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“A hipermontagem atual é histérica”

Professor da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, o pensador francês Dominique Chateau analisa o cinema atual sob o ponto de vista da filosofia da arte e da semiótica

TEXTO CAMILO SOARES E ANDRÉ DIB

01 de Dezembro de 2010

Dominique Chateau

Dominique Chateau

Foto Camilo Soares

Revolução e cinema. Assim foi Maio de 68 para o então universitário Dominique Chateau, que dividia seu tempo entre gritos sobre barricadas e sessões de cinema no Quartier Latin de Paris. Naqueles tempos conturbados, assistiu ao filme O homem que mente, dirigido pelo escritor do novo romance francês Alain Robbe-Grillet, que muito o impressionou, pois não compreendia como o filme funcionava. Foi assim que o estudante de Filosofia e professor de Matemática se apaixonou por essa arte enigmática. Pediu a um amigo que o iniciasse no mundo do cinema. O colega respondeu que, como o diretor da Nouvelle Vague Claude Chabrol disse que só eram necessárias quatro horas para se aprender cinema, ele lhe dedicaria apenas esse tempo. A breve lição foi determinante.

Hoje, professor doutor da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e autor de diversos livros sobre estética, filosofia da arte, semiótica e estudos cinematográficos, Chateau esteve no Recife como convidado especial para proferir a palestra de abertura do 14° Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), organizado pelo curso de Cinema da UFPE. Apesar dos 42 anos de imersão na sétima arte, de teorias que entram e saem de moda e dos novos paradigmas como a internet, o filósofo de 62 anos parece guardar o impulso original de sua cinefilia: “Até hoje, a grande razão de meu interesse é que amo o cinema. Acho que temos sorte por viver na época do cinema. Isso é verdadeiramente extraordinário”.

CONTINENTE Como o cinema pode ser utilizado como matéria para a filosofia? Como podemos pensar em filosofia a partir do cinema?
DOMINIQUE CHATEAU Minha ideia é inversa. É usar a filosofia para pensar o cinema. Seria, por exemplo, pegar Platão, Kant, Heidegger ou Derrida como fundamentos da filosofia para ver se funcionam num filme. O que proponho é a teoria do cinema para extrair a filosofia. A montagem é um exemplo interessante para se pensar nisso. Quando Lev Kuleshov ouviu a palavra “montagem”, pronunciada pelos operadores de câmera franceses que foram trabalhar na Rússia, teve uma espécie de iluminação, ao entender que não designava apenas uma operação técnica, como editing em inglês pode supor, mas uma ideia que indicava uma teoria fundamental do cinema e uma estética. É a partir disso que se deve tirar uma filosofia da montagem.

CONTINENTE Por que privilegiar essa teoria? Você acha que a montagem é a base do cinema?
DOMINIQUE CHATEAU Não é privilégio, mas acho que o cinema moderno começa historicamente com a montagem. Mesmo aquele cinema que vai na direção de não utilizar a montagem vem dessa teoria.

CONTINENTE É o que diferencia o cinema de outras artes?
DOMINIQUE CHATEAU Há montagem em outras artes, como na música e nos romances. Enquanto isso, houve uma tendência em dizer, com o Neorrealismo e a Nouvelle Vague, que a montagem ficou menos importante. Era mais ou menos o que achamos na oposição entre imagem-tempo e imagem-movimento de Deleuze. Então, a montagem não é todo o cinema. Mas Deleuze deve se mexer na sua tumba com a hipermontagem feita no audiovisual de hoje, com efeitos extravagantes e decupagem rápida. Também chamo isso de montagem histérica. Isso é utilizado até nos canais de informação.

CONTINENTE Isso se aproxima da montagem de atração de Eisenstein?
DOMINIQUE CHATEAU Sim, é verdade que foi Eisenstein quem inventou isso. Mas, para ele, tinha um sentido e uma ideologia, como na famosa cena de Outubro, na qual Kerensky se compara a Napoleão. Não existe tal ideologia para o cinema comercial. Ficou fora de moda.


