• Pernambuco na competição da Berlinale

    Foto: Letícia SimõesFoto: Letícia Simões

     

    Pouco antes das 10h da manhã da terça (10/1), o cineasta Marcelo Gomes usou o Facebook para divulgar que Joaquim, seu mais recente filme, estava na seleção oficial de um dos mais importantes festivais cinematográficos do mundo: “Queridos amigos, é com prazer que divido com vocês a notícia abaixo. O nosso filme JOAQUIM está na competição oficial do festival de Berlim. Parabéns a toda essa talentosa e guerreira equipe!!!!!”.

     

    Coprodução luso-brasileira-espanhola com inspiração na história do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e ambientada no século XVIII, anos antes da Inconfidência Mineira, Joaquim tem o selo da REC Produtores, da Dezenove Som e Imagem e da Ukbar Filmes, e estará na competição da 67ª Berlinale - Festival Internacional de Cinema de Berlim. Terá, ao seu lado, os novos títulos de Volker Schlöndorff, Danny Boyle e Agnieskka Holland, entre outros. 

     

    Marcelo Gomes - Foto: Letícia SimõesMarcelo Gomes - Foto: Letícia Simões

     

    Não é de hoje que Gomes frequenta mostras estrangeiras com suas obras: em 2005, levou seu longa-metragem de estreia, Cinema, aspirinas e urubus, para a mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, e em 2009 esteve na Orizontti, do Festival de Veneza, com Viajo porque preciso, volto porque te amo, uma codireção com Karim Aïnouz. 

     

    Porém, é a primeira vez que o diretor pernambucano integra a competição oficial, como ratifica o produtor do longa, João Vieira Jr., da REC Produtores. “Uma das minhas maiores alegrias, como produtor, é perceber o reconhecimento à trajetória de Marcelo. É a consolidação da sua carreira como autor. Por outro lado, o festival é uma plataforma sensacional para os negócios, para as vendas internacionais, para desenvolvermos, a partir de Berlim, o trabalho de lançamento no Brasil com a nossa distribuidora Imovision. E, além disso tudo, uma plataforma para outros festivais. Estamos muito felizes com o reconhecimento a um trabalho sólido”, pontuou João à Continente.

     

    Alumia/DivulgaçãoAlumia/Divulgação

     

    O anúncio da presença de Joaquim na 67ª Berlinale - Festival Internacional de Cinema de Berlim foi feito um dia após a confirmação de que um outro filme pernambucano estaria na competição oficial – o curta-metragem Estás vendo coisas, dos artistas visuais Barbara Wagner e Benjamin de Burca. Exibido pela primeira vez na 32ª Bienal de São Paulo, e depois na IX Janela Internacional de Cinema do Recife, o filme embaralha as convenções entre artes visuais, audiovisual e videoarte ao acompanhar vários artistas do brega recifense. 

     

    “No final de 2012, início de 2013, começamos a ter vontade de trabalhar com essa geração que consome e produz brega, que gera uma economia paralela nesse Recife urbano. O filme, então, existe desde o início como produto de cinema mesmo; escrevemos o argumento para concorrer ao Funcultura Audiovisual e o projeto recebeu o apoio do fundo. Nossa ideia era mostrar essa dança, música, voz e economia que existe na cidade, mas sem espelhar qualquer espécie de procedimento padrão. Construímos a nossa narrativa a partir desses personagens. E acho que estamos nos dois lados, entre o audiovisual e as artes visuais: nem tanto cinema como se costuma conhecer, digamos assim, mas também não uma videoarte com aquela experimentação toda, e sempre uma aproximação do trabalho desses artistas”, comenta Barbara. 

     

    Dupla Wagner de Burca - Alumia/DivulgaçãoDupla Wagner de Burca - Alumia/Divulgação

     

    Em setembro, a repórter Marina Moura entrevistou a artista visual para o especial que a Continente Online fez sobre a Bienal. Leia o texto na íntegra AQUI

     

    E em outubro de 2015, a edição #178 da Continente publicou matéria da repórter Luciana Veras sobre o novíssimo cinema brasileiro, com entrevista com Marcelo Gomes, que havia acabado de rodar Joaquim. Veja AQUI.

