• A palavra-grito de Ernesto Dabo

    Leia abaixo na íntegra a matéria da edição 195 da Revista Continente (mar 2017)


    Depois de ter perdido quase todo seu acervo na guerra civil deflagrada na Guiné-Bissau, poeta decide-se pela autoedição, para aplacar os escombros


    Ernesto Dabo. Foto: DivulgaçãoErnesto Dabo. Foto: Divulgação

     

    Faces e dentes/ dizem melhor do acantonamento das almas/ Viagem a pingar última gota/ Da ponta da ponte/ atiram-se abraços cruzados e abertos/ Do mar à terra/ ampla luz de amor e saudades/ Reencontro com a filha bela da mãe natura/ minha Ilha-mãe/ BOLAMA
    Ernesto Dabo, no poema Ilha-mãe


    No poema que abreMar misto(2011), primeiro livro publicado do poeta guineense Ernesto Dabo, ele faz referência à sua terra natal, seu lugar de pertença, como sendo uma mãe. No caso dele, mais uma, já que se diz sortudo e agradecido por ter tido cinco mães que lhe deram à luz ,“cada uma a seu tempo e a seu modo”, como escreve na dedicatória do livro. Além da mãe biológica Nna Ndjai, também lhe cederam o afeto maternal, ao longo da vida, outras quatro mulheres que atendem por Nna Garandi (Mamãe Garandi), Nna Cinho (Mamãe Cinho), Mamã Cármen Hernandez e Maria José, essas duas últimas quando viveu em Portugal, entre 1963 e 1974.

    Poeta, músico, ativista cultural, mestre em Direito Internacional, Ernesto Dabo é de Guiné-Bissau, mas vive pelo mundo. Ao longo do ano, faz diversas viagens a convite de amigos e admiradores de seu trabalho nos mais diversos países, entre apresentações artísticas e palestras. Em novembro de 2016, esteve no Brasil. Sempre que viaja, retorna à sua terra. Esse trânsito constante faz parte de sua vida desde muito cedo, como relata em entrevista ao programa de TV portuguêsMar de Letras: “No fundo, talvez eu iria ser piloto porque, desde a minha infância, estou em franco movimento. Só para se ter uma ideia do percurso: saí de Bolama, viemos para Có, Bula, Bissau e Lisboa, em 1963. É mais ou menos um périplo desde muito novo. Talvez tudo isso tenha me ajudado a entender que não estamos sozinhos e nem devemos estar sozinhos. Tudo aconteceu num espaço de tempo muito curto”.

    Vindo de uma família numerosa, Ernesto reconhece a figura do seu pai como a de um visionário, por ter procurado garantir a alfabetização para todos os seus filhos, apesar do quadro colonial da época. “Em uma colônia que, em 1960, 99,7% da população estavam fora do sistema de ensino, haver alguém que entende que, contra essa corrente, ia formar todos os seus filhos minimamente e conseguiu fazer isso… Em sua casa não havia analfabetismo, e a primeira profissão entre os seus filhos foi a de professor de instrução primária. Para mim, isso foi uma atitude de visionário e um fato que motivou nós todos. Os livros e a leitura entraram assim também”, afirma o artista, de 67 anos, em entrevista à Continente.

    Revelam-se em suas memórias e produções artísticas fragmentos importantes da história de seu país. Uma de suas incursões mais marcantes foi a participação, ao lado de músicos como José Carlos Schwarz, Aliu Bari e Duko Castro Fernandes, no Cobiana Djazz.O grupo foi precursor em fazer música de expressão moderna na Guiné-Bissau do final dos anos 1960. Essa movimentação artística teve forte relevância do ponto de vista político, com relação ao fortalecimento da resistência guineense durante o processo de luta pela independência. Segundo o instrumentista Juca Delgado, o Cobiana teve o papel de mostrar nas rádios, pela primeira vez, a música feita no país naqueles anos de luta armada e, por isso mesmo, um veículo muito importante para espalhar aos jovens, nos grandes centros urbanos, as mensagens do PAIGC (Partido Africano para Independência de Guiné e Cabo Verde). “Musicalmente, também foi muito importante, porque foi a primeira banda em que as músicas eram cantadas em crioulo; antes, entendia-se que não era uma língua musical”, relata Delgado.

