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Artista e violinista sírio Ali Moraly, que se apresentou na conferência de imprensa da documenta 14. Foto: Mayara MarquesArtista e violinista sírio Ali Moraly, que se apresentou na conferência de imprensa da documenta 14. Foto: Mayara Marques

Em Kassel, na Alemanha, a documenta, uma das mais importantes instituições de arte contemporânea do mundo, reafirma, a partir deste sábado, 10 de junho, o seu compromisso de problematizar, através de uma curadoria eminentemente política, questões que atravessam as sociedades capitalistas neoliberais. Entre essas questões, estão a criminalização da pobreza, a empresa colonialista, a crise econômica, política e migratória, e a catástrofe ambiental. Na conferência de imprensa, na última quarta (7/6), no Kongress Palais, o diretor artístico da documenta, Adam Szymczyk, manifestou: “Não são apenas dinheiro e poder que devem comandar a nossa existência”, apontando para outras instâncias da vida que deveriam orientar a experiência do sujeito no mundo, incluindo a arte.

Mas não só ele. Na conferência, o diretor de Programas Públicos da documenta, o filósofo Paul B. Preciado, cujo trabalho questiona os limites das definições binárias de gênero, foi enfático ao dizer que, se nós usarmos a opressão e a violência como formas de governo, não viveremos neste mundo por muito tempo. Preciado, que passou recentemente por um processo de transição de gênero, reforçou que não só ele está passando por um processo de transição: vive-se um momento de mudança na agenda neoliberal.

Aliás, o que parece ficar claro é que a documenta busca, através de sua 14ª edição, questionar um modus operandi atual que parece nos ter sido imposto. Logo na abertura da conferência, o curador “at large” (“à distância”) Bonaventure Soh Bejeng Ndikung nos trouxe a possibilidade de retomar a nossa humanidade desafiando uma agenda que parece tirar do sujeito a possibilidade do cuidado de si e do outro. “A desorientação aponta para o esquecimento, para o descarte do convencional. Tem a ver com perder. Mas essa desobediência abre espaço para que aquilo que é subversivo possa emergir”, apontou.

Apesar das ambiguidades do nosso tempo, a reinvenção diante de um cenário político e social que parece ter regredido é apresentada como uma possibilidade. Como defendeu Dieter Roelstraete, também curador da documenta 14, a arte parece ser vista pelos alemães como um modo de organizar uma realidade fragmentada e desorientadora: “A documenta, em si, surgiu em um pós-guerra marcado pelo fragmento. A Alemanha, de alguma maneira, parece querer solucionar problemas políticos através da arte”.         

A reflexão de Roelstraete aponta que, embora muitos dos trabalhos não tenham sido produzidos em sua maioria por alemães, é evidente que a documenta é uma instituição alemã cuja epistemologia não pode ser ignorada.

No trecho do trabalho Quatrain, apresentado ainda na conferência de imprensa pelo artista e violinista sírio Ali Moraly, vê-se uma obra que parece digerir os horrores da guerra na Síria. Moraly, que pesquisava a música síria há alguns anos, teve que fugir do seu país quando a guerra desatou. Em uma das músicas, Graves in the sky (Túmulos no céu), sente-se um país cujo solo não foi suficiente para guardar os seus mortos. De algum modo, em seu discurso e escolha curatorial, a documenta parece apresentar a arte como uma possibilidade de terapia.  

O evento, que acontece a cada cinco anos, vai até o dia 17 de setembro em Kassel. 

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

 

 

Acima, escultura do artista Manfred Kielnhofer, que está na "documenta 14". Foto: DivulgaçãoAcima, escultura do artista Manfred Kielnhofer, que está na "documenta 14". Foto: Divulgação


A partir do dia 7 de junho, a Continente acompanha a documenta 14, um das exposições mais importantes de arte contemporânea do mundo. Através de uma parceria com o Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA), enviamos a nossa colaboradora Bárbara Buril, jornalista que ficará responsável por acompanhar a primeira semana do evento em Kassel, na Alemanha, de onde enviará à Continente Online uma cobertura exclusiva da mostra, que acontece de cinco em cinco anos.

Para acompanhar os textos, imagens e vídeos da documenta 14, os leitores podem acessar a home do nosso site, onde estarão em destaque as postagens mais recentes, ou uma página especial, que funcionará como um blog da cobertura desta que é conhecida como “as Olimpíadas das artes visuais”, com artistas do mundo inteiro. No endereço, estarão reunidas todas as postagens, incluindo desde as obras que serão expostas nos espaços tradicionalmente reservados para a documenta, como o Museu Fridericianum, até os debates, as performances e as intervenções que acontecem ao ar livre na programação paralela da documenta.

