• Mulheres: o alvo da cultura sexista de Hollywood

    Abuso de poder no cinema sai das cavernas e revela o quanto o machismo é reproduzido por trás e na frente das câmeras por muitos de nossos ídolos

    Maria Schneider, Natalie Wood, Cybill Shepherd, Tippi Hedren, Sharon Stone e Ashley JuddMaria Schneider, Natalie Wood, Cybill Shepherd, Tippi Hedren, Sharon Stone e Ashley Judd

     

    Joan Crawford – Pauline, quero agradecer por me entregar isso. Fiz a cortesia de não lê-lo. Não vejo razão para opinar sobre algo que não tenho intenção de fazer.
    Pauline Jameson – Eu gostaria que você reconsiderasse. Sei que é pouco ortodoxa a ideia de uma diretora, mas não é sem precedentes. Pense nas mulheres que governaram a Era Muda.
    Joan Crawford – Onde elas estão agora? O que você acha que impediu a próxima grande onda de diretoras?
    Pauline Jameson – Eu não sei.
    Joan Crawford – Eu sei, eu estava lá. Dinheiro. O dinheiro entrou na jogada. Filmes mudos tinham baixo custo, baixo risco. Um produtor podia aceitar que uma mocinha ou editora se aventurasse atrás das câmeras, mas quando os estúdios se fortaleceram, moveram as mulheres para trabalhos femininos: figurinistas, continuístas... Os executivos precisavam de resistência física, liderança, responsabilidade financeira, então os homens receberam o megafone. E não posso dizer que estamos piores sem ele.
    Pauline Jameson – Senhorita Crawford, só preciso da minha primeira chance. Homens são contratados com base no potencial, mas mulheres, precisamos de experiência.
    Joan Crawford – Não estou te recusando por você ser uma mulher. Estou te recusando por você ser uma ninguém. E nesse estágio final da minha carreira, não tenho o luxo de me colocar nas mãos de uma ninguém. Tenho muitas poucas chances sobrando. E minha última chance não vai ser a sua primeira. Eu espero que você entenda isso.


    Esse diálogo aconteceu no quarto episódio deFeud, minissérie de oito capítulos que está sendo exibida pela Fox e narra os conflitos entre as atrizes Joan Crawford e Bette Davis durante as filmagens deO que terá acontecido a Baby Jane? O filme, que se tornou um clássico, foi feito graças aos esforços de Joan. Aos 57 anos, a estrela não recebia mais convites para atuar. Ela, então, buscou entre livros recém-lançados uma história que pudesse ser protagonizada por mulheres mais velhas. Para contracenar, convidou Bette Davis, outro grande nome da Era de Ouro de Hollywood que já tinha passado dos 50 – a atriz estava na Broadway como uma forma de continuar trabalhando dignamente em sua área. O filme foi recusado por diversos estúdios, até que Jack Warner, que não queria duas atrizes com mais de 40 anos como protagonistas, foi convencido pelo diretor Robert Aldrich, que sacou o argumento decisivo: o longa entraria no filão “suspense”, após o megassucesso dePsicose(1960).

    A resistência do presidente da Warner Bros teve a ver com a forma como a figura feminina era vista e tratada no cinema. A recusa de Joan Crawford a Pauline também estava relacionada com a mesma visão do papel da mulher no cinema. A personagem de Pauline Jameson, segundo o criador da sérieFeud, Ryan Murphy, é uma homenagem a todas as importantes e desconhecidas mulheres que foram fundamentais para o sucesso de incontáveis filmes. A profissional que inspirou a criação de Pauline foi Geraldine Hersey, assistente de direção de Robert Aldrich. Outra relevante mulher nessa função, Peggy Robertson, chegou a assumir temporariamente as filmagens dePsicose, quando Hitchcock passou por uma crise emocional, pressionado por ter bancado a realização do suspense.

    No começo do cinema falado, à maioria das mulheres eram designados trabalhos nos bastidores ou na frente das câmeras – ambos sob o comando masculino. Enquanto nas telas, em meio às histórias narradas, eram fabricadas deusas, por trás dessas filmagens, surgiam comportamentos machistas, sexistas e até misóginos que vêm se mantendo nesses mais de100 anos de cinema. O tratamento destinado à mulher na indústria cinematográfica tanto reflete da sociedade quanto é reflexo dela. Hoje, no entanto, boa parte dos espectadores está mais atenta ao que acontece nas engrenagens dessa fábrica.