    O PAIGC a que o músico se refere é um grupo fundado em 1956 pelo líder político Amílcar Cabral, responsável por iniciar a luta armada que culminou no fim do regime colonial implantado em Guiné-Bissau e Cabo Verde. “O meu país foi colônia por mais de quatro séculos. Na década de 1950 para 1960, organizou-se uma luta de libertação, a qual, infelizmente, fomos forçados a fazê-la de forma armada. Quando entendi que essa luta era para a minha liberdade, pela independência do meu país, me engajei nesse processo e acredito que está intrínseco à minha vida. Entendi que devo ter como fim criar, para que a minha sociedade melhore e avance. Isso implica que eu tenha que refletir em meus trabalhos e criações as minhas preocupações relativas à sociedade”, afirma o artista.

    Ademais, o Cobiana Djazz musicou poemas escritos em língua crioula, comoMindjeris di pano preto(Mulheres de pano preto), do poeta conterrâneo de Ernesto Dabo, Armando Salvaterra, tido até hoje “quase como um segundo hino”. Os versos originais dizem:“Mindjeris di panu pretu/ ka bo tchora pena/ Si kontra bo pudi/ ora ki un son di nos fidi/ bo ba ta rasa/ pa tisinu no kasa/ Pabia li ki no tchon/ no ta bai nan te/ bolta di mundu/ i rabu di pumba” (“Mulheres de pano preto/ não chorem mais/ Se puderem/ quando um de nós ficar ferido/ rezem/ para trazer-nos à nossa casa/ Porque aqui é nossa terra/ não importa aonde formos/ a volta do mundo/ é um rabo de pomba”). Através da representação simbólica, proveniente da linguagem literária, o poema trata da persistência, do sentimento de pertença e da busca pela libertação do povo guineense. Em 1973, Ernesto foi novamente pioneiro na história da música, quando, com o Djorson,lançou o primeiro single da história da música do país.

    LITERATURA
    Como escritor, durante muito tempo Ernesto Dabo publicou seus textos em revistas, periódicos e, mais recentemente, em blogues. A primeira edição do livroMar mistodeu-se somente em 2011. “Eu sempre escrevi, mas no meu país não havia tantas editoras e, quando surgiram, não havia grandes apoios para os escritores editarem livros. Então, eu ia escrevendo e guardando, de vez em quando colaborava ou participava em antologias, mas sempre com esperança de um dia publicar os meus poemas, da maneira que quisesse. Em 1998, houve uma maldita guerra civil no meu país. Saquearam as casas, destruíram tudo. Depois da guerra, quando voltei para casa, revistando os papéis, encontrei algumas folhas com poemas. Se a memória não me falha, são poemas desde 1979”, conta.

    Foi a triste guerra civil que incitou a urgência para a publicação de uma versão impressa do seu livro. Mas, além disso, serviu de inquietação para que os destroços e dificuldades dos conflitos fossem retratados e transformados em linguagem poética, como nos versos impregnados de angústia deCidade:“Flocos de chama letal/ partiam de canos aos céus/ Um par de olhos que não via o engodo de pão para se calar/ girava na face nascente/ faiscando temor/ envolto em pó e questão”.

    A linguagem literária, como uma das possíveis fontes de registro de uma sociedade, é feita a partir de interpretações e é fundamental para que os indivíduos (re)conheçam suas raízes. Perceber a obra como documento pode ser um caminho, sem negar seus valores estético-literários. De maneira complexa, política, história, sociologia, literatura e outros tantos campos coexistem e se amalgamam na criação.

    Os meses da guerra civil de 1998 também lhe tiraram grande parte de seus textos e documentos de pesquisa sobre a cultura do país. “Perdi todo o meu arquivo, coisas que eu tinha feito da cultura popular, entrevistas, um acervo de dezenas de anos. Com isso, pensei que, haja guerra ou não, tenho que publicar e não esperar mais. Peguei meus papéis todos e comecei a organizar, quando cheguei a um volume razoável de poemas, decidi que ia editar.”

