• Almodóvar e a dor como condição de vida

     Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

     

    Uma dor simbólica e fisiológica. É sobre todos os percursos da dor de que trata Pedro Almodóvar em seu mais recente longa-metragem, Julieta, que estreia nesta quinta (7/7) nas principais salas de cinema do país. A paisagem fria do Canadá e o tom contido da escritora Alice Munro, Prêmio Nobel de Literatura de 2013, foram adaptados a uma Espanha que oscila entre uma estética dos anos 1980 típica do cineasta (como em Mulheres à beira de um ataque de nervos) e a sobriedade. Os contos Destino, Logo e Silêncio, de Munro, serviram de mote para que Almodóvar construísse sua narrativa: recuperando-se da morte do marido, Xoan, a protagonista do filme (Emma Suárez/Adriana Ugarte) precisa lidar com o desaparecimento espontâneo da filha (Blanca Parés). Ao completar 18 anos, Antía despede-se da mãe para ir ao um retiro espiritual e resolve desaparecer quase que completamente – para Julieta, mais um outro tipo de morte.

     

    Em Antropologia da dor, o francês David Le Breton recorre a duas grandes divisões do sofrimento: as dores agudas e as crônicas. O primeiro tipo engloba o que poderíamos chamar de sofrimentos transitórios, cujo motivo é facilmente identificável, de alguma maneira passível de ser remediado e que não chega a comprometer o senso de identidade do indivíduo. A primeira dor sentida por Julieta no filme ocorre em uma viagem de trem, pouco antes de conhecer Xoan. Um desconhecido aproxima-se de seu vagão e insiste em conversar com ela. Julieta irrita-se com a insistência, há algo no olhar do homem que a assusta, e sai da cabine. Pouco depois, ele se suicida. Embora se abale por não ter percebido a situação de urgência e por se dar conta de que poderia ter alterado o destino dele se tivesse aceitado o convite ao diálogo, Julieta segue com sua vida, vai trabalhar como professora de filologia e, assim, pode-se dizer que seu senso de si mesma não é ameaçado pela dor que experimenta.

     

    Já as dores crônicas, observa Breton, representam um “entrave à existência”. Ainda segundo o autor, esse tipo de sofrimento está associado ao que é irremediável e, portanto, ameaça se instalar. Há algo mais irremediável que a morte? É a partir da morte do marido que Julieta inicia o percurso de uma dor que oscila entre a melancolia, a tristeza e a fúria, e culmina na “dor total”, à qual se refere Breton. O ápice da dor da personagem é representado pela ausência de Antía. Algumas cenas dão corpo à devastação de Julieta diante da falta da filha e da incerteza da sua volta, como o ritual de comprar um bolo de aniversário para Antía e jogá-lo no lixo. Qual é a função de um bolo comemorativo que não se divide com ninguém, ou que remete a uma pessoa que não está presente? “Não houve mensagem no Natal. Mas, em junho, no outro cartão, bem no estilo do primeiro, sem qualquer palavra escrita”, escreve Munro, em Silêncio, sobre o único meio de contato utilizado por Antía.

     

    Qual seria a moral da dor? A ideia ocidental entende que a dor existe para que se passe por uma provação divina ou se partilhe com Deus a dor. Nesse caso, o indivíduo é mais ou menos isentado de culpa. A perspectiva oriental, no entanto, associa a dor a uma justiça transcendente, relativa a vivências passadas. O ser que tem dor precisa passar por ela. Antía chega a dizer, em dado momento do filme, que cada um tem a dor que merece. De todo modo, as duas possibilidades de interpretação metafísica da dor não são de todo punitivas, pois a elas são atribuídos valores de purificação. O longa de Almodóvar não aponta nem propõe uma moral da dor. As personagens, sobretudo Julieta, experienciam o sofrimento como uma condição da vida, ou, como diz Breton, “como uma abertura para o mundo”.

     

    O filme nos diz, na verdade, que todos os problemas da origem são insolúveis, porque remete sempre a questões, percepções, angústias que passaram despercebidas e, no entanto, foram primordiais para o cenário de descompasso. Almodóvar faz uma espécie de elogio da dor às avessas: sem romantizá-la ou traçar o falso caminho de início-apíce-fim do sofrimento, em Julieta, a dor adquire força e atinge em cheio o espectador somente porque, para além da superação (a superação, aliás, existe?), o indivíduo que sofre encontra-se com a dor do outro.

