• 'Redemoinho': passado, traumas e tensões

    Ponte é elemento-chave no filme "Redemoinho". Foto: DivulgaçãoPonte é elemento-chave no filme "Redemoinho". Foto: Divulgação

    Aquela véspera de Natal se encaminhava para ser igual às outras: reunião de família, comida à mesa, cerveja a gelar, operários na expectativa de largar para começar logo a festa. Era assim que sucederia a vida e a noite de Luzimar (Irandhir Santos) se um movimento do destino, um "redemoinho", não acontecesse de maneira abrupta e assaltasse seus planos do dia. Um redemoinho chamado Gildo (Júlio Andrade), um velho amigo de infância que retorna para a cidade de Catagueses, em Minas Gerais. Usando como mote esse reencontro, o diretor José Luiz Villamarim (Amores roubados; Justiça) e o roteirista George Moura se unem num cinema de falsas "calmarias", pois carregado de passado, traumas e uma tensão crescente entre o ambiente e “pessoas-narrativas” apresentadas. O longa estreia nesta quinta-feira (9/2) nas salas brasileiras.

    Se, no mar, um redemoinho é causado pelo encontro de águas frias e quentes, numa temperatura amena, impulsionado por ventos circulares, no filme, o redemoinho é uma metáfora causada por memórias, intrigas e um enredo que induz uma inquietação a quem assiste. Desde os primeiros momentos do reencontro dos velhos amigos, é notável uma tensão por parte de Luzimar, que – não uma única vez – é encoberta pela arrogância de Gildo, um homem saído da cidade, formado pela São Paulo caótica, gabando-se de ter um bom carro, dinheiro para “levar minhas filhas pra Disney” e uma vida mansa. É um encontro furtivo de passado e futuro, ao tempo em que o personagem de Irandhir se locomove de bicicleta pela cidade.

    É interessante notar que, em Redemoinho, os elementos se conectam, seja com os próprios diálogos de Luzimar e Gildo, seja com a repetição de cenas de uma ponte (seria o nome redemoinho somente uma escolha metafórica para os conflitos do passado, ou uma forma bem clara de dizer que tudo gira em torno deste local?), a primeira cena no longa. Na verdade, as imagens iniciais aparacem fragmentadas em diversas partes do filme, sendo apresentadas em momentos oportunos. Guarde esta ponte, pois é aqui que toda a retroatividade se explica.

    Quando Zunga, personagem de Demick Lopes, é apresentado, é natural se criar "pouco-caso". Bêbado, vestido de farrapos, poderia ser somente um personagem para aproximar a ficção da realidade, afinal existem bêbados em qualquer cidade. Mas não o é. Zunga está intrinsecamente ligado à ponte, tal como Luzimar e Gildo. Se numa cena o personagem, caracterizado como louco por Luzimar, atira uma garrafa de bebida nas águas do rio, em outra, sua mãe, Dona Bibica (Camila Amado), atira flores como num velório.

    AMBIENTAÇÃO
    A união entre Villamarim, George Moura e Walter Carvalho, diretor de fotografia, deram a Redemoinhoum set atraente, ao ponto de se não conseguir imaginar um outro local mais propíco para a história do que Catagueses. Conseguindo extrair da cidade sua vida, imprimindo-a para o cinema, a direção consegue um grande êxito ao explorar a vivência cotidiana, seja com a própria poesia por trás da ponte, seja com vislumbres das casas simples, o aspecto rural e pobre, com um trem de comércio temperando as cenas aqui e ali. É até mesmo agradável prestigiar os longos minutos dedicados inteiramente às paisagens, proporcionando uma realidade tão palpável que, de fato, parece que somos jogados para dentro da tela.

    Retroativo e de roteiro envolvente, quem assistir a Redemoinho pode soçobrar na vida de Luzimar, Gildo e Zunga por dias, como este que vos escreve. Sem delongas, é poesia transformada em sétima arte, valendo a pena conferir o primeiro longa-metragem dirigido por Villamarim. 

  • Pernambuco na competição da Berlinale

    Foto: Letícia SimõesFoto: Letícia Simões

     

    Pouco antes das 10h da manhã da terça (10/1), o cineasta Marcelo Gomes usou o Facebook para divulgar que Joaquim, seu mais recente filme, estava na seleção oficial de um dos mais importantes festivais cinematográficos do mundo: “Queridos amigos, é com prazer que divido com vocês a notícia abaixo. O nosso filme JOAQUIM está na competição oficial do festival de Berlim. Parabéns a toda essa talentosa e guerreira equipe!!!!!”.

     

    Coprodução luso-brasileira-espanhola com inspiração na história do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e ambientada no século XVIII, anos antes da Inconfidência Mineira, Joaquim tem o selo da REC Produtores, da Dezenove Som e Imagem e da Ukbar Filmes, e estará na competição da 67ª Berlinale - Festival Internacional de Cinema de Berlim. Terá, ao seu lado, os novos títulos de Volker Schlöndorff, Danny Boyle e Agnieskka Holland, entre outros. 

     

    Marcelo Gomes - Foto: Letícia SimõesMarcelo Gomes - Foto: Letícia Simões

     

    Não é de hoje que Gomes frequenta mostras estrangeiras com suas obras: em 2005, levou seu longa-metragem de estreia, Cinema, aspirinas e urubus, para a mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, e em 2009 esteve na Orizontti, do Festival de Veneza, com Viajo porque preciso, volto porque te amo, uma codireção com Karim Aïnouz. 

     

    Porém, é a primeira vez que o diretor pernambucano integra a competição oficial, como ratifica o produtor do longa, João Vieira Jr., da REC Produtores. “Uma das minhas maiores alegrias, como produtor, é perceber o reconhecimento à trajetória de Marcelo. É a consolidação da sua carreira como autor. Por outro lado, o festival é uma plataforma sensacional para os negócios, para as vendas internacionais, para desenvolvermos, a partir de Berlim, o trabalho de lançamento no Brasil com a nossa distribuidora Imovision. E, além disso tudo, uma plataforma para outros festivais. Estamos muito felizes com o reconhecimento a um trabalho sólido”, pontuou João à Continente.

     

    Alumia/DivulgaçãoAlumia/Divulgação

     

    O anúncio da presença de Joaquim na 67ª Berlinale - Festival Internacional de Cinema de Berlim foi feito um dia após a confirmação de que um outro filme pernambucano estaria na competição oficial – o curta-metragem Estás vendo coisas, dos artistas visuais Barbara Wagner e Benjamin de Burca. Exibido pela primeira vez na 32ª Bienal de São Paulo, e depois na IX Janela Internacional de Cinema do Recife, o filme embaralha as convenções entre artes visuais, audiovisual e videoarte ao acompanhar vários artistas do brega recifense. 

     

    “No final de 2012, início de 2013, começamos a ter vontade de trabalhar com essa geração que consome e produz brega, que gera uma economia paralela nesse Recife urbano. O filme, então, existe desde o início como produto de cinema mesmo; escrevemos o argumento para concorrer ao Funcultura Audiovisual e o projeto recebeu o apoio do fundo. Nossa ideia era mostrar essa dança, música, voz e economia que existe na cidade, mas sem espelhar qualquer espécie de procedimento padrão. Construímos a nossa narrativa a partir desses personagens. E acho que estamos nos dois lados, entre o audiovisual e as artes visuais: nem tanto cinema como se costuma conhecer, digamos assim, mas também não uma videoarte com aquela experimentação toda, e sempre uma aproximação do trabalho desses artistas”, comenta Barbara. 

     

    Dupla Wagner de Burca - Alumia/DivulgaçãoDupla Wagner de Burca - Alumia/Divulgação

     

    Em setembro, a repórter Marina Moura entrevistou a artista visual para o especial que a Continente Online fez sobre a Bienal. Leia o texto na íntegra AQUI

     

    E em outubro de 2015, a edição #178 da Continente publicou matéria da repórter Luciana Veras sobre o novíssimo cinema brasileiro, com entrevista com Marcelo Gomes, que havia acabado de rodar Joaquim. Veja AQUI.

  • "Martírio": a luta contra o extermínio indígena

    Premiado pelo júri popular do 49º Festival de Brasília, filme estreia no Brasil nesta quinta (13/4)

    Vincent Carelli foca na questão da etnia Guarani-Kaiowá como símbolo de luta. Fotos: DivulgaçãoVincent Carelli foca na questão da etnia Guarani-Kaiowá como símbolo de luta. Fotos: Divulgação


    Há cinema que fala sobre resistência, há cinema que usa da resistência para falar sobre si mesmo e há aquele cinema cujo corpo inteiro sua filmagem, montagem e exibição  é a resistência em si, um cinema que nasce com a tessitura do enfrentamento dentro e fora daquilo que ele enquadra. E este é o caso de Martírio, o novo filme do antropólogo, indigenista e documentarista Vincent Carelli, desta vez em colaboração direta com Ernesto de Carvalho e Tita, dois realizadores que dedicam suas vidas ao projeto fundado por Carelli em 1987, o Vídeo nas Aldeias. Juntas, essas e várias outras pessoas finalizaram esse que é o segundo filme de uma trilogia que, sem medo de ser leviana, vai se constituir no documento mais importante e completo já feito sobre a questão indígena no Brasil. Martírio, portanto, é um filme para sempre urgente, fundamental e medular no entendimento da nossa formação enquanto sociedade. Porque falar sobre como os índios são tratados no Brasil há mais de 500 anos é falar também sobre quem somos nós, os não-índios. E se ainda tivermos a cada vez mais rara capacidade de sentir empatia, a imagem que veremos de volta, no espelho involuntário em que tantas vezes se transforma a tela de cinema, o reflexo irá nos corroer.

     

    “Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.”

     

    Sobre esse reflexo e, portanto, sobre algo essencial a qualquer filme que é o momento em que ele é compartilhado publicamente, a sessão de sua estreia no Festival de Brasília precisa ser lembrada, ela mesma, como um acontecimento que pertence ao próprio documentário. O ano é 2016, nós, os não-índios, vivemos as primeiras semanas de um golpe político-jurídico-midiático no Brasil. Na cidade de Brasília, capital federal e lugar de onde saíram e saem as ordens de extermínio indígena, se chama para subir ao palco parte da equipe do filme. Como todas as sessões que precederam aquele momento, as pessoas em cena fazem sua manifestação pública contra o já citado golpe. O índio antropólogo Tonico Benites, figura essencial para realização desse documentário e tradutor de várias conversas, fala brevemente ao microfone. A projeção começa e já nos primeiros minutos surge a imagem da senadora Kátia Abreu como epítome de tudo aquilo que o país vem adotando como política desde que a coroa portuguesa fincou seus pálidos pés nas terras do “Novo Mundo”. O golpe, para os índios, acontece desde então. Todos os dias.

     

    “Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas.”


    Dando sequência ao projeto que começou no momento da exibição de Corumbiara, em 2009 (o filme se encontra disponível, na íntegra, no YouTube) e que se encerrará com o já anunciado Adeus, capitão, Martírio é resultado de um longo trabalho de pesquisa de Vincent Carelli desde que, há mais de 30 anos, ele passou a ver e viver de perto a realidade de tribos indígenas sendo dizimadas no Brasil. No segundo longa desse projeto grandioso, Carelli concentra suas atenções na questão específica da etnia Guarani-Kaiowá, aquela mesma que, em 2012, fez com que milhares de brasileiros se solidarizassem com sua causa após uma carta pública endereçada ao Governo brasileiro, carta esta reproduzida aqui entre os parágrafos deste texto. A exemplo do filme anterior, Martírio tem uma estrutura aparentemente simples de narração em off do próprio Carelli e a montagem entre filmagens recentes e cenas de arquivo, pessoal e público, que cruzam a narrativa. É aparentemente simples porque flui muito bem nas quase três horas de projeção. Mas, na verdade, o trabalho de organizar o vasto material que se tem em mãos, cujo escopo remonta a períodos mais distantes em nossa História, é de fato um processo que exigiu da equipe desse filme um exercício bastante intricado de compreender esses momentos históricos numa cronologia e edição que, em nenhuma parte, perde o contato com o caráter afetivo pessoal no qual nasce o filme. Sua verdade está nesse cuidado em ser sincero com quem o faz e para quem ele se dedica.

     

    “A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.”

     

    Os momentos históricos que atravessam esse documentário dão conta dos vários processos de negação e extermínio da comunidade indígena brasileira, que remontam, em um primeiro momento, à Guerra do Paraguai e à subsequente concessão de terras que a recém-criada República concedeu ao comerciante Thomaz Larangeira, por serviços prestados na mesma Guerra do Paraguai. Surgia ali a Companhia Matte-Laranjeira e, com ela, a expulsão de milhares de índios Guarani-Kaiowá que habitavam a região do Mato Grosso do Sul. As plantações de erva-mate daquele momento são os infindáveis hectares tomados pela soja hoje. De lá para cá, o filme relembra episódios de massacre da vida e, fundamentalmente, da cultura indígena no Brasil. Houve o marechal Rondon, militar de origem indígena que, absorvido pelo positivismo da época, tentou catequisar os índios em sua missão sertanista; houve o desenvolvimentismo de Getúlio Vargas e o não-reconhecimento de terras indígenas asseguradas pela Constituição; houve o Golpe Militar e a imagem grotesca de índios militarizados batendo continência para Ernesto Geisel (e Martírio nos dá a cena devastadora de índios sendo usados pelo governo para desfilar com um homem em pau-de-arara); houve o tal processo de redemocratização e medidas nunca suficientemente efetivas para reconstituir a identidade e sobrevivência desses povos; e houve, finalmente, o mais recente projeto desenvolvimentista do país e sua sanha por um Brasil industrial e agropecuário de tratores, pistoleiros, deputados e senadores, ministras e ministros, presidente e presidenta que se empenharam, cada um a seu modo, em varrer do mapa a existência dos Guarani-Kaiowá.

     

    “Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários dos nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.”

     

    Mas eles existem, e resistem. A terra, para essas pessoas, não é um espaço por onde se pode deslocar e construir memória onde e quando se quer. A terra, para essas pessoas, é a sua própria identidade. Retirados à força desses espaços que estão na constituição de sua própria existência, os índios sofrem uma fratura emocional que nós, não-índios, não conseguimos (ou não procuramos) entender. Muitas vezes empurrados pelo agronegócio para as beiras de estrada – e não é à toa que boa parte desse documentário acontece com a câmera dentro do carro, passando por caminhos cercados de indústrias, soja, pasto e concessionárias de carros –, a população indígena sobrevive em estado de vigília. Suas novas gerações já nascem sendo ensinadas e entender que podem morrer a qualquer momento.


    Os atropelamentos, as balas disparadas por capangas de fazendeiros e, não se pode esquecer, os frequentes casos de suicídio testemunham o gradual aniquilamento dessas pessoas. E aí a equipe do Vídeo nas Aldeias, que se dedica desde os anos 1980 a levar conhecimento e equipamento em audiovisual para que os índios criem seus próprios registros e narrativas, é ela mesma uma personagem fundamental nessa história, particularmente quando, em uma das imagens mais fortes do filme, vemos finalmente as cenas capturadas por um índio que, “armado” com uma câmera digital de pequeno porte, consegue filmar pistoleiros atirando em direção à tenda onde vive uma família indígena. O cinema-resistência é, fundamentalmente, deixar que os espaços de registros sejam ocupados por aqueles que sempre foram ditos pelo outro.

     

    “Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.”

