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Detalhe da instalação "Opus", de Rasheed Araeen, na Neue Neue Galerie. Foto: Mathias Voelzke/DivulgaçãoDetalhe da instalação "Opus", de Rasheed Araeen, na Neue Neue Galerie. Foto: Mathias Voelzke/Divulgação

Uma estrutura com mesas de aço e vidro, madeiras e várias cópias da revista
Third Text integram a obra The reading room (em tradução livre, Sala de leitura), do escultor, pintor, escritor e curador Rasheed Araeen. Trata-se de uma obra aparentemente simples, se comparada aos painéis e instalações que ocupam o espaço da Neue Neue Galerie, onde hoje funciona a nova estação dos correios de Kassel. Apesar do caráter pouco monumental da obra em questão, não se deve subestimar a grandeza intelectual e artística de Araeen e a importância da Third Text em um contexto social específico.

Araeen, que nasceu no Paquistão, em 1935, não só foi um dos nomes a integrar a primeira onda de artistas não europeus a viver na Europa (no seu caso, em Londres),  mas ainda a figura principal na Inglaterra a militar, como editor, escritor e artista, pela inclusão dos artistas do “terceiro mundo” em um imaginário social eminentemente eurocêntrico. Em 1972, integrou o Movimento dos Panteras Negras (apesar de sua origem não ser exatamente negra) e, seis anos depois, fundou o jornal Black Phoenix, que, em 1989, se transformou na publicação Third Text: Critical Perspectives on Contemporary Art and Culture. Trata-se de uma das principais publicações a articular reflexões sobre arte, pós-colonialismo e pesquisa etnográfica.

Embora o artista e editor não mais se envolva diretamente com a publicação (hoje, Richard Dyer, professor de Estudos Fílmicos da King’s College, é a pessoa que lida mais diretamente com as diretrizes editoriais da revista), a Third Text ainda segue a orientação principal proposta por Rasheed Araeen de refletir sobre o impacto da globalização nas práticas culturais e sobre a teoria pós-colonialista. Na última edição, por exemplo, é possível encontrar artigos sobre o lugar das mulheres na economia de mercado, o papel do coletivo artístico Gugulective em suas críticas ao neoliberalismo na África pós-Apartheid e a arte de bonecos no Sudeste Asiático pós-internet, festivais e galerias de arte.

"The reading room" e a "Third Text", por Rasheed Araeen. Foto: Mayara Marques"The reading room" e a "Third Text", por Rasheed Araeen. Foto: Mayara Marques

É claro que a Third Text é uma publicação bastante intelectualizada, mas ela foge de todo e qualquer academicismo (os textos são autorais e contam, inclusive, com ilustrações), sendo um espaço de reflexão sobre temas que concernem todos aqueles sujeitos cujos corpos e modos de viver fogem da lógica eurocêntrica. Aliás, a revista está com chamada de trabalhos abertas (confira AQUI) e, fazendo um apanhado de suas últimas edições, basicamente não se veem reflexões sobre a arte brasileira.

Detalhe da revista "Third Text". Foto: Mayara MarquesDetalhe da revista "Third Text". Foto: Mayara Marques

O IMPÉRIO DO OLHAR
Mais recentemente, Araeen tem buscado refletir, em obras como Shamiyaana — Food for thought: thought for change, exposta atualmente na documenta de Atenas, sobre as relações possíveis de serem estabelecidas com a arte, questionando o contato visual como a única maneira disponível de interação artística. Como disse em breve conversa com a Continente, em Kassel, “a minha principal ideia é tratar a arte dentro da vida cotidiana. Vida cotidiana é jogar, cozinhar, comer e ser. O problema da documenta é que tudo aqui é para ver. No meu trabalho, você pode ver, mas você pode também comer, jogar”.

Assim, a obra Shamiyaana — Food for thought: thought for change consiste em uma espécie de tenda com estampas geométricas, dentro da qual os visitantes podem se sentar juntos para experimentar uma refeição baseada nas receitas ao redor do mediterrâneo, que foram cozinhadas em colaboração com a ONG grega Organization Earth, cujo propósito é desenvolver o conceito de inteligência social e ambiental através de uma educação experimental e não formal. "Shamiyaana",aliás, é o nome das tendas tradicionais de casamentos paquistaneses.