    Cena da série "Feud" na qual Joan Crawford conversa com Pauline. Fotos: DivulgaçãoCena da série "Feud" na qual Joan Crawford conversa com Pauline. Fotos: Divulgação

    No final do ano passado, ganhou o noticiário e as redes sociais a polêmica em torno da “cena da manteiga” deÚltimo tango em Paris (1973). Num vídeo de 2013(postado só em 2016), Bernardo Bertolucci conta como ele e Marlon Brando tiveram a ideia da famosa cena do estupro e do uso do produto como lubrificante na atriz Maria Schneider. “Mas, eu fui, de certa forma, horrível para Maria, porque não lhe contei o que estava acontecendo, porque eu queria sua reação como uma menina, não como uma atriz. Eu queria que ela reagisse humilhada, se ela continuar, ela grita: 'Não, não!' E eu acho que ela me odiava, e também Marlon, porque não lhe dissemos, e havia aquele detalhe da manteiga usada como um lubrificante, e eu ainda me sinto muito culpado por isso”.

    O vídeo da entrevista com o cineasta italiano causou reações, pois revelava esse tipo de autoritarismo glamoroso que envolve o abuso de poder disfarçado como forma de fazer arte. “Indesculpável. Como diretora, eu mal consigo entender isso. Como mulher, estou horrorizada, enojada e enfurecida com isso”, tuitou Ava DuVernay, autora deSelma eA 13ª emenda. “Eu nunca vou olhar para este filme, Bertolucci ou Brando da mesma forma novamente”, postou o ator Chris Evans, deCapitão América eOs vingadores.

    Alarmante também é o fato de que a controvérsia foi gerada por um antigo vídeo de Bertolucci e não pelo depoimento que a própria Maria Schneider concedeu há exatos10 anos aoDaily Mail. Evidentemente, na época não havia redes sociais, mas a imprensa pouco repercutiu. Na entrevista, ela revelava que a cena da manteiga “não estava no roteiro original”. Brando chegou com a ideia e disse a ela pouco antes da filmagem. “Eu estava com tanta raiva.”

    Marlon me disse:'Maria, não se preocupe, é apenas um filme'. Mas, durante a cena, mesmo que o que Marlon estivesse fazendo não fosse real, eu estava chorando lágrimas de verdade”, disse ela, que, durante as filmagens, tinha 19 anos. O ator estava com 47 anos. “Senti-me humilhada e, para ser honesta, senti-me um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não me consolou nem pediu desculpas. Felizmente, houve apenas uma tomada”.

    Maria Schneider e Marlon Brando na polêmica "cena da manteiga"Maria Schneider e Marlon Brando na polêmica "cena da manteiga"

    Em meio à polêmica, Miko Brando, filho do ator hollywoodiano, manifestou-se em defesa do pai devido à acusação de que o astro teria estuprado a atriz. “Ele ficaria com nojo. Completamente enojado. Esse não é meu pai, ele não era esse homem de jeito nenhum. Ele era a favor dos direitos humanos, direitos civis. Ele marchou com Martin Luther King. Ele era a favor do povo, não contra o povo. Isso não é verdade, esse não é o ser humano que ele é.”

    Enquanto Maria Schneider foi desrespeitada como mulher e atriz – ao ser surpreendida com uma cena que não estava no roteiro e que envolvia diretamente o seu corpo –, Marlon Brando recebeu tratamento mais respeitoso. Em sua autobiografia de 1994, escreveu que, numa cenana qualdeveria aparecer excitado e em nu frontal, seu “corpo entrou em retiro completo”. “Fiquei humilhado, mas não pronto para me render.” Após uma hora de espera, a equipe desistiu e a cena foi cortada. “Foi uma das experiências mais embaraçosas da minha carreiraprofissional.” A diferença de tratamento é um dado revelador da forma como os atores easatrizes são enxergados. Ao final,Último tango em Paris recebeu indicações ao Oscar demelhordiretor emelhorator (a sétima de Brando),enquanto Maria foi ignorada.

    MAIS POLÊMICAS
    Outro episódio semelhante ao deÚltimo tango em Paris envolve também uma rumorosa cena, a cruzada de pernas de Sharon Stone emInstinto selvagem,thriller que completa,em 2017, 25 anos.De acordo com a atriz, o diretor Paul Verhoevenlhe antecipou apenas que a cena insinuaria que ela estaria sem calcinha, mas não mostraria de fato. “Naquela época, não existia alta definição. Então, quando olhei no monitor, realmente não dava para ver nada.” Sharon ficou em choque quando enfim assistiu ao filme numa tela de cinema.

    Qualquer atriz sabe o que será visto se você pedir que tire a roupa íntima e apontar a câmera nessa direção. Ela, inclusive, me deu a calcinha de presente. Quando Sharon viu o resultado da cena no monitor, não teve nenhum problema. Mas, quando viu a cena rodeada por outras pessoas, incluindo seu agente, ficou louca. Todos lhe disseram que a cena acabaria com a sua carreira, então Sharon veio e me pediu que a cortasse. Eu disse que não”,contou Verhoeven em entrevista àIcon. Para a atriz, o problema é que não foi avisada sobre o que realmente apareceria na tela. Sharon não processou Verhoeven, mas lhe deu uma boa bofetada na saída da sessão.

