• A vlogueira Kéfera Buchmann e a narradora Karen Blixen

    Ilustração: Janio SantosIlustração: Janio Santos

    Meu avô paterno José Leandro percorria a cavalo as dez léguas que separavam sua fazenda Rosário, em Várzea Alegre, das terras do mano João Leandro, no Crato. Eu poderia ter registrado sessenta quilômetros, mas não me agrada essa medida carente de poesia. Luiz Gonzaga gravou “Oh, que estrada mais comprida / Oh, que légua tão tirana” e “Eu já andei sem parar dezessete légua e meia”. Não teria a mesma beleza se cantasse quilômetro no lugar de légua.

    José Leandro certamente não se ocupava com essas questões, enquanto esporeava o cavalo. Costumava visitar o único irmão homem, trocava experiências e conselhos com ele. De noite cedo, depois da janta, os dois armavam as redes na sala de visitas, escanchavam-se nelas como se fossem montarias e conversavam. Eram homens mansos, trabalhadores, começaram bem pobres e tornaram-se donos de terras, engenho de cachaça e rapadura, criatório de gado. Podiam se dizer ricos, num tempo em que a riqueza não implicava em luxo, ostentação e consumo. O mundo sertanejo primava pelo desconforto, linhas retas, amplidões e vazios.

    Naquele encontro, talvez se perguntassem se havia futuro em plantar algodão. José Leandro, com a família grande de nove filhos, se mostrava temeroso. Habituara-se ao cultivo de arroz, milho, feijão, fava, cereais que garantiam o sustento da casa desde o casamento. Num ano bom de inverno, colhia oitocentos sacos de sessenta quilos de arroz, o que representava muito, considerando as dificuldades em escoar a produção agrícola. Quase tudo que se plantava era consumido. Quando o meu avô decidiu comprar uma máquina de costura para as filhas, precisou vender dez bois e boa parte da safra de arroz.

    Numa das raras fotos de José Leandro, com a esposa, os nove filhos, um genro e o neto, ele se revela pequeno, os cabelos finos e poucos, os olhos quase fechados sugerindo a miopia, os lábios retraídos para o lado direito do rosto, em suma, um homem sem atrativos físicos. Morreu cedo, aos 54 anos, de febre tifoide. Dizem que nunca alterava a voz e o único impropério que saía de sua garganta era o nome “corno”. À primeira vista se reconhece no retrato um português do norte, chegado ao Recife pelo século XVII, migrado para o sertão dos Inhamuns e depois para o cariri, de genética bem preservada em casamentos consanguíneos, com alguma mistura indígena, pois os homens se uniam às índias por conselho da Coroa e da própria Igreja. Também se tem notícia e provas de cristãos novos batizados em pé, baldeando essa genética dos primeiros colonizadores cearenses.

    João Leandro fazia o percurso contrário, do Crato a Várzea Alegre, com o mesmo pretexto de visitar o irmão e permanecer um tempo de homem atarefado, suficiente para uma conversa noite adentro, em fala baixa, que mal se escutava a um metro de distância. A reserva dos homens enchia minha avó ciumenta de curiosidade. Naquele mundo longe, ainda sobrava tempo e assunto para as conversas. Histórias da família se armazenavam na memória como os legumes nos paióis, recontadas muitas vezes, sem acréscimos. Os homens se promoviam a guardiões das lembranças. Nosso tio Raimundo era preciso, seco e cortante como a prosa de Juan Rulfo. Seus relatos nunca se modificavam, nem mesmo nas pausas. Sabia modular a voz em tragédias e comédias, com sutilezas de um homem sábio. As frases curtas e a máscara facial correta provocavam suspense na plateia. A mais perfeita literatura oral.

    O meu pai, João Leandro como muitos na família, era proustiano. Suas histórias primavam na reprodução de cenários, descritos antes dele introduzir os personagens no enredo. Possuía requintes de Sherazade, enfiava narrativas dentro de narrativas, edificando espirais de contos que se fechavam de maneira surpreendente. Quando narrava acontecimentos familiares para os irmãos, ninguém acreditava que ele tivesse guardado detalhes esquecidos por todos os demais, e fosse capaz de reconstituí-los com tamanha precisão.

    Perdemos o hábito das conversas, a paciência de ouvir e narrar. Até nos celulares as pessoas preferem as mensagens ligeiras, escritas no whatsapp, ou as falas curtas das gravações. As imagens se tornaram mais reais e eloquentes do que a presença física de corpo, voz, suor, odor e saliva. Nos bares, nas praças, nas festas, nos restaurantes, sons estridentes tramam contra nossa voz. Já não se pode dizer que vivemos para narrar, pelo menos da maneira como se narrava antigamente.

    O escritor paulista Ferréz, numa conversa de aeroporto, me garantiu que no Capão Redondo, em São Paulo, onde acontecem as histórias dos seus romances, contos e poemas, a oralidade continua viva, apenas assumiu formatos novos.

    Tento compreender o fenômeno Kéfera Buchmann, a vlogueira de 23 anos, que atrai milhões de pessoas, sobretudo adolescentes, com filmes de cinco minutos, no YouTube, onde assume o lugar de narrador provocativo, falando as coisas mais insólitas. E que vende, vende muito, como deseja o mercado e, talvez, ela própria. Kéfera foi eleita pela revista Forbes uma das jovens mais promissoras do Brasil. De atriz a youtuber com mais de 9,4 milhões de inscritos, transformou-se em escritora e foi promovida ao ofício de narrar.

    Mas eu me refiro nessa crônica a outros tipos de narradores, àqueles que transportam seus espíritos para longe, construindo linguagem e poesia, metafísica e pensamento, como se propunha a dinamarquesa Karen Blixen. Na solitária fazenda africana, no Quênia, onde viveu cerca de vinte anos, durante os anos de estiagem ela escrevia para matar o tempo, enquanto esperava as chuvas. Inventava histórias que narrava a um único ouvinte, o seu amante inglês.

  • Adeus, Guita Charifker

    Aquarela de Guita é inspiração de vidaAquarela de Guita é inspiração de vida

    Abandonei
    a sala antes de projetarem as imagens de cachoeiras, vales, lagos, despenhadeiros e campos floridos, com frases sobre o bem e a eternidade. O mesmo repertório de outras despedidas, a músicanew age e as pétalas de rosas caindo do alto, enquanto o ataúde era engolido para dentro de um espaço obscuro. Imaginei a morta sentada numa poltrona na primeira fila do velório, olhando a cena com humor cáustico e reclamando.

    Por que não escolheram uma canção de Chico Buarque? Melhor se mostrassem minhas aquarelas, ao invés dessas paisagens!

    Guita Charifker morreu. Antes que ela virasse sonho eterno, já havia largado a pintura há mais de dez anos e, lentamente, como crepúsculo boreal, a paixão pela vida. Fiel à sua rebeldia exigiu ser cremada, contrariando as leis do povo judeu.

    Espalhem as cinzas no jardim de minha casa.

    A casa do Amparo, em Olinda, que ela comprou e restaurou com a venda de desenhos e aquarelas. Ampla, alta, caiada de branco, dando para o quintal e os jardins, que haviam sido um horto botânico, há muitos anos. As portas e janelas se abriam para o mundo, acolhedoras às ideias arejadas e às pessoas amigas. Guita e a casa viraram uma mesma entidade generosa e desapegada.

    Entre, fique pro almoço. Joaninha fez um doce de banana com frutas do quintal.