Araeen em entrevista para a Continente na documenta 14. Foto: Mayara MarquesAraeen em entrevista para a Continente na documenta 14. Foto: Mayara Marques


Questionando o olhar como único modo de interação artística, as obras mais atuais de Araeen brincam com uma geometria que deve ser moldada e mudada pelo próprio público. No Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde esteve no ano passado, Araeen levou cerca de 400 estruturas que poderiam ser desmanteladas e desmontadas pelas pessoas como elas quisessem. A geometria das criações de Araeen também está presente em Kassel, logo ao lado de
The reading room. Aqui, o olhar também cumpre um papel central, mas é um olhar mais leve e divertido, apesar da postura engagément da documenta.

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

"Parthenon de livros", de Marta Minujín, foi instalado no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados. Foto: Bárbara Buril"Parthenon de livros", de Marta Minujín, foi instalado no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados. Foto: Bárbara Buril

Além de expor obras nos tradicionais espaços expositivos de Kassel, como o Fridericianum, a Neue Galerie ou a Documenta Halle, a documenta também é conhecida por instalar suas obras monumentais ao ar livre. Como contrapartida artística, algumas instalações externas são concedidas a Kassel, mesmo após o fim da documenta. A obra Os estranhos, de Thomas Schütte, por exemplo, integrou a documenta 9, em 1992, e até hoje pode ser vista na Friedrichplatz. Isso faz da cidade um lugar onde sempre há arte a ser vista nos locais públicos, durante ou fora do período do evento. Nesta 14ª edição, a instalação monumental da artista argentina Marta Minujín tem conquistado a atenção e os olhares dos visitantes.

Montada na Friedrichplatz, praça de Kassel tão central e importante como a Königsplatz, a obra
Parthenon de livros foi erigida no lugar onde, em 1933, cerca de 2 mil livros foram queimados, como resultado de uma ação nacional empreendida pela nazista União Alemã de Estudantes. O Parthenon criado por Marta Minujín é uma réplica do templo original encontrado na Acrópolis, em Atenas, onde a documenta também é realizada em 2017. A obra simboliza ainda as ideias políticas e estéticas daquela que é vista como a primeira experiência de democracia do mundo.

Localizado em frente ao Fridericianum, o Parthenon de livros foi formado com cerca de 100 mil volumes que já chegaram a ser censurados em outros lugares do mundo. Na lista, criada pelos estudantes de línguas germânicas da Universidade de Kassel, encontram-se, inclusive, os livros de Paulo Coelho 
O alquimista e Verônica decide morrer, que chegaram a ser censurados no Irã em 2011.

Além do Parthenon dos livros e do Monumento do estrangeiro e do imigrante (ver AQUI), que, pelo tamanho, chegam a chamar mais a atenção de quem está em Kassel, há outras instalações e intervenções espalhadas pela cidade alemã. Ecoando as mesmas questões trazidas pelo monumento de Olu Oguibe, a obra Nós (todos) somos o povo, de Hans Haacke, mostra, em diferentes línguas, a frase que dá nome à obra. Tanto em Atenas quanto em Kassel, foram espalhadas várias reproduções do trabalho, inclusive na fachada da loja SinnLeffers, ao lado do Fridericianum, onde, em cima, também há uma estátua de um grupo de imigrantes chegando a um lugar. 

Obra "Nós (todos) somos o povo", de Hans Haacke, na documenta 14. Foto: Bárbara BurilObra "Nós (todos) somos o povo", de Hans Haacke, na documenta 14. Foto: Bárbara Buril

Logo ao lado, na fachada do Fridericianum, onde antes havia simplesmente os letreiros com o nome “Museum Fridericianum”, vê-se a frase “Being safe is scary” (em português, “Estar seguro é amedrontador”). A obra, do artista turco Banu Cennetoglu, retoma o tema da imigração, que parece ser a questão mais cara a esta documenta 14.