    A famosa cruzada de pernas de Sharon Stone em "Instinto selvagem"A famosa cruzada de pernas de Sharon Stone em "Instinto selvagem"

    Assim como a polêmica doÚltimo tango em Paris, outro episódio teve repercussãoapenas porque a informação partiu de um homem. Por anos, várias mulheres acusaram o ator e comediante Bill Cosby de estupro. Mas esses casos só ganharam a imprensa em 2015, quando o humorista Hannibal Buress chamou Cosby de um estuprador viral, referindo-se ao fato de terem sido várias mulheres dopadas e violentadas.

    Há cinco anos, você não teria visto um termo como 'cultura do estupro' aparecendo na CNN”, afirmou Andi Zeisler, cofundadora da Bitch Media, uma organização feminista sem fins lucrativos. Para ela, o caso Cosby foi “uma quebra de barreira em termos de como realmente entendemos a agressão sexual: um crime de poder institucionalizado”.

    TESTE DO SOFÁ
    Em décadas passadas, crimesdessa naturezaeram abafados, em nome do dinheiro e da fama que faziam a máquina cinematográfica mover (e moer) Los Angeles. Um exemplo foi a denúncia de duas garotas contra o ator Errol Flynn. Aos 33 anos, o australiano radicado nos Estados Unidos estava no auge de sua carreira, já tinha protagonizado diversos sucessos de bilheteria, comoO príncipe e o mendigo (1937) eAs aventuras de Robin Hood(1938). Em 1942, veio a acusação de estupro. O trunfo dos advogados de defesa foi atacar as vítimas. Embora o astro tenha admitido gostar de jovens menores de idade, o júri não levou em consideração e o absolveu. A popularidade do astro não foi atingida. Flynn beneficiou-se também do fato de que o noticiário estava mais preocupado com outro tema, a Segunda Guerra Mundial.

    Uma década depois, já circulavam no meio cinematográfico fofocas sobre o famigerado “teste do sofá”,quando houve mais um estupro que só ganhou (um pouco de) repercussão posteriormente, mas se tornou uma espécie de lenda de Hollywood. Em meados dos anos 1950, quando já estava escalada para fazerJuventude transviada com James Dean, Natalie Wood, então com 17 anos, recebeu um convite para uma audição que aconteceria num quarto de hotel em Los Angeles.

    Lá, a atriz foi estuprada. Em sua cinebiografia, a informação é que oautor do crimefoi um “ator muito famoso de Hollywood”. Rumores apontam para Kirk Douglas, que teria se sentido muito à vontade para praticar o ato ao saber que a novata estava tendo umaffaircom o diretor Nicholas Ray, 43 anos. O astro deSpartacus se juntaria a uma extensa lista de abusadores que inclui Arnold Schwarzenegger, Steven Seagal, Stephen Collins, Casey Affleck (vencedor do Oscar de Melhor Ator deste ano) e Roman Polanski, que dopou e estuprou Samantha Geimer, uma modelo de 13 anos – em 2010, ele foi denunciado pela atriz Charlotte Lewis, por abuso sexual, quanto ela tinha 16 anos, nas filmagens dePiratas (1982). “Não é de admirar que [alguns homens] achem que têm licença para assediar, degradar, agredir e apalpar mulheres. Tudo o que os rodeia está dizendo a eles – Sim, é claro que é isso que você faz!”, diz a socióloga Laura L. Finley, autora do livroAssédio sexual na cultura popular.

    Natalie Wood, James Dean e Nicholas Ray no set de "Juventude transviada"Natalie Wood, James Dean e Nicholas Ray no set de "Juventude transviada"

    Nos anos 1970, a carreira de Natalie Wood, estrela de filmes comoAmor, sublime amor (1961), tinha entrado em declínio. Um motivo para isso era que ela possuía um estilo herdado da Hollywood clássica. Naquela década, o cinema norte-americano passou a dar destaque a atrizes que se aproximavam mais do padrão das mulheres modernas da época, como Diane Keaton e Meryl Streep. Obviamente, elas também eram mais jovens.

    Em 1981, aos 43 anos, Natalie Wood estava atuando em um novo filme e ao lado do atorChristopher Walken. Seu nome voltou a ser citado na imprensa, mas não por este trabalho, e sim pelas estranhas circunstâncias de sua morte, um episódio envolto em mistério até hoje. Ela e o marido Robert Wagner, astro da série televisivaCasal 20, tinham saídopara um passeio em seu barco, Splendour (referência ao filme de Elia Kazan,Splendour in the grass, protagonizado por ela e Warren Beatty). Walken foi convidado.

