• O apagamento de uma representação

    Solo de Marconi Bispo discute o racismo institucionalizado. Foto: Ricardo Maciel/DivulgaçãoSolo de Marconi Bispo discute o racismo institucionalizado. Foto: Ricardo Maciel/Divulgação

    A história das encenações teatrais reflete a exclusão dos afrodescendentes de lugares de protagonismo, inclusive em espaços vistos como tolerantes à diversidade

    “Quando você percebeu que era negro?”, pergunta Marconi Bispo em determinado momento do espetáculo Luzir é negro. O questionamento é emblemático e revela uma situação cruel: a consciência da negritude, em geral, vem acompanhada de um processo de dor, exclusão; o reconhecer-se como o Outro em meio a uma sociedade racista e dominada por brancos. A sensação de pertencimento e representatividade é ainda cerceada aos negros e limita seus lugares de fala e protagonismo, inclusive em espaços que deveriam ser de tolerância e diversidade, como o teatro.

    Traçar a história dos negros no teatro nacional não é uma tarefa simples. Além dos parcos registros, o racismo institucionalizado fez com que, mesmo após o fim da escravidão, o apagamento da representação negra e a exclusão dos afrodescendentes de lugares de protagonismo persistissem. Esse quadro se configura em outras esferas, como as do cinema e da televisão.

    No livro A história do negro no teatro brasileiro, o pesquisador Joel Rufino dos Santos aponta que, durante os primeiros séculos da colonização, os negros apareciam nas encenações (quando apareciam) por um viés objetificado, quase como parte do cenário, sendo-lhes negado o direito de estar em cena. Como aponta o professor da UFMG Eduardo de Assis Andrade, Rufino diferencia teatro de drama para ressaltar a ausência do negro no teatro, apontado por ele como um local burguês, já que, na produção dramática considerada popular e executada em ambientes públicos, os afrodescendentes estavam muito presentes.

    Nesse sentido, pode-se falar de experiências marcantes a partir de 1926, quando De Chocolat criou, no Rio de Janeiro, a Companhia Negra de Revista. Inspirada no teatro de revista – gênero de sucesso, na época, que se aproximava do teatro musicado e popular –, a companhia inovou ao colocar em cena apenas atores, músicos, compositores e dançarinos negros, como Jandira Aimoré, Alice Gonçalves, Waldemar Palmier, Rosa Negra, Dalva Espíndola, Oswaldo Viana, Pixinguinha, Sebastião Cirino, Donga e Grande Otelo. Com espetáculos como Tudo preto, Preto e branco e Na penumbra, o grupo circulou por estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco, durante o curto período de um ano em que atuou.

    Para Rufino, no entanto, a história do teatro negro no Brasil tem o ponto de virada com Abdias Nascimento e o Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944, no Rio de Janeiro. A inquietação de montar a companhia surgiu após uma viagem ao Peru, em 1941. Acompanhado de um grupo de amigos, Abdias assistiu à encenação de Imperador Jones, peça escrita por Eugene O’Neill. Apesar do personagem da história ser negro, o ator que o interpretava era branco, com o corpo pintado de preto para encenar. A situação era semelhante no Brasil, o que motivou Nascimento a se engajar para mudar o quadro.

    A companhia nasceu com a proposta de levar aos palcos a pluralidade das identidades afrodescendentes a partir de um processo de formação e empoderamento dos artistas e da plateia. O trabalho artístico estava intrinsecamente ligado à preocupação com a educação e o grupo elaborou um trabalho paralelo voltado para a alfabetização (muitos dos atores do grupo não eram profissionais e não tiveram acesso à educação formal) e introdução cultural. Entre suas atividades de âmbito de conscientização, o grupo lançou a revista Quilombo, participou e promoveu encontros sobre a conscientização da comunidade negra.