  • O homem antes do mito Tiradentes

    Leiana íntegra matéria publicada na edição 196 da Revista Continente #abril 2017


    Julio Machado e Isabel Zuaá protagonizam o longa. Foto: REC Produtores e Ukbar Filmes/DivulgaçãoJulio Machado e Isabel Zuaá protagonizam o longa. Foto: REC Produtores e Ukbar Filmes/Divulgação

    Novo filme de Marcelo Gomes, com estreia nacional nesta quinta (20/4), busca a desconstrução do herói, interessado no que pode ter, de fato, forjado o inconfidente mineiro


    Joaquim José da Silva Xavier frequentemente foi pintado como Jesus Cristo, com cabelos longos e barba grande. Mas isso era tudo o que Marcelo Gomes queria evitar emJoaquim, seu novo longa-metragem, exibido em competição no últimoFestival de Berlim e que estreia no Brasil agora. “Queria desconstruir esse herói”, disse o cineasta, sobre o homem que ganhou um feriado em seu nome. “Ninguém pede para ser herói, para ser mito de um país. São as circunstâncias que o transformam.” Então é, como o título indica, apenas Joaquim quem aparece no filme: um alferes com suas ambições e seus amores, que se revolta contra a mesma Coroa portuguesa a que servia. Para Julio Machado, que vive o personagem, essa escolha do diretor foi fundamental para que tivesse liberdade. “Pudemos investigar o que é humano nesse personagem, para além das histórias que a gente conhece, das histórias que são contadas e recontadas e impostas, muitas vezes. Nisso, foi um exercício muito prazeroso que partiu da clareza conceitual de Marcelo, essa escolha de tentar entender como um brasileiro comum passa a questionar a Coroa a que servia. Interessava a Marcelo saber que coisinhas lá dentro dele se mexeram, moveram-se para que ele deixasse de ser um servidor fiel e passasse a questionar.”

    Marcelo Gomes leu muitos livros sobre o período colonial brasileiro, incluindoA história da vida privada, para descobrir o que comiam, como viajavam e se relacionavam, eDesclassificados do ouro, sobre como a riqueza das Minas Gerais no século XVIII também gerou uma enorme pobreza. Ambos foram escritos pela historiadora Laura de Mello e Souza, que foi consultora da produção. Pesquisou toda a documentação sobre os inconfidentes. E a verdade é que havia pouco, muito pouco, sobre o homem Joaquim José da Silva Xavier. Menos ainda sobre o que fez com que se transformasse num revolucionário. “Isso não está em nenhum livro de história. Não há registro. Então, eu inventei.”

    Para Marcelo Gomes, as motivações tinham de ser pessoais. Por exemplo, a promoção a tenente que nunca acontecia – isso está noAuto da Devassa da Inconfidência Mineira. Mas também, quem sabe, um amor impossível, quem sabe, por uma escrava. “Uma coisa muito interessante que eu aprendi é que esse espírito de revolta e de revolução apareceu pela primeira vez na história do Brasil com os quilombos. Pensei que, se ele tinha tomado essa consciência revolucionária, tinha sido com quem realmente estava fazendo a revolução”, disse Gomes. Assim foi criada Preta (Isabel Zuáa), que vive empurrando Joaquim para agir, para se revoltar contra o estado das coisas. “Encontrei referências em mulheres que me inspiraram, como Nina Simone e Rosa Luxemburgo”, disse a atriz portuguesa. “Uma frase da Nina Simone que foi muito presente para mim era: ‘Liberdade é não ter medo’. E é uma frase que uso também no meu dia a dia. Para mim, a liberdade é não ter medo de fazer coisas que eu realmente quero fazer e dissociar o preconceito que as pessoas têm do meu corpo, de acharem que sou menos ou mais isto ou aquilo.”