Além das obras apontadas acima, é possível encontrar outros projetos artísticos igualmente interessantes por toda parte, como O moinho de sangue, de Antonio Vega Macotela, e Trassen (no Karlsaue), de Olaf Holzapfel. Para conhecer as obras públicas de outras edições da documenta, acesse o link: https://www.documenta.de/en/works_in_kassel

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

 

 

 

"Monumento do estrangeiro e do imigrante", do artista nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril"Monumento do estrangeiro e do imigrante", do artista nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril


A cidade de Kassel se vê realmente transformada durante o período da documenta. Desde a abertura oficial da 14ª edição, que aconteceu no sábado (10/6), o que se vê pelas ruas é um trânsito bem maior de pessoas, cuja diversidade cultural demonstra que vieram a Kassel por conta da documenta. Há também uma grande quantidade de policiais espalhados por vários pontos da cidade. No sábado, dia da abertura, até os céus estavam patrulhados por helicópteros da polícia. Isso tanto porque a documenta agrupa em pequenos espaços uma grande quantidade de pessoas, o que a torna alvo de ataques, como porque, na ocasião, Kassel recebeu o presidente da Alemanha, Frank Walter Steinmeier, e a sua contraparte grega, Prokopis Pavlopoulos. Steinmeier inaugurou a parte alemã do evento em frente ao Museu Fridericianum, antes de visitar outras exibições com Pavlopoulos.

O clima da abertura é realmente diferente. Para o estudante líbio Keil Büzedig, “aqui não parece Kassel. Não recebemos sempre muitas pessoas, então é uma novidade vermos tanta gente por aqui. Não entendo de arte, mas estou empolgado com o trânsito de pessoas falando várias línguas. Aqui só se escuta árabe e alemão e, de repente, escutamos inglês!”. Keil, que mora em Kassel há seis meses, tendo imigrado da Líbia, na África, para a Alemanha com o intuito de realizar um curso superior, refere-se, em sua fala, ao que se vê como a maior comunidade de imigrantes em Kassel: os árabes, de origens síria, turca, curda e libanesa. Por alguns lugares da cidade, é possível entrar no metrô e apenas escutar árabe. Pelas ruas, os restaurantes predominantes são as “Kebaphaus”, lanchonetes onde se vendem os famosos kebabs, e os “Shisha bars”, um mix de café e pub onde se pode beber café ou algo alcoólico, e fumar o que conhecemos como o narguilê.

Uma atmosfera que pode, inclusive, nos fazer esquecer que estamos, afinal, na Alemanha. E é claro que esses ambientes mais árabes do que alemães nos fazem lembrar tanto do universo distópico criado pelo escritor francês Michel Houllebecq em Submissão, obra na qual ele desenha uma Europa futura na qual os árabes passam a ocupar cargos públicos na França e a ditar os costumes pregados no Alcorão, como nos levam a refletir sobre os significados da imigração e suas problemáticas. A Alemanha, de fato, abriu as suas portas para os imigrantes e esse ato de generosidade política e social, apesar de louvável, também guarda as suas ambiguidades e dificuldades práticas.

Cenas da cidade de Kassel, na Alemanha, durante esta documenta 14. Foto: Bárbara BurilCenas da cidade de Kassel, na Alemanha, durante esta documenta 14. Foto: Bárbara Buril

Trata-se de um tema complexo que, aliás, a documenta se propõe a abordar. De todas as obras possíveis de serem encontradas dentro do Fridericianum, Neue Galerie, Kulturhauptbanhof e documenta Halle, a mais impactante dedicada a essa questão é justamente aquela que se pode encontrar ao ar livre, na Königsplatz: a obra Monumento do estrangeiro e do imigrante, do artista Olu Oguibe. No obelisco de 16 metros, está gravada, em alemão, inglês, árabe e turco, a seguinte frase, retirada da Bíblia: “Eu era um estranho e vocês me acolheram”. A obra, por ter uma forma de obelisco e por se localizar na principal praça de Kassel, soa como um monumento de celebração e posiciona-se, assim, contrariamente a todos os movimentos antimigratórios crescentes hoje em dia também no discurso de líderes políticos da Europa, sobretudo ocidental.