    (Joaninha, a servidora fiel, partiu um mês antes. Foi abrir a porta do céu e arrumá-lo.)

    Guita fala por nada uma de suas frases habituais:

    É muita coisa acontecendo.

    Muita, nos papéis espalhados sobre a mesa de trabalho e com os pincéis trazidos do Japão por alguém.

    Nem lembro quem trouxe, ando esquecida. Envelhecer é péssimo.

    Acende um cigarro.

    Dizem que faz mal. Eu, hein? Uma coisa tão pequena fazer mal!

    E logo em seguida:

    Só quero viver enquanto trabalhar. É chato depender dos outros.

    Mostrava os pés de jasmim floridos. No fundo do quintal, o cajazeiro secular tombou. Queixava-se das freiras de Santa Gertrudes. Não sei o que elas fizeram, mas eram as culpadas, eu concordava.

    O pior é o calor. Sou judia de Olinda, a reencarnação de Branca Dias. Dizem que ela jogou as jóias no rio do Prata. Minha avó perdia tudo o que usava. Um dia, eu saí pro carnaval, e quando voltei pra casa estava sem o anel de brilhante. Não sei quem arrancou do meu dedo.

    Um presente do sogro joalheiro.

    Seu Samuel me deu muitas joias. Empenhei todas na Caixa do Rio de Janeiro e nunca fui buscar. Eu, hein? Não me acostumo ao calor. Minha família veio da Ucrânia, lá faz bastante frio.

    O pai e a mãe chegaram da Europa Central, no porto do Recife, em 1915, fugindo aospogroms, aos campos de concentração, ao holocausto. Guita nunca tinha certeza do local exato de origem. A geografia na Europa se redesenhou em sucessivas guerras, revoluções e anexações de territórios.

    Rosa e Salomão Greiber parecem pequenos, numa foto com Guita e o filho mais novo. Há tanta beleza e harmonia no retrato, dói saber que os dois morreram cedo, vítimas de tuberculose.

    O neto lê um necrológio em que lembra o ecumenismo da avó. Ela se declarava uma judia filha de Oxum, devota de Santa Clara, simpatizante de religiões orientais.

    Que sua recusa a qualquer tipo de intolerância sirva de exemplo, proclama.
    Amém.

    Às nossas costas, fecham as portas corrediças e ficamos trancados no cubículo. Vai ter início a solenidade de cremação.

    Revejo fotos de corpos amontoados em carroças, levados aos crematórios. Não consigo não pensar nessas coisas. Lacan fala em deslizamentos do inconsciente. As portas fechadas e o crematório me provocam avalanches de lembranças. Fujo da sala claustrofóbica. Lá fora, a tarde se põe linda, alegre como as aquarelas de Guita. Viva a vida! Sempre. Ela diria bebendo o uísque, fumando um cigarro, abrindo a mapoteca onde guardava os trabalhos que escapavam às vendas e aos presentes.

    Escolha uma gravura para Avelina.
    Não, Guita.
    Eu quero dar.

    Nas paredes da casa, desenhos minuciosos a bico de pena, figuras antropomórficas, que o tempo e a umidade de Olinda escureciam.

    Você é desleixada, Guita. Não basta ser pintora, é preciso zelo, catalogar o que faz. Com quem está o que saiu da mapoteca? Quem anota o destino do que você pinta?
    Não nasci com vocação para burocrata. Sou uma artista.

    Que pintou no México; em Santa Tereza e na Urca, quando morou no Rio de Janeiro; em Taiba, no Ceará; na ilha de Fernando de Noronha; séries exuberantes no Sítio Santa Clara, em Paulo de Frontin; muito em Olinda. E, bem mais tarde, na paisagem agreste de Chã Grande.

    Gosto desse ocre das novas aquarelas.

    Ela finge indiferença ao meu comentário. Respiramos as flores do jardim úmido. Há entre nós uma nostalgia lamuriosa. Conto pedrinhas recolhidas no quintal e nas viagens, arrumadas meticulosamente num batente do terraço. Uma ordem obsessiva. A mesa de trabalho se entulha de caixas vazias de chocolate, queijo, biscoitos... Parecem obedecer a um projeto. O mesmo do caixão de pinho, onde gravaram a estrela de Davi, as inicias do nome, e o corpo descansa por último, lacrado, sem chance de ser visto novamente. Um costume judaico que aprecio.

    Já vou, grita a velha empregada Joana, no andar de cima.
    Até amanhã, responde Guita.

    Os sabiás bebem água, escuto a porta bater, aceito um cigarro. Talvez seja o momento de ir embora. Contemplo a mulher com olhos sombreados de azul e batom rosa claro nos lábios. Já não sei que tempo é esse, se ontem, hoje ou amanhã. Distraí-me. Ela fala que não tem vocação para o casamento e que não há mistério em pintar aquarelas, basta água, tinta e paciência. Sorrio e me pergunto quantas vezes escutei isso. Abraço a artista admirável, sinto a força de nossa amizade.

    Lembro versos do poeta Assis Lima:

    Cabe-nos o presente,
    que, por sinal, já passou.”

    Despeço-me.

    Adeus, Guita, até quinta-feira. 

  • Crônica tirada de uma enfermaria de hospital

    Ilustração: Maria Julia MoreiraIlustração: Maria Julia Moreira

     

    Lucas tinha 22 anos quando veio do presídio para cuidar de um ferimento no pé. Durante uma rebelião de detentos ele se machucou, não recebeu atenção médica e a infecção ganhou os ossos. Ao vê-lo, ninguém apostaria tratar-se do mesmo garoto que, aos dezoito anos, foi flagrado com vinte e uma pedras de crack. Em quatro anos, emagrecera mais de trinta quilos. O retrato de admissão no presídio parecia de outra pessoa. Os olhos perderam o brilho e a vontade. Lucas carregava o corpo e a condenação sem julgamento.

    Desde os dezessete anos se metera no tráfico, consumindo e disputando territórios de venda entre os grupos rivais, numa cidade da Zona da Mata Sul de Pernambuco, onde a monocultura da cana e o legado da escravidão condenaram as pessoas à violência e à miséria. Num tiroteio de facções, uma bala atingiu a bexiga de Lucas e ele perdeu o controle sobre a vontade de urinar. Caminhava normalmente, mas fazia uso de fraldas descartáveis. Preso numa unidade ressocializadora, voltou para casa, ao consumo e ao tráfico, depois de meses. Nunca conhecera o pai. A mãe o acolhia como se ele fosse um castigo de Deus. No tempo em que ficou internado, ela o visitava com resignação e apatia. Deixava folhetos contendo a Palavra, colava alguns nos azulejos da enfermaria e cantava hinos com as mãos erguidas para o alto. Numa das visitas, trouxe o pastor da igreja evangélica que costumava frequentar, pagando um dízimo mensal de dez por cento do salário.

    Isolado por causa da bactéria que destruía o pé e a perna, Lucas não aceitava a comida e emagrecia visivelmente. Chamaram o médico clínico para assumir o caso e diagnosticou-se tuberculose no pulmão, em estágio bem avançado. Começaram um novo tratamento e pediram que Lucas usasse máscara para não contaminar as pessoas. Vigiado por dois agentes penitenciários, dia e noite, seu isolamento tornou-se maior, a tristeza um miasma sombrio como o dos mangues onde ele crescera entre os caranguejos. As bactérias e os bacilos minavam sua vida em decomposição. No dia em que o médico revelou a tuberculose, Lucas não tremeu. Mas quando lhe disse que o teste para AIDS havia sido negativo, os olhos do rapaz se encheram de lágrimas, ele fez um sinal da cruz atrapalhado e agradeceu a boa notícia.