    A pesquisa sobre o Brasil do século XVIII provocou no diretor e no elenco uma reflexão sobre o Brasil de 2017 – e são essas correspondências a real riqueza do filme. “O que mais me impressionou é como a gente não viveu um processo completo de descolonização”, disse Gomes. “A gente vive ainda decorrências da colonização que, às vezes, são tão sutis, que a gente não percebe.” Por exemplo, os muitos edifícios com elevadores separados em “social” e “de serviço”, e apartamentos com duas portas, com a mesma divisão. “E a gente acha isso normal. É impressionante como a gente acha isso normal. A gente acha normal viver num país onde tem uma diferença imensa entre ricos e pobres.” EmDesclassificados do ouro, Laura de Mello e Souza relata como uma população imensa de mestiços e africanos vivia na mais completa miséria, enquanto poucos enriqueciam com as toneladas de ouro e diamantes retiradas das minas. “Então, o processo de colonização tem a ver com poder e privilégio de uma elite branca colonizadora que queria simplesmente sugar tudo da terra e viver na corte europeia. Hoje, as pessoas falam de corrupção, corrupção, corrupção, mas muitos empresários não pagam impostos. As pessoas falam de corrupção, corrupção, corrupção e cruzam sinal vermelho. E não querem pagar a multa.”

    Isabel Zuáa, que morou no Brasil, deparou-se com a situação do negro no país. “Sempre entendi que era negra. Mas vi no Rio que as pessoas não se consideravam negras pela baixa autoestima de serem negras. Porque ser negro no Brasil – no resto do mundo também, mas muito no Brasil – é muito difícil.” Joaquim aprende a navegar entre a corrupção sistêmica e o nepotismo que lhe rouba sua promoção. Dono de um escravo (Welket Bungué), não percebe que perpetua, ele mesmo, a manutenção do sistema.

    Marcelo Gomes espera que essa reflexão tenha frutos: “Quando você está em crise, deita no divã do psicanalista e fala do seu pai e da sua mãe para entender a crise. E acho que o Brasil Colonial é isso, é o pai e a mãe da nação. É o nascimento da nação. É a gente voltar para aquele país e dizer: ‘Nossa, vamos entender a crise a partir daqui’. Porque o passado está dentro do presente. Ele está mais vivo do que nunca”.

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    Leia na íntegra entrevista vinculada à matéria de Claquete da edição #196 (abril 2017)

    O diretor Marcelo Gomes. Foto: Letícia Simões/DivulgaçãoO diretor Marcelo Gomes. Foto: Letícia Simões/Divulgação


    CONTINENTE
    Como concebeu seu filme de época?
    MARCELO GOMES Queria falar do passado vivo. Então, primeiro, essa câmera tem de ser viva. Não pode ser aquela câmera clássica. O passado vivo era podre, sujo, condições de higiene nenhumas. As pessoas, às vezes, tinham uma roupa só. Os dentes eram sujos. Tudo é podre, porque o passado era terrível. Era cruel, desumano viver naquele Brasil Colonial. Então o que mais eu tenho de fazer para construir um filme-crônica, que mostre a poética do cotidiano, do dia a dia daquelas pessoas? Tenho de trazer atores negros que falam português de Portugal e um dialeto. Fui descobrir a Isabel Zuáa e o Welket Bungué em Portugal. Preciso de atores portugueses para fazer os portugueses, porque até o jeito de andar é diferente. Para fazer o índio, trouxe Karai Rya Pua, que é professor de guarani. Depois o Rômulo Braga, esse ator mineiro maravilhoso, para fazer o mineirinho. E o Julio como essa mistura de tudo, com esse olhar kinskiano que ele tem, para Joaquim, aquele homem de ação, não de reflexão.

    CONTINENTEAs motivações de Joaquim no seu filme são pessoais.
    MARCELO GOMES Nosso personagem, Joaquim, tinha de ser contemporâneo. E o que é a contemporaneidade? É a contradição. A gente é cheio de contradição. Quer ganhar dinheiro, ser feliz e casar com alguém que a gente ama. E era o que ele queria. E por isso ele trai. E por isso ele engana. Porque o ouro também traz isso, a ganância. Às vezes, as pessoas perguntam: “Esse filme é sobre Joaquim?”. É. “Mas como as pessoas noFestival de Berlim vão entender?” Gente, este filme é sobre traição, ganância e um amor impossível, as pessoas vão entender.