     

    No acampamento de Pyelito KueNo acampamento de Pyelito Kue

     

    As imagens mostram homens e mulheres, todos brancos, numa reunião que eles chamam de “Leilão da Resistência”. A proposta é vender gado e, com o dinheiro arrecadado, se munir de um montante de dinheiro para combater as “invasões” dos índios em suas propriedades. Figuras políticas como a então ministra Kátia Abreu, o senador Waldemir Moka (PMDB-MS) e os deputados federais Luiz Henrique Mandeta (DEM-MS), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS) e Fábio Trad (PMDB-MS) estão presentes. Seus discursos são acalorados. Falam fundamentalmente da “Propriedade”, de como ela é a fundação da família brasileira, de sua natureza “sagrada”. São cenas de horror, filmadas pela câmera, essa sim resistente, de alguém que estava lá como um corpo estranho para registrar que esses discursos são reais e carregam consigo um montante de ódio suficiente fazer mover um trator por cima de uma criança. As mulheres e homens brancos arrecadam R$ 1 milhão para agir contra os índios. A imagem do trator e da criança não existe no filme, mas podemos vê-la.

     

    Posfácio: uma das sequências mais devastadoras de Martírio é um registro de arquivo (disponível na íntegra pelo YouTube), em que, no ano de 1987, o mesmo da criação do Vídeo nas Aldeias, vemos a liderança indígena Ailton Krenak, da etnia crenaque, fazendo um discurso na tribuna do Congresso Nacional, enquanto pinta seu rosto com a tinta preta do jenipapo. Reproduzo aqui, na íntegra, para efeito de registro textual, as palavras de Krenak naquele momento:

     

    “Eu espero não agredir com minha manifestação o protocolo desta casa, mas eu acredito que os senhores não poderão ficar omissos, os senhores não terão como ficar alheios à mais essa agressão movida pelo poder econômico, pela ganância e pela ignorância do que significa ser um povo indígena. O povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver, tem condições fundamentais para sua existência e para manifestação da sua tradição, da sua vida, da sua existência, de sua cultura, que não coloca em risco e nunca colocaram a existência sequer dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de outros seres humanos. Eu creio que nenhum dos senhores poderia apontar atos, atitudes da gente indígena do Brasil que colocou em risco seja a vida, seja o patrimônio, de qualquer pessoa, de qualquer grupo humano nesse país. E hoje nós somos o alvo de uma agressão que pretende atingir, na essência, a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar aqueles que não têm o dinheiro pra manter uma campanha incessante de difamação, que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas. Um povo que habita casas cobertas de palha e dorme em esteiras no chão não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Os senhores são testemunhas disso.”

     

    Na mesma cidade de Brasília, 29 anos depois, no meio de uma sessão lotada de cinema, Krenak finalmente recebe uma contundente salva de palmas.

    * Texto publicado em 23/09/2016, durante nossa cobertura do Festival de Brasília em 2016

  • A família em diferentes perspectivas

    Mohamed pelo olhar da irmã e diretora do filme. Foto: DivulgaçãoMohamed pelo olhar da irmã e diretora do filme. Foto: Divulgação

     

    Dois documentários bastante próximos tematicamente abriram a sessão da competitiva de curtas-metragens do II PirenopolisDoc na quinta-feira (4/8). Tanto Mohamed (Dayana Dalloul, 2015, DF), quanto Buscando Helena (Ana Amélia Macedo e Roberto Berliner, 2016, RJ) encontram na especificidade dos universos familiares a que se dedicam os motivos centrais para suas narrativas. Embora tematicamente semelhantes, os dois filmes tomam caminhos formais substancialmente distintos.

     

    Em Mohamed, a jovem diretora volta seu olhar para o irmão, portador de Síndrome de Down. Sem reservar sua voz apenas para esse papel de direção, à pergunta sobre como seria sua vida sem ele, Dayana responde prontamente: “Não seria nós”. O que expressa como entrevistada é o que já aparece como característica de seu olhar como realizadora: o registro íntimo não só do irmão, mas da história da família. É, contudo, o não distanciamento em relação a essa história a via para uma plástica e mise-en-scène próximas à publicidade e às reportagens de superação familiar tão exploradas na TV, aspectos que fazem o filme retornar a um lugar-comum.

     

    Buscando Helena faz jus ao gerúndio do seu título e, embora apresente cortes entre uma cena e outra, poderia ser entendido como um longo plano sequência dos pais que, no processo de adoção, não esperam a chegada da filha, mas, sim, vão ao encontro dela. Plano sequência que os têm como autores e protagonistas e confere à adoção um caráter de escolha, ativo, o que se torna relevante no quadro de uma questão ainda pouco debatida no Brasil, tabu para a maioria das famílias. Mas um problema semelhante ao de Mohamed aporta em Buscando Helena: o ponto de vista absolutamente identificado ao olhar dos pais faz tudo passar pela emoção destes e o que ali é pessoal não resulta singular para quem assiste.

     

    Abissal. Foto: DivulgaçãoAbissal. Foto: Divulgação

     

    Feminino forte
    Já no programa seguinte, ainda da competitiva de curtas-metragens, três filmes regidos sob o desejo de retratar figuras femininas de força; força que se revela de um jeito diferente, em campos diferentes, em cada personagem. Em Abissal (Arthur Leite, 2016, CE), o realizador busca religar os pontos de uma história familiar cheia de mistérios, cuja origem lacunar se encontra no sumiço do seu avô. É, então, por meio da história de sua avó que esses buracos e seus reflexos serão enfrentados pelo diretor, que ao longo da narrativa assume o trânsito entre os lugares de neto, filho e documentarista. Mas a narração de tom eminentemente pessoal parece pesar sobre o filme e querer explicar mais do que as imagens se mostram capazes de nos oferecer. A personagem da avó, certamente interessante, não ganha os contornos fortes a partir dos quais fora prenunciada pela narração de seu neto, a não ser de modo muito indireto. Ficamos diante de um filme que, se entendemos na chave da busca, está a meio caminho das descobertas que procura fazer.

     

    Retrato de Carmen D (Isabel Joffily, 2015, RJ) dedica-se a registrar um pouco da vida de uma psiquiatra carioca e de sua filha na casa onde moram. Trata-se de um filme sobre a casa dessas mulheres e as lembranças que tanto elas quanto a casa abrigam. Impossível não sentir alguma melancolia e relacioná-la a um processo de desgaste da vida da psiquiatra ao longo do tempo – a piscina cheia de musgos parece apontar essa leitura –, bem como não perceber as questões suscitadas pelo filme e suas personagens como integrantes de um universo muito restrito de problemas – arriscaríamos dizer que aristocráticos.

     

    Já O rosto da mulher endividada (Renato Sircilli e Rodrigo Batista, 2015, SP) revela-se extremamente engajado e inventivo. Dividido em dois momentos, um conjunto de histórias de mulheres em 1985 e uma espécie de arquétipo comum no qual resultam em 2015, a personagem Helena costura as diferentes personagens que vão surgindo. As dívidas que nós homens queremos fazer pesar sobre os ombros das mulheres não seriam, para dizer com o filme, somente financeiras, mas de toda ordem, e a elas as mulheres não só sobrevivem, como delas se valem para apontar nossa fragilidade. No seu ímpeto crítico, visível na retomada de arquivos da televisão, o filme conta 30 anos da história do país, alcança questões nacionais – a chegada ao poder da primeira presidenta mulher –, e transita com fluidez entre o particular e o geral, apresentando-se como um prenúncio incrível dos fatos políticos machistas que estavam por vir.

  • Abertas inscrições para oficinas do Cine Jardim

    Algumas oficinas serão voltadas a alunos da rede municipal de ensino. Foto: Juarez Ventura/Divulgação Algumas oficinas serão voltadas a alunos da rede municipal de ensino. Foto: Juarez Ventura/Divulgação
    Com o objetivo de promover o cinema no interior de Pernambuco, também aguçando os olhares para as produções audiovisuais, o Cine Jardim chega à sua terceira edição com o tema "Cinema social e de identidade". Será no município de Belo Jardim, entre os dias 22 e 27 de maio. Além da exibição de filmes, cujos títulos ainda serão divulgados, oficinas também farão parte da programação e já têm as inscrições abertas.

    Algumas oficinas do evento: Direção para documentário, ministrada pela documentarista recifense Dea Ferraz, de 23 a 26 de maio, das 9h ao meio-dia; e Novas formas de produção ou Como fazer um filme de baixo orçamento, encabeçada por Cavi Borges, produtor e empresário de cinema carioca, diretor de Cidade de Deus - 10 anos depois, nos dias 24 a 26 de maio, das 14h às 18h. Estas duas serão abertas ao público geral e realizadas no Centro de Treinamento Edson Mororó.

    Outras duas oficinas serão dedicadas aos alunos da rede municipal de ensino, tais como Mídia móveis, ministrada por Marlom Meirelles, no Centro Comunitário Municipal Castelinho; e Animando o boneco, conduzida por Quiá Rodrigues, na Escola Municipal Doutor Sebastião Cabral. 

    Serviço
    Inscrições para as oficinas do Cine Jardim
    Cine Teatro Cultura (R. João Monteiro Cândido Mergulhão, 66, Belo Jardim)
    Informações: (81) 3726-1132

  • Ailton Krenak, o porta-voz da urgência

    Ailton Krenak. Foto: DivulgaçãoAilton Krenak. Foto: Divulgação

    Em 1987, Ailton Krenak subia à tribuna do Congresso para dizer as seguintes palavras:

      

    "Eu espero não agredir, com a minha manifestação, o protocolo desta casa, mas eu acredito que os senhores não poderão ficar omissos, os senhores não terão como ficar alheios à mais essa agressão movida pelo poder econômico, pela ganância e pela ignorância do que significa ser um povo indígena. O povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver, tem condições fundamentais para sua existência e para manifestação da sua tradição, da sua vida, da sua existência, de sua cultura, que não coloca em risco e nunca colocaram a existência sequer dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de outros seres humanos".


    Vestido como manda o figurino parlamentar (terno, gravata), o líder indígena da etnia Krenak pintava o rosto com tinta preta, utilizada como símbolo guerreiro de seu povo, enquanto proferia seu discurso cortante. Eis uma das cenas marcantes da história brasileira, destaque também de Martírio, de Vincent Carelli, que estreou este ano como uma das obras imprescindíveis no assunto extermínio indígena no Brasil.

    Quase 30 anos depois do seu discurso, é ele o protagonista do documentário Ailton Krenak - O sonho da pedra, do diretor Marco Altberg, com exibição nesta terça (20/12), às 19h, na Caixa Cultural Recife, pelo projeto Teste de Audiência, cujo propósito é apresentar filmes brasileiros inéditos e em fase de finalização para um primeiro contato com o público, que responde ativamente à exibição, através de questionário e debate, sendo monitorado em suas reações e podendo interferir no próprio filme.


    Sumidade na questão da luta indígena no Brasil, Ailton é escritor, ambientalista e liderança política, tendo sido fundamental nas discussões da representatividade dos índios brasileiros na Constituição de 1988, cujas conquistas estão atualmente ameaçadas pelo atual governo. O documentário aborda diferentes momentos da vida deste que se tornou o porta-voz entre os brancos e seu povo, o porta-voz urgente da sobrevivência indígena neste país.

     

    Serviço:
    Teste de Audiência com o filme Ailton Krenak - O sonho da pedra
    Terça (20/12), às 19h, na Caixa Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
    Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia) - vendas a partir das 10h do dia da exibição
    Classificação indicativa: 16 anos
    Informações: (81) 3425-1915




     

  • Almodóvar e a dor como condição de vida

     Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

     

    Uma dor simbólica e fisiológica. É sobre todos os percursos da dor de que trata Pedro Almodóvar em seu mais recente longa-metragem, Julieta, que estreia nesta quinta (7/7) nas principais salas de cinema do país. A paisagem fria do Canadá e o tom contido da escritora Alice Munro, Prêmio Nobel de Literatura de 2013, foram adaptados a uma Espanha que oscila entre uma estética dos anos 1980 típica do cineasta (como em Mulheres à beira de um ataque de nervos) e a sobriedade. Os contos Destino, Logo e Silêncio, de Munro, serviram de mote para que Almodóvar construísse sua narrativa: recuperando-se da morte do marido, Xoan, a protagonista do filme (Emma Suárez/Adriana Ugarte) precisa lidar com o desaparecimento espontâneo da filha (Blanca Parés). Ao completar 18 anos, Antía despede-se da mãe para ir ao um retiro espiritual e resolve desaparecer quase que completamente – para Julieta, mais um outro tipo de morte.

     

    Em Antropologia da dor, o francês David Le Breton recorre a duas grandes divisões do sofrimento: as dores agudas e as crônicas. O primeiro tipo engloba o que poderíamos chamar de sofrimentos transitórios, cujo motivo é facilmente identificável, de alguma maneira passível de ser remediado e que não chega a comprometer o senso de identidade do indivíduo. A primeira dor sentida por Julieta no filme ocorre em uma viagem de trem, pouco antes de conhecer Xoan. Um desconhecido aproxima-se de seu vagão e insiste em conversar com ela. Julieta irrita-se com a insistência, há algo no olhar do homem que a assusta, e sai da cabine. Pouco depois, ele se suicida. Embora se abale por não ter percebido a situação de urgência e por se dar conta de que poderia ter alterado o destino dele se tivesse aceitado o convite ao diálogo, Julieta segue com sua vida, vai trabalhar como professora de filologia e, assim, pode-se dizer que seu senso de si mesma não é ameaçado pela dor que experimenta.

     

    Já as dores crônicas, observa Breton, representam um “entrave à existência”. Ainda segundo o autor, esse tipo de sofrimento está associado ao que é irremediável e, portanto, ameaça se instalar. Há algo mais irremediável que a morte? É a partir da morte do marido que Julieta inicia o percurso de uma dor que oscila entre a melancolia, a tristeza e a fúria, e culmina na “dor total”, à qual se refere Breton. O ápice da dor da personagem é representado pela ausência de Antía. Algumas cenas dão corpo à devastação de Julieta diante da falta da filha e da incerteza da sua volta, como o ritual de comprar um bolo de aniversário para Antía e jogá-lo no lixo. Qual é a função de um bolo comemorativo que não se divide com ninguém, ou que remete a uma pessoa que não está presente? “Não houve mensagem no Natal. Mas, em junho, no outro cartão, bem no estilo do primeiro, sem qualquer palavra escrita”, escreve Munro, em Silêncio, sobre o único meio de contato utilizado por Antía.

     

    Qual seria a moral da dor? A ideia ocidental entende que a dor existe para que se passe por uma provação divina ou se partilhe com Deus a dor. Nesse caso, o indivíduo é mais ou menos isentado de culpa. A perspectiva oriental, no entanto, associa a dor a uma justiça transcendente, relativa a vivências passadas. O ser que tem dor precisa passar por ela. Antía chega a dizer, em dado momento do filme, que cada um tem a dor que merece. De todo modo, as duas possibilidades de interpretação metafísica da dor não são de todo punitivas, pois a elas são atribuídos valores de purificação. O longa de Almodóvar não aponta nem propõe uma moral da dor. As personagens, sobretudo Julieta, experienciam o sofrimento como uma condição da vida, ou, como diz Breton, “como uma abertura para o mundo”.

     

    O filme nos diz, na verdade, que todos os problemas da origem são insolúveis, porque remete sempre a questões, percepções, angústias que passaram despercebidas e, no entanto, foram primordiais para o cenário de descompasso. Almodóvar faz uma espécie de elogio da dor às avessas: sem romantizá-la ou traçar o falso caminho de início-apíce-fim do sofrimento, em Julieta, a dor adquire força e atinge em cheio o espectador somente porque, para além da superação (a superação, aliás, existe?), o indivíduo que sofre encontra-se com a dor do outro.

     

    Assista ao trailler de Julieta:

     

     

  • Brasil S/A: ópera de ruína e progresso

    Foto: Ivo Lopes AraújoFoto: Ivo Lopes Araújo

     

    Brasil S/A, longa-metragem do pernambucano Marcelo Pedroso, estreia nesta quinta (11/7), em cerca de 20 capitais do país. A exibição especial às 20h, no Cinema São Luiz, no centro do Recife, será uma espécie de “cópia fiel” do filme, como apontaria o recém-falecido cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Porque a projeção se dará com a execução ao vivo da trilha sonora, pela Orquestra de Câmara de Pernambuco, sob regência de José Renato Accioly. Brasil S/A não é um filme qualquer; logo, não poderia ser uma sessão qualquer essa estreia na maior e mais antiga sala do Recife, um território que preserva a experiência de ir ao cinema apartada dos mecanismos padronizados dos complexos de exibição sediados nos shoppings.