    Dois garotos de dezessete anos se internaram com várias fraturas. Presos durante uma perseguição policial, fugiam em um carro roubado. O veículo capotou algumas vezes, sem matar ninguém. Quatro militares vigiavam os menores, além dos dois agentes civis responsáveis por Lucas. O clima nas enfermarias tornou-se igual ao das prisões, tumultuado e explosivo, com armas expostas, prontas a disparar. As fardas, os coletes à prova de bala, os revólveres e fuzis se misturavam aos ingredientes hospitalares: gritos, gemidos, sangue, fezes e pus. Os policiais cuidavam para os novos detentos não fugirem, nem serem resgatados por suas quadrilhas. Nervosos e agressivos, mantinham-se em permanente estado de alerta. Os garotos pareciam inofensivos e alheios ao futuro sombrio. Algemados nas camas de ferro, não aparentavam a alta periculosidade descrita no laudo pericial, nem a criminalidade dos currículos.

    Novos presos chegaram às enfermarias, com guarnições de mais quatro homens, estabelecendo-se uma atmosfera defront. Os médicos assistiam os detentos com indiferença pelos seus dramas, numa tentativa de se protegerem, diziam. Não perguntavam por suas histórias, limitando-se a examinar as fraturas e feridas. Os policiais queriam que todos eles morressem, pois se tratava de bandidos irrecuperáveis para a sociedade, segundo proclamavam aos berros, nos corredores do hospital. A violência das ruas se reproduzia no espaço sagrado de cura, com os mesmos ingredientes de ódio e indiferença. De um lado, prisioneiros considerados bandidos, no lugar de pacientes. Do outro, policiais armados, esperando uma chance de agir. E no meio desse fogo cruzado, a equipe de saúde tentando salvar as vidas, que a maioria preferia mortas.

    Lucas já não contaminava as pessoas com a tuberculose e foi transferido do isolamento para a enfermaria dos jovens delinquentes. Controladas as bactérias, ele não tinha chances de recuperar a função do pé e da perna, pois os ossos haviam sido destruídos. No dia em que o informaram sobre a amputação acima do joelho, ele não manifestou revolta. Aos vinte e dois anos, acostumara-se ao destino de sequelado.

    Um agente penitenciário chamava atenção por ficar a maior parte do tempo estudando. Formado em direito, queria especializar-se na recuperação de menores criminosos. Lia bons livros, parecia diferente dos colegas que falavam alto, diziam palavrões e se envolviam em namoros com as acompanhantes. Quando o médico clínico comunicou o retorno de Lucas ao presídio de origem, onde ele aguardava julgamento há quatro anos pelo tráfico das vinte e uma pedras de crack, o agente falou o mesmo que os policiais militares: melhor se tivesse morrido. Não existia nenhum futuro para Lucas. Solto ou na prisão continuaria se drogando. O médico se manteve em silêncio, talvez achasse que não havia recuperação para o agente, por mais que lesse a melhor literatura. Deu as orientações de alta, despediu-se de Lucas e desejou-lhe boa sorte.

    No dia seguinte, escutou-se um tumulto no posto de enfermagem. O clínico reclamava que não tinham enviadas as orientações sobre o tratamento da tuberculose, que deveria continuar por mais cinco meses. Descontrolado, gritava com a equipe. Queria saber se havia ocorrido desleixo ou boicote. Telefonou ao presídio e solicitou que o serviço social viesse apanhar o resumo de alta e as prescrições. Uma enfermeira chegou perto do médico, pediu calma e cochichou alguma coisa, que ninguém ouviu.

    Desleixo, boicote, que diferença faz? A vida custa barato no rateio dessa gente miserável, vale quase nada, menos que a barganha de Judas.

  • Eita vida besta, meu Deus!

    Arte sobre fotos de divulgaçãoArte sobre fotos de divulgação

    A praia
    de Carneiros parece ilha do Caribe, com tudo o que imaginamos existir num paraíso tropical: coqueiros, mangueiras, pés de fruta-pão, pássaros exóticos e manguezais repletos de guaiamuns, caranguejos e ostras. Um braço de mar avança por dentro da floresta de mangues e os pescadores circulam em barcaças, arriscando a sorte com as redes. Nas marés vivas, os nativos saem para pescar tainha e agulha. Se dá sorte, voltam com peixes maiores. Nem digo o tamanho porque vai parecer mentira de pescador.

    Olhando-se da capelinha de São Benedito, construída no século XVIII, avista-se as praias de Guadalupe, Sirinhaém, e a ilha de Santo Aleixo, vendida para se transformar num grande resort. Quando as águas baixam, se alcança os arrecifes caminhando pela areia. Quem vê de fora, acha que andamos sobre o mar, como Jesus Cristo. Não sei o que Ele sentiu, mas experimentamos uma leveza sobrenatural.

    Carneiros fica no litoral sul de Pernambuco e um trovador cantaria em versos que foi o último baluarte a cair, vencido pelos ataques imobiliários e turísticos. Durante anos, extensas faixas de litoral se mantiveram preservadas nas mãos de algumas poucas famílias. Perverso acaso em que o latifúndio e a propriedade privada contribuíram para a nobre causa da preservação. Com a morte dos velhos senhores, os herdeiros – filhos e netos – estraçalharam os espólios. O grande tornou-se pequeno e o pequeno foi convertido em lotes minúsculos. Extensões de matas nativas e sítios com fruteiras viraram casas e prédios, amontoados urbanos, da noite para o dia.

    É possível que me chamem conservador e saudosista. Acho que não sou essas coisas, mas presenciei a destruição do litoral pernambucano com impotência e amargura. Praias antes selvagens e paradisíacas reproduziram o caos das cidades, sem projeto urbanístico ou sanitário. Hotéis, casas e prédios de apartamentos foram levantados em tempo recorde, arbitrariamente, sem nenhum controle ou intervenção das prefeituras, em completa desarmonia com a paisagem, ferindo a estabilidade dos ecossistemas de mangues, florestas e rios. E nada se fez, nada se faz.

    Cara, – argumenta um dono de barco de passeio – vale que incrementou o turismo. Antes, aqui só tinha casebre de palha e pescador. Agora vive cheio de gringo.

    Tem razão, encheu de turista. E isso é bom? Até na baixa temporada, dezenas de catamarãs cruzam de um lado para outro, cheios dessa gente com roupa de banho, aparelhos celulares e máquinas fotográficas, a fim de curtir a natureza, ao seu modo, é verdade. Cada embarcação possui uma especialidade sonora. Algumas carregam trio de forró, que não para de tocar um minuto. Outras levam grupos de axé, frevo, pagode ou batuque. As mais modestas reproduzem CDs, amplificados em caixas volumosas, semelhantes às dos paredões usados em carros e camionetas. Os repertórios, vocês imaginam. Mesmo que se trate de uma partita de Bach ou um adagietto de Mahler, qualquer música fere a sonoridade monótona das ondas e do vento.

