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Cia da Foto

Infinitos tempos que encantam em um momento

TEXTO Eduardo Duarte

01 de Janeiro de 2011

Foto Reprodução

A vida é assim, feita a golpes de pequenas solidões.
Roland Barthes

Uma formiga carrega uma folha. Deixa-a cair. Retorna e volta a carregá-la. Desvia uma pedra e alcança um buraco, por onde tenta incontáveis vezes fazer sua comida descer. Um homem apressado para e atende o celular. Abre um sorriso e sua pressa se esvai. Um rapaz sentado sob a árvore conversa sozinho, respondendo às vozes da sua mente. Do outro lado da praça, senhoras falam animadamente sobre qualquer coisa. Uma moça aborrecida arranca o chiclete da sola de seu sapato, esfregando-o na areia.

Do banco de praça, tenho o mundo diante dos olhos, em suas inúmeras camadas de acontecimentos, além do que se é capaz de descrever. Percebo árvores, crianças e suas bicicletas de formatos e tipos, senhores mergulhados concentradamente em suas leituras. Os sons da cidade chegam de longe e chegam como ecos de um trânsito de veículos que em nada se parece com essa imagem tranquila. Nos limites da praça, uma grade. Depois da grade, prédios contornam o perímetro das árvores e anunciam diversas vitrines, nos diversos andares. Por detrás das vitrines pessoas trabalham, criam ou simplesmente olham o mundo lá fora. Em cada acontecimento, uma experiência do tempo. Velocidades distintas percebem o discorrer do dia.

Cavernas temporais recriam mundos que se mesclam no imaginário de uma cidade. Essa última, por sua vez, traduz uma colcha de vivências na sua arquitetura renovada e na sobrevivência de ruínas. Desenhos de prédios, que nem sempre se assemelham, arrastam justaposições arquitetônicas montadas em volta dessa praça. Os quarteirões foram se ajustando através de séculos às necessidades urbanas dos habitantes desse espaço. O que um dia foi uma igreja, hoje é um museu. Um posto dos correios virou um templo evangélico. O ambiente de um mercado veio abaixo, um posto de gasolina surgiu; modernamente, convive ao lado de um prédio de ateliês que foi um dia a residência de um nobre, vizinho às ruínas de um cinema, na esquina de uma rua sem calçadas, que tiveram que ser engolidas pelo asfalto, para o alargamento da rua ao trânsito de veículos a motor.

Em todos esses rearranjos, a cidade se adapta às novas necessidades de um desejo coletivo em constante mobilidade. Um desejo de ser cidade que desloca o centro comercial para outros espaços, estendendo a malha de edificações e expandindo o tapete de construções sobre colinas, planaltos e vales. Lugares se ressignificam. Ambientes são demolidos ou reaproveitados, fazendo com que um habitante contemporâneo seja inserido em novos espaços construídos no mesmo lugar. Surge um ambiente modificado, com temporalidades distintas, em contexto com a tecnologia da época e as diretrizes políticas, econômicas e culturais.

E, assim, uma cidade se reinventa a cada momento, trazendo suas ruínas como diferentes ambientes museológicos, resquícios de outras vidas e outros sentidos de existência. Reinterpreta no presente um acúmulo de temporalidades que viveu. Cada habitante trafega num tempo e espaço deslocado de seus mais diversos tempos e espaços para os quais foram criados. O desejo de cidade também está engravidado de futuro. A memória propõe alicerces para o sonho e novos espaços são planejados visando à praticidade, à circulação, ao movimento físico de outra época, que ainda está por ser inventada.

Assim sobrevivem esses virtuais atualizados nas mais recentes imersões dos ocupantes desses mundos. Os turistas e os que não foram engolidos pela dinâmica cotidiana do ritmo da urbe percorrem melhor a arqueologia imaginária desses tempos sobreviventes e readequados em outras funções. É preciso algo de ócio, ou de descompromisso funcional para se deixar apanhar pela profunda mistura dos tempos físicos do desenho urbano, com os tempos particulares de cada animal pensante que sobrevive nesse cenário.

Do banco da praça, vejo a formiga e azulejos portugueses de uma igreja. Tenho o desgaste dos postes do século passado amparando anúncios de cartomantes. Vejo a criança em sua bicicleta e o terreno que será desocupado daqui a 20 anos, para o prédio de escritórios que a criança, como adulto, um dia irá comprar. Desse lugar, todos esses momentos me atravessam. Do banco de praça, encontro uma ponta do cordão de memórias no detalhe de um tempo nos rostos ou nas pedras do asfalto. Não se trata de reencontrar o tempo perdido, mas de construir um tempo possível entre aquilo que foi, aquilo que será e aquilo que sou. Algo inicialmente tranquilo e divertido, mas gradativamente sedutor e vertiginoso como percorrer o fio de Ariadne para fora do labirinto, uma aventura única.

Percorrer o fio dos desejos esquecidos e sonhados perpassa habitar as escolhas e conflitos de escolhas, soma-se ao passado fundador, geográfico da cidade, e com os sonhos de cada momento por futuros melhores. Desejos que sobrevivem a invasões, destruições e pilhagens; que se reconstroem em caminhos possíveis ou perdem a vontade de existir e sucumbem em ruínas. Desejos compostos por camadas ou estratos de vontades, sonhos, frustrações que constroem técnicas para satisfazê-los, mas que também são construídos pelas mesmas técnicas.

No instante em que todos esses instantes me atravessam, reclino-me no banco de praça e olho ao longe o vasto horizonte de prédios iluminados. De um lado, as luzes seguem até as serras; do outro, perdem-se de vista na paisagem urbana. Contemplo as primeiras estrelas no céu. Vejo luzes siderais que vêm de muito mais distante e que percorrem uma coleção de imensuráveis anos-luz. Vários momentos possíveis de várias estrelas que emitiram luzes em tempos diferentes. Os brilhos de miríades de múltiplos tempos encantam um só momento. 

EDUARDO DUARTE, Jornalista e professor da UFPE, mestre em Antropologia e doutor em Ciências Sociais

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