    Os espetáculos do coletivo levavam para o centro da encenação a vivência dos afrodescendentes, que assumiam lugar de protagonismo em espetáculos como Aruanda, de Joaquim Ribeiro, Filhos de santo, de José Moraes Pinho, estes dois últimos abordando as religiões de matriz africana, preconceito racial e desigualdade social. O grupo, que revelou talentos como Ruth de Souza, Haroldo Costa, Léa Garcia e José Maria Monteiro, manteve suas atividades até o exílio de Abdias, na década de 1960, em decorrência da perseguição dos militares após a instauração do golpe. A partir do TEN, outros coletivos surgiram, como o Teatro Folclórico Brasileiro, o Balé Brasiliana; o Teatro Popular Brasileiro e o Balé Folclórico Mercedes Baptista.

    Leia matéria completa na edição de dezembro da Revista Continente (n. 192)

  • O protagonismo negro sobe ao palco

    "A missão em fragmentos" adquire para si o tom de grito de protesto. Foto: Nereu Jr./Divulgação"A missão em fragmentos" adquire para si o tom de grito de protesto. Foto: Nereu Jr./Divulgação

    Uma das marcas desta quarta edição da MITsp está nos trabalhos que evidenciam o protagonismo negro e a discussão em torno do racismo. Sob diferentes abordagens, o público da mostra teve a oportunidade de acompanhá-los: foram duas estreias brasileiras na última sexta (17/3), além de uma obra internacional.

    A primeira, intituladaBranco: o cheiro do lírio e do formol,possui direção de Janaina Leite e Alexandre Dal Farra, que também assina a dramaturgia da obra. Branco não é um espetáculo fácil de ser processado pela plateia. A partir de uma dramaturgia extremamente fragmentada, o autor evidencia seu próprio impasse, sendo branco, ao ter que lidar com o tema do racismo em nosso país. Uma obra dentro de outra obra. Camadas dramatúrgicas são adicionadas, desde as primeiras versões do texto a trechos de ensaios de outras possíveis versões. Como ponto proeminente, a urgência e violência das palavras, que são marcas do autor.

    Dal Farra expõe o impasse de como artistas brancos podem falar sobre racismo. Foto: Guto Muniz/DivulgaçãoDal Farra expõe o impasse de como artistas brancos podem falar sobre racismo. Foto: Guto Muniz/Divulgação


    Na segunda estreia, A missão em fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa
    , o diretor Eugênio Lima e 15 performers negros retomam o texto do alemão Heiner Müller (A missão: lembrança de uma revolução),aproximando sua proposta à escrita em 1979. Vale lembrar que este grupo/espetáculo surge da performance intitulada Em legítima defesa, realizada na edição passada em diferentes espaços da mesma mostra. Tal qual a performance do ano passado, o espetáculo adquire para si o tom de grito de protesto, pautado por um discurso emergencial e perpassado, inclusive, a ocupação destes espaços simbólicos por performers negros. Entretanto, com mais de três horas de duração, a obra peca pelo excesso, não em relação à quantidade de temas e questões, mas à extensão demasiada de cada bloco de cena.

    Para Müller, a voz da revolução que ainda pode sacudir o mundo ocidentalizado surgirá da  Ásia, a África ou América Latina. Se os brasileiros compuseram parte desta voz, nesta MITsp, coube àartista sul-africana Ntando Cele, com Black off, o papel de mais tranquila resolução desta tríade, comungando com as questões raciais impostas pela “branquitude” de Dal Farra e, ao mesmo tempo, performando sobre questões emergenciais do ser negro de A missão.O espetáculo, dividido em dois blocos, traz, em seu primeiro momento, um humor desestruturador de plateias, com requintes de acidez. Somos postos diante deBianca White, alter ego de Cele, que tentar tirar o negro de sua “escuridão interior”. Mesmo que o segundo momento perca um pouco de intensidade, configurando-se basicamente na execução de músicas e vídeos, Ntando, acompanhada de mais três músicos, demarca seu lugar de fala como mulher, negra, artista.