    Em 2009, o capitão do barco Dennis Davern publicou um livro sobre a morteda atriz,Goodbye Natalie,goodbye Splendour. Segundo ele, houve uma briga entre Wagner e Walken. Depois entre Wagner e Natalie. Como costumavam discutir após bebedeiras, aquela poderia ser mais uma discussão no estilo do casal deQuem tem medo de Virginia Wolf?.Mas o corpo de Natalie, depois, apareceu na Ilha Catalina, na Califórnia. Até hoje, a suposição é a de que Wagner tenha algo a ver com a tragédia.

    NÃO PASSARÃO
    Ao contrário de Natalie Wood, que silenciou sobre o estupro que sofreu nos bastidores de Hollywood, recentemente algumas atrizes vêm quebrando o silêncio e denunciando casos de assédio sexual no cinema. Chloë Sevigny, no ano passado, contou ter sido alvo de investidas de “três grandes cineastas”. Segundo ela, nunca trabalhou diretamente com eles, pois os assédios aconteceram durante as audições.

    Em 2015, Ashley Judd revelou que, enquanto filmavaBeijos que matam(1997), sofreu assédio de um magnata da indústria. O assediador era de um estúdio rival da Paramount, da qual era contratada. O empresário a chamou a um hotel para discutir alguns papéis. De reunião, a ocasião se transformou em assédio sexual. A atriz ressalta que muita gente pode questionar por que não foi embora logo: “Essa afirmação épara colocar a culpa na vítima. Naquele quarto, existia muita diferença de força e poder. Conversei com outras atrizes e me disseram que tiveram a mesma experiência com a mesma pessoa.” Após a fracassada investida, o estúdio nunca mais lhe ofereceu um papel.

    Em outubro do ano passado, a atriz Rose McGowan publicou no Twitter que tinha sido estuprada por um chefe de estúdio: “Uma advogada criminal disse que porque eu fiz uma cena de sexo em um filme, eu nunca iria ganhar uma ação contra o estúdio #WhyWomenDontReport(por que as mulheres não prestam queixa)”.

    Embora uma declaração como essa tenha sido feita numa rede social, ela reverbera na imprensa, pois os casos de estupro e assédio sexual vêm multiplicando e envolvem o nome de atrizes como Gwyneth Paltrow, Thandie Newton, Charlize Theron e Helen Mirren.

    Em novembro do ano passado, a atriz Tippi Hedren lançou um livro de memórias em que registra o assédio sexual que sofreu de Alfred Hitchcock durante as filmagens deOs pássaros. O cineasta havia desenvolvido uma fixação pela novata. Rejeitado, passou a maltratá-la. Na cena em que a personagem Melanie Daniels fica trancada num quarto com pássaros, os animais seriam mecânicos. Mas ele mudou de ideia e não avisou a atriz. Prevista para ser feita em algumas horas, a cena foi filmada durante cinco dias, com os bichos acorrentados às pernas de Tippi.

    Alfred Hitchcock e Tippi Hedren em foto de divulgação do filme "Os pássaros" (1963)Alfred Hitchcock e Tippi Hedren em foto de divulgação do filme "Os pássaros" (1963)

    Após Os pássaros, a atriz, presa a um contrato de cinco anos, ainda estrelouMarnie, confissões de uma ladra. Desta vez, ele insistiu em submeter a personagem a uma cena de estupro. Hedren se recusou a trabalhar para o diretor novamente – para ela, isso foi o fim de sua carreira no cinema. Nunca mais teve a chance de pegar bons papéis. Seu currículo passou a contar mais com atuações na TV. Em 2012, esse assédio foi abordado no filmeThegirl, da HBO.

    Em fevereiro deste ano, Debra Messing, da sérieWill & Grace, revelou que foi vítima de assédio sexual nas gravações de seu primeiro filme,Caminhando nas nuvens (1995). O diretor Afonso Arau (Como água para chocolate), além de fazer menções ao seu corpo, falava frases como “Seu trabalho é ficar nua e dizer as falas”. Numa cena específica, parou o set apenas para observá-la sem roupa. “Ele levantou o lençol, examinou meu corpo nu, e então deixou cair o lençol em cima de mim como um Kleenex usado. Ele se afastou sem dizer uma palavra. O objetivo foi me rebaixar, tirar o meu poder e fazer eu sentir o seu domínio sobre mim”.

    Se acontecesse nos dias atuais, o caso de assédio moral e sexual promovido por Hitchcock contra Tippi Hedren ganharia facilmente as redes sociais, a imprensa, iria parar nos tribunais? No início dos anos 1960, esses conceitos de assédio moral, sexual,stalker, cultura do estupro não eram conhecidos. Mas será mesmo que não seria abafado em nome do sucesso de um filme, em negociações de bastidores?