    CONTINENTEE é sobre a colonização, que os europeus deveriam entender.
    MARCELO GOMES Sim, porque todas as colonizações foram cruéis: a espanhola, a portuguesa, a inglesa, a francesa, a alemã. Todas foram cruéis. Nenhuma delas chegou a um país e falou: “Vamos entender a língua dessas pessoas. Vamos entender o jeito delas. E vamos construir uma junção de culturas”. Eles impuseram a cultura, a língua, a religião e exploraram a terra ao máximo.

    CONTINENTEORecife teve outra colonização além da portuguesa – a holandesa –, da qual muita gente tem saudade. O que pensa disso?
    MARCELO GOMES Nossa, os holandeses saíram do Brasil e foram colonizar a África do Sul – e olha o que eles fizeram lá. Agora, quando uma pessoa fala: “Ah, os holandeses poderiam ser melhores que os portugueses”, ela está sendo colonizadora. Esse é o problema, a gente ainda não completou esse processo de descolonização. E isso está em Joaquim, quando ele fala: “Eu sou português também”, por ser filho de um. Vai ser um português de segunda classe sempre!

    CONTINENTEUm jornalista português veio me dizer que tinha achado o filme interessante, mas que não concordava com a visão de que Portugal era culpada pela corrupção do Brasil, porque corrupção é uma coisa humana. Ele não entendia que a corrupção sistêmica era, sim, culpa de Portugal.
    MARCELO GOMES Mas lógico, gente! É só ver a quantidade de escândalos de corrupção que tem em Portugal e na Espanha! É engraçado, porque pensei, em relação aos meus amigos portugueses que trabalham no filme: “Nossa, estou mostrando algo que acho que os cinemas português e brasileiro nunca mostraram, que é a crueldade da colonização”. Muita gente achou que não, que os portugueses não iam ligar. Na coletiva, veio um português dizer que o filme iria causar polêmica em Portugal porque eles acham que os portugueses foram bacanas no Brasil. Ninguém foi bacana, gente. O capitalismo não podia ser bacana. O capitalismo foi lá para explorar a riqueza. Vá às igrejas de Portugal e veja se foi bacana levar aquele ouro todo à custa de trabalho escravo. Então, estou muito feliz de causar uma polêmica grande em Portugal, porque é mais do que necessário. E eu espero causar outra no Brasil, porque acho que a gente tem de acabar com esse Fla x Flu que está se vivendo no Brasil. Está na hora de discutir política de uma forma profunda e consistente. Chega de discussões superficiais. Parece um bando de crianças. Vamos discutir questões primordiais do país, refletir sobre o presente compreendendo o passado e sinalizando o futuro. Senão não vai dar certo.

    CONTINENTEE achar pontos em comum, não?
    MARCELO GOMES Sim. Mas eu acho que também tem uma questão muito dura: há pessoas no Brasil que não querem dividir seus privilégios. É de um egoísmo – e é um egoísmo que Joaquim tem. Ele planeja tudo para não dividir privilégios. E isso é cruel no Brasil. O brasileiro quer deixar os privilégios na mão de 35 milhões, mantendo 165 milhões desprovidos de privilégios. Isso não pode. Enquanto a gente tiver esse pensamento colonizador…

    CONTINENTEPor que você acha que o cinema brasileiro não olha tanto para o passado?
    MARCELO GOMES Fico pensando primeiro no orçamento. Segundo, a dificuldade de construir um filme histórico que fuja desse “drama da BBC”, com direção de arte magnífica, um figurino que não deixa a pessoa falar e aquele passado asséptico, limpo. Fizemos um filme na raça, com pouco orçamento. Neste momento de crises política, e também existencial, porque vêm juntas, ou seja, “quem somos nós?”, “que país é este?”, “que nação estamos construindo?”, temos de voltar para a história. O cinema tem uma responsabilidade muito grande de fazer filmes históricos. Fico feliz queVazante, da Daniela Thomas, que se passa quase na mesma época deJoaquim, está aí, que a Laís Bodansky vai fazer filme sobre D. Pedro 1º. Acho que é muito sintomático, neste momento de crise, a gente voltar para o passado.