    Das particularidades deMar misto (2011), a que revela muito do pensamento de seu autor a respeito das questões linguísticas e, portanto, culturais, é a escolha por um livro bilíngue (em crioulo e português). Como faz questão de pontuar, não há razões para criar conflitos entre idiomas, porque isso já seria uma maneira de hierarquização. “São poemas em português e em crioulo porque eu uso as duas línguas. Não vou pô-las em competição. As duas me fazem falta, cada uma com preponderâncias em um aspecto. A minha língua, o crioulo, é o veículo principal, ‘o DNA da minha cultura’, parafraseando meu amigo Gilles Vigneault, pensador canadense”, explica o artista. Mesmo com a divisão, há versos em português na seção de poemas em crioulo e vice-versa, talvez pelo traço da oralidade em que essas fronteiras são enfraquecidas.

    Assim como Dabo, Odete Semedo (poetisa, ex-ministra da Cultura da Guiné-Bissau e autora deNo fundo do canto)e Tony Tcheka fizeram questão de escrever em suas línguas. A primeira língua é sua pátria, como disse Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa). Por outro lado, é preciso que a mensagem chegue também em outros idiomas, que, no caso dele, é o português. A mensagem é para ir pro mundo, porque a África fala para o mundo, duas línguas ampliam”, afirma Zuleide Duarte, professora de Literaturas Africanas da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) em entrevista àContinente.

    A quantidade de poemas também foi definida pela preocupação do autor de que seus versos fossem realmente lidos pela população de seu país. “Não pus muitos poemas, porque tenho que ser realista, o hábito da leitura no meu país está a começar agora. Se você vai publicar livros com 200 ou 300 poemas, pouca gente vai ler. Um caderno de 30, 40 poemas deu resultado, porque as pessoas com menos tempo leram os meus poemas e o fato de ser um livro bilíngue também caiu muito bem”, explica Dabo.

    A obra do poeta, assim como a de Abdulai Sila, Odete Semedo, Felix Siga e Huco Monteiro, entre tantos outros escritores e artistas da Guiné-Bissau, é substancial para se conhecer a riqueza dessa diversidade étnica e linguística que há no país. Muito dos nossos saberes e heranças culturais vêm desse e de outros países africanos – inclusive dos que não falam língua portuguesa –, e a literatura é um dos alicerces para reconhecermos os outros e, assim, refletirmos sobre nós mesmos. “A África está cada vez mais senhora de si, como sociedade multiétnica e plural. Está se construindo uma base econômica mais fortalecida”, afirma Ernesto Dabo. Seu livroMar mistoé dessas leituras que despertam o leitor para o questionamento da perspectiva hegemônica na qual a história costuma ser contada e para as relações linguísticas. Conhecer as literaturas de cada um dos países africanos – além dos latino-americanos – é, sobretudo, nos familiarizar com as diferenças, pois como dizem estes versos de Dabo: “À tua porta há rosas./ Colhe uma e com ela muda o mundo”.


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    EXTRA
    Leia dois poemas inéditos do próximo livro de Ernesto Dabo, Olonko:

    ASSIM NÃO SERÁ

    À força nos roubaram das nossas casas

    Somos grossa cota da argamassa com que se ergueu o edifício endinheirado mundial

    Criamos os seus

    e com eles multiplicamos as descendências

    sem duvidar do futuro por certo negar do nosso

    Cresceram noutro mundo

    julgado só deles

    sem sabê-lo em crise no tempo adiante

    Mesmo assim

    juntos

    Assim mesmo

    partes do mesmo

    Sem o semear de outra paz

    sem o colher de outro inferno

    Foi assim

    Assim é

    Mas assim não será

    Longueil, Canadá. 30.11.11 (03:23)


    FIEL À MUDANÇA

    Fecho a porta

    e no claro vazio de vozes

    saio de mim

    à procura da mão que faz o caminho da troca

    fiel à verdade

    na travessia da mata de copas ébrias

    Por chuvas pobres

    chuvas nobres

    Nas pausas

    miro o fundo

    sinto perto como longe

    o encontro reencontro de taças à doença do obscuro

    No fechar e abrir das horas

    galgo e desço do dorso do vento

    como folhas que me acenam

    gêmeas de meus pensares

    a caminho da terra

    na sua de sentinela real

    Um galo de fala descosida

    desfaz o vazio no sopé da janela

    Atira-me ao pleno de vozes e fazeres

    onde tomo espaço

    E para plantar

    tudo faço

    fiel à mudança

    Lis. 18.02.12



  • Uma lição de como amar coisas ignoradas

    Ilustrações: Matheus CalafangeIlustrações: Matheus Calafange

    Manoel de Barros, que faria 100 anos este mês, construiu seu projeto literário sobre a vida comum, combatendo o “sublime” como um valor imprescindível da poesia

    A poesia pode falar de qualquer coisa? O que seria “assunto” ou “tema” próprio da poesia? O nosso tempo conheceu algumas respostas a essas questões. O que implica em dizer que nem sempre foi assim. Houve uma época em que havia, sim, temas mais apropriados à poesia e, em consonância com esses temas, uma linguagem igualmente “adequada”. 