    A ordem é se divertir, encher a cara, dançar continuamente, gritar alto, empanturrar-se de comidas típicas, tomar sol e expor-se às câmeras dos aparelhos celulares. Há um roteiro que todos cumprem como Via Sacra. O catamarã para em frente à igrejinha de São Benedito, as pessoas descem, posam para retratos (se esforçam para contrair e disfarçar os excessos da barriga), entram seminuas na casa de Deus, fazem novas fotos, sobem no barco, bebem mais, comem mais, gritam decibéis acima do som alto, pois desejam ser escutadas, renovam o protetor solar, posam, fotografam, posam, fotografam, falam nos aparelhos onipresentes com alguém longe e seguem até a segunda estação.

    Uma praia com argila medicinal. Alguém inventou que o barro amarelo esfregado na pele faz as pessoas rejuvenescerem. Nesse ponto, o passeio ganha as cores da comédia. Seduzidos pela promessa de se tornarem jovens e revigorados, todos se cobrem de argila. Mais fotos e fotos e fotos. Os fanáticos percorrem enlameados o restante do passeio, risíveis papangus debaixo do sol quente, ao som de Morena tropicana ou Riacho do navio, o hit mais popular nos catamarãs.

    Terceira estação, os arrecifes de corais. Nesse santuário conspurcado – desculpem o palavrão que significa sujo, manchado, maculado, infamado, desonrado – eles arrancam tesouros marítimos, escavam entre as rochas e subtraem estrelas do mar, conchas e ouriços, que geralmente esquecem nos barcos como carga inútil. Um nativo instalou a barraca de cerveja, refrigerante e água mineral em meio aos arrecifes e prospera com o seu negócio. Barqueiros aproveitam a pausa e trocam os números dos celulares com turistas mulheres, e alguns homens. A noite existe para curtir a lua, uma bebida quente e o quarto de hotel aconchegante.

    E vamos às fotos, com a barriga bem contraída.

    A quarta estação dentro dos mangues, a quinta num cruzeiro erguido sobre um penhasco do tempo da colonização (já acabou?), a sexta, a sétima, a oitava… Todas com bastante barulho de fundo para afugentar os peixes e erradicar a pesca nas praias pernambucanas.

    Os barqueiros de camisa regata, musculosos, tatuados e bronzeados arremessam anzóis em todas as direções, com a isca infalível do corpo desejável. Quase nunca os novíssimos pescadores se frustram. As iscas retornam mordidas, mesmo que seja por uma gorda albacora ou um bagre velho.

    Por último, mais bebida e som alto que ninguém é de ferro.

    Tira-se férias para quê?

  • No trânsito

    Ilustração: Maria Júlia MoreiraIlustração: Maria Júlia Moreira

     

    Que maravilha, uma visita desejada! O amigo resolve aparecer de repente, depois de anos de ausência. Mal recebemos o anúncio de que está para chegar e já começam os preparativos: arrumamos o quarto, forramos a cama com os melhores lençóis, fazemos as compras de supermercado pensando no que mais agrada, abarrotamos a geladeira e o freezer, esboçamos uma agenda de passeios e até consultamos a previsão do tempo.

    No dia, bem antes da hora, me junto ao círculo de pessoas que esperam no desembarque do aeroporto. O riso se escancara, os braços são poucos para tantos abraços. Em meio às perguntas nem escuto as respostas. O que vale é a excitação, o reboliço das falas, os olhares para descobrir o que mudou na pessoa, a pressa em revelar em poucos minutos a programação de quinze dias.

    Empurrando a pequena bagagem, entramos na fila de pagar o estacionamento. Tudo se resolve ligeiro, os carros param ao atravessarmos a pista, quase comento que vivemos num mundo civilizado, mas silencio. O primeiro contratempo: esqueço o piso onde estacionei o carro e também não anotei se na fila B, J, C... Peço desculpa e atribuo o lapso à ansiedade pelo reencontro. Não me arrisco a confessar que sou especialista nesses desleixos.

    Espere aqui. Chego em dois minutos.

    Subo, desço, me desespero, aperto mil vezes o controle que faz abrir as portas, desejando ouvir um barulho conhecido e ver o pisca acender. Depois de meia hora, encosto o carro em frente ao amigo, desço e ajudo a acomodar a minguada bagagem no porta-malas.

    Mil perdões, encontrei um paciente. Pense num cara complicado. Tive de receitá-lo aqui mesmo. Sabe como é médico, todo mundo acredita que vivemos de plantão, minto sem pudor.

    Começa o segundo round da visita. Nesse primeiro convício foram aparadas arestas, outras surgiram, descobre-se que ele já não come carne, prefere vegetais, e apenas duas vezes na semana se arrisca num peixe. Que já não se interessa por literatura contemporânea, lê os filósofos, escuta música barroca e precisa de um tempo diário para a meditação. No carro, você se lembra de cancelar o passeio no catamarã pela Praia de Carneiros, ele não irá apreciar o forró que toca a bordo. Chega na ponta da língua a vontade de saber se ele ainda consome uma caipirinha e fuma um baseado, mas não me arrisco a tanto. Melhor ficar quieto.

    A visita comenta o quanto a cidade mudou nesses anos, destruíram o patrimônio arquitetônico, isso nunca aconteceria numa cidade européia como Paris – cita logo que cidade! –, mas é comum de acontecer no terceiro mundo. Engulo em seco, odeio a classificação de primeiro e terceiro mundo, odeio quem fala “é coisa de cinema”. Sinto ganas de perguntar o que ele veio fazer no terceiro mundo, voando na classe econômica. Deixo por menos, somos amigos, estudamos juntos até a formatura, ele vive fora do Brasil, ralou para garantir um bom emprego na França e o luxo de morar em quarenta metros quadrados, num bairro razoável de Paris. Logo que cidade!

    O trânsito não flui, há fortes chances de consumirmos duas horas do aeroporto ao nosso apartamento em Casa Forte, falo pelos cotovelos, procuro distrair o colega do tumulto na pista.

    É sempre assim?
    Não!, me apresso em mentir novamente. Alguma coisa muito grave aconteceu. Talvez um acidente fatal ou um protesto.

    Várias motos ziguezagueiam entre os carros parados, uma delas quase leva o retrovisor lateral junto a mim. Avanço dois metros, descuido e caio num buraco. Por bem pouco não estoura um pneu.

    O que foi isso?
    Um desnível na pista, eu acho. Minto pela terceira vez. Ai meu São Pedro Chaveiro! O asfalto que vendem ao Brasil não é o mesmo que vendem à França.
    Será verdade?
    Dizem.
    Li que a turma do Ministério dos Transportes embolsa uma parte do dinheiro e compra asfalto de terceira.

    Corrupção? De novo? Não basta o que mostram na TV? A alegria e o ímpeto do reencontro dão sinais de acabrunhamento. Bem que a mulher havia sugerido acomodar a visita um hotel de preço médio, num lugar tranquilo e silencioso. Onde? Existe lugar tranquilo e silencioso no Recife? Tenho convicção de que não existe, mas caso ele se atreva a insinuar isso, abro a porta do carro e peço que desça ali mesmo, debaixo de um viaduto onde se arrancham alguns sem teto.

    Camus comparou Recife a Florença, quando se hospedou aqui, em 1949. Ele estava com febre ou talvez delirasse, comenta irônico.
    Antigamente, o Recife parecia mesmo com Florença, embora o poeta João Cabral o comparasse a Sevilha.
    A Sevilha? Pensando bem, talvez o calor insuportável seja igual.
    Por que debocha?
    Por nada. Vocês nunca perdem a mania de grandeza. Ainda acreditam que os rios Capibaribe e Beberibe se juntam para formar o Atlântico?