    HISTÓRIA
    A cultura sexista de Hollywood foi construída a partir da criação de deusas exacerbadamente sensuais, que eram, na realidade, mulheres comuns, de origem pobre e que tinham histórias particulares de traumas, como Rita Hayworth e Marilyn Monroe, vítimas de violência sexual na infância, e transformadas na tela em mulheres-objeto, alimentando o mito da “bonita e burra”. Coincidentemente, ambas tiveram que mudar seus nomes, um símbolo para o que acontecia de fato: os estúdios estavam criando personagens para além do cinema.

    Hollywood, desde seu nascimento, há um século, glorificou a beleza porque o apelo sexual é uma grande bilheteria, sintonizada com os sonhos eosdesejos do público em massa, tanto do sexo masculino como feminino”, escreveu Camile Plagia, em artigo publicado noHollywoodreporter, em janeiro deste ano.

    De aparência fora do padrão de Hollywood, a atriz e cantora Judy Garland sentia-se desconfortável nesse ambiente repleto de atenção a atributos como beleza e sensualidade. Aos 16 anos, durante a filmagem deO mágico de Oz(1939), na qual sofreu abuso sexual por parte dos figurantes, era constantemente vigiada nas refeições e obrigada a tomar pílulas para não engordar. Por conta disso, tornou-se viciada em remédios, o que a levou à morte precoce aos 47 anos.

    Judy Garland em "O mágico de Oz"Judy Garland em "O mágico de Oz"

    Quando Hollywood entrou em declínio criativo, foi a geração “sexo, drogas e rock'n'roll” da década de 1970 que a salvou. Numa época de liberação sexual, mas em que uma mulher ainda não podia obter um cartão de crédito sem uma certidão de casamento, o machismo continuou. Por exemplo, Steven Spielberg sempre recebia de presente uma modelo na convenção anual dos exibidores Show West e vivia às voltas com as contratadas da agência Elite, de John Casablancas. Francis Ford Coppola, enquanto dirigiaApocalipse now, estava envolvido com várias mulheres no set, como um sultãoem seu harém.

    Quando quis contratar Cybill Shepherd paraA última sessão de cinema (1971), Peter Bodganovich comentou com sua secretária Marion Dougherty: “Tenho que vê-la nua. Tenho que ver se ela tem estrias ou coisas assim porque há cenas de nudez no filme”. “Ela não tem estrias, caramba. Ela tem 17, 18 anos.”, respondeu Marion. “Peça, então, para ela vir no menor biquíni que tiver”. Durante as filmagens, ele, aos 40 anos, teve um caso com a atriz, que acabou se tornando sua “esposa troféu”. Após sete anos depois, ela o deixou por um ex-barman

    Nos anos 1970, “o feminismo estava começando a se estabelecer e muitas mulheres se viram indecisas entre um novo espírito de independência e o desejo de recriar a velha dinâmica de Hollywood entre homens e mulheres, na qual as mulheres eram commodities de sexualidade e beleza. Se você namorava uma atriz, presumia-se que uma das razões era porque você tinha o jaguar XKE e o emprego, e ela era bonita e ficava bem numa camiseta justa. Por outro lado, havia toda essa sexualidade fácil, e, por outro, um novo tipo de mulher, jovens agentes, jovens produtoras e algumas atrizes, que estavam fazendo elas mesmas o scriptde suas vidas. As relações entre homens e mulheres eram muito tensas”, disse o diretor Rob Cohen ao escritor Peter Biskind, autor do livroEasy riders, raging bulls(1998).

    A importância de algumas mulheres nos bastidores do cinemasimplesmente foi abafada, como a de Julia Cameron. Jornalista de política, que cobria as notícias de Washington, estava namorando Scorsese, quando recebeu do cineasta o roteiro deTaxi driver para ler. “Eu me sentei e disse: 'Os discursos políticos não funcionam, nenhum dos lances na sede da campanha está funcionando'. Então, reescrevi tudo, 'e os lances dos motoristas de táxi também não funcionam', então escrevi todo o ambiente da lanchonete.Não sei se (o roteirista) Paul (Schrader) sabia de onde minhas cenas estavam brotando. Capaz dele ter achado que Marty(Scorsese)simplesmente estava escrevendo todas elas.”

    Cameron não recebeu crédito pela contribuição. Segundo ela, Peter Bogdanovich puxou Scorsese para um canto e disse: “Olha só, se você der crédito de roteiro a Julia, Pauline (a crítica de cinema Pauline Kael) vai achar defeitos vários em seus filmes”. Para Peter Biskind, foi “provavelmente uma avaliação correta. Pauline era muito possessiva com os diretores que ela acreditava influenciar, e no mínimo que uma mulher aparecia ela se tornava supercompetitiva”.

    A cultura sexista da sociedade é reproduzida por trás e na frente das câmeras,na medida em que a maioria das histórias são escritas, dirigidas, atuadas e produzidas por homens brancos e heterossexuais. São raros os filmes que abordam a temática feminina, comoThelma & Louise(1991),Tomates verdes fritos(1992) eAs pontes de Madison(1995).