    A tradição clássica que dominou a literatura ao longo de muitos séculos previa esse ajuste entre um assunto ou tema e o tipo de discurso escolhido, o mais apropriado para exprimir o objetivo do autor, do poeta. Essa primeira distinção entre os modos de discurso e as suas respectivas possibilidades trazia consigo uma escolha rigorosa de palavras, a utilização de determinados lugares-comuns etc. Em resumo, foi um tempo em que a linguagem literária e a poesia, consequentemente, eram reguladas por um conjunto de regras e preceitos. O que não impediu que surgissem grandes obras. 

    Com o Romantismo, no século XIX, essa tradição foi questionada. Novos assuntos, novos estilos, novos modos do falar poético desafiaram a tradição. Processo que culmina com o Modernismo do início do século XX, momento em que a literatura conquistou uma liberdade sem precedentes. As vanguardas foram a principal manifestação desse espírito de liberdade radical. E o caráter experimentalista – de valorização do novo, do inesperado, do incomum e do original – foi a materialização coletiva dessa postura iconoclasta. Qualquer coisa podia se converter em matéria de poesia. Não há palavras poéticas e palavras não poéticas. Todas as palavras, sem exceção, podem participar do poema e contribuir para exprimir o mundo e a vida social moderna com todas as suas contradições, misérias e iluminações. 

    Uma forma de entender a poesia moderna, ou ao menos parte dela, é a recusa ao “sublime”. E aí pesaram tanto a liberdade criativa, que passou a ser cultivada a partir do Romantismo, como a ironia. Muitas vezes, a junção desses dois traços é comum e não faltariam exemplos disso em alguns dos nossos grandes poetas modernos. É o caso de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Ao mesmo tempo em que essa liberdade de temas, assuntos, formas e modos de composição alargam a ideia do que é poético, a ironia investe contra a antiga ideia do sublime na forma de uma distância que é a marca de toda ironia. 

    Assim, por exemplo, a linguagem quase infantil de Bandeira ao tratar das paisagens da infância, ou o tom “melodramático” de vários dos seus poemas. Ou ainda, a fina ironia de João Cabral que justapõe flor e fezes como símbolos da poesia: “Poesia te escrevia: / flor! Conhecendo / que és fezes! Fezes / como qualquer”. Mesmo num Drummond ou num Mário Quintana é possível encontrar exemplos desses golpes contra a pretensa poesia “profunda”. 

    É na culminância desse processo de rebaixamento do tom poético que se encontra o mais original e interessante da poesia de Manoel de Barros. Em dezembro de 2016, completam-se os 100 anos de nascimento desse menino dono de saberes de chão e de coisas. Na medida em que uma voz inconfundível foi se construindo, mais luz foi sendo projetada sobre o poeta, quase um outsider

    Avesso aos holofotes e à vida literária – o que, segundo alguns, teria retardado uma recepção mais justa de sua obra – parecia preferir o camarim ao picadeiro. Na intimidade úmida do pantanal, ele concebeu seus poemas, ou antipoemas, cada vez mais impregnados de um olhar e de uma linguagem entranhada no universo fértil das várzeas e vadiações. 

    O início da trajetória se dá com o livro Poemas concebidos sem pecado (1937), iniciando uma fase sintonizada com o Modernismo de segundo momento. Ela se estende até Gramática expositiva do chão (1966), que apresenta boa parte dos ingredientes que se transformaram no tempero inconfundível de sua poesia. Elementos que atingem grande amplitude e lhe conferem, a partir de O livro das ignorãças (1993) e Livro sobre nada (1996), grande popularidade. No projeto literário do poeta Manoel de Barros, três aspectos sempre me chamaram a atenção, pela força com que eles configuram certo “primitivismo”, e sua maneira especial de combater o “sublime” como um valor imprescindível da poesia: o olhar sobre a vida comum; a valorização de bichos, coisas e objetos; e o mergulho na linguagem da infância.