     

    Assista ao trailler de Julieta:

     

     

  • O mosaico de Almodóvar por Silvia Oroz

    "Tudo sobre minha mãe". Foto: Teresa Isasi/El Deseo/Divulgação"Tudo sobre minha mãe". Foto: Teresa Isasi/El Deseo/Divulgação

    Toda a valoração do cinema latino-americano implica necessariamente uma valoração dos gêneros sobre os quais baseou seu desenvolvimento industrial: a comédia e o melodrama, ou, como o público dizia: os 'filmes para rir' e os 'filmes para chorar'. Esta divisão foi a forma espontânea de reconhecimento do poder do espetáculo-divertimento existente naquela produção.”Foi assim, no livroMelodrama – O cinema de lágrimas da América Latina (Rio Fundo Editora, 1992),que aprofessora e pesquisadora argentina Silvia Oroz,há muito radicada no Brasil, contextualizou os gêneros fílmicos que lastreiam a própria ideia de um cinema latino-americano.

    Silvia esteveno Recifeno último fim de semana(13 e 14/5)para falar de um realizador que,embora nascido na Europa,ampliou as possibilidades de conjunção entre a comédia e o melodrama e, por conseguinte, aumentou o poder de fascínio do “espetáculo-divertimento”feito com os amores, humores e sabores dos latinos: o espanhol Pedro Almodóvar. Ela é uma das curadoras,ao lado do jornalista Breno Lira Gomes,daretrospectivaEl deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar,que entra na sua segunda semana na Caixa Cultural Recife (ver programação completa AQUI).

    Só por exibir a totalidade da filmografia do cineasta deAta-me(1989) eCarne trêmula(1997),El deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvarjá seria uma mostra mais do que louvável. No entanto, a retrospectiva tambémbuscou propiciar aoportunidade de uma investigação maisdensa sobre os matizes – estéticas,políticos, sociais –do cinema almodovariano.O próprio catálogo, aliás, é testemunho disso, com uma considerável fortuna crítica de artigos e entrevistas (em formato PDF, pode ser lido e baixado AQUI).

    Na sexta(12/5)e no domingo(14/5) passados, respectivamente,Silvia Orozparticipou do debateOcinema dePedro Almodóvare comandou umamaster class sobre as relações entre Almodóvar e o melodrama –e esta, mesmo se tratando do Dia das Mães, levou um excelente público ao centro cultural, no Bairro do Recife.Antes de conversar com os recifenses sobre “um dos cineastas mais contemporâneos da atualidade”, a professora de Cinema da Universidade Estácio de Sá e da Facha,também por anos curadora de pesquisa da cinemateca do MAM/RJ, falou àContinente sobre o vulcão Almodóvar.Os filmes dele são híbridos que partem do melodrama para se fundir à comédia, à farsa, ao musical. Ele faz um mosaico de raiz melodramática”, descreve. A filiação do espanhol ao melodrama e sua liberdade para reinventá-lo e subvertê-lo foi o motor da entrevista que ela concedeuabaixo

    CONTINENTE EmMelodrama – O cinema de lágrimas da América Latina,você analisa como o gênero foi moldado pelos diretores e, ao ser bem-recebido pelas plateias, se transformou num dos marcos do cinema latino-americano. Como Pedro Almodóvar se encaixa nisso?
    SILVIA OROZ Almodóvar é um expoente muito interessante do melodrama latino-americano, mas um melodrama que não é o mesmo dos anos 1930, 1940 e 1950, e sim um melodrama de outro tipo, um melodrama híbrido. Seus filmes se inscrevem dentro do processo de hibridismo cultural. São híbridos porque misturam melodrama com farsa, comédia, musical… Ele faz um mosaico de raiz melodramática. Estão lá os elementos clássicos do gênero – amor, poder, morte, perda –, mas ele os utiliza com um lado bem irônico. A morte é descrita por um viés cômico, coisa que não acontecia nos melodramas clássicos. O que Almodóvar faz é atualizar o melodrama.

    CONTINENTE Isso é algo que se percebe desde os primeiros filmes dele,que remontam ao início dosanos 1980?
    SILVIA OROZSim, sem dúvida, e que explode com Mulheres à beira de um ataque de nervos(1988). Amor, ódio, morte, tudo aparecia misturado de um modo bem pós-moderno, totalmente contemporâneo. Era a Espanha pós-Franco, então o desbunde espanhol surgia com toda força. Os filmes dele dessa época são, às vezes, uma salada russa, com esculhambação, com deboche, com muito frescor. Mulheres..., por exemplo, é um dos primeiros filmes a colocar o fim do patriarcado. As personagens femininas eram poderosas; aliás, ele criou uma tradição de figuras femininas fortes e fantásticas. Acho que tem a ver a própria criação dele.