     

    Exibido pela primeira vez no 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2014, Brasil S/A saiu de lá com diversos prêmios, entre eles melhor trilha sonora, roteiro e direção. Em janeiro de 2015, o filme foi exibido na mostra Forum da 65ª Berlinale. O hiato entre a participação nos festivais e o efetivo encontro com o público não incomoda o realizador. De fato, neste seu mais ousado projeto narrativo, Marcelo Pedroso alarga os horizontes estéticos do curta-metragem Em trânsito (2013) e, o que é mais contundente, amplia seu olhar sobre uma ideia do país em que vivemos – de uma certa forma, KFZ-1348, documentário codirigido com Gabriel Mascaro, em 2008, e Pacific, de 2009, já provocavam reflexões sobre mudanças paradigmáticas no Brasil contemporâneo.

     

    Agora, é o progresso que vem à tona. Que desenvolvimento é necessário para que o país cresça e um cortador de cana atinja o patamar de operador de escavadeira – ou de astronauta? Para que o país cresça e tratores sejam escoltados por policiais militares enquanto se deslocam por estradas? Para que o país cresça e os brasileiros possam acionar um “caminhão-cegonha” e assim, por fim, relaxar dentro do carro sem o ônus de dirigir ou enfrentar o trânsito? Ocorre que, para o Brasil florescer, algo precisa ruir. É desse colapso de que trata o filme. Sem diálogo algum, apenas munido da trilha sonora composta por Mateus Alves, Marcelo Pedroso cria um ópera vertiginosa nas quais colidem as noções de ordem, progresso, ruína e brasilidade.

     

    Brasil S/A, uma produção da Símio Filmes com distribuição da Inquieta Filmes, ocupará as salas do circuito tradicional e também, segundo o diretor, avançará por cineclubes, Pontos de Cultura, universidades, escolas e movimentos sociais. “Estamos fazendo um esforço para o filme ganhar mais capilaridade”, explicou Marcelo Pedroso. Foi sobre suas opções estéticas e discursivas, e os arquétipos que nortearam sua construção imagética, que o cineasta conversou com a Continente.

     

    CONTINENTE: Brasil S/A entra em cartaz agora quase dois anos após receber diversos prêmios no47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Muito aconteceu no país nesse tempo todo, inclusive reconfigurações extremas no contexto sociopolítico. Você acredita que o filme recebe outra camada de significado ao estrear em um Brasil atualmente gerido por um governo interino?
    MARCELO PEDROSO: Acredito que a primeira coisa disso tudo é um certo exercício do desapego. O filme se ressignifica nesses vários momentos e não sou eu, a equipe técnica ou a assessoria de imprensa que vamos determinar o sentido que o filme vai ter em cada uma das épocas. Brasil S/A trabalha com imagens arquetípicas que se materializaram de alguma forma; para mim, vieram de um inconsciente coletivo. Eu não conseguia, por exemplo, não conseguia escrever um roteiro de maneira linear. Havia coisas que me apareciam, como uma bandeira no cume de um prédio em um ato de conquista e outras imagens simbólicas que dialogavam com a experiência de Brasil – do colosso, do gigante que se quer grandioso, mas é visto sempre de forma depreciativa, de Terceiro Mundo, periférico, um grande país que é a eterna promessa onde nada dá certo e nada pode ser levado a sério. Há uma linhagem de fatos e condições que colocam o Brasil nesse lugar meio indefinido: é ou não é um país próspero? Ah, as pessoas são pobres, mas são felizes… Ah, as pessoas são pobres, mas existe o samba. Tem toda uma contradição de construções dicotômicas e o que me apareciam eram essas imagens do inconsciente, esses arquétipos que dialogavam com essas tensões.


    CONTINENTE: São as contradições que agora, em tempos deJogos Olímpicos, parecem cada vez mais evidentes.
    MARCELO PEDROSO: É o operário que vira astronauta, quando antes era um cortador de cana. No Brasil, a gente vive as duas coisas. O arquétipo que o filme propõe – que esse operário vai achar petróleo num planeta vermelho – é o outro que os portugueses buscavam quando vieram pra cá. Essa colonização eurocêntrica que buscava esse Eldorado. O Brasil é sempre uma promessa. Dilma disse que o pré-sal era o assentamento do futuro. Mas o futuro de Dilma colapsou. Então, acho que o filme nem ganha nem perde na atualidade, pois fala de um inconsciente coletivo. O Brasil viveu esse momento de muita prosperidade – a oitava economia do mundo, 40 milhões de pessoas saindo da pobreza – e agora o Brasil está uma merda. A imprensa mostra o avesso disso, aliás, com uma construção do imaginário que, em geral, pertence aos regimes fascistas.

     

    CONTINENTE: Alguma vez lhe disseram queBrasil S/A é uma ficção científica? Essa foi uma das sensações que me acometeu durante a sessão – não apenas nas sequências em que essa analogia é mais óbvia, como no balé das escavadeiras e no plano em que o petróleo jorra no planeta vermelho, mas quando o pescador vai catar caranguejo à noite, como se fosse alguém capturando criaturas alienígenas. Você encara seu filme, também, como uma ficção científica?
    MARCELO PEDROSO: Encaro, sim, e penso que a força da ficção é exatamente essa: falar de algo que parece extremamente irreal, extremante fantasioso, totalmente distante da realidade, quando no fundo estamos falando de algo que é muito próximo. Colocam simbolicamente seres imaginários, demônios e criaturas sobrenaturais no lugar de coisas que são materiais e próximas a nós, que estão ao nosso redor. O filme é ficção científica nesse sentido de “hiper-realizar”. Para falar de uma hiper-realidade, nos distanciamos da realidade, como nas danças da escavadeiras.

     

    Cena da dança das escavadeirasCena da dança das escavadeiras

     

    CONTINENTE: A sequência em que os negros encenam a corte do maracatu em um visual à Luis XIV também me parece hiper-real. Parecia que estavam em uma festa no Palácio de Versalhes…
    MARCELO PEDROSO: O curioso é que isso eu não inventei. Não é ficção. Os negros usam a indumentária europeia para dançar maracatu, por exemplo, como ato de resistência para preservar sua forma de existência. Para poder ser quem eram, tiveram que continuar usando outra roupa. A matriz do filme é narrativa do progresso; dentro dessa narrativa do progresso brasileiro, o negro foi usado como mão de obra, teve negada a sua espiritualidade, o seu desejo, tudo que é constituidor dele. A negra tem que fazer chapinha no cabelo em uma sociedade extremamente racista e por causa desse racismo, os negros no Brasil vivenciam vários conflitos. Quando, no filme, o negro passa o pó no rosto, simboliza a violência que o Estado brasileiro, assentado nesse ideário de progresso, sempre praticou e pratica contra sua população nativa – os índios – ou exógena, como os negros que para cá vieram como escravo. Todas essas práticas de violência provocam o massacre dessas populações.

     

    CONTINENTE: Brasil S/A tem uma sensação de inevitabilidade. Como se tudo aquilo na narrativa confluísse para um desfecho inevitável, do qual não se pode fugir.
    MARCELO PEDROSO: Essa é a falácia do progresso, a força motriz dele – a ideia de que é possível alcançar o paraíso na Terra. Antes, a ideia de paraíso era transcendente: “olhe, vocês não vão alcançar o paraíso aqui, depois de sofrer bem muito e morrer, vão chegar a um lugar massa”. O progresso diz agora: “Aqui, vamos todos encontrar condições de bem-estar igualmente divididas com todo mundo. Pedimos, em troca, que as pessoas trabalhem. E mereçam”. O progresso serve como motivador para que as pessoas alcancem esse lugar, de forma aprisionada, não livre. Elas estão trabalhando e, num plano material, beneficiando outras pessoas, construindo uma pequena casta de privilegiados que vão chegar ao plano material do paraíso. Era isso o que os portugueses achavam que encontrariam aqui. Havia o mito de uma ilha chamada Hy Brasil que povoava o imaginário dos visitantes como uma ilha de abundância, onde havia comida e bebida, e as pessoas não precisavam trabalhar. Essa é uma das origens para explicar a palavra “Brasil”, um Brasil que viria da brasa, pois essa ilha pegava fogo durante o dia. O progresso é esse desejo de chegar a um lugar paradisíaco, é o que nos move a chegar a esse lugar. E o filme abraça a narrativa do progresso.

     

    CONTINENTE: O progresso surge como espelho do capitalismo, reflexo de um sistema que impele todo mundo a um consumo infinito. É como se você fosse obrigado a consumir produtos que logo ficarão obsoletos, mas dos quais não pode prescindir.
    MARCELO PEDROSO: Pois é, e todo mundo acredita nessa promessa de prosperidade e felicidade, a partir do trabalho e do esforço, e se esforça para buscar esse bem-estar, que está sempre mudando. Nos anos 1990, uma linha de telefone fixo custava R$ 2 mil. Hoje, um iPhone custa R$ 2 mil. O que se criam são novos desejos. O filme trabalha com os arquétipos e tenta desconstruir, em situações improváveis, a força oculta que nos atravessa como imagens. Toda a matriz imagética, aliás, vem da publicidade.

     

    CONTINENTE: Por quê? Há, inclusive, um trecho de piquenique de famílias que mais parece uma propaganda de construtora.
    MARCELO PEDROSO: O filme tem uma estrutura imagética que dialoga com o discurso oficial, com a propaganda da Petrobras, com a publicidade da Moura Dubeux. É a publicidade que vai alimentar essa ânsia pelo consumo, que vende o produto que fica obsoleto, mas que diz também que a única forma de ser feliz é adquiri-lo. É como se a composição da imagem fagocitasse a matriz publicitária. Como, no progresso, tudo se é ou precisa ser outra coisa, a máquina do progresso de desejo se alimenta de uma plataforma simbólica. Todos precisam acreditar que aquilo é felicidade. Essas imagens ocultam a própria violência simbólica. Me lembro de como me sentia ao ver o Xou da Xuxa, quando a apresentadora tomava um café da manhã num país de crianças miseráveis. Que contradições são essas em que as pessoas podem se deleitar com aquilo? Essa violência, propagada pelas imagens publicitárias, é, em si, uma violência com nossos corpos.

     

    CONTINENTE: E como foi o processo para construir a imagem que fosse um discurso por si só e que misturasse a linguagem publicitária para criar essa narrativa que embaralha as definições de gêneros? O filme mescla as definições de gênero, pois tem ficção e pode ser visto como uma ópera ou mesmo um registro documental em vários aspectos. Queria que você falasse sobre o trabalho de construção da imagem e também da música.
    MARCELO PEDROSO: Filmamos em 2013, tudo feito em três semanas e meia de filmagens, o que exigiu um esforço enorme de produção. Foi muito difícil, mesmo, deixar tudo impecável. Se você pegar o storyboard, vai perceber que o filme é praticamente igual aos desenhos toscos que fiz em uma primeira versão. Depois, mostrei a Ivo Lopes Araújo, o diretor de fotografia, e o trabalho dele foi fundamental para fazer as imagens que estão ali. Foi uma produção em que todas as pessoas tinham que se virar, acumulando funções. Com relação à música, todas as composições foram originais. Tivemos 45 dias para compor 38 minutos para orquestra. Nesse sentido, Mateus Alves foi um monstro. Fazer partitura para 20 instrumentos a partir de um material sob encomenda, em um mês e meio, foi apoteótico. Eu ia montando com Daniel Bandeira e Mateus nos mandava trechos de Tchaikovsky e, se funcionava, a gente dizia “é nessa linha, pode ir por aí”. E era essa a ideia que justamente queríamos para a música – uma apoteose.

     

    Diretor Marcelo Pedroso. Foto: Ivo Lopes OliveiraDiretor Marcelo Pedroso. Foto: Ivo Lopes Oliveira

     

     

  • Confira os premiados do 9º Festival de Cinema de Triunfo

     Premiados do Festival de Cinema de Triunfo. Foto: Verner BrenanPremiados do Festival de Cinema de Triunfo. Foto: Verner Brenan

     

    Durante seis dias, a cidade de Triunfo, no Agreste pernambucano, respirou cinema. Encerrada no último sábado (12/8), a 9ª edição do Festival de Cinema de Triunfo celebrou a recente produção local e nacional com sessões de longas e curtas, além de atividades formativas, mostras voltadas para o público infantil e debates com os realizadores participantes, contemplando mais de 3 mil pessoas, segundo a organização do festival.

     

    Nesta edição, o evento homenageou o ator pernambucano Germano Haiut, por seus mais de 50 anos dedicados à atuação, e a atriz Maeve Jinkings, pela grande contribuição à filmografia pernambucana. Durante a cerimônia de premiação, no último sábado, Maeve destacou o significado simbólico, político e afetivo da homenagem: “Eu sou apaixonada por Pernambuco, pela sua erudição, sua inquietação, sua vocação para o vanguardismo. Quando vejo os filmes sobre os sertões, suas identidades, é importante para mim também que venho de um lugar muito diferente. Tenho gratidão profunda por este estado, pelo que me proporcionou, do que somos e como devemos olhar para essa diversidade”.

     

    Na categoriaLonga-Metragem Nacional, o filmePara minha amada morta foi o grande vencedor da noite, recebendo cinco honrarias: Melhor Produção, Melhor Roteiro (Aly Muritiba), Melhor Montagem (João Menna Barreto), Melhor Direção (Aly Muritiba) e Melhor Filme.Entre os curtas, as principais premiações ficaram com os filmes Cumieira (Melhor Roteiro). Blackout (Melhor Direção) e Dalivincasso (Melhor Produção).