Serguei Eisenstein. Foto: Reprodução

CONTINENTE Glauber Rocha antecipou no título de seu célebre livro O século do cinema (1983) qual seria a arte do século 20. Para você, qual será a arte do século 21?
DOMINIQUE CHATEAU Quando vemos a história das artes, não há necessariamente uma arte por século. Acho que estamos numa época de disseminação da arte por todos os lugares. Não haverá, a meu ver, uma só arte do século 21, mas uma dispersão de artes que se desenvolvem por todos os lugares. O que podemos perguntar é: será que é uma arte? Isso corresponde ao que Walter Benjamin chamou de estetização. Ou seja, tudo é estetizado hoje. Esse belo bairro (Recife Antigo), que está sendo renovado, também está sendo estetizado, como um lugar turístico. O cinema será, então, um elemento de estetização entre outros.

CONTINENTE O cinema brasileiro teve alguma influência em seus estudos?
DOMINIQUE CHATEAU Alguns doutorandos brasileiros, como Paulo Cunha e atualmente Renato Guimarães, apresentaram Glauber de uma forma que eu não percebia. Antes o via simplesmente como um cineasta vanguardista que quebrava a estrutura lógica do filme. Mas a aparente incoerência modernista escondia arquétipos místicos e religiosos da cultura brasileira que desconhecia.

CONTINENTE O diretor Luc Besson compara os sites por onde se baixam gratuitamente filmes com traficantes de drogas. Você acha que a pirataria ajuda o cinema, tornando-o mais acessível, ou representa um perigo?
DOMINIQUE CHATEAU Não estou de acordo com o Luc Besson, pois acho que isso é como lutar contra moinhos. A pirataria não foi criada por piratas malvados, que querem destruir a indústria do filme, mas foi criada pelo próprio instrumento da web. A internet é um fluxo de informação de toda natureza com a qual podemos nos ligar de diversas maneiras. Foi a internet que criou essa facilidade. Não são traficantes os que a utilizam, mas gente normal que busca informação. Na universidade, dávamos aulas com filmes em película 8mm e depois 16mm. Diziam que não tínhamos o direito, pois deveríamos cobrar ingresso. Depois teve o VHS e o governo nos mandava parar de fazer bibliotecas de VHS, pois era ilegal. Depois chegou o DVD e fomos para a internet encontrar velhos filmes que nem saíam comercialmente. Agora, isso não pode mais. Mas tal fato nunca nos impediu de usar esses meios de forma pedagógica. Eu nunca vendi um filme, exibo para os estudantes. Não sou um traficante.

CONTINENTE A internet também criou espaços para um novo tipo de crítica, qualquer um pode postar seus comentários e análises. Antes, isso era restrito àqueles que tinham acesso à escrita para jornais e revistas. Que impactos esse fenômeno terá sobre a teoria do cinema?
DOMINIQUE CHATEAU É uma questão difícil, pois evolui rapidamente. No que concerne à França, acho que não mudou muito, pois há revistas de cinema e editoras que ainda têm poder e legitimidade em relação a sites. A internet ainda tem muitos problemas, como sites que não são controlados. Na Wikipedia, por exemplo, há muitos textos que, quando lidos por especialistas, se revelam aproximativos ou completamente errados. E não se sabe quem escreveu. O mesmo acontece com os blogs. Às vezes, encontro um tipo que escreveu uma má crítica sobre um de meus livros. Eu leio, mas para mim não tem nenhuma importância. Agora também começam a aparecer textos, referências, e até livros, que também são uma espécie de pirataria. Não sei se durará, mas ainda há instâncias de legitimação que deixam de lado o que não é bom. Não sei o quanto isso vai durar. Para mim, a internet ajuda a trabalhar mais rápido, pelo acesso a referências e mesmo para solucionar dúvidas. Mas devemos tomar cuidado, pois quando aceleramos, podemos ser menos precisos. O futuro nos dirá.


