• Afirmação e resistência

    Hoje o Hotel Cambridge é um imóvel classificado como Habitação de Interesse Social. Fotos: Aurora Filmes/DivulgaçãoHoje o Hotel Cambridge é um imóvel classificado como Habitação de Interesse Social. Fotos: Aurora Filmes/Divulgação

    Leia aqui a matéria na íntegra da edição 195 da Revista Continente (mar 2017)

    Em
    Era o Hotel Cambridge, a diretora Eliane Caffé apresenta uma narrativa na fronteira entre o documental e o ficcional sobre a luta pela moradia

    30 de outubro de 2016, domingo, 22h. Na Avenida 9 de Julho, número 210, centro de São Paulo, no saguão de um antigo hotel de 15 andares, centenas de pessoas ouvem com atenção as instruções de uma baiana de 55 anos. Dentro de instantes, homens, mulheres, adolescentes, crianças, brasileiros e estrangeiros marcharão juntos para ocupar 10 prédios no centro e três na zona leste da capital paulistana. É a noite do Outubro Vermelho, ação da Frente de Luta por Moradia, da qual participam diversos movimentos. Carmen Silva é a coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro/MSTC que fala à multidão: “Hoje é o segundo turno das eleições e o que queremos é uma política pública que nos beneficie. Vamos lutar pelos direitos. A moradia não caminha sozinha sem educação, saúde ou cultura. E a luta, mais do que nunca, é feita com vocês, e não para vocês. Todos nós, trabalhadores de baixa renda, brasileiros, imigrantes, refugiados do Haiti, do Congo e de qualquer lugar, estamos ameaçados. Não podemos aceitar esse retrocesso que vem aí. Vamos tomar consciência. A hora é essa e é com todos”.

    Duas noites depois,Era o Hotel Cambridge(Brasil/França, 2016) era exibido no CineSesc, na programação da40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa-metragem da cineasta paulistana Eliane Caffé já tinha uma trajetória laureada: melhor filme pelo voto popular noFestival do Rio, menção honrosa no64º Festival de San Sebastián (mesmo festival que, em 2015, havia premiado o projeto, ainda em finalização) e o apoio para a pós-produção do Hubert Bals Fund, do Festival Internacional de Rotterdam. A história narrada no filme, que entra em cartaz neste 16 de março no país, pelo selo da Vitrine Filmes, é reflexo das cenas reais transcorridas no Hotel Cambridge – a vida dos moradores da ocupação que, desde novembro de 2012, transformou um edifício abandonado em lar para centenas de famílias.

    Conta a diretora queEra o Hotel Cambridge começou quando ela decidiu pesquisar os refugiados em São Paulo. “Queria ver as problemáticas envolvidas nessa questão dos imigrantes que chegavam em busca de refúgio, como era a entrada deles nas ocupações, e queria seguir suas trajetórias, com o intuito de saber como suas vidas iam se assentando no Brasil”, disse Eliane à Continente. “Muitos deles terminavam chegando às ocupações. Atrás dessa bandeira, estão escondidos muitos movimentos especulativos, não éticos, porém, há também os movimentos éticos nesse universo da luta pela moradia. Comecei a buscar a conexão existente entre os refugiados que chegam ao Brasil, em todas as cidades grandes do nosso país, e os trabalhadores de baixa renda. Ambos carecem de uma política habitacional com o mínimo de dignidade humana. Foi a partir daí que entrei na ocupação do Cambridge”, acrescentou.

    Eliane Caffé, diretora do filmeEliane Caffé, diretora do filme

     

    A narrativa deEra o Hotel Cambridgeé um jogo de ficção: partimos de personagens verdadeiros e reais para criar as personas do roteiro, que foram assumindo a sua própria sua voz. A ideia sempre foi fazer uma ficção ancorada numa zona de conflito real. Todo mundo está ficcionalizando, pois mesmo os atores já faziam parte daquele universo, participando das oficinas com os moradores do Cambridge. O filme traz uma sensação híbrida, na fronteira entre o documentário e a ficção. Essa ausência de nitidez na definição – o que é mesmo que determina uma ficção e um documentário? – vem também com o trabalho dos atores e como eles puxam os não atores, muitos deles refugiados verdadeiros e que moram, de fato, no Cambridge. Vejo o filme como parte de uma produção de resistência, a mostrar que, com o golpe e o retrocesso político, existe avanço também. Falamos muito do retrocesso, mas a História não anda para trás. Existem frentes de avanço, com muito empoderamento de vários coletivos e movimentos sociais e de artistas e ativistas que têm encontrado brechas no sistema. Assim, seguem a se expressar, criando uma certa narrativa da resistência.”Eliane Caffé, diretora