    Na lista dos “100 melhores filmes de todos os tempos”, do American Film Institute, apenas 15 são protagonizados por mulheres. Dentre eles,E o vento levou,O mágico de Oz,A malvada,A noviça rebelde,My fair lady e a animaçãoBranca de neve e os sete anões. Em outros, a figura feminina ou divide o protagonismo com um homem – comoUma aventura na África,Annie Hall,Aconteceu naquela noite,Amor, sublime amor,Uma rua chamada pecado,O silêncio dos inocentes,Levada da Breca eBonnie & Clyde – ou têm suas histórias narradas sob o ponto de vista masculino, comoCasablanca eCrepúsculo dos deuses –este sobre uma atriz mais velha que não conseguia mais papéis em Hollywood, o retrato da própria atriz protagonista Gloria Swanson, musa do cinema mudo, e depois de Joan Crawford e Bette Davis.

    Lançado há50anos,Bonnie & Clyde foi um grande sucesso. Protagonista do filme, o ator Warren Beatty, com oimpacto da película, se tornou uma das figuras mais poderosas de Hollywood. Passou a receber todos os roteiros que transitavam por Los Angeles. Quis, então, contratar uma secretária para ajudá-lo. Uma candidata foi Susanna Moore, uma modelo de 29 anos que se tornaria escritora. Ao final da entrevista, quando ela já se preparava para sair, Beatty interrompeu: “Tem uma coisa que ainda não verifiquei: preciso ver suas pernas. Você podia levantar a saia?” Susanna, ansiosa pela vaga, subiu a roupa. “OK, o emprego é seu”.

  • Na briga por mais representatividade

    [leia na íntegra a matéria abaixo, publicada na edição 193, JAN 2017 da Revista Continente]

    "O nascimento de uma nação" traz a história de escravo que liderou uma revolta no sul dos EUA. Foto: Divulgação"O nascimento de uma nação" traz a história de escravo que liderou uma revolta no sul dos EUA. Foto: Divulgação

     

    Campanhas que pedem maior diversidade de gente e personagens não brancos no cinema ecoa na safra de filmes norte-americanos prevista para 2017

    Com a chegada da temporada de premiações, Hollywood volta a pensar em #OscarsSoWhite. Nos últimos dois anos, a hashtag criada por April Reign, do site BroadwayBlack.com, foi usada para criticar a falta de não brancos no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A repercussão foi tanta, que a presidente da Academia resolveu tomar medidas. Cheryl Boone Isaacs, mulher e negra numa organização que, em fevereiro do ano passado, era 91% branca e 76% do sexo masculino, anunciou a decisão de dobrar o número de representantes de minorias até 2020. Em junho, convidou 683 novos membros, um recorde, sendo 46% deles mulheres e 41% não brancos. 

    Apesar dos esforços da Academia, a verdade é que o problema começa bem antes, na aprovação de projetos e produção de longas-metragens. Segundo o relatório de Diversidade em Hollywood, feito pelo Centro Ralph J. Bunche de Estudos Afro-Americanos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), das 163 maiores bilheterias de 2014, apenas 12,9% tinham protagonistas de uma das minorias – negros, asiáticos, latinos ou nativo-americanos –, quando elas, somadas, representam 37,9% da população. Outro estudo, promovido pela Universidade do Sul da Califórnia (USC), chegou à conclusão de que, entre as 100 maiores bilheterias de 2015, apenas 14 tinham protagonistas ou coprotagonistas não brancos. Entre os personagens com falas, 73,7% eram brancos. 

    Mas 2016 terminou sendo um bom ano para as minorias no cinema norte-americano. Gil Robertson, presidente da Associação de Críticos de Cinema Afro-Americanos, fez um comunicado dizendo que foi um ano “excepcional” para negros no cinema. Começou com a aquisição recorde no Sundance Festival de O nascimento de uma nação, de Nate Parker, homônimo do clássico de D.W. Griffith, que revolucionou o cinema e elogiou a Ku Klux Klan. Parker escreveu, dirigiu, produziu e protagonizou o longa-metragem sobre Nat Turner, um escravo que virou pregador e liderou uma revolta nas fazendas do sul dos Estados Unidos no século XIX. Sua ideia foi destacar uma história pouco conhecida sobre a resistência dos escravos, mostrando que O nascimento de uma nação de Griffith tinha também um outro lado, apoiado no sofrimento dos homens e mulheres trazidos da África. 

    Desde janeiro, quando foi comprado pela Fox Searchlight por uma quantia recorde, US$ 17,5 milhões (cerca de R$ 59 milhões), poucos dias depois do anúncio dos indicados do Oscar de 2016, a produção entrou na lista de possíveis premiados. Mas, em agosto, ressurgiu na imprensa a acusação de estupro contra o diretor e seu amigo Jean Celestin, que divide o crédito pelo argumento. Ambos foram julgados, com Parker sendo inocentado e Celestin, condenado, mas depois libertado. A resposta pouco convincente de Parker em relação ao caso acabou prejudicando a carreira do filme, que fez apenas US$ 15,8 milhões na bilheteria norte-americana. 