    Ntando Cele em "Black off". Fotos: Janosch Abel/DivulgaçãoNtando Cele em "Black off". Fotos: Janosch Abel/Divulgação

    O espaço de impasse posto no espetáculo de Alexandre Dal Farra, a partir da questão de como artistas brancos podem falar sobre racismo, é apropriado por Cele, que parece nos dizer: “Eu, negra, estou habilitada para isto”. Sua Bianca White utiliza-se justamente de toda esta base de preconceito enraizada em nossa sociedade para dar-nos rasteiras, seja quando diz que negros são incapazes de compreender “arte complicada” ou quando oferece Prosecco para que os mesmos possam experenciar algo nunca provado na vida. Simbólico também poder ver esta obra sendo encenada no palco do Itaú Cultural, local onde, tempos atrás, foi estabelecido um importante debate em torno da utilização do black face a partir do espetáculo A mulher do trem, do grupo Os Fofos em Cena.

    Nesses três trabalhos apresentados na mostra, evidencia-se a necessidade de discussão sobre o universo posto.Ao fim das três obras, saímos com a certeza de que a arte antevê as crises interpostas por diferentes sociedades, cabendo a esta o papel de refletir, jogar lupas e talvez apontar caminhos sobre discursos ainda não ditos.

    A MITsp prosseguirá com estas reflexões nesta segunda e terça (20 e 21/3), a partir da realização do seminárioDiscursos sobre o não dito: racismo e a descolonização do pensamento, envolvendo importantes pensadores da contemporaneidade no próprio Itaú.Cultural.

  • “A sociedade tem o lugar do negro”

    Isaar. Foto: Ana Rosa Passos/FlickrIsaar. Foto: Ana Rosa Passos/Flickr

    “Já entrei num camarim, no querido Pátio de São Pedro, e todos eram brancos e eu era o único negro. Aí um(a) grande fomentador(a) cultural veio até mim e perguntou quem eu era, com quem eu estava, qual era a minha banda e eu nem conseguia responder, fui expulso violentamente do local.” A vítima dessa agressão, Angelo Souza, mais conhecido como Graxa, é um dos raros guitarristas negros de Pernambuco.

    O rock, que tomou forma por nomes como Bo Diddley, Fats Domino, Chuck Berry, Little Richard, não demorou a passar às mãos dos brancos, a partir do surgimento de artistas como Buddy Holly, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Bill Halley e, principalmente, Elvis Presley. Se o advento do Rei do Rock colaborou para atenuar o preconceito contra o gênero musical, por outro lado funcionou como um marco na apropriação do rock pelos brancos. A invasão britânica, capitaneada pelos Beatles e Rolling Stones, na década seguinte, só veio reforçar esse “branqueamento”. 

    O resultado disso é que hoje são poucos os músicos negros em bandas de rock ou, até mesmo, espectadores negros na plateia de um show de rock. “Quando eu era guri, e fui conhecendo músicos do rock, eu pensava em duas coisas: a primeira era que eu poderia ser o primeiro negro do rock – Ai, Meu Deus, como eu era inocente e puro! – e a segunda coisa que eu pensava era que aquilo não era pra mim, pois não tinha negros. Isso eu era muito jovem mesmo, depois descobri Jimi Hendrix e disse: 'Olha aí, que beleza!'. Depois descobri, ainda mais, que toda a estrutura rítmica da música popular é de origem africana. Sendo assim, é tudo nosso!”, diz Graxa. 

    Essa carência de músicos negros em músicas que não pertençam às tradições populares também pode ser percebida em outras artes, cujos espaços são ocupados geralmente por homens, brancos e, sim, héteros. No cinema pernambucano, por exemplo, há uma ausência de negros por trás das câmeras. Nas artes plásticas e na literatura também, são raríssimos. 

    Conversamos com alguns artistas sobre essa discussão necessária e que se refere ao passado, ao presente e ao futuro do Brasil. Veja abaixo:

    GRAXA
    Guitarrista e compositor



    “Eu acho que recebo muito mal por pessoas que recebem muito bem. Existem artistas negros que, acho eu, devam receber muito bem e o motivo é o mesmo que te falei na pergunta/resposta acima: porque existem pessoas que os legitimam até certa linha tênue e eles são brancos. Uma vez eu perguntei quais os artistas negros que surgiram no Recife nos últimos anos e muitos voltavam no tempo pra data que eu não especifiquei e a maioria desses exemplos eram músicos representantes das tradições populares. Tem a galera do brega que, pelo pouco que acompanho nesse nicho musical, existe uma grande quantia de representantes negros. Alguns deles devem ganhar bem também. Mas a maioria ganha mal e quando ganham, nem tem mais graça.”