    O trânsito para de vez. Quinhentos metros à frente atearam fogo em pneus e uma coluna de fumaça preta sobe à procura do céu. Os amigos levantam a cabeça, perscrutando o futuro. No final de tarde, já se avista no poente um risco de lua e uma estrela. Por sorte, a fumaça não encobriu os astros. Os dois aproveitam e olham.

  • Pequenos relatos de hospital

    Ilustração: Janio SantosIlustração: Janio Santos

     

    Daniel
    Daniel perdeu a pele do membro inferior direito, da raiz da coxa ao pé. Foi como se descalçasse uma luva. Os músculos sangravam durante os curativos, os nervos expostos doíam. Escutavam-se os gritos de longe. Nem a morfina controlava as dores. O caminhão distribuidor de refrigerantes em que ele trabalhava arrastou-o por um longo trecho de asfalto. O motorista supôs que Daniel tivesse subido na carroceria. Quando percebeu que ele ficara pendurado, o pior já acontecera.

    Mais grave do que a infecção e as dores era a anemia. Coisa fácil de resolver dentro de um hospital, se Daniel não fosse membro das Testemunhas de Jeová, uma seita que proíbe o uso de qualquer derivado de sangue. Com o nível baixo de hemoglobina, Daniel viu-se condenado a morrer. Os pais proibiram as transfusões e assinaram um termo de responsabilidade por tudo o que viesse a acontecer ao filho.

    Numa tarde em que não havia acompanhantes no quarto, o médico manteve a seguinte conversa:

    Daniel, você é jovem, bonito e tem um futuro pela frente. Alguma vez já pensou em se casar?
    Já.
    E em ter filhos?
    Também.
    Coisa boa, falou o médico e deixou o quarto em que o paciente fora isolado.

    No dia seguinte, voltou à carga.

    Sua religião proíbe o sexo fora do casamento. É isso mesmo?
    É sim.
    Mas, com toda essa força e saúde eu aposto que você já desejou ficar com a namorada. Fale a verdade, não minta pra mim.

    A conversa acontecia durante os curativos e as respostas eram dadas entre gritos e caretas.

    Desejei, ai, ai...

    O médico conhecia o caminho que conduz ao sítio onde se guarda a vontade de viver, mais forte do que o desejo pela morte.

    Daniel, você pode amar sua esposa e ter muitos filhos.
    É sério doutor?
    Depende apenas de você.
    E o que eu faço?
    Aceite o sangue.
    Com essa condição, não vou ter o primeiro filho.

    Exausto pela dor, se entrega ao desânimo.

    Não posso, meus pais não aceitam. Preferem me ver morto.
    Eu sei, eu sei...

    Habituado a fazer incisões com o bisturi, o médico mexe sem receio na ferida.

    E você aceita a vontade deles?

    Daniel fecha os olhos e as lágrimas escorrem pelos lados.

    Sua noiva conversou comigo. Você tem bom gosto. Que garota!

    Não há resposta à provocação, apenas um tremor no corpo, o que nada significa porque são habituais. Mas, o médico percebe a entrega de quem se deixa vencer pelo cansaço.

    Tem um jeito de tomar o sangue sem meus pais saberem?
    Pra tudo tem jeito, responde sorridente e emocionado.

    Tornaram-se rotineiras as idas de Daniel à UTI, onde só eram permitidas visitas de familiares durante uma hora. Explicou-se à família que se tratava de procedimentos especiais, num aparelho da unidade de terapia intensiva. Se os pais suspeitavam de alguma coisa, nunca reclamaram. A felicidade em ver o filho melhorando, depois de cirurgias plásticas e cuidados intensivos, impedia de se queixarem. E sempre havia Jeová, a quem eles podiam atribuir o consolo e o milagre da cura.

    Natália
    Natália pilotava a moto quando o acidente aconteceu. A companheira viajava na garupa e sofreu poucos ferimentos. No mesmo dia, após exames rotineiros, voltou para casa. Teve sorte disseram. Natália teve azar. A perna direita foi completamente esmagada. Gorda, mesmo depois de uma cirurgia para redução do estômago, ela mal conseguia sentar-se. Durante os quatro primeiros meses de internamento no serviço de trauma, o salão onde Natália trabalhava como cabeleireira fechou. O casamento se desfizera há algum tempo e a pensão do marido tornou-se irrisória para tantas despesas. As duas filhas foram morar com a mãe. A companheira, que assumira o lugar do marido, viajou a São Paulo e nunca deu notícias. Desesperada, Natália procurou um psiquiatra que a medicou com antidepressivos e ansiolíticos. No ambulatório onde era acompanhada, a infecção não dava sinais de melhora e o destino da perna se revelou sombrio até nas cartas. Natália tinha o costume de jogar o Tarô. No nono mês, tempo de uma gestação a termo, Natália reinternou-se. As fotos de sua tragédia pessoal ganharam a internet, pessoas da cidadezinha onde residia se mobilizaram para socorrê-la, mas seu destino estava nas mãos de um ortopedista, o mesmo que a havia operado na primeira vez e deveria tomar uma nova conduta. Surgiu um companheiro na vida de Natália, rapaz jovem e sensível, que se dispôs a largar tudo e ficar ao seu lado. Ao tomar conhecimento do drama da paciente, o chefe do serviço convocou o especialista. No dia certo e na horta certa, ele entrou na enfermaria e olhou a paciente no rosto. Alto, forte, corado, suava com desconforto, vendo a perna de Natália exposta, sem curativos.

    Doutor Tiago, quanto prazer em revê-lo! Desde a minha primeira cirurgia, há nove meses, não voltamos a nos encontrar.

    Além de muito bonita, Natália falava com desenvoltura, se destacando em meio à população humilde de enfermos.

    Assombrado com a recepção fora de costume, o especialista não se deixou intimidar.

    É verdade, é verdade. Mas tenho notícias suas pelos médicos residentes que lhe acompanham. Eles fotografam sua perna e me enviam porwhattsapp.

    Natália enche os olhos de lágrimas.

    O Senhor não quer me dar um abraço? Eu gostaria de receber.

    O abraço é dado com sinceridade e carinho.

    Doutor Tiago, há meses essa é a minha casa. Pena, não tenho cadeira para lhe oferecer. Divido este espaço com duas pacientes e três acompanhantes.

    Depois, com doloroso sarcasmo, que choca a todos pela coragem, ela apresenta a casa imaginária.

    Conheça onde eu moro. Aqui é a sala, com sofás e televisão. Ali, o quarto e minha cama king. Mais adiante, o banheiro, a cozinha e o quintal. Tudo humilde, decente e aconchegante. O cômodo da frente eu transformei no salão de cabeleireira. Avalie direitinho, perdi tudo isso em nove meses, quando me transformei em ninguém.

    O médico e a equipe que o acompanha não sabem como reagir à ousadia.

    Vou operá-la novamente, colocar um novo fixador e recuperar sua perna.

    Natália reage com firmeza.

    Não quero cirurgia. Cansei de arrastar esses ossos e músculos podres. Ampute minha perna.

    O médico empalidece, tenta convencê-la do contrário.

    Não é assim como você pensa. Precisamos lutar até o fim, recuperar seu membro.
    Cansei de lutar. Quero viver, trabalhar, amar. Com isso que o senhor está vendo, não é possível. Vamos doutor, me ampute.

    Acuado, o especialista pede um tempo para decidir. Uma semana depois Natália foi operada. Depois que o coto cicatrizou, na consulta de ambulatório, ela falava risonha sobre técnicas de fazer amor com uma única perna. Essa dificuldade já vencera. Difícil era conseguir que o Estado pagasse a prótese. Com ela voltaria a caminhar.