    Cena de "Fences", ainda sem data de estreia no Brasil. Foto: DuvulgaçãoCena de "Fences", ainda sem data de estreia no Brasil. Foto: Duvulgação

    Outros filmes falam abertamente da experiência dos negros com o racismo nos Estados Unidos. É o caso de Fences (ainda sem estreia definida no Brasil), dirigido e protagonizado por Denzel Washington, baseado na peça de August Wilson, vencedora do Pulitzer e do Tony em 1987. Washington é Troy, um ex-jogador de beisebol que não conseguiu muito sucesso e luta para sustentar a família na Pittsburgh dos anos 1950. Viola Davis interpreta sua mulher, Rose. 

    Loving, de Jeff Nichols, um dos diretores americanos mais interessantes da atualidade, inspira-se na história real de Richard (Joel Edgerton), branco, e Mildred (Ruth Negga), negra, que se apaixonam na década de 1950 e decidem se casar depois de ela engravidar. Como o casamento inter-racial é proibido no Estado da Virgínia, eles vão até Washington D.C. Ao voltar para sua cidade de origem, onde vivem suas famílias, os dois são presos e depois banidos de morar na Virgínia por 25 anos. Tempos mais tarde, ela escreve para o senador Robert Kennedy e recebe uma indicação à American Civil Liberties Union, que oferece um advogado para levar o caso ao tribunal. Nichols evita todos os clichês desse tipo de filme, mostrando Richard e Mildred como pessoas comuns, que não tinham interesse no ativismo, mas foram obrigadas a procurar seus direitos e, por isso, mudaram a história.

    Joel Edgerton e Ruth Negga em "Loving". Foto: DivulgaçãoJoel Edgerton e Ruth Negga em "Loving". Foto: Divulgação

    Estrelas além do tempo, de Theodore Melfi, que tem lançamento previsto para este mês no Brasil, também é baseado em fatos. O filme foca em Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três negras que eram “computadores humanos”, responsáveis pelos cálculos do programa espacial americano antes da chegada dos computadores-máquinas, no início da década de 1960. No estado da Virgínia, ainda estavam em vigor as leis Jim Crow de segregação racial, o que fazia com que tivessem de usar banheiros separados, por exemplo. Johnson, a única ainda viva, recebeu uma Medalha Presidencial da Liberdade, entregue por Barack Obama, em 2015. O próprio fato de essa história incomum de triunfo ser praticamente desconhecida é um atestado de racismo e falta de interesse pelas narrativas dos negros.

    HISTÓRIAS COMUNS

    "Moonlight" conta história de crescimento a partir do "bullying". Foto: Divulgação"Moonlight" conta história de crescimento a partir do "bullying". Foto: Divulgação


    Por outro lado, uma das grandes sensações da temporada é
    Moonlight , de Barry Jenkins, que não se baseia em história real nem fala exatamente da luta contra o preconceito. O filme, escolhido o melhor do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles, tem elenco totalmente negro, é baseado na peça de um negro e dirigido por um negro. É uma história de crescimento, como tantas já contadas no cinema, ao mesmo tempo universal e específica, sobre Little (Alex R. Hibbert), um menino que sofre bullying e é protegido pelo traficante Juan (Mahershala Ali). Sua mãe (Naomie Harris) é viciada em drogas. Na adolescência, chamado Chiron (Ashton Sanders), descobre sua homossexualidade. Na terceira parte, já adulto, agora apelidado Black (Trevante Rhodes), lida com suas escolhas.

    O longa-metragem atende a uma reivindicação expressa por boa parte das associações de minorias: histórias comuns sobre gente comum, estreladas por negros, latinos, asiáticos. “Na maioria das vezes, os filmes negros que concorrem ao Oscar são sobre pessoas como Martin Luther King Jr. ou Malcolm X ou Solomon Northup. Pessoas que, por qualquer medida, são exemplares”, disse Marc Bernardin, em artigo na revista The Hollywood Reporter , referindo-se a produções como Selma – Uma luta pela igualdade , de Ava DuVernay, Malcolm X , de Spike Lee, e 12 Anos de escravidão , de Steve McQueen. Mais adiante, ele complementa: “Por outro lado, há filmes como Joy: o nome do sucesso , sobre uma mulher branca que inventou um negócio e ficou milionária”. Como ele bem apontou, ela não foi a primeira mulher a ficar milionária nos Estados Unidos. “Ou O quarto de Jack , sobre uma mulher branca e seu filho presos num quarto. Ou Nebraska , sobre um homem velho branco que gosta de perambular. Ou Blue Jasmine , sobre uma mulher branca rica que fica sem dinheiro”. Moonlight é um filme sobre as dores do crescimento. Little, ou Chiron, ou Black é negro e homossexual, mas o longa-metragem não é sobre isso, ainda que não ignore essas questões.