    Silvia Oroz. Foto: DivulgaçãoSilvia Oroz. Foto: Divulgação

    CONTINENTE
    Ele já falou, em diversas entrevistas, da infância cercado de mulheres, numa cidade próxima a Madri.
    SILVIA OROZEle cresceu cercado pela mãe e pelas tias, todo imerso num mundo feminino. O mundo de Almodóvar como cineasta não é muito diferente do que ele vivenciou como criança. Todas as mulheres de seus filmes parecem de carne e osso. Acho que é por isso também que ele constrói suas relações com as atrizes. Durante um tempo, o primeiro da sua carreira, ele foi casado com Carmen Maura. Depois, vieram Victoria Abril, Marisa Paredes, Penélope Cruz... Adoro Carmen Maura, ela era um gênio de mulher e um elemento fundamental do primeiro Almodóvar. Já Marisa é muito mais melodramática. A relação que ele construiu com elas foi uma espécie de casamento mesmo. Como Godard e Anna Karina, e Roberto Rossellini e Ingrid Bergman. Almodóvar casa com essas mulheres seguindo uma etapa cultural de sua subjetividade e todos os filmes são pensados pela perspectiva da mulher que ele escolheu. Isso é o que faz esse universo feminino dele tão rico. Ele tem um carinho por essa mulherada, trabalha suas personagens com empatia total, se coloca dentro das personagens. Já elas dão tudo de si, se entregam a essa paixão almodovariana. Isso é muito interessante.

    CONTINENTEComo é que isso tudo transborda para a concepção imagética?
    SILVIA OROZA paleta de cores dele se baseia no Cinemascope, o tipo de película e projeção que era vanguarda quando ele era pequeno. Essas são as cores – exuberantes, fortes – que ficaram fixadas na subjetividade dele. E o que ele faz com essa paleta é fascinante. É uma paleta que viaja. Há sempre um elemento na mise-en-scène para reforçar essa paleta de cores… Até os lábios das protagonistas reforçam isso, seja no batom vermelho que a personagem de Penélope usa em Volver(2006), seja no que a personagem de Victoria Abril usa em Ata-me.

    CONTINENTEVocê acha que esse cuidado na composição da imagem atinge o ápice na fase mais madura dele, que começa em 1997, comCarne trêmula,e temTudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002) eVolver?
    SILVIA OROZAcho que esses são filmes muito perfeitos. A imagem é perfeita, assim como a atuação, mas eu prefiro a imperfeição. Como cineasta, ele pode amadurecer, mas não pode deixar de lado sua face brincalhona, contestadora. Eu gosto mais de um filme como Os amantes passageiros (2013), em que ele volta a flertar com os limites da esculhambação, do que de A pele que habito (2011), por exemplo, em que é muito acadêmico. Todos esses filmes que você citou não são ruins, muito pelo contrário, são perfeitos demais. O que me perturba é essa perfeição.

    CONTINENTEÉ como se Almodóvar tivesse se domesticado então?
    SILVIA OROZExatamente. Tem a ver com a idade, com o Oscar (Almodóvar levou a estatueta de melhor filme estrangeiro porTudo sobre minha mãe e a de melhor roteiro original porFale com ela), com a vida em geral… 

    CONTINENTEPartindo daí, uma curiosidade: você consideraAta-me mais filme do queVolver, por exemplo?
    SILVIA OROZ Ah, claro. Mas isso é gosto pessoal.

    Almodóvar (direita) dirigindo "Maus hábitos". Foto: Ana Muller/El Deseo/DivulgaçãoAlmodóvar (direita) dirigindo "Maus hábitos". Foto: Ana Muller/El Deseo/Divulgação

    CONTINENTEComo percebe Pedro Almodóvar diante do mundo em que vivemos hoje?
    SILVIA OROZO que é preciso ressaltar é que, mesmo domesticado, como eu costumo dizer, mesmo abrindo mão da esculhambação, Almodóvar é um cara absolutamente contemporâneo.Seus filmes anteriores, mais iconoclastas, falavam de divórcio quando ainda era um tabu. Depois, ele falou de HIV, do abuso sexual dos padres católicos, do sexo entre homens. A cena de sexo deA lei do desejo, com Antonio Banderas,é emblemática até hoje. Hoje, seus filmes refletem as conversas que temos com nossos amigos, o cotidiano, a matéria de que é feita a vida. Eu prefiro o Almodóvar deMaus hábitos(1983) eQue fiz eu para merecer isto? (1984), mas é inegável que ele é um dos cineastas que mais dialoga com a contemporaneidade. Todos os temas que ele abraça vêm envoltos na contemporaneidade, com tudo que ela tem de excessivo, de performático e contraditório.