     

    Confira a lista completa dos premiados:

     

    Troféu Cineclubista de Melhor Filme para Reflexão:

    - Exília, de Renata Claus

    Menções Honrosas:

    - Aroeira, de Ramon Batista

    - Cumieira, de Diego Benevides

    - Quem matou Eloá, de Lívia Perez

     

    Prêmio ABD-PE/APECI:

    - Blackout, de Felipe Peres

     

    Premiação do Júri Popular:

    - Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva dos Sertões:

    Joaquim Bralhador, de Márcio Câmara

    - Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva Pernambucana:

    Um brinde, de João Vigo

    - Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva Infanto Juvenil:

    Ana e a borboleta, de Isabela Veiga

    - Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva Nacional:

    Em defesa da família, de Daniela Cronemberger

    - Melhor Longa Metragem da Mostra Competitiva Nacional:

    Danado de bom, de Deby Brennand

     

    Premiação do Juri Oficial do Festival

    Categoria Curta-Metragem:

    - Melhor atriz:

    Ceronha Pontes, pelo filme Elogio do tremor

    - Melhor ator:

    Tavinho Teixeira, pelo filme Ainda me sobra eu

    - Melhor Som:

    Danilo Carvalho, pelo filme A clave dos pregões

    - Melhor Trilha Sonora:

    Cosmo Grão e Samuel Nóbrega, pelo filme Catimbau

    - Melhor Direção de Arte:

    Gustavo Guedes, pelo filme Cuscuz peitinho

    - Melhor produção:

    Equipe do filme Dalivincasso

    - Melhor Montagem:

    Filme Em defesa da família

    - Melhor Fotografia:

    Adalberto Oliveira, pelo filme Tarja preta

    - Melhor Roteiro:

    Diego Benevides, pelo filme Cumieira

    - Melhor Direção:

    Felipe Peres, Adalmir da Silva, Francisco Mendes, Jocicleide Oliveira, Sérgio Santos, Paulo Sano pelo filme Blackout

    - Melhor Filme da Categoria Curta-Metragem dos Sertões:

    Praça de guerra, de Ed. Junior

    - Melhor Filme Infanto Juvenil:

    Ilha das crianças, de Zeca Ferreira

    - Melhor Filme Pernambucano:

    Exília, de Renata Claus

    - Melhor Filme da Categoria Curta-Metragem Nacional:

    Quem matou Eloá?, de Lívia Perez

     

    Categoria Longa-Metragem Nacional

    - Melhor Personagem de Longa-Metragem:

    Valdeci Santana, pelo filme Umbigo

    - Melhor ator:

    Fernando Alves Pinto, pelo filme Minha amada morta

    - Melhor Atriz:

    Sabrina Greve, pelo filme Todas as cores da noite

    - Melhor Som:

    Danilo Carvalho e Érico Paiva, pelo filme Clarisse ou Alguma coisa sobre nós dois

    - Melhor Trilha Sonora:

    Filme Danado de bom

    - Melhor Direção de Arte:

    Sérgio Silveira, filme Clarisse ou Alguma coisa sobre nós dois

    - Melhor Produção:

    Equipe do filme para Para minha amada morta

    - Melhor Roteiro:

    Aly Muritiba pelo filme Para minha amada morta

    - Melhor Montagem:
    João Menna Barreto, pelo filmePara minha amada morta

    - Melhor Fotografia:
    Petrus Cariry, pelo filmeClarisse ou Alguma coisa sobre nós dois

    - Melhor Direção:
    Aly Muritiba, pelo filmePara minha amada morta

    - Melhor filme da categoria Longa-metragem:
    Para minha amada morta, de Aly Muritiba

  • Da terra ao território, um rifle

    "Rifle" traz Dione como protagonista de resistência em meio à paisagem. Foto: Divulgação"Rifle" traz Dione como protagonista de resistência em meio à paisagem. Foto: Divulgação

     

    Nos créditos finais, não passam despercebidos os agradecimentos do diretor: Abbas Kiarostami e John Ford se destacam entre os citados. O primeiro transformou comunidades de sentimento em espaço, enquanto o segundo fez do espaço um de seus personagens. São referências, portanto, fundamentais para um filme que faz das paisagens seu principal argumento de locomoção dramática. Planos abertos sobre cenários quase desérticos como uma tentativa de falar sobre territorialização e desterritorialização do ser humano diante do mundo que o cerca. É precisamente no movimento em que a ideia de terra (pertencimento, memória, afeto) vai gradualmente se reduzindo a território (vigilância, propriedade, demarcação) que se localiza Rifle (85 min. 2016, RS), o novo filme de Davi Pretto e o primeiro longa-metragem exibido na mostra competitiva do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é carregado de imagens-potência, tão fortes quanto contundentes. Todas elas funcionam muito bem isoladas em si mesmas e, não à toa, se espelham na cinematografia de Kiarostami e Ford (há sequências que soam mesmo como um tributo a ambos os diretores). Mas esses mesmos planos, uma vez juntos para criar esse percusso terra-território e todo o conflito embutido nele, terminam perdendo energia ao longo da história. Fica a impressão de que as várias possibilidades abertas pela mise-en-scène do filme terminam se esvaindo na própria natureza difusa do personagem central.

     

    Absolutamente sincronizado com o zeitgeist brasileiro desses anos pós curto período desenvolvimentista, quando o tema da "ocupação e resistência" nos espaços parece atravessar boa parte da cinematografia nacional, o filme traz como protagonista um jovem rapaz chamado Dione que, já em sua primeira cena, é visto apagando os rastros de uma lembrança afetiva no tronco de uma árvore. Saberemos mais adiante que essa cena condensa toda a construção do personagem: ao mesmo tempo em que ele atualiza sua identidade a partir do espaço que ocupa, há uma tentativa constante desse homem em extinguir rastros, obscurecer seu próprio passado. Sabemos apenas que ele mora nessa fazenda trabalhando para uma família de pequenos proprietários de terra, e que ali chegou para ajudar nas tarefas com o gado. Não se sabe de onde ele vem, por que está ali e se tem alguma mãe ou pai a quem se possa relacioná-lo. Em determinado momento, a partir de um comentário vago de um desconhecido e depois de um registro fotográfico, sabemos que esse jovem já serviu ao Exército. Mas essa informação nem mesmo a família que o acolhe sabe. Portanto, tudo nele escapa enquanto ele mesmo tenta escapar de algo (seu passado? sua natureza violenta?) que nos foge.

     

    O que há de concreto na narrativa é que, em defesa desse espaço que é sua única forma de identificação no mundo, Dione usará do poder que está sob seu alcance: um rifle. Com essa arma, ele tentará criar um campo de defesa contra os invasores montados em suas picapes, contra todos os carros que vêm da cidade, contra o sentimento de derrota que acomete os pequenos proprietários quando os latifundiários da soja colocam os olhos sobre seus terrenos. Dione é a personificação pampa do mito do cavaleiro solitário, o pistoleiro com coração e conflitos internos que vaga pelas paisagens como uma forma de se apropriar delas – e nesse sentido, é possível criar um paralelo entre ele e o memorável Shane, de Os brutos também amam, do diretor George Stevens. Ambos vêm de um lugar que não se conhece e tentam, de alguma maneira, proteger uma família da tomada de suas terras por grupos financeiramente poderosos. Mas há uma diferença fundamental entre Dione e Shane: enquanto este último carrega sobre os ombros o peso de ser um herói, o protagonista do filme de Davi Pretto em nada se aproxima dos contornos morais da figura heróica.

     

    Quando Dione dispara sua arma, seu alvo é tudo aquilo que lhe parece não pertencer àquele espaço. Suas vítimas, sempre vistas à distância e em nenhum momento humanizadas, são completamente aleatórias. O sentimento de justiça contido em tantos faroestes norte-americanos deixa de fazer sentido em um filme que quer falar, justamente, da não possibilidade de justiça e o que acontece a partir disso. O uso acertado de atores iniciantes que, de certa forma, fazem um pouco o papel de si mesmos (os personagens têm os mesmos nomes que as pessoas que os interpretam, vivem nas cercanias onde a história foi filmada e sofrem as mesmas pressões de desapropriação de terra) e os diálogos truncados, muitas vezes imcompreensíveis dadas as particularidades idiomáticas da região e a uma fala para dentro, reafirma esse lugar de fronteiras difusas, perdidas da amplidão da profundidade de campo, que o filme propõe.

     

    A proposta estética que fabula em cima do documental é rica, os enquadramentos e a iluminação seguem a tradição do cuidado com a imagem da Casa de Cinema de Porto Alegre, mas a construção do longa termina sendo a potência de algo que acaba por não acontecer, por dois motivos: a empatia pela jornada desse personagem central não se realiza (tal como ela se dá de uma maneira muito poética e rápida com o protagonista do longa anterior de Pretto, Castanha) e o roteiro, em vários momentos, cria curvas inesperadas que poderiam levar o filme para o campo do surreal e do insólito, e isso acaba por dispersar nossa atenção (e a tensão que se pretende criar). Rifle tem o estouro da largada e traz consigo genuínas imagens de cinema, mas corre o risco de ver essas mesmas imagens serem gradualmente apagadas do tronco da nossa memória.

  • Doc Comparato promove oficina de roteiro

    Doc Comparato apresenta a estrutura do bom roteiro em seminário no Recife - Foto: DivulgaçãoDoc Comparato apresenta a estrutura do bom roteiro em seminário no Recife - Foto: Divulgação

     

    Pela primeira no Recife, o renomado dramaturgo e roteirista carioca Luiz Felipe Loureiro Comparato, mais conhecido como Doc Comparato, apresenta o seminário Dacriação doroteiro. As aulas acontecem a partir do dia 5 de setembro, em Boa Viagem, e abordam o conceito, a construção, a estrutura e a elaboração do roteiro cinematográfico e televisivo.

     

    Dividido em cinco encontros, o seminário abordará as etapas "clássicas" que guiam um roteiro: a ideia, o conflito, os personagens, a ação, tempo e unidade dramáticos. A perspectiva é fazer com que os alunos descubram que o roteirista tem que vencer uma série de obstáculos como: 'Qual é a minha ideia?', 'Que conflito vou explorar?', 'Quem vai viver essa história?', 'Quando?', 'Onde?', 'Como vou construir essa história?', 'Por que estou contando isso?', 'Aonde vou chegar?'”, detalha.

     

    O roteiro é a crisálida, enquanto o filme é a borboleta. É possível fazer de um bom roteiro um filme ruim, mas é impossível fazer um bom filme com um roteiro ruim”, defende Comparato.

     

    Com mais de 30 anos dedicados ao audiovisual, o roteirista já publicou livros como os didáticos Roteiro e Da criação ao roteiro, além de participar do surgimento das minisséries na televisão brasileira em Lampião e Maria Bonita (1982) e O tempo e o vento (1985), esta última baseada na obra homônima de Érico Veríssimo.

     

    Caminhante nas artes literárias e cinematográficas, Comparato acredita que a literatura é o princípio de tudo. Para ele, o que define um bom roteirista é a capacidade de contar uma história com clareza, técnica, emoção e, principalmente, exercitando a capacidade de pensar em imagens.

     

    Por outro lado, pensa que nem sempre um bom roteirista saberá escrever um bom livro ou um autor de teatro não será, necessariamente, um bom roteirista. “No roteiro e no teatro, a palavra é explícita. Na literatura, o uso da palavra é implícito. Cada um tem sua técnica, sua linguagem, seu jeito de atingir o público”, pontua.

     

    Doc Comparato conta ainda que o cinema pernambucano tem se destacado no país por apresentar os melhores e mais originais filmes, citando as premiações de Boi Neon, Sangue azul e O som ao redor na categoria de Melhor Filme das três últimas edições do Festival do Rio. Acho que o cinema pernambucano está vivendo um grande momento, mas precisa de mais investimento. Acho importante para o Brasil que exista um núcleo de produção cinematográfica fora do eixo Rio-São Paulo. Isso está oxigenando a produção nacional, e principalmente o reconhecimento da profissão de roteirista”, finaliza.

     

    Serviço:
    Seminário Da criação ao roteiro com Doc Comparato
    Quando: 5 a 9 de setembro, das 9h às 12h
    Onde: Recife Office Rooms, Rua João Eugênio de Lima, 143, Boa Viagem, Recife/PE
    Investimento: R$ 480 ou R$ 580 (parcelado em até 18x via PagSeguro)
    Informações e inscrições: (81) 3203-8566

  • Festival confirma sua vocação para a produção documental

    Banco imobiliário levou prêmios do júri popular e oficialBanco imobiliário levou prêmios do júri popular e oficial

     

    Além de premiar o curta pernambucano Dia de pagamento, de Fabiana Moraes, o II PirenópolisDoc Festival de Documentário Brasileiro encerrou no domingo (7/8) com a última parte da mostra retrospectiva do importante documentarista carioca Joel Pizzini e a premiação dos júris popular e oficial. João Pé de Chumbo(Julia Pascali, 2015, GO)venceu a competitiva regional, Orquestra Invisível Let's dance(Alice Riff, 2015, SP)recebeu menção honrosa do júri oficial e Bancoimobiliário(Miguel Antunes Ramos, 2015, SP)levou os prêmios do júri popular e oficial nas categorias de médias e longas-metragens.

     

    A premiação anunciada pelo júri oficial, composto por Alice Fátima, Ilana Feldman e Tânia Montoro, foi seguida pela reexibição dos filmes premiados. Bancoimobiliárioconfirmou a força narrativa de sua etnografia urbana sobre o universo de trabalho dos corretores em São Paulo, justificando os prêmios recebidos. João Pé de Chumbofez valer seu olhar e enraizamento na história de Pirenópolis, enquanto Orquestra invisível Let's dancepode mostrar, nesse segundo momento, outros traços interessantes advindos do trabalho histórico e musical realizado. Dia de pagamento,filme engajado que dialogou de forma intensa com o público presente, recebeu destaque por sua relevante capacidade de investigação e singular proposta narrativa e de mise-en-scène.

     

    Com programas bem-compostos, atenção para questões políticas prementes, como a discussão sobre gênero (atrás e na frente das câmeras), e para o diversificado uso dos arquivos históricos no cinema recente, o II PirenópolisDoc chegou ao fim estabelecendo-se como um importante fórum de exibição e debate sobre o que há de mais interessante no documentário brasileiro atual. O excelente público presente no festival e, sobretudo, o respeito aos filmes no admirável cuidado com as projeções, todas realizadas em DCP, sobressaíram-se num contexto em que, no mesmo estado de Goiás, um festival como o FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, de porte, visibilidade e orçamento muito superiores, realiza exibições em formato de menor qualidade.

  • Festival de Brasília premia mulheres e cinema pernambucano

    Premiação do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foto: Junior Aragão/DivulgaçãoPremiação do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foto: Junior Aragão/Divulgação

     

    Numa das edições mais políticas dos últimos anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizado em um momento de quebra de processo democrático no país, a premiação do evento não deixou também de deixar seus enunciados. Premiado pelo júri popular, e aplaudido de pé na ocasião do anúncio desse prêmio, Martírio, o segundo filme da trilogia documental que Vincent Carelli está fazendo sobre a questão indígena no Brasil, deixou claro que sua essência marginal estaria, também, à margem da premiação maior do evento. Esta foi destinada à produção mineira A cidade onde envelheço, de Marília Rocha, um filme que valoriza a narrativa do afeto. Mesmo que esta ficção não tenha qualquer subtexto político, há de se pontuar que Marília é apenas a sétima diretora a levar o Candango mais disputado em 49 edições do festival. E que isso acontece no mesmo ano em que o curta-metragem de Ana Carolina Soares, Estado itinerante, um filme sobre a violência contra a mulher, ganhou corações e mentes no festival (e levou três prêmios importantes, entre eles o de Melhor Atriz e Melhor Filme pela crítica), e também na mesma edição em que, na Mostra Especial, o festival trouxe dois documentários que lidam diretamente com as pautas feministas: Câmara de espelhos, de Dea Ferraz, e Precisamos falar sobre assédio, de Paula Sacchetta.

    Destaque ainda para mais uma leva de prêmios destinada ao cinema pernambucano, numa noite que foi também dedicada a celebrar os 20 anos do filme O baile perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Entre as premiações que vieram para o estado, além daquelas destinadas a Martírio, destaque para o curta O delírio é a redenção dos aflitos, de Fellipe Fernandes, que levou os importantes prêmios de Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte, este para Thales Junqueira. Renata Pinheiro ganhou também o prêmio de Melhor Direção de Arte em longa pelo filme Deserto, de Guilherme Weber.

    Leia nossa cobertura AQUI.