    “Você vê o exemplo do Carnaval, das bandas de frevo de rua, pra ser mais exato. Quem sabe tocar algum instrumento vai ganhar miseravelmente pra passar mais de oito horas tocando por vários dias. Quem não sabe vai se fantasiar de garrafa de marca de bebida, ou fazer proteção de cordão de isolamento, ou vender latinha dessas mesmas marcas de bebidas. São coisas dignas, claro, todas essas funções, mas a troca de valores de dignidade não são as mesmas e o que eu quero dizer também é que existe um perfil que deve estar nessas posições de toda uma estruturação das representatividades culturais.”

    “O Brasil nunca gostou do rock. A época em que o Brasil só gostou do rock, que pode ser considerada, os anos 1980, foi guiada por pessoas brancas e ricas, que hoje são bem conservadoras e tal. Tá, tiveram os anos 1970, que eu consigo me lembrar de Raul Seixas como o mais rentável, mas todos os outros não faziam sucesso. Fazem hoje nessas revisitações dos jovens. Tinha também a Jovem Guarda, a Tropicália, né? Mas não são literalmente rock em si.”

    “O rock sempre foi maldito. Não é uma coisa boa ser do rock. Nunca foi. Quando o rock conseguiu mais expressividade foi em função mercadológica e a maiorias desses representantes, pra não se dizer todos, era branca. Brancos que pegaram uma música de originalidade negra e tomaram pra si, num mix de auxílio e respeito, ou não – como, por exemplo, a invasão britânica, com Stones, Beatles, Kinks e todos aqueles outros que faziam versões das músicas dos artistas negros para uma inserção e aceitação mercadológica. Sendo assim, dificilmente, um negro que socialmente tem mais possibilidades de ser pobre vai se identificar com um desses personagens que os meios de comunicação bombardeavam.”

    “Quando eu era mais guri, o que eu mais ouvia era: 'Isso é música de doido. Oxe! A pessoa vai ouvir uma coisa que num dá pra entender nada. Isso é música de Satanás. Esses caras tão tudo doidão!' E por aí ia! Mas era louco porque a turma ouvia músicas românticas, músicas de amor. Ou então ouviam música eletrônica, como Stevie B, Tony Garcia e tal, que são pessoas que cantam em inglês. O lance mesmo é que o Brasil nunca gostou do rock e quando gostou, foi sob essas circunstâncias. Dessa forma, dificilmente um neguinho iria se identificar com um personagem como, por exemplo, o roqueiro Dinho Ouro Preto. É mais fácil ele – eu – me identificar com Bezerra da Silva, Cartola, Evaldo Braga.”

    “Quando eu era guri, e fui conhecendo músicos do rock, eu pensava em duas coisas: a primeira era que eu poderia ser o primeiro negro do rock – Ai, Meu Deus, como eu era inocente e puro! – e a segunda coisa que eu pensava era que aquilo não era pra mim, pois não tinha negros. Isso eu era muito jovem mesmo, depois descobri Jimi Hendrix e disse: 'Olha aí, que beleza!'. Depois descobri, ainda mais, que toda a estrutura rítmica da música popular é de origem africana. Sendo assim, é tudo nosso!”

    “Quando fui tocar em São Paulo, teve uma pessoa que veio até mim e disse: é incrível como você não tem nada de regional.”

    “Teve uma vez que me disseram assim: 'Graxa, quando eu ouvi teu som, eu nunca imaginaria que você fosse assim'! (Assim como, bebê? Você pensava que eu tinha um Giroflex na cabeça?)."

    "Já entrei num camarim, no querido Pátio de São Pedro, e todos eram brancos e eu era o único negro. Aí um(a) grande formentador(a) cultural veio até mim e perguntou quem eu era, com quem eu estava, qual era a minha banda e eu nem conseguia responder, fui expulso violentamente do local.”