Este ano a documenta 14 acontece pela primeira vez fora de sua cidade-mãe, Kassel, ocupando também Atenas, na Grécia, devido à proposta curatorial desta edição de questionar as fronteiras, principalmente política e econômica, entre Norte e Sul europeu, e globais. O tema de 2017, Learning from Athens, recorre a Atenas não só como símbolo da crise financeira global e migratória na Europa, mas também como ícone representativo da construção da democracia na história ocidental. Além disso, a escolha de levar a exposição para Atenas está ligada a uma das principais intenções desta edição, que é fazer com que a arte crie pontes e supere fronteiras que a economia e a política não são capazes de realizar hoje. Assim, desde o dia 8 de abril, a documenta 14 está em Atenas, onde segue em cartaz até o dia 16 de julho. Em Kassel, a mostra será inaugurada oficialmente no dia 10 de junho e encerra no dia 17 de setembro. Ambas as versões coexistem, então, durante cerca de um mês (junho/julho), com os mesmos artistas participantes (ver lista AQUI), com obras distintas.

CRÍTICAS
Apesar da orientação curatorial da documenta 14, já há uma série de críticas direcionadas ao time do curador polonês Adam Szymczyk, segundo as quais não houve um interesse da documenta em incluir os artistas locais na exposição oficial ou na programação paralela do evento. As críticas principais enfatizaram que o modo pelo qual a instituição se inseriu em Atenas reproduziu o mesmo movimento pelo qual o Norte sempre se introduziu no Sul: através de um posicionamento colonialista e dominador, como se pode ver na crítica do curador Moacir dos Anjos publicada no blog Conexão documenta 14, do Centro Cultural Brasil-Alemanha (ler AQUI). O curador esteve em Atenas, em abril, a convite do CCBA.

Certamente, a presença da documenta 14 em Kassel não será tão conturbada como em Atenas. Não só porque é quando o Norte se encontra consigo mesmo, mas também porque se trata do evento mais esperado pelos moradores de Kassel, uma cidade sem muitos atrativos nos anos em que não há documenta. É claro que se trata de uma exposição muito bem-vinda pelos alemães. Ainda assim, a partir de uma confiança no potencial transformador da obra de arte (ainda que em um nível mais sutil), espera-se uma sensibilização do público eminentemente europeu para as feridas que acometem o Sul político e econômico do mundo, como se podem ver nos trabalhos dos artistas que integram esta edição. Isso é o que iremos conferir.

A nossa cobertura segue até o dia 12 de junho.

Confira abaixo a lista de artistas participantes da documenta 14:

Abounaddara
Akinbode Akinbiyi
Nevin Aladağ
Daniel García Andújar
Danai Anesiadou
Andreas Angelidakis
Aristide Antonas
Rasheed Araeen
Ariuntugs Tserenpil
Michel Auder
Alexandra Bachzetsis
Nairy Baghramian
Sammy Baloji
Arben Basha
Rebecca Belmore
Sokol Beqiri
Roger Bernat
Bili Bidjocka
Ross Birrell
Llambi Blido
Nomin Bold
Pavel Brăila
Geta Brătescu
Miriam Cahn
María Magdalena Campos-Pons and Neil Leonard
Vija Celmins
Banu Cennetoğlu
Panos Charalambous
Nikhil Chopra
Ciudad Abierta
Anna Daučíková
Moyra Davey
Yael Davids
Agnes Denes
Manthia Diawara
Beau Dick (1955–2017)
Maria Eichhorn
Hans Eijkelboom
Bonita Ely
Theo Eshetu
Aboubakar Fofana
Peter Friedl
Guillermo Galindo
Regina José Galindo
Israel Galván, Niño de Elche, and Pedro G. Romero
Pélagie Gbaguidi
Apostolos Georgiou
Yervant Gianikian and Angela Ricci Lucchi
Gauri Gill
Marina Gioti
Beatriz González
Douglas Gordon
Hans Haacke
Constantinos Hadzinikolaou
Irena Haiduk
Ganesh Haloi
Anna Halprin
Dale Harding
David Harding
Maria Hassabi
Edi Hila
Susan Hiller
Hiwa K
Olaf Holzapfel
Gordon Hookey
iQhiya
Sanja Iveković
Amar Kanwar
Romuald Karmakar
Andreas Ragnar Kassapis
Kettly Noël
Bouchra Khalili
Khvay Samnang
Daniel Knorr
Katalin Ladik
David Lamelas
Rick Lowe
Alvin Lucier
Ibrahim Mahama
Narimane Mari
Marie Cool Fabio Balducci
Mata Aho Collective
Mattin
Jonas Mekas
Angela Melitopoulos
Phia Ménard
Lala Meredith-Vula
Gernot Minke
Marta Minujín
Naeem Mohaiemen
Hasan Nallbani
Joar Nango
Rosalind Nashashibi and Nashashibi/Skaer
Negros Tou Moria (Kevin Zans Ansong)
Otobong Nkanga
Emeka Ogboh
Olu Oguibe
Rainer Oldendorf
Pauline Oliveros (1932–2016)
Zafos Xagoraris
Joaquín Orellana Mejía
Christos Papoulias
Véréna Paravel and Lucien Castaing-Taylor
Benjamin Patterson (1934–2016)
Dan Peterman
Angelo Plessas
Nathan Pohio
Pope.L
Postcommodity
Prinz Gholam
R. H. Quaytman
Abel Rodríguez
Tracey Rose
Roee Rosen
Lala Rukh
Arin Rungjang
Ben Russell
Georgia Sagri
Máret Ánne Sara
Ashley Hans Scheirl
David Schutter
Algirdas Šeškus
Nilima Sheikh
Ahlam Shibli
Zef Shoshi
Mounira Al Solh
Annie Sprinkle and Beth Stephens
Eva Stefani
K. G. Subramanyan (1924–2016)
Vivian Suter
El Hadji Sy
Sámi Artist Group (Britta Marakatt-Labba, Keviselie/Hans Ragnar Mathisen, Synnøve Persen)
Terre Thaemlitz
Piotr Uklański
Antonio Vega Macotela
Cecilia Vicuña
Annie Vigier & Franck Apertet (les gens d’Uterpan)
Wang Bing
Lois Weinberger
Stanley Whitney
Elisabeth Wild
Ruth Wolf-Rehfeldt
Ulrich Wüst
Sergio Zevallos
Mary Zygouri
Artur Żmijewski

Stephen Antonakos (1926–2013)
Arseny Avraamov (1886–1944)
Étienne Baudet (ca. 1638–1711)
Franz Boas (1858–1942)
Lucius Burckhardt (1925–2003)
Abdurrahim Buza (1905–1986)
Vlassis Caniaris (1928–2011)
Sotir Capo (1934–2012)
Cornelius Cardew (1936–1981)
Ulises Carrión (1941–1989)
Agim Çavdarbasha (1944–1999)
Jani Christou (1926–1970)
Chryssa (1933–2013)
Andre du Colombier (1952–2003)
Bia Davou (1932–1996)
Ioannis Despotopoulos (1903–1992)
Thomas Dick (1877–1927)
Maria Ender (1897–1942)
Forough Farrokhzad (1935–1967)
Tomislav Gotovac (1937–2010)
Nikos Hadjikyriakos-Ghika (1906–1994)
Oskar Hansen (1922–2005)
Sedje Hemon (1923–2011)
Tshibumba Kanda Matulu (1947–1981 disappeared)
Kel Kodheli (1918–2006)
Spiro Kristo (1936–2011)
KSYME-CMRC (founded 1979)
Maria Lai (1919–2013)
George Lappas (1950–2016)
Ernest Mancoba (1904–2002)
Oscar Masotta (1930–1979)
Pandi Mele (1939–2015)
Benode Behari Mukherjee (1904–1980)
Krzysztof Niemczyk (1938–1994)
Ivan Peries (1921–1988)
David Perlov (1930–2003)
André Pierre (1915–2005)
Dimitris Pikionis (1887–1968)
Anne Charlotte Robertson (1949–2012)
Erna Rosenstein (1913–2004)
Scratch Orchestra (1969–1974)
Allan Sekula (1951–2013)
Foto Stamo (1916–1989)
Gani Strazimiri (1915–1993)
Władysław Strzemiński (1893–1952)
Alina Szapocznikow (1926–1973)
Yannis Tsarouchis (1910–1989)
Lionel Wendt (1900–1944)
Basil Wright (1907–1987)
Andrzej Wróblewski (1927–1957)
Iannis Xenakis (1922–2001)
Androniqi Zengo Antoniu (1913–2000)
Pierre Zucca (1943–1995)

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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