     
    Confira a lista completa de premiados:

    Melhor Filme de Longa-metragem – R$ 100 mil
    A cidade onde envelheço, de Marília Rocha

    Melhor Direção – R$ 20 mil
    Marília Rocha, por A cidade onde envelheço

    Melhor Ator - R$ 10 mil
    Rômulo Braga, por Elon não acredita na morte

    Melhor Atriz – R$ 10 mil
    Elisabete Francisca e Francisca Manuel, por A cidade onde envelheço

    Melhor Ator Coadjuvante - R$ 5 mil
    Wederson Neguinho, por A cidade onde envelheço

    Melhor Atriz Coadjuvante - R$ 5 mil
    Samya de Lavor, por O último trago

    Melhor Roteiro - R$ 10 mil
    Davi Pretto e Richard Tavares, por Rifle

    Melhor Fotografia - R$ 10 mil
    Ivo Lopes, por O último trago

    Melhor Direção de Arte - R$ 10 mil
    Renata Pinheiro, por Deserto

    Melhor Trilha Sonora - R$ 10 mil
    Pedro Cintra, por Vinte anos

    Melhor Som - R$ 10 mil
    Marcos Lopes e Tiago Bello, por Rifle

    Melhor Montagem - R$ 10 mil
    Clarissa Campolina, por O último trago

    Prêmio Especial do Júri Oficial:
    Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita


    FILME DE CURTA OU MÉDIA-METRAGEM

     
    Melhor Filme de Curta ou Média metragem - R$ 30.000,00
    Quando os dias eram eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos

    Melhor Direção - R$ 10.000,00
    Fellipe Fernandes, por O delírio é a redenção dos aflitos

    Melhor Ator - R$ 5.000,00
    Renato Novais Oliveira, por Constelações

    Melhor Atriz - R$ 5.000,00
    Lira Ribas, por Estado itinerante

    Melhor Roteiro - R$ 5.000,00
    Fellipe Fernandes, por O delírio é a redenção dos aflitos

    Melhor Fotografia - R$ 5.000,00
    Ivo Lopes Araújo, por Solon

    Melhor Direção de Arte - R$ 5.000,00
    Thales Junqueira, por O delírio é a redenção dos aflitos

    Melhor Trilha Sonora - R$ 5.000,00
    Dudu Tsuda, por Quando os dias eram eternos

    Melhor Som - R$ 5.000,00
    Bernardo Uzeda, por Confidente

    Melhor Montagem - R$ 5.000,00
    Allan Ribeiro e Thiago Ricarte, por Demônia – Melodrama em 3 atos

    Premio Especial do Júri
    Estado itinerante, de Ana Carolina Soares


    PRÊMIO DO JÚRI POPULAR 
    Filmes escolhidos pelo público, por meio de votação em cédula própria:

    Melhor Filme de Longa-metragem - R$ 40 mil
    Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita

    Melhor Filme de Curta ou Média-metragem - R$ 10 mil
    Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago Mendonça


    PRÊMIO ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema)  

    Melhor Filme de longa-metragem 
    Pela hábil conexão entre a gramática do documentário e da ficção. Pelo retrato que conjuga a perspectiva de um personagem com as transformações de um Brasil rural. Pela apropriação original da estética do western e o uso potente do som. 
    Filme: Rifle, de Davi Pretto

    Melhor Filme de Curta-metragem
    Pela sensibilidade na forma com que filma os espaços urbanos. Pela qualidade do trabalho das atrizes, com experiência profissional ou não. Pela forma com que retrata uma violência física e simbólica, valorizando o que está fora de quadro. 
    Filme: Estado itinerante, de Ana Carolina Soares.

  • Festival universitário tem inscrições até 31/8

    Festival acontece em dezembro no Cinema São LuizFestival acontece em dezembro no Cinema São Luiz

     

    O 3º MOV  Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco, que será realizado entre os dias 6 e 10 de dezembro no Cinema São Luiz, recebe inscrições para curta-metragens até esta quarta (31/8). Com o intuito de dar visibilidade às produções cinematográficas de universitários de várias partes do mundo, em 2014, os então estudantes Vinicius Gouveia, Txai Ferraz, Thais Vidal e Amanda Beça idealizaram o festival, que já está em sua terceira edição e se fortalece a cada ano como um espaço de diálogo e construção para o audiovisual junto aos idealizadores e ao público. Este ano, o evento conta com mostras competitivas nacionais e internacionais, além de exibições especiais, sessão com trilha sonora ao vivo, oficinas temáticas, mesas de debate e exibições itinerantes. 

     

    Serão aceitos filmes de qualquer gênero com até 25 minutos, em formato digital. As obras precisam ter sido finalizadas a partir de janeiro de 2014 e ter pelo menos um outro membro da equipe inscrito no ensino superior (em qualquer graduação), atualmente ou na época da realização do curta. As inscrições podem ser feitas através de formulário eletrônico, disponível no site www.movfestival.com. O resultado será divulgado no dia 30 de outubro. Pela primeira vez, o MOV lança uma convocatória para a publicação de artigos de estudantes acadêmicos e recém-formados com a temática Cinemas e universidades. As submissões de propostas podem ser enviadas para o e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. até o dia 10 de outubro. Os trabalhos aprovados serão reunidos em um livro digital de editoração independente e suscitarão uma mesa de debate durante o festival.

     

    PREMIAÇÃO
    O júri, formado por membros indicados pela Comissão de Organização do festival, analisará os filmes exibidos segundo os critérios de originalidade, desempenho e qualificações técnicas. As categorias das premiações são Melhor Filme, Melhor Criação de Atmosfera, Prêmio Novo Olhar e Prêmio Jogo de Cena e Prêmio Destaque Pernambucano. Além dos troféus, este ano os vencedores de cada uma das cinco categorias da competição brasileira receberão como prêmio o serviço de finalização no sistema DCP (padrão de exibição mundial para filmes digitais) de um filme à escolha das equipes.

     

  • Jorge Furtado e seu cinema urgente na Caixa

    Jorge Furtado. Foto: frame de vídeoJorge Furtado. Foto: frame de vídeo

    Seja como diretor ou roteirista, com mais de 40 obras criadas para a televisão e para o cinema, Jorge Furtado coleciona em sua estante mais de 30 prêmios nacionais e mundiais, o que o caracteriza como um dos maiores cineastas brasileiros ainda vivos e produzindo a todo vapor. Seu panteão cinematográfico, dividido entre curtas e longas, está disponível na mostra de cinema especial Palavras em movimento – filmes e roteiros de Jorge Furtado,na Caixa Cultural Recife, desta terça (13/12) até o domingo (18/12). Os ingressos custam R$ 2 e R$ 1 (meia), com sessões começando a partir das 10h. 

    Falar de Jorge Furtado é falar da sua excentricidade como profissional. Autor de roteiros com plot twists expressivos, sua própria vida acadêmica, por exemplo, também é cheia de viradas inesperadas. No currículo, já frequentou faculdades de Psicologia, Medicina, Jornalismo e Artes Plásticas, mas nenhum desses cursos obteve Jorge Furtado no nome dos formandos. Só aquietou-se mesmo na produção audiovisual: seu desejo e paixão pelo cinema surgiu quando assistiu a uma produção em super-8 de Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil, o longa-metragem Deu para ti anos sessenta. Mais tarde, virariam sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre, da qual é um dos fundadores e onde permanece até hoje. Antes mesmo da criação da produtora independente, já realizara dois curtas, Temporal(1984) e O dia em que Dorival encarou a guarda (1986).

    Depois disso, Furtado iria dirigir e roteirizar filmes e seriados de sucesso inquestionável, como Lisbela e o prisioneiro, Ó paí, ó, Doce de mãee, mais recentemente,o seriado Mister Brau, já renovado para a terceira temporada, em gravação e com previsão para estrear em 2017. 

    EXPRESSÃO NARRATIVA
    As criações audiovisuais de Jorge Furtado se relacionam com a comédia, o drama e o romance. Entretanto, em quaisquer de suas obras, existe uma condução à reflexão do Brasil como sociedade e cultura. É um tempero agridoce em suas receitas cinematográficas e televisivas, ora aparecendo de forma mais explícita, como no seu curta-metragem consagrado Ilha das flores(1988); ora, de forma subliminar, nem tão aparente, mas ainda ali, como no seu longa Saneamento básico(2007), mais carregado de humor e um tanto displicente. 

    Sua veia crítica aparece de forma mais clara, sem nenhum pudor ou amarras, em documentários. Uma de suas mais recentes obras dentro do gênero, O mercado de notícias(2014), trata de jornalismo e democracia. O filme brinca com a peça homônima de Ben Johnson (contemporâneo de Shakespeare) e com depoimentos de 13 jornalistas, como Cristiana Lobo, Geneton Moraes Neto, Luis Nassif, José Roberto Toledo, entre outros. Durante todo o filme, a peça ali encenada carrega uma atualidade extrema, mesmo após três séculos e meio de criação, ao criticar e questionar a prática jornalistica. Naquela época de Ben e Shakespeare, a imprensa de Gutenberg crescia e o mercado de notícias tornou-se uma realidade com a criação do primeiro jornal impresso em Londres. Os jornalistas aparecem entre uma cena e outra, comentando sobre a carreira profissional e, aqui e ali, despejando críticas ao cenário da profissão no Brasil. O longa, de mais de uma hora de duração, regozija-se ao ser dirigido de forma bem-humorada, mas, ainda assim, carregando a critica.

    Sim, é impossível não falar da produção de documentários de Furtado sem citar Ilha de flores, vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim. Disponível na íntegra no Youtube (ver AQUI), o curta-metragem narra a odisseia do lixo, ali representado por um tomate podre. Desde o senhor Toshiro, japonês, ser humano com o telencéfalo altamente desenvolvido que “somado à capacidade de fazer o movimento de pinça com os dedos deu ao ser humano a possibilidade de realizar um sem número de melhoramentos em seu planeta, entre eles, plantar tomates”,até o destino final, somos apresentados a pequenas histórias que sustentam a coluna vertebral da narrativa: a Ilha das Flores, um lixão localizado no Rio Grande do Sul, onde“quase não existem flores”.Se os seres humanos, no começo do curta, são seres altamente desenvolvidos capazes de produzir alimentos para a sua própria sobrevivência, no final, os seres humanos da Ilha se igualam aos porcos na busca sufocante pelo “alimento”, o lixo, o tomate podre, as carnes podres.Sem direitos, pois até mesmo ali os porcos são preferência, esses mamíferos desenvolvidos são rechaçados. O triunfo de Furtado, nesse documentário, se dá não somente pelo modo como o construiu, mas também pela indubitável sensação melancólica crescente.

    Acredito que toda arte (e é bom não esquecer que o cinema, mesmo quando é arte, nunca é só arte) é resultado de uma visão particular da realidade transformada em obra”,disse Furtado em entrevista àContracampo.Dessa forma, não só nos dois exemplos citados acima, sua apoteose cinematográfica é um retrato da realidade transformada em frames, roteiros e decupagem. Mesmo com seus filmes carregados de comédia, um gênero por muitas vezes confessado como inferior perante muitas pessoas, uma ideia, aliás, também compartilhada por Furtado. A diferença é que misturar comédia, drama e realidade roteirizada não desmerece uma obra final. Afinal, ainda na mesma entrevista, “Aristóteles diz que a diferença entre tragédia e comédia é que a tragédia mostra o que o ser humano tem de melhor, enquanto a comédia mostra o que o ser humano tem de pior”. 


    PROGRAMAÇÃO
    A curadoria do diretor e produtor Angelo Defanti para a mostra se preocupou em selecionar os filmes que alcançaram extremo sucesso de público e de crítica, além daqueles que alcançaram prestígio em premiações, a exemplo de O homem que copiava (2003), vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Punta del Leste, no mesmo ano, e do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cinema de Miami.

    Toda a experiência do cineasta será debatida numa master class gratuita promovida pelo próprio Jorge Furtado, no domingo (18/12), a partir das 17h. Intitulada Começar bem, a aula se baseará na experiência do diretor e roteirista dentro do universo cinematográfico, além de detalhar seu processo criativo e fonte de inspiração proveniente da literatura. Além disso, no dia anterior, um debate sobre os rumos da imprensa nacional terá como fio condutor o seu documentário O mercado de notícias (2014), com reflexos sobre os destinos do jornalismo na atualidade política e social. O debate acontece após a exibição do filme, às 18h30, com as presenças do próprio Jorge Furtado e da jornalista Adriana Dória, editora da Continente, e mediação de Angelo Defanti. O acesso é gratuito, com bilhetes disponíveis a partir das 17h30.

    "Mercado de notícias" discute o jornalismo a partir de peça homonônima"Mercado de notícias" discute o jornalismo a partir de peça homonônima

    Confira os filmes da mostra:

    Terça, 13/12

    14h

    - Até a vista
    (de Jorge Furtado, 18 min, cor, 2011, 12 anos)
    Numa livraria na cidade de Porto Alegre, Fernando procura uma história para contar em seu primeiro longa-metragem. Fernando viaja para Argentina atrás de Borges Escudero, o autor do romance “Fronteiras”. Na tentativa de conseguir os direitos autorais, o cineasta recebe uma proposta inusitada do escritor. Os dois viajam para o Brasil a procura de um antigo amor de Borges Escudero.


    - Saneamento básico, o filme
    (112 min, cor, 2007, 12 anos)
    Na pequena Linha Cristal, a comunidade se mobiliza para construir uma fossa no arroio e acabar com o mau cheiro. Marina, a líder do movimento, descobre que a Prefeitura este ano só tem verba para produzir um vídeo de ficção. Então ela e seu marido Joaquim resolvem filmar a história de um monstro que surge no meio das obras de saneamento. Marina escreve um roteiro, Joaquim faz uma fantasia. Silene aceita ser atriz, Fabrício tem uma câmara. Aos poucos, as filmagens vão envolvendo todos os moradores do local.

    Em "Saneamento básico", diretor "tira onda" com o temaEm "Saneamento básico", diretor "tira onda" com o tema

    16h30

    - Decamerão: Ep. Comer, amar e morrer (39')
    Ep. O espelho (31')
    Ep. O ciúme (35')

    18h30
    - O homem que copiava
    (de Jorge Furtado, 124 min, cor, 12 anos)
    André, 20 anos, operador de fotocopiadora em uma papelaria, precisa desesperadamente de trinta e oito reais para impressionar a garota dos seus sonhos, Sílvia, que mora no prédio em frente e trabalha como balconista em uma loja de artigos femininos. Ajudado por seu amigo Cardoso, e depois também pela colega de trabalho Marinês, André faz muitos planos para conseguir dinheiro. E todos dão certo. E é aí que seus problemas começam.

    Quarta 14/12

    15h
    - Ângelo anda sumido
    (de Jorge Furtado, 17 min, cor, 1997, Livre)
    Dois velhos amigos se reencontram e combinam de jantar juntos, mas em seguida voltam a se perder no labirinto de grades, cercas e muros de uma grande cidade.

    - Meu tio matou um cara
    (de Jorge Furtado, 85 min, cor, 16 anos)
    Duca, aos 15 anos, descobre que os crimes que ele está acostumado a ver em jogos eletrônicos também podem existir na vida real, quando seu tio Éder é preso por um assassinato mal explicado. Duca resolve investigar o caso por conta própria, e tenta levar junto seus colegas Kid e Isa. Mas Isa parece mais interessada em Kid. E Kid parece mais interessado na primeira que aparecer. E Duca, claro, no fundo só se interessa por Isa.

    17h 
    - A comédia da vida privada: As idades do amor (47')
    - História do amor temp 1 (47')

    19h 
    - História do amor temp 3 (16)' (classificação livre) 
    - Velásquez e a teoria quântica da relatividade (3') 
    - Houve uma vez dois verões
    (de Jorge Furtado, 75 min, cor, 2002, 12 anos)
    Chico, adolescente em férias na "maior e pior praia do mundo", encontra Roza num fliperama e se apaixona. Transam na primeira noite, mas ela some. Ao lado de seu amigo Juca, Chico procura Roza pela praia, em vão. Só mais tarde, já de volta a Porto Alegre e às aulas de química orgânica, é que ele vai reencontrá-la. Chico quer conversar sobre "aquela noite", mas Roza conta que está grávida. Até o próximo verão, ela ainda vai entrar e sair muitas vezes da vida dele.

    Quinta 15/12

    14h30

    - Luna Caliente (120') (14 anos)

    17h
    A comédia da vida privada - Ep. O mistério da vida alheia (53') + História do amor temp 2 (34')

    19h 
    - O dia em que Dorival encarou a guarda
    (de Jorge Furtado e José Pedro Goulart, 14 min, cor, 1986, 14 anos)
    Numa prisão militar, numa noite de muito calor, o negro Dorival tem apenas uma vontade: tomar um banho. Para consegui-lo, vai ter que enfrentar um soldadinho assustado, um cabo com mania de herói, um sargento com saudade da namorada, um tenente cheio de prepotência - e acabar com a tranquilidade daquela noite no quartel.