Glauber Rocha. Foto: Reprodução

CONTINENTE Você viaja bastante, o que o coloca em contato com outras cinematografias e outras formas de pensar o cinema. Você acha que a estética do filme é ligada a uma cultura local ou o cinema é uma arte universal?
DOMINIQUE CHATEAU Não diria universal, pois o cinema é uma arte nascida da modernidade ocidental, mas que se espalhou muito rápido e se universalizou. A técnica foi criada entre a França e os EUA, depois veio a montagem nos filmes por (Edwin) Porter e Griffith. Mas, rapidamente, ele se espalhou e apareceu uma cinematografia na Ásia, na América do Sul. Há pontos de estética em comum. Algo por exemplo que, apesar de ser francês, acho sufocante é o fato de que para onde eu for, Japão, Tunísia ou Espanha, só escuto falar de Deleuze. Mas isso significa que há possíveis pontos em comum. Mas penso também que há estéticas específicas. O cinema asiático, por exemplo, parte de formas de pensar e de ver a realidade que não são as mesmas. Gosto muito de uma disciplina que se chama de proxêmica, que é a relação que temos com o espaço a partir do corpo e do olhar. Penso que tal relação não é a mesma em países diferentes e isso influencia a maneira de filmar, como a câmera na altura do tatame nos filmes de (Yasujiro) Ozu.

CONTINENTE Como a internet e os games influenciam o cinema e sua teoria? É algo que vai ficar ou só uma moda?
DOMINIQUE CHATEAU Não é uma moda. Acho que a tentativa de trazer a terceira dimensão vem do videogame. É uma vontade de efeitos na simultaneidade, o que remete de novo à hipermontagem. Muitos filmes partem disso, mesmo que nem sempre sejam filmes bem-resolvidos. Outras coisa é em relação à violência no cinema recente, que se dá em dois níveis. Uma, em relação à montagem, uma montagem histérica, uma violência visual da qual Benjamin já falava em sua época sobre os filmes de Chaplin e seus feitos visuais, que causam um certo traumatismo ótico. Por outro lado, há a própria representação da violência. Nos jogos, os jovens estão acostumados a matar o tempo todo, o que nos faz aceitar uma violência visual. Acho que é uma mudança de geração. Claro que não estou dizendo que isso influi nos crimes.

CONTINENTE Foi o que disseram de Laranja mecânica, de Kubrick?
DOMINIQUE CHATEAU Laranja mecânica foi um filme que causou uma forte impressão, mas aí se trata de uma obra de arte. É um filme profundamente psíquico, que remói fantasmas. Kill Bill, por outro lado, tem uma violência incessante, mas sem nenhuma profundidade. É apenas um espetáculo de sangue e de morte.

CONTINENTE No Brasil, houve uma grande polêmica com o filme Cidade de Deus. Alguns teóricos defenderam ironicamente que se tratava da cosmética da fome, em alusão à estética da fome de Glauber Rocha. A teoria de hoje tem medo da estética?
DOMINIQUE CHATEAU Não posso responder sobre um filme que infelizmente não vi. Mas ouvi falar nessa polêmica e a noção de cosmética é muito interessante.

CONTINENTE Também já ouvimos muitas críticas sobre os filmes de Wong Kar-Wai, que seriam estéticos demais para serem bons...
DOMINIQUE CHATEAU É um velho debate sobre qual o limite entre o estético, onde há um certo trabalho e esforço para produzir impressões, emoções e sensações, e o que é do estetismo, ou seja, uma espécie de excesso. Essa crítica sobre a cosmética foi também feita contra outros cineastas, como no cinema italiano de uma certa época, quando muitos diziam que Antonioni é estético e Fellini é estetismo. Falar da pobreza, por exemplo, pediria um cinema herdeiro de Rossellini, que se apaga diante do mundo e tenta mostrá-lo como ele é. É um tanto falso, mas Rossellini falava: “As coisas estão aí. Por que manipulá-las?” Ou seja, se acrescentarmos muita firula ao mostrar o povo e a pobreza, caímos no estetismo. Esse acréscimo pode se dar nas imagens, quando fazemos belas tomadas de favelas por exemplo; pode ser também na montagem, em um documentário muito bem-articulado. Tem gente, então, que pensa que, quando temos um tema pobre, devemos nos adaptar formalmente a essa pobreza, buscar uma certa consonância com o tema.

CONTINENTE Você concorda com isso?
DOMINIQUE CHATEAU Eu diria que pago para ver. Aí, retorno a Kant, que dizia algo que acho fundamental: “Na estética, queremos examinar as coisas com nossos próprios olhos”. Na estética, não há respostas gerais. Temos que ver. Ver e discutir. Quando diziam que Fellini era estetismo, eu não concordava, pois há em seus filmes algo de muito profundo e psicanalítico. 

CAMILO SOARES, fotógrafo, doutorando em Cinema e professor do curso de Cinema da UFPE
ANDRÉ DIB, jornalista.

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