    “No mesmo Pátio de São Pedro, anos 2000, por aí, na época daquele limbo após o fim do Manguebeat, quando a gente tentava tocar, sempre perguntavam pela 'alfaia' na nossa banda.”


    ISAAR
    Cantora e compositora

    Foto: Diego Di NiglioFoto: Diego Di Niglio


    “A sociedade tem o lugar do negro. O lugar onde ele não incomoda. Existem também vários mercados na música. No mainstream, quem podemos encontrar? O Brasil vende a imagem do moreno. Uma forma mais atenuada e aparentemente menos pobre.”

    “Na minha carreira, teve o fato de começar numa banda de mulher. Mesmo me mantendo num mercado alternativo, a gente esbarra em situações desagradáveis quando ameaçamos ampliar nosso espaço. Quando eu falo em mercado alternativo, eu digo: 'Aqui me cabe, aqui eu posso, aqui não tem grana. Apenas sonhadores'.”

    JAM DA SILVA
    Cantor, compositor, músico e produtor



    “No campo da música há uma possibilidade de igualdade, é a profissão em que o negro é bem-visto, acho que nesse meio, é o único lugar onde não sinto preconceito. O racismo brasileiro é muito velado e pra identificar essas ações racistas nas negociações e dinâmicas de pagamento no mercado da música, é muito mais subjetivo e leve do que o racismo cotidiano. Percebo, sim, uma questão de classes sociais pesando bastante, pois a comunidade negra não está na classe social alta e isso pode ser um agravante, podendo detonar um preconceito diante de grupos da cultura popular.”

    “Ainda existe muito preconceito contra o negro na sociedade e acaba que alguns músicos que conseguem alcançar um lugar de status, não são isentos dos preconceitos que eles sofrem nesses espaços sociais em que vivem. O racismo é uma ideologia do mal, através da qual até hoje, em 2016, tentam impedir que nós, negros, tenhamos acesso aos bens simbólicos.”

    “Essa semana fui convidado a três jantares que estavam fazendo pra mim na zona sul do Rio de Janeiro, mais especificamente em Ipanema, e chega a ser previsível, acontecendo nas três vezes a mesma pergunta por parte dos porteiros: 'É entrega, é boy?'. Eu respondi: 'Boa noite, é entrega sim. Vou entregar meu coração ao casal que está me oferecendo um jantar na cobertura X'”.

    “No mercado internacional, nunca tive problemas em relacionamentos profissionais, cachês etc. Às vezes, consigo bons contratos e a falta de oportunidade limita essa expansão do meu trabalho nesses bons contratos. Acredito que a falta de oportunidades está ligada a uma questão de privilégios e sabemos que, no Brasil, privilegio é do povo branco. Recentemente, fui convidado pra lançar meu segundo disco, NORD, no Central Park em Nova York e não consegui ir, pois precisava de apoios nas passagens aéreas, procurei algumas pessoas e não deu certo. Sabemos que esses apoios financeiros são ou via edital público, ou por amizade, e com relação à amizade, ela é muito fechada em ciclos sociais, e todos sabemos historicamente que são ciclos de pessoas privilegiadas.”

    ÉRICO JOSÉ
    Ator e diretor teatral



    “Sendo o teatro um espelho da sociedade, ele reflete todas as questões e tensões que fazem parte do mundo à sua volta. O preconceito contra negros e negras é flagrante tanto na sociedade quanto no meio teatral. E facilmente identificável, a partir do momento em que a referência maior, em se tratando de história do teatro, literatura dramática e modelos de encenação e atuação é, fundamentalmente, eurocêntrica e/ou norte-americana, porém branca. Desde que ingressamos no teatro, somos forçados a cultuar um teatro pensado e feito por brancos, com seus cânones e suas estéticas. Se olharmos para o ensino do teatro, por exemplo, seja no âmbito acadêmico ou não, a referência ainda continua sendo a de uma Europa supostamente pura e branca. Esta mentalidade rapidamente impregna-se em qualquer pessoa que inicia, de forma sistemática, no universo teatral. As referências aos mitos gregos, aos momentos históricos italianos, ingleses, espanhóis e, sobretudo, franceses, são o que chamam de 'as bases do teatro', como se os povos africanos, por exemplo, não tivessem nenhuma influência sobre a teatralidade brasileira e, por conseguinte, como se as obras culturais brasileiras relacionadas à negritude não tivessem valor algum. Há uma ínfima quantidade de papéis negros na dramaturgia mundial e brasileira. E o pior: há uma anulação das práticas culturais e das questões socioculturais de cunho negro como problemática teatral. E isso desde a implementação do teatro no Brasil.”