    - Homens de bem (70') (classificação 14 anos)

    Sexta 16/12

    15h

    - A comédia da vida privada: Ep. Apenas bons amigos (47') (classificação 16 anos)
    - Cena aberta: Ep. O negro Bonifácio (31') (livre)

    17h
    - Ed Mort: Ep. Nunca houve uma mulher como Gilda (53') (classificação 16 anos)
    - Cena aberta: Ep. As três palavras divinas (24')

    19h 
    - A comédia da vida privada: Anchietanos (50') (classicação 12 anos)
    - Cena aberta: Ep. A hora da estrela (39') (classificação livre)

    Sábado 17/12

    13h 
    - Doris para maiores: Ep. Dona Sílvia não gostava de música (4') CLASSIFICAÇÃO: 16 ANOS + Ep. Tempo (3') 
    - O sanduíche
    (De Jorge Furtado, 13 min, cor, 2000, 10 anos)
    Os últimos momentos de um casal: a hora da separação. Mas o fim de alguma coisa pode ser o começo de outra. Outro casal, os primeiros momentos: a hora da descoberta. Encontros, separações e um sanduíche. No cinema, o sabor está nos olhos de quem vê.

    - Doce de mãe (70') (classificação 12 anos)

    15h
    - A comédia da vida privada: Drama (52') (classificação 12 anos)
    - Barbosa
    (de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, 13 min, cor, 1988, livre)
    Trinta e oito anos depois da Copa do Mundo de 1950, um homem volta no tempo a fim de impedir o gol que derrotou o Brasil, destruiu seus sonhos de infância e acabou com a carreira do goleiro Barbosa.
    - Esta não é a sua vida
    (de Jorge Furtado, 16 min, cor, 1991, 10 anos)
    Documentário sobre a vida de Noeli Joner Cavalheiro. Noeli mora num subúrbio de Porto Alegre, é dona de casa e tem dois filhos. Nasceu numa cidade do interior, foi pra capital, trabalhou numa padaria, casou. É uma pessoa comum. Mas não existem pessoas comuns.

    16h30
    - Ilha das flores
    (de Jorge Furtado, 12 min, cor, 1989, livre)
    Um tomate é plantado, colhido, transportado e vendido num supermercado, mas apodrece e acaba no lixo. Acaba? Não. Ilha das flores segue-o até seu verdadeiro final, entre animais, lixo, mulheres e crianças. E então fica clara a diferença que existe entre tomates, porcos e seres humanos.

    "Ilha das Flores" virou um clássico do documentário nacional"Ilha das Flores" virou um clássico do documentário nacional

    - Fraternidade
    (de Jorge Furtado, 3 min, cor, 1999, 10 anos)
    Documentário sobre o retorno à Ilha das Flores. 
    - A matadeira
    (de Jorge Furtado, 16 min, cor, 1994, 14 anos)
    Canudos foi uma pequena aldeia no nordeste do Brasil, fundada pelo líder messiânico Antônio Conselheiro e massacrada por um poderoso exército até a morte do último de seus 30 mil habitantes, em 5 de outubro de 1897. O filme conta o massacre de Canudos a partir de um canhão inglês, apelidado pelos sertanejos de A Matadeira, que foi transportado por 20 juntas de boi através do sertão para disparar um único tiro.

    - O mercado de notícias
    (de Jorge Furtado, 94 min, cor, 2013, 10 anos) 
    Documentário sobre jornalismo e democracia. O filme traz os depoimentos de treze importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática de sua profissão, o futuro do jornalismo e também sobre casos recentes da política brasileira. O surgimento do jornalismo, no século 17, é apresentado pelo humor da peça O mercado de notícias, escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson em 1625. Trechos da comédia de Jonson, montada e encenada para a produção do filme, revelam sua espantosa visão crítica, capaz de perceber na imprensa de notícias, recém-nascida, uma invenção de grande poder e grandes riscos.

    *Sessão seguida de debate com Jorge Furtado e jornalistas

    Domingo 18/12

    17h
    Começar bemmaster class de Jorge Furtado

    Serviço:
    Mostra Palavra em movimento - Filmes e roteiros de Jorge Furtado
    De 13 a 18 de dezembro de 2016
    Local: Caixa Cultural Recife (Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife)
    Telefone: 3425-1915
    Ingressos: R$ 2 e R$ 1 (meia) para as exibições. O debate e a master class têm entrada gratuita, com distribuição de senhas uma hora antes do início

  • Na briga por mais representatividade

    [leia na íntegra a matéria abaixo, publicada na edição 193, JAN 2017 da Revista Continente]

    "O nascimento de uma nação" traz a história de escravo que liderou uma revolta no sul dos EUA. Foto: Divulgação"O nascimento de uma nação" traz a história de escravo que liderou uma revolta no sul dos EUA. Foto: Divulgação

     

    Campanhas que pedem maior diversidade de gente e personagens não brancos no cinema ecoa na safra de filmes norte-americanos prevista para 2017

    Com a chegada da temporada de premiações, Hollywood volta a pensar em #OscarsSoWhite. Nos últimos dois anos, a hashtag criada por April Reign, do site BroadwayBlack.com, foi usada para criticar a falta de não brancos no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A repercussão foi tanta, que a presidente da Academia resolveu tomar medidas. Cheryl Boone Isaacs, mulher e negra numa organização que, em fevereiro do ano passado, era 91% branca e 76% do sexo masculino, anunciou a decisão de dobrar o número de representantes de minorias até 2020. Em junho, convidou 683 novos membros, um recorde, sendo 46% deles mulheres e 41% não brancos. 

    Apesar dos esforços da Academia, a verdade é que o problema começa bem antes, na aprovação de projetos e produção de longas-metragens. Segundo o relatório de Diversidade em Hollywood, feito pelo Centro Ralph J. Bunche de Estudos Afro-Americanos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), das 163 maiores bilheterias de 2014, apenas 12,9% tinham protagonistas de uma das minorias – negros, asiáticos, latinos ou nativo-americanos –, quando elas, somadas, representam 37,9% da população. Outro estudo, promovido pela Universidade do Sul da Califórnia (USC), chegou à conclusão de que, entre as 100 maiores bilheterias de 2015, apenas 14 tinham protagonistas ou coprotagonistas não brancos. Entre os personagens com falas, 73,7% eram brancos. 

    Mas 2016 terminou sendo um bom ano para as minorias no cinema norte-americano. Gil Robertson, presidente da Associação de Críticos de Cinema Afro-Americanos, fez um comunicado dizendo que foi um ano “excepcional” para negros no cinema. Começou com a aquisição recorde no Sundance Festival de O nascimento de uma nação, de Nate Parker, homônimo do clássico de D.W. Griffith, que revolucionou o cinema e elogiou a Ku Klux Klan. Parker escreveu, dirigiu, produziu e protagonizou o longa-metragem sobre Nat Turner, um escravo que virou pregador e liderou uma revolta nas fazendas do sul dos Estados Unidos no século XIX. Sua ideia foi destacar uma história pouco conhecida sobre a resistência dos escravos, mostrando que O nascimento de uma nação de Griffith tinha também um outro lado, apoiado no sofrimento dos homens e mulheres trazidos da África. 

    Desde janeiro, quando foi comprado pela Fox Searchlight por uma quantia recorde, US$ 17,5 milhões (cerca de R$ 59 milhões), poucos dias depois do anúncio dos indicados do Oscar de 2016, a produção entrou na lista de possíveis premiados. Mas, em agosto, ressurgiu na imprensa a acusação de estupro contra o diretor e seu amigo Jean Celestin, que divide o crédito pelo argumento. Ambos foram julgados, com Parker sendo inocentado e Celestin, condenado, mas depois libertado. A resposta pouco convincente de Parker em relação ao caso acabou prejudicando a carreira do filme, que fez apenas US$ 15,8 milhões na bilheteria norte-americana. 

    Cena de "Fences", ainda sem data de estreia no Brasil. Foto: DuvulgaçãoCena de "Fences", ainda sem data de estreia no Brasil. Foto: Duvulgação

    Outros filmes falam abertamente da experiência dos negros com o racismo nos Estados Unidos. É o caso de Fences (ainda sem estreia definida no Brasil), dirigido e protagonizado por Denzel Washington, baseado na peça de August Wilson, vencedora do Pulitzer e do Tony em 1987. Washington é Troy, um ex-jogador de beisebol que não conseguiu muito sucesso e luta para sustentar a família na Pittsburgh dos anos 1950. Viola Davis interpreta sua mulher, Rose. 

    Loving, de Jeff Nichols, um dos diretores americanos mais interessantes da atualidade, inspira-se na história real de Richard (Joel Edgerton), branco, e Mildred (Ruth Negga), negra, que se apaixonam na década de 1950 e decidem se casar depois de ela engravidar. Como o casamento inter-racial é proibido no Estado da Virgínia, eles vão até Washington D.C. Ao voltar para sua cidade de origem, onde vivem suas famílias, os dois são presos e depois banidos de morar na Virgínia por 25 anos. Tempos mais tarde, ela escreve para o senador Robert Kennedy e recebe uma indicação à American Civil Liberties Union, que oferece um advogado para levar o caso ao tribunal. Nichols evita todos os clichês desse tipo de filme, mostrando Richard e Mildred como pessoas comuns, que não tinham interesse no ativismo, mas foram obrigadas a procurar seus direitos e, por isso, mudaram a história.

    Joel Edgerton e Ruth Negga em "Loving". Foto: DivulgaçãoJoel Edgerton e Ruth Negga em "Loving". Foto: Divulgação

    Estrelas além do tempo, de Theodore Melfi, que tem lançamento previsto para este mês no Brasil, também é baseado em fatos. O filme foca em Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três negras que eram “computadores humanos”, responsáveis pelos cálculos do programa espacial americano antes da chegada dos computadores-máquinas, no início da década de 1960. No estado da Virgínia, ainda estavam em vigor as leis Jim Crow de segregação racial, o que fazia com que tivessem de usar banheiros separados, por exemplo. Johnson, a única ainda viva, recebeu uma Medalha Presidencial da Liberdade, entregue por Barack Obama, em 2015. O próprio fato de essa história incomum de triunfo ser praticamente desconhecida é um atestado de racismo e falta de interesse pelas narrativas dos negros.

    HISTÓRIAS COMUNS

    "Moonlight" conta história de crescimento a partir do "bullying". Foto: Divulgação"Moonlight" conta história de crescimento a partir do "bullying". Foto: Divulgação


    Por outro lado, uma das grandes sensações da temporada é
    Moonlight , de Barry Jenkins, que não se baseia em história real nem fala exatamente da luta contra o preconceito. O filme, escolhido o melhor do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles, tem elenco totalmente negro, é baseado na peça de um negro e dirigido por um negro. É uma história de crescimento, como tantas já contadas no cinema, ao mesmo tempo universal e específica, sobre Little (Alex R. Hibbert), um menino que sofre bullying e é protegido pelo traficante Juan (Mahershala Ali). Sua mãe (Naomie Harris) é viciada em drogas. Na adolescência, chamado Chiron (Ashton Sanders), descobre sua homossexualidade. Na terceira parte, já adulto, agora apelidado Black (Trevante Rhodes), lida com suas escolhas.

    O longa-metragem atende a uma reivindicação expressa por boa parte das associações de minorias: histórias comuns sobre gente comum, estreladas por negros, latinos, asiáticos. “Na maioria das vezes, os filmes negros que concorrem ao Oscar são sobre pessoas como Martin Luther King Jr. ou Malcolm X ou Solomon Northup. Pessoas que, por qualquer medida, são exemplares”, disse Marc Bernardin, em artigo na revista The Hollywood Reporter , referindo-se a produções como Selma – Uma luta pela igualdade , de Ava DuVernay, Malcolm X , de Spike Lee, e 12 Anos de escravidão , de Steve McQueen. Mais adiante, ele complementa: “Por outro lado, há filmes como Joy: o nome do sucesso , sobre uma mulher branca que inventou um negócio e ficou milionária”. Como ele bem apontou, ela não foi a primeira mulher a ficar milionária nos Estados Unidos. “Ou O quarto de Jack , sobre uma mulher branca e seu filho presos num quarto. Ou Nebraska , sobre um homem velho branco que gosta de perambular. Ou Blue Jasmine , sobre uma mulher branca rica que fica sem dinheiro”. Moonlight é um filme sobre as dores do crescimento. Little, ou Chiron, ou Black é negro e homossexual, mas o longa-metragem não é sobre isso, ainda que não ignore essas questões.

    Esses filmes todos são boas notícias e provam que ter mais negros em posições decisórias – como produtores, chefes de estúdio, diretores e nas agências de talentos – é fundamental para que suas narrativas cheguem à tela. Mas a verdade é que, apesar da justa reclamação dos últimos anos, a discrepância é menor para os atores negros em comparação com outras minorias. Eles receberam 10% das indicações desde 2000, sendo 13,3% da população americana. É pior no caso dos latinos – 3% de indicações para 17,6% da população – e asiáticos – 1% para 5,6% da população. Entre as 100 maiores bilheterias de 2015, apenas uma tinha protagonista ou coprotagonista latino, e quatro foram protagonizadas por mestiços. Nenhuma por asiáticos. É ainda pior porque as minorias, embora representem 37,9% da população, compraram 46% dos ingressos de cinema nos Estados Unidos em 2014 – só os latinos compram um quarto das entradas. No caso da maior bilheteria daquele ano, Transformers: a era da extinção , as minorias representaram 59% do público doméstico.

    Isso fez com que a atriz Gina Rodriguez, estrela da série Jane the Virgin , fizesse uma campanha nas redes sociais, chamada Movement Mondays, por mais papéis para latinos. Os americanos asiáticos também estão lutando por seu espaço. Fizeram uma campanha nas redes sociais contra as piadas com conteúdo preconceituoso em relação aos asiáticos de Chris Rock na cerimônia do Oscar de 2016, que destacou como muitas vezes o preconceito vem de outras minorias também. Depois, protestaram, com a hashtag #Whitesahedout , contra a escolha de Tilda Swinton e Scarlett Johansson em papéis de personagens asiáticos em Doutor Estranho e Ghost in the shell . Também colaram o rosto de John Cho e Constance Wu sobre a face de outros atores, indicando que eles poderiam ter feito filmes como Perdido em Marte ou Jurassic World .

    MERCADO GLOBAL
    Demorou, mas a constatação de que as minorias são fundamentais para a bilheteria parece começar a fazer diferença nas produções mais comerciais também – oito filmes com elenco composto por 41% a 50% de minorias arrecadaram US$ 122 milhões em 2014, contra US$ 52,6 milhões de 55 longas com menos de 10% do elenco de minorias. Esses filmes precisam, mais do que nunca, conquistar também o mercado global. Entre as maiores bilheterias de 2016, Capitão América: guerra civil , Mogli – O menino lobo , Esquadrão suicida e Doutor Estranho tinham não brancos como protagonistas. Sete homens e um destino era praticamente um filme de cotas, com um negro, brancos, um latino, um asiático e um nativo-americano juntando-se a três brancos.

    Rogue one: uma história Star Wars tem um latino (Diego Luna), um inglês descendente de paquistaneses (Riz Ahmed), dois chineses (Donnie Yen e Wen Jiang) e um negro (Forest Whitaker) no elenco principal. Quase nenhum desses fala exatamente da experiência dessas minorias nos Estados Unidos e estão mais voltados para conquistar o mercado internacional, mas, sem dúvida, têm o importante papel de colocar na tela tipos diferentes de pessoas, com a possibilidade de empoderar jovens e crianças. Moana – Um mar de aventuras , a nova animação da Disney, que também estreia neste janeiro, abandonou as princesas loiras para dar lugar à futura líder de um povo da Polinésia, morena, de cabelos cacheados e corpo menos esquálido.