  • Quero meu baião-de-dois

    Ilustração: Maria Luísa FalcãoIlustração: Maria Luísa Falcão


    Havia um jeito simples de se preparar o baião-de-dois, prato da culinária cearense em que se misturam o arroz e o feijão. Muito antigamente ele era cozinhado em panelas de barro, no fogão a lenha. Segundo os mais puristas, o barro e a fumaça da lenha queimada acrescentavam um sabor especial à comida. O escritor Junichiro Tanizaki, autor do ensaio Em louvor da sombra, defensor fanático da culinária japonesa tradicional, talvez sugerisse que o baião-de-dois fosse servido num jantar às cinco da tarde, como antigamente, com as pessoas sentadas numa mesa ao pé da janela, de onde fosse possível apreciar o por de sol e o gado voltando aos currais.

    Mesmo cozinhado em panela de alumínio, num fogão a gás, e servido num restaurante de cidade, o baião-de-dois pode manter suas qualidades culinárias. O feijão ou a fava devem ser de preferência verdes, temperados com coentro. O arroz precisa ficar bem solto. O queijo, de prensa ou coalho, cortado em cubos, é enfiado na mistura, quando o baião já está secando. Para os que apreciam nata de leite ou de coalhada, sugere-se que ela seja misturada bem antes do queijo. Eu prefiro uma camada fina de toucinho torrado, espalhada sobre o baião, quando a panela vai saindo do fogo.

    Come-se o baião-de-dois com vários acompanhamentos. Se ele for preparado com bastante coentro, nata e queijo, o ideal é servi-lo sem mistura, bem quente, um pouco molhado. Se esses ingredientes ficaram de fora, deixa-se o baião secar um pouco mais no fogo e come-se misturado com paçoca, carne de sol assada ou frita, linguiça caseira, costeletas de porco fritas no toucinho, ou simplesmente com ovo estrelado e torresmo. De qualquer maneira, desde que seja bem feito e com os ingredientes adequadamente escolhidos, o baião-de-dois é uma iguaria sofisticada. 

    Tornou-se quase impossível comer um clássico baião-de-dois no Ceará. Pelo menos, nos restaurantes. Com a nossa vocação antropofágica, fomos incorporando os mais exóticos ingredientes à mistura, de modo que já nem reconhecemos os antigos sabores. É verdade que a rica culinária brasileira criou-se nas substituições, graças às cozinheiras que trocaram a farinha de trigo pela goma, massa de mandioca e fubá de milho; o leite de vaca por leite de coco; a manteiga do reino por manteiga da terra; as nozes e amêndoas pelo gergelim, amendoim, ou castanha. Porém, às vezes exageramos na dose. O desejo de criar pratos que se assemelhem à culinária internacional leva a adulterações grosseiras de quitutes testados e aprovados ao longo dos anos.

    Baião-de-dois com creme de leite e queijo catupiry não combina. Nem é necessário lembrar o japonês citado, pois seria o mesmo que fazer sushi com macaxeira. As bordadeiras desenvolveram técnicas para o labirinto, a renascença e a renda de bilros, trabalham com habilidade, precisão e rapidez. A culinária também exige conhecimento e prática. Do mesmo modo que se escolhe um tecido fino e linhas adequadas para os bordados, a culinária se faz com bons ingredientes, temperos certos, receitas e tradição. Cozinhar não significa misturar ingredientes aleatoriamente, como está na moda fazer. Até inventou-se nomes para isso: cozinha experimental, cozinha conceitual.

    Os restaurantes modernos abusam dos sucos de manga e maracujá nas carnes e peixes, do mel de rapadura enfeitando os pratos e misturado aos risotos, das castanhas de caju, dos abacaxis, cocos, bananas e por aí afora. E tome folha de erva-cidreira, capim santo, manjericão, endro, semente de coentro, em pratos que terminam adquirindo um sabor abominável. Tudo simulando sofisticação e requinte. E as tapiocas? As iguarias que herdamos dos nossos antepassados indígenas tornaram-se o laboratório das mais abomináveis misturas. Ficaram piores do que os crepes franceses servidos nos casamentos.

    Existe uma ambiguidade em relação ao passado. As pessoas temem que as julguem conservadoras, se demonstram algum apego à tradição. Tenho plena consciência dos benefícios da modernidade e não creio que no passado as coisas fossem bem melhores do que as atuais. Não se trata disso, embora reconheça que há um favorecimento dos jovens e certa tirania contra os idosos.

    O que é antigo não precisa ser deformado e assim parecer contemporâneo. Sobretudo na culinária chamada de arte, porque ela possui fórmulas testadas, que passaram de geração a geração. Nessa recusa à tradição botaram catupiry no baião-de-dois, maionese na tapioca e calabresa na paçoca. É verdade que foi misturando que chegamos aos grandes inventos culinários, como a feijoada. Mas, uma vez experimentado e aprovado, vamos deixar algumas receitas como faziam nossas avós. O baião-de-dois, por exemplo.

  • Recife eclético, conversinha fiada!

    Ilustração: Maria Júlia MoreiraIlustração: Maria Júlia Moreira

    – Como vamos pensar em recuperação de prédios, se as pessoas estão no maior abandono?

    Mereço a resposta. Atrevi-me a tecer comentários sobre patrimônio em plena terça-feira gorda, em meio ao barulho e ao calor, bebendo cerveja quente e ruim, três latas grandes por 10 reais.

    Mas, para a reforma do Palácio da Alvorada não faltou recurso. Michel Temer arrancou 24 milhões dos contribuintes e deu uma mão de cal no invento de Niemeyer. Puro desperdício. A recatada não gostou e a família real continua no Jaburu. Nosso dinheirinho foi pro ralo.

    Roda, roda, roda... estou de folga, cara. Sacou que é carnaval?

    Imaginei que funcionário do patrimônio histórico e arquitetônico dava plantão 24 horas. Eu não descanso. Levanto os olhos, vejo um prédio antigo ameaçando ruir e a tristeza desaba em cima de mim. Melhor se fosse uma viga de sucupira, madeira em extinção. Abria minha cabeça em duas, eu morria de vez e parava de pensar. Ou adquiria os poderes das três fadinhas de Disney – Fauna, Flora e Primavera – com que sempre sonhei. Elas transformam o mundo no que querem, apenas mexendo a varinha de condão. Nem apelam à fórmula mágica das histórias que vovó contava: minha varinha de condão, com os poderes que Deus te deu... São contemporâneas, agem em tempo virtual,vapt,vupt.

    Viciei-me em ser fada desde que vim morar no Recife. Não podia olhar uma casa aos pandarecos, paredes com azulejos portugueses roubados, altares barrocos devorados pelos cupins, sem lançar mão dos meus poderes mágicos. Invocava gênios, bruxos e feiticeiros em vão. Não ia além do desejo. Fechava e abria os olhos, e tudo continuava em ruínas, no mesmo descaso e abandono. Mas, na imaginação, eu não tinha medidas. Draguei o Capibaribe e tornei-o navegável; despoluí as águas; saneei o Recife inteiro, os bairros mais distantes e esquecidos; contive o avanço do mar e as dentadas dos tubarões; aprovei a altura máxima de cinco andares para os prédios da cidade, restaurando a brisa marítima; estabeleci 200 metros de praia, sem construções, em toda orla de Pernambuco; descongestionei o centro, limpei a cidade deoutdoors e placas... Tudo num passe de mágica, num abrir e fechar de olhos.