Obelisco do nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara BurilObelisco do nigeriano Olu Oguibe para a documenta 14. Foto: Bárbara Buril

O próprio autor da obra, o artista nigeriano Olu Oguibe, viveu quando criança os horrores da Guerra Civil na Nigéria e cresceu na Inglaterra. No monumento artístico que instalou em Kassel, evoca a atual crise de humanidade em certos discursos políticos e reafirma os princípios atemporais e universais de cuidados sob perseguição e guerra. A obra, que ficará na Königsplatz após a documenta e será vista cotidianamente pelos moradores da cidade, parece ter um forte potencial de transformar, pelas vias da repetição visual, o temor e a antipatia à xenofobia.

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

Nikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

Após um percurso de cerca de 3 mil quilômetros, desde Atenas, na Grécia, onde também está acontecendo a documenta 14, o artista indiano Nikhail Chopra aportou em Kassel, mais exatamente na Kulturbahnhof, onde montou a sua obra Drawing a line through the landscape. A viagem de Chopra e sua restrita equipe compreendeu o cruzamento de montanhas gregas, a passagem por vilas desertas de antigas cidades soviéticas e por monastérios na Bulgária. Antes de chegar a Kassel, Chopra ainda passou por cidades como Budapeste, na Hungria, e Bratislava, na Eslováquia – armando a sua tenda ao longo do trajeto.

Ao optar por não percorrer os movimentos binários Norte-Sul ou Leste-Oeste, a obra se propõe a retomar as antigas rotas nômades, através das quais é possível encontrar cidades abandonadas, povos rejeitados e o cansaço de todos aqueles que vivem à margem dos caminhos tradicionais. A tenda, aliás, funciona exatamente como este lugar de acolhimento, na qual se entra sem pagar e na qual também se pode conversar, tocar música ou simplesmente dormir. A Kulturbahnhof, espaço cultural de Kassel, não se trata exatamente de um ambiente de agruras, mas ter o símbolo de uma tenda em uma estação de trem sugere exatamente o modo de socialização daqueles que estão de passagem.

Uma tenda na qual se pode entrar sem pagar oferece toda uma sorte de reflexões sobre a nossa lógica atual (capitalista) de socialização. Só interagimos se temos dinheiro, afinal. No entanto, o que não fica muito claro é como as rotas nômades foram percorridas com a van Volkswagen que acompanhou o grupo de artistas, uma vez que as rotas não tradicionais, na maior parte das vezes, carecem de local para a passagem de carros.

Nikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

De modo bastante contraditório, é preciso enfatizar que a marca de automóveis Volkswagen é a patrocinadora principal da documenta este ano. O patrocínio se traduziu tanto em um alto montante reservado para a montagem da exposição, quanto para a execução de obras como a performance de Nikhail Chopra, a montagem do Parthenon de Livros, da artista argentina Marta Minujín, e o acompanhamento do artista escocês Ross Birrell, no caminho de Atenas a Kassel à cavalo, que ele ainda percorre com a obra O trânsito de Hermes. O percurso de Birrell, que começou no dia 9 de abril em Atenas, durará 100 dias.

Embora a Volkswagen já tenha apresentado o primeiro carro elétrico no ano passado, provavelmente a ser lançado em 2020, hoje a empresa alemã é a maior produtora de automóveis movidos a gasolina e diesel do mundo. Em 2015, por exemplo, a Volkswagen esteve envolvida em um escândalo após a descoberta de que os seus veículos a diesel continham um elemento que reconhecia o momento em que passava por um teste de emissão de poluentes para, somente durante os testes, diminuir essas emissões. Durante o uso cotidiano, estes automóveis superavam em até 40 vezes o limite máximo estabelecido pela legislação estadunidense para a emissão de óxido de nitrogênio.

Para um evento dedicado não só a questionar os desastres ecológicos em uma era neoliberal, mas os processos de desenvolvimento ambíguos no Sul político e econômico, o patrocínio da Volkswagen soa, para dizer o mínimo, um paradoxo. 
Já a obra de Chopra, apesar da perspicácia ao refletir sobre formas de socialização diferentes, poderia ser mais provocativa quanto ao modo nômade e ecológico de se locomove,  se tivesse sido feita sem um Volkswagen. 

Interior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara BurilInterior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara Buril

*A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

 

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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