    Esses filmes todos são boas notícias e provam que ter mais negros em posições decisórias – como produtores, chefes de estúdio, diretores e nas agências de talentos – é fundamental para que suas narrativas cheguem à tela. Mas a verdade é que, apesar da justa reclamação dos últimos anos, a discrepância é menor para os atores negros em comparação com outras minorias. Eles receberam 10% das indicações desde 2000, sendo 13,3% da população americana. É pior no caso dos latinos – 3% de indicações para 17,6% da população – e asiáticos – 1% para 5,6% da população. Entre as 100 maiores bilheterias de 2015, apenas uma tinha protagonista ou coprotagonista latino, e quatro foram protagonizadas por mestiços. Nenhuma por asiáticos. É ainda pior porque as minorias, embora representem 37,9% da população, compraram 46% dos ingressos de cinema nos Estados Unidos em 2014 – só os latinos compram um quarto das entradas. No caso da maior bilheteria daquele ano, Transformers: a era da extinção , as minorias representaram 59% do público doméstico.

    Isso fez com que a atriz Gina Rodriguez, estrela da série Jane the Virgin , fizesse uma campanha nas redes sociais, chamada Movement Mondays, por mais papéis para latinos. Os americanos asiáticos também estão lutando por seu espaço. Fizeram uma campanha nas redes sociais contra as piadas com conteúdo preconceituoso em relação aos asiáticos de Chris Rock na cerimônia do Oscar de 2016, que destacou como muitas vezes o preconceito vem de outras minorias também. Depois, protestaram, com a hashtag #Whitesahedout , contra a escolha de Tilda Swinton e Scarlett Johansson em papéis de personagens asiáticos em Doutor Estranho e Ghost in the shell . Também colaram o rosto de John Cho e Constance Wu sobre a face de outros atores, indicando que eles poderiam ter feito filmes como Perdido em Marte ou Jurassic World .

    MERCADO GLOBAL
    Demorou, mas a constatação de que as minorias são fundamentais para a bilheteria parece começar a fazer diferença nas produções mais comerciais também – oito filmes com elenco composto por 41% a 50% de minorias arrecadaram US$ 122 milhões em 2014, contra US$ 52,6 milhões de 55 longas com menos de 10% do elenco de minorias. Esses filmes precisam, mais do que nunca, conquistar também o mercado global. Entre as maiores bilheterias de 2016, Capitão América: guerra civil , Mogli – O menino lobo , Esquadrão suicida e Doutor Estranho tinham não brancos como protagonistas. Sete homens e um destino era praticamente um filme de cotas, com um negro, brancos, um latino, um asiático e um nativo-americano juntando-se a três brancos.

    Rogue one: uma história Star Wars tem um latino (Diego Luna), um inglês descendente de paquistaneses (Riz Ahmed), dois chineses (Donnie Yen e Wen Jiang) e um negro (Forest Whitaker) no elenco principal. Quase nenhum desses fala exatamente da experiência dessas minorias nos Estados Unidos e estão mais voltados para conquistar o mercado internacional, mas, sem dúvida, têm o importante papel de colocar na tela tipos diferentes de pessoas, com a possibilidade de empoderar jovens e crianças. Moana – Um mar de aventuras , a nova animação da Disney, que também estreia neste janeiro, abandonou as princesas loiras para dar lugar à futura líder de um povo da Polinésia, morena, de cabelos cacheados e corpo menos esquálido.

    "Barry" baseia-se em história de Obama. Foto: Divulgação"Barry" baseia-se em história de Obama. Foto: Divulgação

    A luta por mais representatividade das minorias no cinema, sem dúvida, ganhou força durante o governo de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O próprio Obama foi objeto de dois filmes, Michelle e Obama e Barry , que está no ar na Netflix. Deu destaque a peças de teatro fundamentais, como Hamilton , de Lin-Manuel Miranda. Na televisão, que tem um modo de produção mais ágil, hoje se veem várias séries com elenco totalmente negro, asiático e latino, ou com protagonistas negros, asiáticos e latinos. Durante seus oito anos no cargo, o tema da identidade tornou-se preponderante, causando uma reação que foi ao menos parcialmente responsável pela eleição de Donald Trump. Não dá ainda para saber como o novo governo vai influenciar as artes e o entretenimento. Será que teremos mais produtos culturais com o norte-americano branco de classe média que se sente excluído? Pode ser. Mas parece difícil ignorar que, em 2016, quase 38% da população é de minorias. E que, daqui a 24 anos, as minorias, somadas, vão se tornar a maioria.