    Pensam que sou o único maluco?

    O único a sonhar ser fada?

    Salagadula mexegabula bibidi-bobidi-bu
    Junte isso tudo e teremos então...

    Quando fiz a curadoria das exposições de Guita Charifker e Gilvan Samico para a Pinacoteca do Estado de São Paulo, recebi a visita de seu diretor, Marcelo Araújo. Numa tarde em que contemplávamos as ruas convergindo para a praça do Marco Zero, se afunilando em prédios que dão o perfil ao lugar por onde a cidade começou, protagonizamos uma cena de fadas.

    Que maravilha! Marcelo Araújo exclamou.

    Depois, cobrindo os olhos com a mão:

    Que horror! Como permitiram uma coisa dessas?

    Sem descobrir os olhos, com a mão livre apontava o edifício sede da empresa Cimento Nassau, do grupo João Santos.

    O que foi, Marcelo? eu perguntava aflito.

    Trata-se de um edifício moderno, fachada em vidro, de influência americana, erguido sobre a demolição do antigo Banco do Brasil, construção eclética das décadas de 1920 a 1930, que se harmonizava em estilo com os da Associação Comercial, Caixa Econômica e Bandepe. Na época da substituição, o IPHAN nacional não se interessava pela arquitetura eclética, tombando apenas os patrimônios do período neoclássico para trás. O Escritório destrói a escala em altura da paisagem do bairro, numa dissonância lamentável.

    Se pelos menos se tratasse de uma intervenção como a pirâmide de vidro, no Louvre. Sempre que venho ao Recife e vejo essa coisa feia, desejo ser uma fada e com um toque mágico voltar ao prédio original.

    Como permitiram uma coisa dessas?

    A pergunta me fere.

    O mesmo que as torres gêmeas do bairro de São José, o projeto de novas torres no Cais José Estelita, o bairro de Boa Viagem transformando-se em concreto, a avenida Dantas Barreto erguida sobre ruas antigas e uma igreja, casarões deixados ao abandono até ruírem e virarem edifícios modernosos, a Boa Vista sucateada, as praças se transformando em lar de mendigos.

    Minha mágica funciona ao contrário, afundo com o Recife ao invés de emergir. Quem manipula a perversa varinha de condão? Não sou eu. Os artistas se esforçam, escrevem romances e novelas, rodam filmes, protestam nos festivais, puxam coros de vozes nos trios elétricos, publicam crônicas nos blogs, encenam espetáculos. A força da água mole na pedra dura. O condão de políticos e empreiteiros é de ferro e cimento.

    Até lembrei uma história acontecida nos Estados Unidos. Li-a narrada pelo jornalista Paulo Francis, que não tinha maior apreço pelos nordestinos. Se o relato for mentiroso, fica por conta dele.

    Antes de autorizar uma nova invasão do Vietnam, o presidente americano reúne intelectuais e artistas na Casa Branca para consultá-los sobre a decisão. Invadir ou não invadir? A pergunta provoca alvoroço geral, ninguém está acostumado a isso, todos se posicionam contra a guerra. O presidente agradece e informa que irá acatar a opinião. Um assessor entra na sala, o presidente pede licença e se ausenta por um momento. Volta em seguida e a confraternização se prolonga. Ao saírem à rua, os artistas e intelectuais são surpreendidos pelas manchetes dos jornais. No tempo em que saiu, o presidente americano autorizou o envio de novos contingentes de navios, aviões, soldados e armas ao Vietnam.

    O que nós achamos e queremos é pouco considerado.

    Mesmo assim, teimo em aporrinhar a arquiteta do patrimônio histórico.

    E se investirmos nos prédios e nas pessoas?

    Mas, ela vai longe, arrastada por um caboclinho caindo aos pedaços. Bebe cerveja quente e barata, 10 reais três latas grandes.

  • Sobre labirintos, trevas e portas

    Ilustração: Maria Luísa FalcãoIlustração: Maria Luísa Falcão

     

    O escritor Pedro Salgueiro me encaminhou trecho de uma carta de Rosa de Luxemburgo, escrita da prisão de Breslau, numa noite natalina de 1917. Ela diz: No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida, sob os passos lentos e pesados da sentinela, canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. O texto me deixou inquieto porque veio sem qualquer apresentação ou justificativa, aparentemente por nenhum motivo, com um pequeno título grifado: noite.

    É possível tatear no escuro à procura de uma saída, mesmo que as portas pareçam fechadas? Não é difícil reconhecer que o escuro existe, basta ligar a televisão ou o rádio, ler os jornais e ir ao cinema. Ou olhar pela janela do carro. Você não precisa freqüentar como paciente a emergência de um hospital público, ou como réu uma delegacia de polícia. Não vá tão longe. Também não se aventure pelas veredas de uma favela, onde igualmente poderá se extraviar. O labirinto não passa de um emaranhado de caminhos, dos quais alguns não têm saída, e constituem impasses. No meio dele é necessário descobrir a rota que nos levará ao centro, embora se trate de um emaranhado de caminhos, que retardam a chegada do viajante ao centro que deseja atingir.

    As trevas sempre nos ameaçaram. Plínio, O Velho, até escreveu que encarar a luz é para os mortais a coisa mais aprazível e o que está sob a terra é nada. Jaz escondido, pertence ao mundo da ignorância. Quando desejamos conhecer algo, nós o trazemos para a luz. A luz da ciência, a luz do conhecimento, a luz da razão. Luz e escuridão se alternam. Uma época sombria é seguida de uma época luminosa, pura, regenerada. Mircea Eliade escreveu que se pode valorizar as eras sombrias, épocas de grande decadência e de decomposição: elas adquirem uma significação supra-histórica, embora seja precisamente em tais momentos que a história se realiza de forma mais plena, porque os equilíbrios aí se tornam precários, as condições humanas apresentam uma variedade infinita, as liberdades são encorajadas pela deterioração de todas as leis e de todos o padrões arcaicos.

    Prefiro a luz, não necessariamente a luz da razão. O logos, este saber dos gregos confundido com ciência, explica o que a mitologia deixou de explicar, mas não preenche todo o saber. Permanece o espaço da não razão, que nem sempre é treva.

    A ciência não nos colocou no lugar mais calmo e justo, isso já sabemos. O medo de que algo inevitável está para acontecer atormenta nosso sono. Do mesmo jeito que atormentava o dos povos antigos, ao pressentirem o exército inimigo sitiando suas muralhas. Qual a diferença entre as bolas de fogo arremessadas das máquinas de guerra medievais e o fogo de uma bomba atômica? Ou o terror de um meteorito se aproximando da Terra? A morte está no fim de tudo, não importa a intensidade da explosão.

    No filme Sonhos, do japonês Akira Kurosawa, alguns soldados se perdem na tempestade de neve quando procuram um forte. Amarram-se uns aos outros para não se extraviarem. Cuidam em não dormir. Mas a fadiga e o sono são irresistíveis. O comandante deita e sonha com a morte. Ela vem buscá-lo, sedutora e bela. O comandante acorda e grita para seus homens. Tateiam há dias, dão voltas sem nunca acharem o fortim que os acolherá, salvando suas vidas. Por fim, escutam um toque de corneta bem próximo. Sempre estiveram há alguns passos da salvação, mas, no escuro, nada divisavam.