    VIDA COMUM
    O olhar sobre a vida comum é uma característica que une a poesia de Manoel de Barros a alguns dos nossos grandes líricos modernos: Drummond, Bandeira e Quintana, por exemplo. Esse canto do seu canto, em que o colorido da vida pantaneira vai deixar também seus ovos, integra um mundo familiar e conhecido: “A de muito que na Corruptela onde a gente / vivia / Não passava ninguém / nem mascate muleiro / nem anta batizada / nem cachorro de bugre. / O dia demorava de uma lesma”. É perceptível também nesse trecho do poema outro ponto de coligação entre Manoel de Barros e nossos grandes líricos modernistas: o uso da linguagem de apropriação regionalista – mais em alguns livros do que em outros. Apropriação estimulada muito mais por uma reflexão metalinguística do que por um projeto nacionalista. O próprio poeta define exemplarmente essa relação com a palavra: “A palavra garça em meu perceber é bela / não seja só pela elegância da ave. / Há também a beleza letral. / O corpo sônico da palavra / e o corpo níveo da ave / se comungam”. 

    No caso de Manoel de Barros, a aproximação da poesia com a vida comum desencadeia uma simbiose entre o sujeito lírico e a paisagem. Essa paisagem pantaneira se manifesta através e elementos claramente identificáveis, mas, principalmente, através de uma linguagem que exprime esse universo não de maneira simplesmente temática, mas isomórfica; ou seja: através de um princípio de identidade entre o modo linguístico do poema e o universo que ele – mais do que exprimir – simboliza. É o que o leitor encontra num poema como Maçã: “Uma palavra abriu o roupão para mim. / Vi tudo dela: a escova fofa, o pente a doce maçã. / A mesma maçã que perdeu Adão. / Tentei pegar na fruta / Meu braço não se moveu. / (Acho que eu estava em sonho) / Tentei de novo / O braço não se moveu. / Depois a palavra teve piedade / E esfregou a lesma dela em mim”. O erotismo verbal tem uma umidade, um langor que é próprio do ritmo e da vida anfíbia do universo pantaneiro e que se potencializa na imagem invertebrada da “lesma”. 

    Além da paisagem, há o evento miúdo, corriqueiro, que conquista a atenção da poesia. Brincadeiras de meninos, causos, tipos curiosos, práticas seculares ditadas pela vida comum que estabelece igualmente uma espécie de simbiose com a paisagem: “Araras cruzavam por cima dos ranchos / conversando em ararês. / Ninguém de nós sabia conversar em ararês. / Os maridos que não ficavam de prosa na porta / da venda / Iam plantar mandioca / Ou fazer filhos nas patroas. / A vida era bem largada. Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia / atravessar”. 

    A poesia de Manoel de Barros parece nos falar constantemente desse transitar através das fronteiras dos reinos. Bichos, plantas, pedras, homens… tudo isso parece namorar incessantemente, mesclar-se, confundir-se. Confirmando, inclusive, o dito de um tipo muito próximo ao “menino” de Manoel de Barros, que é o Riobaldo de Guimarães Rosa: “No mundo, tudo é misturado”. É esse olhar impregnante que compõe a figura arquetípica do “menino” e a linguagem infantil, que o próprio poeta chamará, mais apropriadamente, num de seus poemas de “infância da língua”.



    OLHAR INFANTIL
    A figura do menino aparece constantemente na poética de Manoel de Barros. Representa metaforicamente o poeta e, através dele, do menino, emerge muito da infância que o tempo naturalmente submergira. O valor das coisas imprestáveis, a simbiose entre os seres e a paisagem, entre linguagem e coisa, tudo isso está associado a essa matriz metafórica do olhar infantil: “O menino podia ver até a cor das vogais – / como o poeta Rimbaud viu. / (…) Mas ele mesmo, o menino / Se ignorava como as pedras se ignoram”. Não é casual a referência a Rimbaud, seja pela celebração da lógica sinestésica e sensorial da poesia simbolista, que permitiu a associação das vogais com cores e sensações, seja pelo fato de ser um poeta menino. Como bem se sabe, Rimbaud escreveu toda sua obra até os 17 anos.

