distintas, abordando aspectos biográficos e do processo criativo de Samico, é o olhar estético de Weydson que marca sua análise do trabalho do artista. Três dos referidos seis escritos evidenciam isso: A arquitetura dos sonhos ou uma semiologia do fantástico; Um olhar crítico, um olhar íntimo, principalmente; e O pintor secreto.

Na pele de esteta, ele se detém sobre os aspectos formais, ressaltando elementos como uso da cor, características dos traços, escolha de temas e busca por simetria na composição, vista, por exemplo, na dimensão do espelhamento, uma das facetas do trabalho de Samico. Para o autor, a gravura A luta dos anjos (1968) figura como “um divisor estético em sua obra: a questão do reflexo, dos paralelismos, dos planos independentes que se comunicam, elementos apenas insinuados em Suzana no banho, de 1966”.

A visão crítica de Weydson proporciona ao leitor adentrar um universo povoado por criaturas fantásticas, que começam a surgir nas gravuras do artista a partir do fim dos anos 1960, quando os “elementos simbólicos do sonho e do fantástico” se instalam, permanecendo até os tempos presentes. Weydson questiona o porquê disso, e recebe a seguinte resposta do entrevistado: “Porque eu continuo acreditando em dragão!”.

A abordagem trazida contribui para a compreensão do processo de amadurecimento na trajetória de Samico. São argumentos que ajudam a respaldar a importância de seu legado para a arte brasileira, desde quando seus quadros flertavam com a arte naïf, pela inspiração no universo popular, e sua gravura não tinha atingido o apuro posterior, quando alçou grandes voos. 

OLÍVIA MINDÊLO, jornalista e mestranda em Ciências Sociais.

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