    Nunca existirá uma porta, afirmou Jorge Luis Borges ao escrever sobre labirintos. Pior que afirmar não existirem portas é dizer que estamos sós, ligados numa rede de comunicação, que não nos coloca em contato verdadeiro com ninguém. Dura metáfora. Dura muralha de pedra.

    Como responder à pergunta dos personagens de Tchekhov – o que fazer? – se a resposta é sempre: não sei. Convencer-se de que o mais importante é transformar a vida e que o resto é inútil. Mas, transformar que vidas? Todas, conclui, Tchekhov:... na bagunça da vida cotidiana, na confusão de toda a miuçalha de que são tecidas as relações humanas, o forte impedir o fraco de viver já não é uma lei, mas uma contradição, pois tanto o forte como o fraco tombam vítimas de suas relações mútuas, submetendo-se involuntariamente a alguma força diretriz desconhecida, situada fora da vida, estranha ao homem.
    Dos fios de uma Rosa de Luxemburgo prisioneira, me aparece a crença de que o segredo não é outro senão a própria vida; de que a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo e que basta saber perscrutá-la.

  • Vida, morte e celebração

     

    Minha primeira lembrança do teatro é a de uma calçada alta e cortinas improvisadas com lençóis. A encenação aconteceu no sertão dos Inhamuns, no Ceará, à luz de candeeiros, numa noite misteriosa. Representava-se um drama, como popularmente se chamavam pequenos esquetes, cançonetas e farsas, romances e entremezes anacrônicos, guardados de memória e transmitidos de geração em geração. Ao meu pai coube a façanha de escolher entre os moradores da fazenda os que conseguiam decorar os textos e dizê-los com a cabeça erguida. Eu tinha quatro anos e desde então me pergunto de onde vinha o desejo de representar.


    Aprendi que o teatro sempre esteve ligado aos ciclos da vida do homem. No Egito antigo, os sacerdotes sacrificavam o rei e a rainha no ato da cópula, espalhavam o sangue pelas margens do rio Nilo, acreditando que dessa maneira propiciavam as cheias e a fertilidade. Tempos depois, essas mortes foram simbolizadas numa representação teatral. No distante sertão dos Inhamuns, repetíamos um ritual semelhante, porém atenuado. Após longos períodos de estiagem, banhávamos os túmulos dos mortos, cantando e chorando, pedindo que chovesse, trazendo vida à terra seca.


    Estão aí os temas fundadores do teatro: vida, morte, celebração.


    Quando fui morar no Crato, com cinco anos, iniciei-me nos rituais da igreja católica. Nossa vida regulava-se pelo calendário das festas e pelo sino da catedral. Almoçávamos quando batiam os onze repiques, jantávamos às cinco horas, dormíamos às oito. Nas missas, as representações solenes, os cenários magníficos, o júbilo diante do sagrado e o sentimento coletivo de celebração me impressionaram. Foi o meu segundo encontro com o teatro. Via as liturgias, a pompa, a música e o canto como representações. Entrava na igreja com a emoção de um espectador, a mesma de quem vai ao cinema ou a uma casa de espetáculos.


    Em maio, celebrava-se Maria, como os gregos Ártemis e os romanos Diana. De manhã cedo, um andor levava Nossa Senhora da igreja para a casa de algum fiel, onde ela passava o dia. De noite, enfileirados numa procissão de velas acesas, trazíamos a santa de volta para sua morada. Durante um mês repetíamos esse ofício, ao som de vivas, cantos e fogos. Na última noite, armava-se um altar monumental, no extremo da praça da matriz, coberto por dezenas de anjos, arcanjos, querubins e serafins. Começava a solenidade de coroação, a praça cercada por uma bateria de fogos, a igreja revestida de girândolas, o vigário a postos e milhares de fiéis com os corações palpitando.


    Cantavam os anjos, tocava a banda, a imagem de Maria Santíssima exultava aos nossos olhos crédulos. Depois de uma interminável expectativa, o anjo mais graduado, a postos na altura infinita do altar, pousava sobre a cabeça da Virgem uma pequena coroa de rosas. Era o sinal para as portas do céu se abrirem aos mortais. O vigário gritava: viva Nossa Senhora! Nós respondíamos: viva! A banda executava o Glória majestoso, um fogaréu iluminava a fachada da igreja, bombas explodiam, formando uma cerca de fumaça. Os demais anjos sopravam trombetas, tudo resplandecia, emocionava, e as pessoas acreditavam que o céu poderia ser bom como naquele instante.


    Contrapondo-se ao júbilo mariano, a sombria teatralidade da Semana Santa nos precipitava num mundo de medos e culpas. Cobriam-se os santos de pano roxo, rezavam-se as vias sacras, obedecia-se um rigoroso jejum. Ao invés dos benditos contentes, o lamuriento cantochão. As matracas no lugar dos sinos. O Senhor Morto corria a cidade dentro de um esquife macabro e arrancava lágrimas no seu encontro com a Mãe Dolorosa. Não tomávamos banho na quarta-feira, não assobiávamos na sexta. No sábado, felizmente, uma réstia de alegria. À meia noite, acordados à custa de café e curiosidade, assistíamos a missa de aleluia, o mais exuberante teatro religioso.


    No instante da ressurreição, apagavam-se as luzes da igreja, tocavam os sinos, os fiéis baixavam a cabeça. De esguelha, arriscando ser excomungado e ir para o inferno, via a imensa cortina negra, que ocultava o Cristo Crucificado, despencar das roldanas que a sustinham, revelando um novo Cristo, vivo e refeito, a não ser pelas chagas causadas pelos homens. Sentia-me cúmplice daquela revelação, talvez seu único espectador, e era possuído por um sentimento de infinita bondade. O domingo seguinte, eu o vivia em perfeita paz, absoluta plenitude. Tanta bondade, no entanto, não durava mais que algumas horas. As diabruras de menino retornavam no dia seguinte.


    O quintal da nossa casa no Crato dava para um terreno grande, onde morava um mestre de reisado. Nesse teatro ao ar livre, sob cajueiros e mangueiras, eu acompanhei várias representações do auto popular. Os brincantes, vestidos de cetim azul e encarnado, dançavam em duas fileiras, representando cristãos e mouros nas suas brigas. Jaraguá aterrorizava os meninos, em compensação, as espadas tinindo nos combates despertavam nosso gosto pela aventura, o desejo de também correr o mundo como Roldão e Oliveiros.


    Esse universo pertencia a uma classe social definida, a dos pobres. Ricos não brincavam reisado, só assistiam. Não era como agora, em que todos sobem nos carros alegóricos das escolas de samba. Nenhuma lei escrita impedia que um menino de classe média fosse figural de reisado. Mas, existia uma barreira social: reisado era brinquedo do povo.


    As lapinhas possuíam uma interdição ainda mais severa para mim: somente meninas dançavam nesses pastoris. Ciganas, estrela, sol, lua, borboleta, pastorinhas e beija-flor cantavam e dançavam. Frustrava-se o meu sonho de atuar. Consolei-me com umas asas de borboleta e de anjo, que pedi à dona de uma lapinha, empregada da nossa casa. Pendurei-as no telhado do quarto de despejo, longe dos olhos de meu pai. Como no filme de Bergman, Fanny e Alexander, em que a alma do artista é simbolizada por Ismael, o proscrito, preso num subterrâneo, eu tentei aprisionar a minha paixão pelo teatro. Não consegui. A alma pressente o que busca e segue as pegadas do seu obscuro desejo, afirma Platão.