  • Todo Almodóvar: uma retrospectiva

    Pedro Almodóvar, o diretor. Foto: Paola Ardizzoni & Emilio Pereda/DivulgaçãoPedro Almodóvar, o diretor. Foto: Paola Ardizzoni & Emilio Pereda/Divulgação

    Que Pedro Almodóvar é um dos cineastas mais admirados da contemporaneidade não é novidade alguma. Que o diretor espanhol é um dos expoentes máximos do melodrama latino-americano, também não. E que seus filmes transbordam e ultrapassam a fronteira audiovisual, influenciando de coleções de acessórios de moda a livros e pinturas, eis uma constatação fácil de se obter. A diferença deste maio chuvoso é a oportunidade de ver, rever e se apaixonar por cada um dos seus 22 longas-metragens, bem como de mergulhar nas nuances estéticas e políticas de seu processo de criação cinematográfica. Vai até o próximo dia 20/5, na Caixa Cultural Recife, a retrospectiva
    El deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar.

    Com curadoria do jornalista Breno Lira Gomes e da professora Silvia Oroz, argentina radicada no Brasil e especialista na obra do realizador, a mostra abrange também um olhar crítico sobre essa produção. Haverá um debate na próxima sexta à noite, com participação dos dois curadores, e também umamaster class com Silvia Oroz, com foco nas especificidades que caracterizam a filmografia de Almodóvar. “Ele é um cineasta absolutamente contemporâneo. Todos os temas que ele abraça vêm envoltos na contemporaneidade, com tudo que ela tem de excessivo, de performático e contraditório”, observa Silvia em entrevista àContinente.

    Dessa forma, o público poderá ter acesso à fase inicial da constituição de Almodóvar como cineasta, que a curadora descreve como um “Almodóvar mais indomável”, em filmes comoMaus hábitos (1983),Que fizeupara merecer isto? (1984) e aquele que o fez explodir para além da Espanha Mulheres à beira de um ataque de nervos, de 1988. E poderá cotejar tais produções com as suas incursões mais amadurecidas, a exemplo deTudosobreminhamãe(1999),Fale com ela(2002)eVolver (2006).O último filme dele,Julieta, integrante da competição oficial de Cannes em 2016, também será exibido.

    As sessões terão ingressos a preços módicos -R$ 4 e R$ 2 (meia);o debate e amaster class terão acesso livre, com distribuição de senhas algumas horas antes. Veja a programação completa abaixo.

    Confira programação:

    Terça,09/5

    17h -Pepi, Luci, Bomeoutrasgarotasdemontão(1980,1h20, 18 anos)

    19h -Labirinto de paixões(1982,1h40, 18 anos)

    Quarta,10/5

    17h –Maus hábitos (1983,1h55, 18 anos)

    19h15 –Que fiz para merecer isto? (1984,1h42, 14 anos)


    Quinta,
    11/5

    17h –Matador (1986,1h36, 18 anos)

    19h - Alei do desejo (1987,1h40,16 anos)


    Sexta,
    12/5

    17h –Filmes que marcaram época: Tudo sobre minha mãe (52',10 anos)

    18h10 –Tudo sobre o desejo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar (49',10 anos)

    19h15 – Debate: O cinema dePedro Almodóvar (90')


    Sábado,
    13/5

    15h –Kika (1993,1h52,14 anos)

    17h15 –De salto alto(1991,1h53,16 anos)

    19h30 –Mulheres à beira de um ataque de nervos(1988,1h35, 12 anos)


    Domingo,
    14/5

    16h – Master class: Pedro Almodóvare omelodrama(120')


    Terça,
    16/5

    17h -Aflor do meu segredo (1995,1h42, 14 anos)

    19h –Ata-me! (1989, 1h41,18 anos)


    Quarta,
    17/5

    17h -Carne trêmula(1997,1h39,18 anos)

    19h –Tudosobreminhamãe(1999, 1h40,14 anos)


    Quinta,
    18/5

    17h –Má educação (2004,1h45, 18 anos)

    19h –Fale com ela(2002, 1h52, 14 anos)


    Sexta,
    19/5

    17h –Abraços partidos (2009,2h09,14 anos)

    19h15 –Volver (2006,2h01,14 anos)


    Sábado,
    20/5

    15h –Amantes passageiros (2013, 1h31, 16 anos)

    17h –Apele que habito (2011,2h13,16 anos)

    19h30 –Julieta (2016,1h39, 14 anos)



    SERVIÇO

    Eldeseo – Oapaixonantecinema de Pedro Almodóvar

    Caixa Cultural Recife(Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife, Recife/PE)
    De 9 a 20 de maio de 2017

    Telefone:(81)3425-1915

    Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia). O debate e a master class têm entrada gratuita: para o debate as senhas serão distribuídas a partir das 10h;para a master class, a partir das 15h.