    “Na mesma direção, a mídia televisiva e o cinema incorporam de forma assustadora e sem nenhum pudor uma imagem, em sua maioria, de um Brasil de padrão estético branco. Há, evidentemente, muitas discussões sobre essas questões, mas que conseguem minimamente dar visibilidade efetiva aos negros e às negras, sobretudo na televisão. Se compararmos quantitativamente, não há como negar que a imagem que se quer vender é de um país de feições brancas.”

    “Sofri e ainda sofro preconceito por ser negro. E as formas de preconceitos são inúmeras e, em dados momentos, camufladas e dissimuladas, mas não menos latentes. Desde as escolhas de papéis principais para uma produção à seleção da equipe principal do projeto, ou até o fato de que negros e negras precisam estar sempre provando que são capazes, ou melhor, que são virtuosos no que fazem, pois não adianta ser bom quando se é negro/a, é preciso ser excelente para conquistar algum espaço. E a luta é diária, não há trégua. Geralmente, o lugar reservado é o da cozinha e nunca o da grande sala.”

    “O que vejo é um mercado fechado para artistas negros e negras no Brasil como um todo, pois a tendência nacional é pensar um Brasil de cor clara, com questões que envolvem um imaginário branco. Quando se dá espaço aos artistas negros e/ou negras, sempre estamos vinculados aos estereótipos que ao fenótipo são atribuídos, como a sexualidade, as classes menos favorecidas, as questões de violência etc. Há uma dificuldade abissal de se pensar o negro e a negra fora destes parâmetros e o que acontece é um reforço de uma mentalidade que se perpetua e que contribui de forma danosa para uma mudança de pensamento de base sobre as questões sociais que envolvem esse segmento da sociedade.”

    WANDER SHIRUKAYA
    Professor e escritor



    “Espaços como o das artes não são para nós, isso por causa da condição quase geral de vulnerabilidade em que vivemos. Por causa disso, precisamos nos preocupar com demandas mais urgentes, que nos afastam de outras atividades que queiramos exercer. É verdade que temos tido bons avanços nas últimas décadas, mas a condição que prevalece ainda é a da vida à margem, seja das artes, do lazer e das demais relações sociais. Talvez por isso você encontre mais artistas negros envolvidos com a literatura marginal. Aqui na Mata Norte, por exemplo, vários escritores da região estão fazendo algumas ações nas escolas do estado mostrando poesia e publicações independentes. A maioria deles é negra e engajada em coletivos literários. Ou seja, a literatura marginal acaba se tornando uma importante forma de resistência.”

    “Não posso dizer que não há ações que busquem melhorias. Aqui em Itambé, há uns dois anos, um professor ganhou um prêmio nacional com um projeto para que seus alunos deixassem de ter vergonha de si mesmos, ou seja, temos profissionais cada vez mais sensibilizados e empenhados em minimizar esses efeitos do preconceito. Isso também vale para o estado. O grande problema é que ainda temos um investimento pequeno. As pessoas mais vulneráveis são sempre as primeiras a sofrer com crises e cortes de gastos por parte dos governantes em geral. Deveríamos priorizar ações que proporcionem mais oportunidades para os negros e demais minorias. Gradativamente, a criança que hoje se sente mal ao ver que o mundo não é para ela vai pensar diferente.” 

    “No meio literário, nunca sofri preconceito (ao menos não que eu tenha percebido), apenas alguns preconceitos velados em alguns estabelecimentos, lojas etc.”