    Assim, o menino adquire grande protagonismo no universo poético de Manoel de Barros. Ele é responsável pelo potencial imaginativo, logo criativo, da vida. Dono de um saber imediato e fértil que insiste em apresentar a infância como a idade essencialmente inaugural: “Por forma que nossa tarefa principal / era de aumentar / o que não acontecia. / (Nós era um rebanho de guris) / A gente era bem-dotado para aquele serviço / de aumentar o que não acontecia”. Esse saber é, por sua vez, uma forma de ignorãça, para usar a feliz expressão do próprio poeta e que intitula um de seus livros mais importantes. 

    O oposto desse saber direto que a vida comum proporciona é a explicação racional que, entretanto, é apresentada com muita ironia, porque impotente contra a força com que esse conhecimento nasce da experiência do viver. A explicação racional apenas arranha a superfície irregular dessa beleza inexplicável – imprestável – das coisas pequenas e nossas: “E aquele colega que tinha ganho um olhar / de pássaro / Era o campeão de aumentar os desacontecimentos. / Uma tarde ele falou para nós que enxergara um / lagarto espichado na areia / a beber um copo de sol. / Apareceu um homem que era adepto da razão / e disse: / Lagarto não bebe sol no copo! / Isso é uma estultícia. / Ele falou de sério. / Ficamos instruídos”. O mesmo movimento se encontra no arremate do poema Vento. A ironia frente ao conhecimento formal só parece insistir que o mundo continua dotado de um encanto que, na infância, não se domestica: “Hoje eu tasquei uma pedra no organismo / do vento. / Depois me ensinaram que o vento não tem / organismo. / Fiquei estudado”.

    POESIA DAS COISAS
    Outra característica importante da poética de Manoel de Barros é a valorização das coisas imprestáveis. O precursor moderno dessa tendência de dar voz aos objetos, às coisas, aos seres inanimados e – mais do que isso – ao que não tem valor, é o poeta Francis Ponge, autor de Le parti pris des choses (O partido das coisas, na edição brasileira). Ponge escreveu sobre uma infinidade de quinquilharias, coisas e seres minúsculos: o camarão, a lata de conserva, o pingo da chuva, a crosta de pão, o cigarro gasto, a bicicleta etc. 

    Na poesia de Manoel de Barros, lê-se exatamente a lição do poeta francês: dar voz às coisas, deixar que elas falem através de nós, dar voz àquela parcela muda do mundo. Nas palavras da crítica Leda Tenório da Mota, grande estudiosa da poesia pongiana: “Desaforadamente, pois, dizer as coisas é tomá-las em sua existência insondável. É fazer falar o que não dá sinal de si”. 

    Esse dar voz ao mundo mudo é muito frequente na poesia de Manoel de Barros, como se lê no poema Poste: “Eu quis filmar o abandono do poste. / O seu estar parado. / O seu não ter voz. / O seu não ter sequer as mãos para se pronunciar com / as mãos”. Os objetos, os animais, os seres minúsculos, compõem uma galeria de motivos que enfatizam o caráter concreto e sensorial da experiência poética que, carregada de ironia, pode afirmar preferir latas – “essas pessoas léxicas pobres porém concretas” – às ideias que, por serem abstratas, não podem ser reaproveitadas, se jogadas fora por “motivo de traste”. 

    Tal tendência pode ser encarada como um verdadeiro anti-intelectualismo da poesia e negativa do sublime. É algo que pode, por exemplo, ser encontrado na poesia de Alberto Caeiro. Negação do caráter “profundo” da atitude filosófica ao tentar esquadrinhar o mundo com o racionalismo. Racionalismo que amortizaria o caráter inaugural da experiência ao abstraí-la. 

    O saber que a poesia oferece é um saber profundamente mundano, assistemático. Tem a força e a volatilidade do olhar infantil, sempre assediado, encantado pela própria curiosidade. O reconhecimento de um deslocamento fundamental do poeta, esse porta-voz das coisas desutilizáveis, em relação ao mundo contemporâneo, é algo marcante na poesia de Manoel de Barros e tem ressonâncias políticas muito fortes, para além dos credos e ideologia do autor. Resíduos, trastes, restos e refugos não contribuem para a marcha do mundo tecnocrata, estão à margem. São tão inúteis quanto os passarinhos. Mesmo que eles, os passarinhos, sejam capazes de botar “primavera nas palavras”.

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