    "Barry" baseia-se em história de Obama. Foto: Divulgação"Barry" baseia-se em história de Obama. Foto: Divulgação

    A luta por mais representatividade das minorias no cinema, sem dúvida, ganhou força durante o governo de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O próprio Obama foi objeto de dois filmes, Michelle e Obama e Barry , que está no ar na Netflix. Deu destaque a peças de teatro fundamentais, como Hamilton , de Lin-Manuel Miranda. Na televisão, que tem um modo de produção mais ágil, hoje se veem várias séries com elenco totalmente negro, asiático e latino, ou com protagonistas negros, asiáticos e latinos. Durante seus oito anos no cargo, o tema da identidade tornou-se preponderante, causando uma reação que foi ao menos parcialmente responsável pela eleição de Donald Trump. Não dá ainda para saber como o novo governo vai influenciar as artes e o entretenimento. Será que teremos mais produtos culturais com o norte-americano branco de classe média que se sente excluído? Pode ser. Mas parece difícil ignorar que, em 2016, quase 38% da população é de minorias. E que, daqui a 24 anos, as minorias, somadas, vão se tornar a maioria.

  • O duelo entre Todo Duro e Holyfield

    Foto: frame do filme/DivulgaçãoFoto: frame do filme/Divulgação

    A luta do século, de Sérgio Machado, rememora a disputa histórica entre o pernambucano e o baiano, tendo como ápice o último confronto, em 2015

    Corria a tarde de um domingo de outubro e havia várias filas num shopping onde seis salas de exibição abrigavam a programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Dezenas de pessoas esperavam a vez de comprar ingressos, outras tantas aguardavam o início da sessão e duas delas fincavam posições diametralmente opostas, como se fossem duelistas a esperar a hora de desembainhar as espadas. O pernambucano Luciano Torres, 51, pernambucano, trajando terno escuro e gravata estampada em tons vermelhos, era assediado por fãs, que pediam autógrafos em pares de luva de box. A 10 metros de distância, o baiano Reginaldo Andrade, 50, vestindo camisa polo azul-marinho um tanto apertada nas mangas, fazendo sobressair os músculos do braço, era festejado por conterrâneos e paulistanos. Se alguém os chamasse pelos nomes de batismo, podia ser, até, que eles nem atendessem; mas, aos gritos de Todo Duro e Holyfield, os protagonistas de A luta do século (Brasil, 2016) tinham um momento de celebridade para além dos ringues.

    No filme do baiano Sérgio Machado, exibido na mostra paulistana e também no Festival do Rio (de onde saiu com o prêmio de melhor longa-metragem documental), os dois pugilistas são, ao mesmo tempo, personagens principais e inimigos figadais. A luta do século resgata uma rivalidade que, em Pernambuco, na Bahia e em todo Nordeste, é legendária: entre o início dos anos 1990 e 2015, Todo Duro e Holyfield se enfrentaram sete vezes, com quatro vitórias para o pernambucano e incontáveis episódios nos quais os boxeadores trocaram tapas em público – ou, como explicita a sequência de abertura, atropelando apresentadores em estúdios de televisão, em frente a câmeras e “ao vivo e a cores”, como repetia Todo Duro enquanto a sessão na 40ª Mostra de SP não começava.

    Durante a projeção, era possível ouvir o pernambucano repercutindo as cenas que se encadeavam na tela. “Tu vai apanhar de novo, baiano”, gritou Todo Duro, para gargalhada da sala. Ao término, Holyfield provocou: “A filha dele está apaixonada pelo negão. Ela quer casar comigo. Ela vai me ligar pedindo ‘por favor, não bata tanto em meu pai’”. Nova rodada de risadas e aplausos. Para ir embora, os dois mobilizaram os esforços da equipe de produção porque não aceitaram dividir o mesmo veículo. “A Mostra ofereceu um carro para levá-los, mas quem é que ficaria de costas para o outro? Tivemos que arranjar um carro para cada. Não é teatro ou marketing, eles são assim o tempo inteiro”, comentaria, dias depois, o diretor Sérgio Machado.

    A luta do século nasceu da admiração que os atores baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura têm pela dupla de boxeadores. Conta Lázaro, um dos produtores do longa, que a ideia inicial era que ele interpretasse Holyfield e Wagner fizesse o papel de Todo Duro. “Para mim, eles são heróis. Cresci acompanhando essa rivalidade, Wagner também, e chegamos para Sérgio com essa ideia. Eu adoraria ter interpretado Holyfield. Estava animado para isso. Mas aí Sérgio começou a pesquisar e percebeu que a história era rica demais. Surgiu o documentário. Várias pessoas chegaram a mim para dizer ‘ah, tenho curiosidade para ver como os dois vão se comportar sem ser diante das câmeras de Tv’. Eu respondia que eles eram exatamente daquele jeito, como o filme mostra”, diz o ator e produtor baiano à Continente.

    APRESENTAÇÃO
    O documentário foi rodado entre 2014 e 2015, a partir de prêmios amealhados em editais da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo (o orçamento final, segundo o diretor, gira na casa dos R$ 600 mil). Não foi por acaso que Sérgio Machado optou por dotar a narrativa de um certo didatismo. “Fora da Bahia e de Pernambuco, as pessoas não têm a menor ideia de quem eles são. Muitos nunca tinham ouvido falar em Todo Duro ou em Holyfield. Para mim, não tinha outro jeito. Primeiro, quis fazer uma espécie de curta, para recontar essa rivalidade, e depois enveredar na vida pessoal, no cotidiano desses personagens comoventes”, expõe o cineasta, que se interessou, de imediato, pelo arco dramático que unia os dois rivais.

    “Como é chegar perto do topo, mas não conseguir se sustentar ali? Esses homens eram ídolos. Lembro que uma vez fui ao estádio para um jogo entre Bahia e Vitória e todo mundo se levantou para aplaudir Holyfield. No Recife, quando eu cheguei para visitar Todo Duro, perguntei se ali era a casa dele e um rapaz que passava me respondeu: ‘Todo Duro é orgulho de Pernambuco, devia ter uma estátua dele no centro da cidade, que nem a de Rocky Balboa’.” O que me impressionou muito é que o primeiro approach que fiz com os dois foi na véspera do segundo turno da eleição presidencial, em 2014. E os dois estavam distribuindo santinhos. Todo Duro no Recife, Holyfield em Salvador, homens muito queridos em suas cidades, que ganharam dinheiro e reconhecimento, naquele momento, faziam aquele bico para sobreviver. Filmei com a ideia de abrir o filme com essa cena”, recorda o diretor.

    Contudo, o que ele descobriu, ao acompanhar os dois pugilistas nordestinos é que a capacidade deles para surpreender é tão diversa quanto o arsenal de golpes que desferem no ringue. O segundo documentário de Sérgio Machado já estava quase todo pronto, marcando seu retorno ao gênero que o lançara em Onde a Terra acaba (2002), depois de três ficções – Cidade baixa (2005), Quincas Berro D’Água (2010) e Tudo que aprendemos juntos (2015), quando um coadjuvante apontou um novo rumo. Em uma sequência-chave do filme, o empresário Raimundo Alves de Souza, o Ravengar, solto após cumprir pena por tráfico de drogas na Bahia, reencontra Holyfield e sugere que uma nova luta com Todo Duro seja marcada.

    O baiano topou na hora, o pernambucano se empolgou ao receber o telefonema e o diretor ganhou um problema. “Eu tinha certeza de que seria mais uma provocação, uma galhofa, e achei que eles não teriam poder de mobilização para lutar. Já não tinha mais grana, tinha acabado todo o dinheiro da filmagem”, recorda Sérgio Machado. “Como eles foram em frente, eu pedi a amigos que filmassem a preparação de Todo Duro no Recife enquanto eu me virava para filmar Holyfield em Salvador. Até câmera emprestada eu pedi para filmar a luta”, acrescenta. A luta do século virou, portanto, o mote para o confronto ocorrido em 11 de agosto de 2015, no Clube Português, na região central da capital pernambucana.

    Entre os cinegrafistas presentes naquela noite de terça-feira, quando cinco mil pessoas urravam em êxtase, estava o próprio diretor. “Foi a cena mais difícil que já filmei. Na época, eu também estava escrevendo um roteiro para Walter Salles sobre Popó e tinha visto muitos documentários de boxe, várias ficções e lido vários livros, um deles sobre Muhammad Ali voltando a lutar já velho. Fiquei com muito medo dessa luta. Já tinha me afeiçoado aos caras e ficava agoniado só de pensar em ver um batendo no outro. Para mim, foi violento demais. Era como se estivesse vendo dois amigos trocando socos. Na madrugada depois do combate, saí do Recife e embarquei para Locarno, pois tinha que participar de um festival, mas fui vomitando o voo inteiro, com febre e dor de cabeça”, rememora.

    É interessante cotejar o espetáculo midiático armado para essa revanche, 11 anos após a última disputa, e os próprios registros dos primeiros conflitos. Entre a batalha que inaugurou a rivalidade, em 1996, e “a luta do século”, ambas vencidas por Todo Duro, decorreram 19 anos. Se as revanches iniciais aparecem em cena por meio dos recortes de jornais e de imagens precárias da época, a luta de 2015, filmada para o documentário com cinco câmeras, virou febre de audiência na internet. Esse percurso ao longo de quase duas décadas é explorado com minúcias por Sérgio Machado. Assim, entre uma luta e outra, o público aprende, por exemplo, que Todo Duro foi campeão mundial pela World Boxing Federation e Holyfield foi campeão brasileiro, sul-americano e mundial na categoria supermédio; que, após anos de estrelato, os dois atletas enfrentaram o ocaso, com o pernambucano chegando a ser preso no Recife e o baiano quase morrendo ao salvar dois sobrinhos em um incêndio; e que, embora sem o mesmo vigor de outrora, devotaram-se aos treinamentos a fim de vencer o conflito que dá nome ao filme.

    “Muita coisa mudou no Brasil nesse tempo todo”, observa o produtor Lázaro Ramos. “Mas vejo o filme também como a possibilidade de fortalecer uma reflexão sobre o que não mudou: é preciso olhar para os brasileiros que estão nessa luta de Todo Duro e Holyfield a cada dia, a cada semana. E olhar com afetividade para a complexidade que têm esses brasileiros das classes populares, esses homens negros, pobres, periféricos que não desistem. O filme, para mim, é também uma metáfora do papel do esporte no país, do que é capaz de fazer, mesmo em condições adversas”, reforça o ator, “Condições adversas” não assustam Luciano Torre e Reginaldo Andrade, descritos na agitada sessão da 40ª Mostra de São Paulo como “dois grandes boxeadores, dos maiores que a América do Sul já viu”, na visão do técnico de boxe aposentado Ademar Justo. “Sou Todo Duro, o matador de baiano. Ganhei dele no Recife, na última luta, e vou estraçaiar de novo em Salvador. Cuidado para ele não sair no caixão”; “Até hoje não entendo como ele ganhou no Recife se passou a luta inteira apanhando. Vamos lutar de novo na Bahia e quem vai sair num caixão é ele”, fizeram questão de ressaltar à Continente, entre risos e autógrafos, entre mugangas e fotografias.

    A luta do século entra em cartaz, com distribuição da Vitrine Filmes, em março de 2017, mesmo mês no qual, em tese, acontecerá a oitava luta entre Todo Duro e Holyfield. “Queremos lançar com estardalhaço em Salvador e no Recife, ao mesmo tempo, também, em que estamos fechando a distribuição internacional. Apesar de ser um filme bem local, tem uma pegada internacional que é curiosa; essa mistura de rivalidade, amizade e inimizade tem algo de mitológico. Quantos jovens lutadores não têm esses dois como mentores?”, indaga Sérgio Machado.


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  • Pablo Larraín e suas antibiografias

    Longa traz um recorte de dois anos na vida de Neruda. Foto: DivulgaçãoLonga traz um recorte de dois anos na vida de Neruda. Foto: Divulgação

    O cineasta de
    No eO clube enfoca o poeta Pablo Neruda e a primeira-dama Jacqueline Kennedy em dois novos filmes

    Pablo Larraín ficou conhecido por sua trilogia sobre os anos terríveis da ditadura militar em seu país, o Chile, entre 1973 e 1990. Tony Manero (2008) mostrava um homem sem escrúpulos que sonhava ganhar um concurso de Os embalos de sábado à noite e revelava como a violência utilizada pelo regime espalhava-se pela sociedade. Post mortem (2010) fazia a autópsia do presidente democraticamente eleito Salvador Allende, morto no golpe militar liderado por Augusto Pinochet em 1973, sob a perspectiva de um funcionário menor do Instituto Médico Legal, repentinamente investido de seu pequeno poder. E No (2012) trazia a campanha vitoriosa do “Não” no plebiscito que depôs Pinochet. Depois disso, jurou que não voltaria a falar do período. “Posso fazer outro filme político, mas a questão da ditadura está encerrada para mim. Não coloco mais Pinochet na tela”, disse no Festival de Cannes em 2012. Então, agora, ele passou para as biografias – sempre com um pé na política, claro. Lançou Neruda, sobre o poeta chileno Pablo Neruda, no Festival de Cannes, em maio, e Jackie, sobre a primeira-dama dos Estados Unidos Jacqueline Kennedy, seu primeiro filme em inglês, em Veneza, e depois Toronto, em agosto e setembro, respectivamente. 

    Claro que, em se tratando do cineasta chileno, não são biografias convencionais. “É uma antibiografia. Não dá para colocar Neruda num escaninho”, disse Larraín à Continente, no Festival de Cannes deste ano. “Li várias biografias, sua autobiografia, toda sua obra. Fiz o filme. E vou dizer: não acho que sei quem era. É um cara difícil de apreender. É como tentar segurar água com as mãos. Uma vez que você compreende isso, trabalha com muita liberdade.” Como exemplo, cita o discurso de agradecimento ao Prêmio Nobel de Literatura em 1971, quando Neruda relembrou sua jornada de fuga de seu país, onde era perseguido politicamente. “Num momento do discurso, ele diz que não sabe mais o que viveu, sonhou ou escreveu. Ou seja, não importa. Era isso com o que estávamos lidando.” Seu próprio nome era inventado: nasceu Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto e adotou o nome do poeta tcheco Jan Neruda. 

    Mas, e Jacqueline Kennedy? O cineasta admite: “Não gosto de cinebiografias. São chatas. Acho que o que acontece com a maioria das cinebiografias é que fazem tanto esforço para o ator se parecer com a pessoa biografada, se comportar como ela, se for um cantor, cantar como ela e, aí, quando você assiste ao filme, ok, está parecido, pinta bem, dança bem. E daí? Onde está o filme? Eu não queria isso”.

    Por essa razão, o diretor evitou identificar quem era quem e em que mês estavam. Neruda, que é o pré-candidato do Chile ao Oscar de filme em língua estrangeira, cobre apenas dois anos da vida do poeta, interpretado por Luis Gnecco. Começa em 1948, quando Neruda, senador do Partido Comunista, passa a ser perseguido pelo policial Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal), a mando do governo de seu antigo aliado, o presidente Gabriel González Videla (Alfredo Castro, o ator-fetiche de Larraín, presente em todos os seus longas). Em 1949, depois de ser um fugitivo em seu próprio país, ao lado de sua mulher Delia del Carril (interpretada por Mercedes Morán), escapou pelos Andes para a Argentina e, dali, para a França. O cineasta mostra o lado hedonista de Neruda, famoso por ser um amante incrível, grande cozinheiro, colecionador de objetos do mundo todo, leitor voraz de todos os tipos de literatura. “Ele absorvia a vida com toda força”, disse Larraín. “Mas também era um homem que deu suas palavras para sua sociedade. Todos os seus sonhos estão lá. E eles se tornaram realidade. Porque ele iria ser o candidato à presidência. E seria eleito facilmente. Mas foi generoso, retirou-se da disputa e deixou Salvador Allende ser o aspirante. E eles ganharam.” Em 1970, indicado para apresidência do Chile, renunciou em favor de Allende, que venceu a eleição e foi derrubado em 1973 por um violento golpe militar orquestrado por Augusto Pinochet e apoiado pelos Estados Unidos. Mas isso foi bem depois dos acontecimentos mostrados no filme – porque, afinal, Larraín está dando um tempo em Pinochet. 

