• Espectador e espaço público como ferramentas de vivência

    Espetáculo "Viúvas" (RS). Fotos: Matheus Jose Maria/DivulgaçãoEspetáculo "Viúvas" (RS). Fotos: Matheus Jose Maria/Divulgação

     

    Uma das ações propostas por esta quarta edição do Mirada – Festival Ibero-americano de Artes Cênicas de Santos foi a amplitude de olhar em relação ao uso espacial das obras apresentadas. Edifícios históricos de relevância cultural e espaços não convencionais da cidade foram utilizados ao longo dos 11 dias de programação, impulsionando o público presente a reconhecer novas possibilidades de diálogo entre cena e urbanidade.


    A sala Princesa Isabel, no Palácio José Bonifácio, por exemplo, tornou-se palco para apresentações de Please, continue (Hamlet), do diretor espanhol Roger Bernat. O teatro-tribunal proposto por este artista é fincado na presença real de juízes, advogados e promotores, que, amparados por um roteiro/guia escrito por Bernat, desenvolvem o julgamento do príncipe da Dinamarca. Cabe ao público presente sentenciar Hamlet como culpado ou inocente.

     

    Bernat propôs ao público sentenciar Hamlet como culpado ou inocenteBernat propôs ao público sentenciar Hamlet como culpado ou inocente 

    Tendo o jogo bastante evidenciado pela obra, cabe muitíssimo a capacidade dos jogadores convidados em desenvolverem, com sucesso, a empreitada proposta por Bernat. Se no Recife, quando apresentou sua obra durante a programação do festival Janeiro de Grandes Espetáculos, a provocação proposta proporcionou excelentes momentos protagonizados pelos juristas convidados, em Santos coube ao elenco de atores que testemunhou ficcionalmente o crime segurar o fôlego da obra. Bernat opera, portanto, dentro de um acordo tácito entre espectadores e jogadores, para que o sentido de verossimilhança esteja presente, consciente do risco de insucesso ou sucesso da incursão.

     

    Também da Espanha, a Compañía Kamchàtka, com o espetáculo Fugit, propôs aos espectadores um pacto de imersão, retomando as sensações dos refugiados em situação de guerra na busca por acolhida. Durante pouco mais de 80 minutos, o público é direcionado por diferentes espaços da cidade, numa tentativa de reprodução do tensionamento que envolve "ser fugitivo". Ora compartilhamos um pedaço de pão, ora somos colocados em um ônibus para sermos transportados vendados. É preciso muita boa vontade do espectador para vivenciar esSe jogo proposto pelos atores. O cotidiano da cidade engole a obra e se a busca por verossimilhança em Bernat com seu Hamlet já é de grande dificuldade, a do espetáculo Fugit é mais complexa ainda. Caminhamos por belas situações e também por momentos que parecem tolos diante do "faz de conta".

     

    Já "Fugit" propôs um pacto de imersão, retomando sensações dos refugiados de guerraJá "Fugit" propôs um pacto de imersão, retomando sensações dos refugiados de guerra

     

    A Fortaleza da Barra, fortificação construída no Guarujá em 1584, recebeu os gaúchos da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, com o espetáculo Viúvas – Performance sobre a ausência, inspirado no romance Viúvas (Viudas, 1981), do chileno Ariel Dorfman. É sempre uma grande experiência encontrar este grupo com quase 40 anos de atuação, e que já se configurou como patrimônio artístico brasileiro. Desta vez, em seu teatro de vivência, nos levou a reconhecer a história de mulheres de um povoado às margens de um rio que lutam pelo direito de saber onde estão os pais, maridos ou filhos mortos pela ditadura civil-militar no país. 

     

    Se não pode ser considerada uma das grandes obras da trajetória deste coletivo, Viúva nos transpõe a um tema muito caro para a história recente de nosso país. É espetáculo vivo, instigante e pertinente, amparado pela pesquisa desenvolvida pelo grupo ao longo de tantos anos. Já apontamos aqui, durante esta cobertura, a catalã Angélica Liddell como artista "monstro" espanhola; podemos dizer o mesmo sobre Tania Farias, do Ói Nóis, com "título" equivalente em nosso país.

     

    Em suas poéticas, diferentes artistas proporcionaram novas maneiras de estar e sentir, irrompendo espaços formais e impulsionando o público a redescobrir formas de mirar. A cidade esteve sitiada e quem ganhou com tudo isso foram os próprios cidadãos.

  • Onde estão nossos mortos?

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    Quando a arte vai às ruas, abre-se uma porta para a imprevisibilidade. Uma mesma intervenção renova-se cada vez que é apresentada em um local diferente, adquirindo novos significados e tornando sua presença ainda mais potente a partir de determinado contexto, numa relação de troca mútua. Ao ocupar a Casa da Cultura, no último fim de semana (13 e 14/5), como parte do
    Trema! Festival, o Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina e a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS) não só ressignificou sua ação, como também o próprio local e as relações de sentido que a palavra “cultura” possui para aquele contexto.

    A antiga Casa de Detenção do Recife, hoje um espaço "cultural", existiu por quase 120 anos. Na época de seu fechamento, nos anos 1970, abrigava uma superpopulação de 1 mil presos, distribuídos em celas inicialmente projetadas para três pessoas, mas onde se alojavam oito. Hoje, a Casa da Cultura é um local de grande visibilidade turística e mais voltado ao comércio, com inúmeras lojas de artesanato,comidas típicas e lanchonetes.

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    Em todo o percurso da intervenção, era notável o estranhamento de boa parte das pessoas que circulavam pelo local. Alguns turistas tiravam fotos, mas logo saíam de perto. É evidente que o público ali se interessava por outro tipo de arte. Levando ao espaço a performance Procura-se um corpo ação n. 3, um grupo de cerca de 15 pessoas vestidas de preto carregava pás em uma das mãos enquanto marchava lentamente. A esse passo, somavam-se batidas fortes no peito, que buscavam transpor o ritmo dos corpos. Era a história da ditadura militar brasileira que eles contavam com seus corpos e, mais precisamente, a históriaapagada. O grupogritava e se desesperava à procura dos corpos desaparecidos duranteos anos de chumbo.

    Ao parar a marcha, cada ator contava a história de um desaparecido para os espectadores mais próximos, entregando fotos dessas pessoas. Imagens capazes de ativar nossa consciência ou memória difusa. Como dito por dois espectadores durante o ato, em relação à foto, “parece alguém que conheço”. De alguma forma, quem assiste àperformancecria afeto e compaixão pela figura apresentada, e aquela imagem entregue pelos atores não era apenas uma fotoera uma pessoa em apuros, desaparecida. A potência da ação foi evidenciada quando uma senhora da plateia, ao ver alguns passantes pisando nas imagens “enterradas” no chãosimbolizando que nunca pôde ser realizado –, disse: “Cuidado, você está pisando em cima do morto!”.

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    A história da ditadura não é bela nem tem apelo comercial; é feia e triste, assim como a história da Casa de Detenção e, por isso mesmo, deve ser lembrada. Aqui, o grupo não sóinterveio no espaço, mas tornou visível o que se quer esconder, cumprindo o papel que cabe à arte: incomodar.