    Mesmo focando em apenas dois anos da vida de Neruda, o longa ainda poderia ser uma cinebiografia tradicional. Não é por outros motivos. O principal: Peluchonneau não é um personagem real. Quer dizer, ele existiu, mas quem García Bernal interpreta é uma invenção. “Eu não acho que é um filme sobre dois personagens, mas sobre um único personagem. É um filme sobre um único personagem dividido em duas pessoas. É assim que vejo”, explicou Larraín. Neruda é mais um filme no espírito de Neruda do que sobre ele. 

    Filho de um senador de direita, apoiador de Pinochet, Larraín acha que o Chile não lidou bem com as sombras de seu passado. Ainda assim, o país parece estar à frente do Brasil num quesito: em outubro, a Câmara dos Deputados aprovou um acordo qualificando Pinochet como “ditador, artífice de um aparato terrorista de Estado e autor intelectual do assassinato premeditado e traiçoeiro de Orlando Letelier”. Pouco antes, documentos liberados pelos Estados Unidos comprovaram que a ordem de matar o ex-ministro de Salvador Allende em Washington, em 1976, partiu diretamente de Pinochet. 

    Mas Larraín garante que nunca planejou mergulhar na história de seu país. “Neruda é uma ideia do meu irmão (o produtor Juan de Dios Larraín), ele queria fazer esse filme. Começamos a trabalhar antes de No. Aí fizemos No, porque Neruda era uma produção maior, com muitos atores, pelo país inteiro, em Buenos Aires, Paris. Levou tempo. Quando estava quase tudo pronto, o filme foi adiado por cinco meses. Entrei em pânico. Fizemos O clube enquanto esperávamos. Aí agora faço Jackie, com uma história de 1963!”, disse o diretor, rindo. “Meu agente me mandou um roteiro de ficção científica. Perguntei se ele não tinha nada que se passasse nos dias de hoje.” (leia entrevista com o cineasta AQUI)

    (Leia matéria completa na edição de novembro, n. 191, da Revista Continente)

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    LEIA TAMBÉM:
    "Enfant terrible" lança o sexto longa-metragem

  • Páginas para o "Baile perfumado"

    Baile Perfumado e suas imagens inesquecíveis. Foto: Fred Jordão (still do filme)Baile Perfumado e suas imagens inesquecíveis. Foto: Fred Jordão (still do filme)

     

    "Uma boa maneira de definir Baile Perfumado é afirmar que se trata de um filme que vibra dirigido por dois inquietos. Realizado vinte anos depois do último longa-metragem rodado em Pernambuco, a comédia O Palavrão, de Cleto Mergulhão, o filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira vinha interromper um longo intervalo que consolidara a ideia de que seria impossível viabilizar uma produção profissional no estado em que viu florescer, entre 1923 e 1931, o Ciclo do Recife, o mais vigoroso surto produtivo do cinema brasileiro dos anos 1920."


    O parágrafo que abre o livro A aventura do Baile perfumado: 20 anos depois (Cepe, 2016), escrito pelos organizadores Amanda Mansur e Paulo Cunha, nos convence não apenas da importância de uma publicação como esta - o que parece óbvio. As palavras que introduzem estas páginas que acabam de sair nos colocam também com os olhos atentos para Pernambuco e os pés bem-fincados nele, que a despeito de qualquer polêmica (ou despeito), mantém seu solo fértil e resistente para a produção audiovisual. Às vésperas da abertura do 9º Janela Internacional de Cinema, festival que ocupa o Recife até o dia 6 de novembro, o lançamento do livro na quinta (27/10), na loja Passa Discos, às 19h, vem a calhar.

    Baile perfumado é um filme emblemático para o cinema nacional. Não por acaso, recebeu homenagens este ano, pela comemoração de suas duas décadas, do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde ganhou o prêmio, em 1996, de Melhor Filme do Júri e da Crítica, tornando-se "um marco na 'retomada do cinema brasileiro', participando de diversos festivais internacionais", na palavras do próprio festival. O encerramento da edição deste ano do evento, aliás, aconteceu com a reexibição do longa-metragem. O livro de Paulo Cunha e Amanda Mansur, uma compilação de diferentes textos sobre a obra, além de imagems de still e todo o roteiro original do filme (rascunhado), vem reforçar o coro de legitimação em torno dessa história que mergulha na vida de Lampião e seu bando a partir da perspectiva de bastidor, puxada pelas lentes do fotógrafo Benjamin Abrahão que ajudaram a construir um mito.



    Ao longo das 270 páginas d'A aventura do Baile perfumado, podemos ler uma análise histórica de Frederico Pernambucano de Mello sobre Abrahão, nas suas palavras "o aventureiro nascido em Bethlem, na Terra Santa - conterrâneo de Jesus, para delírio do Padre Cícero". Podemos ler também uma reportagem sobre cangaço e cinema escrita pelo crítico Fernando Spencer para o Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado. O mais importante desse livro, contudo, é o apanhado que faz de todo o processo de produção do filme, com depoimentos dos dois diretores; do roteirista e também assistente de direção Hilton Lacerda; de Luiz Carlos Vasconcelos, que atuou no papel de Lampião; dos assitentes de produção Marcelo Gomes e Cláudio Assis (hoje, diretores consagrados da cena local); do diretor de arte Adão Pinheiro, artista plástico que anda sumido do Recife; entre outros.

    Por todo o seu conteúdo, este é um livro para apreciadores do cinema e profissionais do audiovisual. Mas, por toda a história do filme, a publicação é capaz de abarcar um público mais amplo de músicos, artistas, jornalistas, historiadores, geógrafos, sociólogos, antropólogos e demais interessados na história da nossa produção cinematográfica e na própria história de Lampião, que ganhou novos vernizes depois de Baile perfumado, a ponto de ser esta uma obra de frames bastante marcados em nosso imaginário. Até porque a narrativa é metalinguística; imagem dentro de imagem, filme dentro de filme, o que potencializa justamente a força de uma narrativa feita em pleno Sertão nordestino, em torno de um grupo clandestino que, como sabemos, virou a bandeira de um Nordeste afoito e resistente.

    Além disso, nos lembra os organizadores do livro, em Pernambuco havia, naqueles meados de 1990, "o adensamento de um conjunto de sentimentos comuns, que visavam romper com o isolamento cultural de Pernambuco". Estás falando, claro, do Manguebeat. E Baile perfumado é um filme com todas as estéticas e pessoas desse movimento. Se o filme se tornou, portanto, "um catalisador de tensões diversas", temos muitas razões para desvendar, por meio dessas páginas, a história de toda essa aventura que foi filmar em Pernambuco há 20 anos atrás.

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    Veja filme completo aqui:

  • Quais os melhores filmes de 2016?

    Paul Verhoeven, Kleber Mendonça Filho, Maren Ade, Vincent Carelli, Déa Ferraz e Gabriel Mascaro entre os mencionadosPaul Verhoeven, Kleber Mendonça Filho, Maren Ade, Vincent Carelli, Déa Ferraz e Gabriel Mascaro entre os mencionados

    Toda lista é pessoal e intransferível, como os documentos de identidade e as passagens aéreas. E toda lista diz muito tanto de quem a compila, a exemplo dos convidados pela Continente para relacionar os melhores filmes de 2016, como do espírito do tempo que ela, de alguma forma, irá capturar.

    Assim, a pergunta clássica – quais os melhores filmes deste ano que se vai? – foi debulhada por seis pessoas que se devotam a pensar e fazer cinema. Algumas interseções são sintomáticas, a exemplo de Elle, de Paul Verhoeven, e de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho – dois dos filmes que mais têm aparecido nas listas internacionais. Outros destaques, como Martírio, de Vincent Carelli, e As montanhas se separam, de Jia Zhang-ke, são apontados como espelhos perfeitos para, respectivamente, o massacre indígena em território brasileiro e os fluxos tenebrosos do capitalismo.

    E há ainda as escolhas afetivas, subjetivas e extremamente particulares, que tornam cada lista ainda mais cativante.

    Alexandre Figueirôa
    Crítico, pesquisador e professor da Unicap

    "Martírio". Foto: Divulgação"Martírio". Foto: Divulgação

    Em 2016 três filmes me impressionaram:

    Martírio
    , de Vincent Carelli
    Um documentário fundamental para conhecer o terrível destino dos povos indígenas no território brasileiro.

    Câmara de espelhos, de Déa Ferraz
    Um filme-dispositivo corajoso e necessário sobre o machismo.

    Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
    Obra que espelha os dilemas da classe média brasileira diante da fúria desenfreada das empreiteiras e a desumanização das cidades brasileiras.


    Alysson Oliveira
    Jornalista, escreve sobre cinema para o Cineweb e Agência Reuters e é mestre e doutorando em Letras pela USP, onde pesquisa as relações entre política, ficção científica e utopia.

    "As montanhas se separam". Foto: Divulgação"As montanhas se separam". Foto: Divulgação

    1. As montanhas se separam, de Jia Zhang-ke
    Um filme sobre o estado das coisas, o movimento do capitalismo, e porque é muito provável que o futuro não dê certo também

    2. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
    As ilusões perdidas e o fracasso das utopias dos anos de 1960, ou de como tudo aquilo deu nisso

    3. O filho de Saul, de László Nemes
    Quando a forma e o conteúdo se encontram para falar dos horrores de que o ser humano é capaz

    4. As mil e uma noites (3 volumes), de Miguel Gomes
    Políticas de austeridade e crises econômicas moldando as crises morais, sociais e emocionais, mas também pode ser um filme sobre o futuro do Brasil

    5. O cavalo de Turim, de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky
    “É assim que o mundo acaba, não com uma explosão, mas com um suspiro”

    6. Cemitério do esplendor, de Apichatpong Weerasethakul
    “O sono da razão produz monstros”

    7. A chegada, de Denis Villeneuve
    O que toda ficção científica gostaria de ser, com cérebro e coração os lugares certos

    8. Elle, de Paul Verhoeven
    Um filme que entende que existe ambiguidade no mundo

    9. Campo grande, de Sandra Kogut
    Um país cindido e o som que fica ao redor das pessoas

    10. O que está por vir, de Mia Hansen Love
    Mlle. Huppert rules, num filme sobre nada e sobre tudo!


    Emilie Lesclaux
    Produtora (Aquarius, Permanência)

    "Toni Erdmann". Foto: Divulgação"Toni Erdmann". Foto: Divulgação

    Toni Erdmann, de Maren Ade
    É o filme mais original que vi esse ano. Navega entre comédia absurda, drama intimista e crônica social de uma maneira muito inteligente.

    Boi neon, de Gabriel Mascaro

    Elle, de Paul Verhoeven

    Julieta, de Pedro Almodóvar

    As montanhas se separam, de Jia Zhang-ke


    Marco Dutra
    Cineasta

    "10 Cloverfield Lane". Foto: Divulgação "10 Cloverfield Lane". Foto: Divulgação

    Segue uma lista (difícil fazer isso, mas vamos lá). A ordem é alfabética. Eu acredito que foi um ano interessante para os filmes de gênero: thrillers, filmes de horror, musicais. A lista reflete um pouco essa tendência - e também a presença de protagonistas femininas (em quase todos os casos).

    10 Cloverfield Lane, de Dan Trachtenberg
    Don't breathe, de Fede Alvarez
    Elle, de Paul Verhoeven
    The jungle book, de Jon Favreau
    The shallows, de Jaume Collet-Serra


    Natara Ney
    Montadora (Divinas divas, O mistério do samba)

    Talvez deserto, talvez universo. Foto: DivulgaçãoTalvez deserto, talvez universo. Foto: Divulgação

    Foram me chamar, eu estou aqui. Não faço listas. Vou guardando filmes, livros, pessoas e desejos em gavetas no meu coração. Esta escolha foi feita assim, abrindo gavetas do meu coração para projetos que me emocionaram. Peguei o caminho dos documentários para facilitar a jornada. Mais afeto para todos. E ultimamente Fora Temer.

    Série Noturnas, de Allan Ribeiro
    Projeto fundamental em tempos como esse. A história do travestismo no Brasil contada por artistas legendárias.

    Martírio, de Vincent Carelli
    Uma facada no coração.

    Talvez deserto, talvez universo, de Miguel Seabra e Karen Akerman
    O tempo esculturado com maestria

    Tempestade, de Tatiana Huezo
    Perdas, medo e uma jornada impressionante.


    Rodrigo Carreiro
    Professor e chefe do Departamento de Comunicação Social da UFPE

    "A bruxa". Foto: Divulgação"A bruxa". Foto: Divulgação

    A bruxa (The witch), de Robert Eggers
    O longa de Robert Eggers foi lançado no Brasil em março. Ambientado nos EUA do século XVII, e falado em inglês arcaico, retrata a saga de uma família de imigrantes expulsa de vila na Nova Inglaterra, que se vê obrigada a montar moradia no meio da floresta, nas mais inóspitas condições de sobrevivência. Não há espaço para piscadelas metalinguísticas, piadinhas debochadas, vultos correndo na frente da câmera ou barulhinhos sinistros nos canais surround. É um trabalho meticuloso de carpintaria cinematográfica, cada plano trabalhado com esmero e cuidado para ir imprimindo aos pouquinhos uma sensação de desconforto e desorientação. Elenco impecável, fotografia simples e de grande rigor formal, e um terceiro ato assustador, sem uma nota sequer fora do lugar. Grata surpresa que se sustenta admiravelmente diante do hype enorme entre fãs do gênero horror.

    Boi neon, de Gabriel Mascaro
    Um excelente estudo de personagem que investe em múltiplos temas e acerta todos. Maduro e muito bem filmado (bela fotografia, em especial nos vários planos-sequência com câmera fixa, construídos com tanta discrição que são capazes de passar despercebidos), o trabalho de Gabriel Mascaro documenta os modos como a cultura pop sempre dá um jeito de se infiltrar, às vezes de maneiras pouco ortodoxas, no cotidiano de gente de todos os lugares e classes sociais. De quebra, trabalha superbem com questões envolvendo sexualidade e gênero, com interpretações bem naturalistas.

    Sob a sombra (Under the shadow), de Babak Anvari
    Filmaço de horror iraniano sobre uma entidade sobrenatural do folclore do Oriente Médio que persegue uma família durante a guerra Irã-Iraque. Política e feminismo estão entre os temas tocados discretamente pelo filme simples e brilhante do jovem diretor Babak Anvari, que construiu alguns momentos de puro e genuíno terror.

    O lamento (The wailing/Goksung), de Hong-jin Na
    Policial sul-coreano investiga onda de assassinatos violentos e inexplicáveis em aldeia rural do país. Um dos grandes filmes de horror de 2016, mais uma obra-prima cometida por Hong-jin Na, mesmo diretor do incrível O caçador. Uma das melhores histórias de fantasma dos últimos anos, com ótimos atores, muitas referências ao clássico Contos da lua vaga, de Kenji Mizoguchi, e um clímax realmente assustador.

    Elle
    Envolto em acusações de misoginia por supostamente glamourizar uma cena de estupro (que abre o filme), o longa francês revitalizou a carreira de Paul Verhoeven. Trata-se de um retrato multifacetado da complexa personalidade de uma mulher autoritária (magnificamente interpretada por Isabelle Huppert) que conviveu na infância com o trauma de ter um pai serial killer famoso em todo o país.

    Stranger things
    A série de seis episódios da Netflix funciona como um grande filme, que no meio do ano atraiu um grande hype e críticas igualmente demolidoras. Não é uma obra genial, mas tem solidez narrativa, bons atores, roteiro simples e objetivo, algumas cenas muito boas e uma conclusão firme, sem deixar no final (como gancho para futuras temporadas) aquele emaranhado de pistas falsas e pontas soltas que as séries americanas tanto gostam.