    Ela passou um ano e meio convivendo com os moradores que haviam reconstruído suas vidas naqueles quartos de um hotel outrora frequentado pela elite paulistana. Organizou oficinas para introduzir o vídeo no cotidiano daquelas pessoas. Coube a Inês Figueiró e Tayla Nicoletti a tarefa de coordenar esses encontros, num primeiro momento, destinados a crianças de 2 a 14 anos. “Eram oficinas de dramaturgia, que íamos fazendo durante o desenvolvimento do roteiro. As crianças criavam pequenos curtas, nos quais elas mesmas faziam tudo”, explicou Inês à Continente, na calçada de frente para o Cambridge – ela também é corroteirista do longa, ao lado de Luis Alberto de Abreu e da própria diretora. “Através dessas oficinas, chegamos aos adultos e logo começamos a trabalhar com os refugiados”, completou Tayla.

    FICÇÃO E DOCUMENTO
    EmEra o Hotel Cambridge, nomes de estrangeiros, como Isam Ahmad Issa, Qaedes Khaled Abu Thana, Treson Mukendi Muteba e Guylain Muskendi Labobo, dividem os créditos com atrizes e atores como Suely Franco e José Dumont – ator predileto da diretora, protagonista de seus longasKenoma(1998) eNarradores de Javé (2003) – e com a própria Carmen Silva (uma das líderes do MSTC). É “um jogo de ficção”, na definição de Eliane Caffé, sem se importar com as fronteiras entre documentário e construção ficcional. Aos 15 minutos de narrativa, Carmen, a protagonista fílmica, preside uma assembleia com os moradores para informar a decisão judicial de reintegração de posse. “Se agora nós recuarmos, vamos aceitar a sentença do juiz, então, pessoal, é hora de estarmos unidos e juntos”, brada, seguida de aplausos. Hassam, personagem de Ahmad Issa, intervém: “Eu sou refugiado palestino no Brasil, vocês são refugiados brasileiros no Brasil”. Irrompem vaias e aplausos, e Carmen se pronuncia com voz firme: “Brasileiros, estrangeiros, somos todos refugiados”. Em outubro de 2016, Carmen resumia: “Nós, trabalhadores de baixa renda, estamos cansados de ser atingidos. Não queremos saber quem ganhou a eleição, quem tomou golpe e quem deu golpe, e, sim, que aqui somos cidadãos brasileiros e estamos cansados de ter nossos direitos violados. Vamos à luta. Somos todos iguais”.

    Carmen Silva, coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC)Carmen Silva, coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC)

     

    O filme é um instrumento de divulgação da nossa luta, porque leva para fora o nosso coração, o que somos de verdade. Tira esse mito de achar que os trabalhadores sem-teto são vândalos que ocupam prédios produtivos e mostra a tratativa do Estado conosco. É uma tratativa em que essa instituição não desempenha o seu papel real. Não queremos ser à parte do Estado, e, sim, estar introduzido nele, com direitos e tudo que precisa ser provido para os cidadãos. A importância de ter um filme como esse e o projeto de residência artística no Cambridge, e de ter os artistas acompanhando o Movimento Sem Teto do Centro nessa luta por moradia, é que não temos uma luta específica por habitação, mas por direitos. Arte e cultura são direitos que nós reivindicamos, com a compreensão de que nossa vida não pode ser apenas de casa para o trabalho. A arte é um dos princípios para agir mentalmente, no psicológico, e não só como entretenimento, mas para evoluir a vontade de estudar, de ler, de ter compreensão. Através da arte podemos ter uma compreensão maior do direito para nos tornarmos cidadãos plenos.” Carmen Silva, líder do MSTC

     

    Para Eliane Caffé, o filme integra a produção imagética de “resistência”. “É preciso criar uma narrativa diferente. Movimentos de luta pela moradia e a existência desse universo fértil e politizado do Cambridge são fundamentais para mostrar que houve golpe no Brasil, mas que existem avanços também”, pontua a diretora, que mesclou às imagens captadas na ocupação vídeos feitos por coletivos como Jornalistas Livres e Mídia Ninja. “Aproveitamos imagens da reintegração de posse de um outro edifício no centro de São Paulo para configurar a reintegração do Cambridge, que nunca foi reintegrado”, detalha.

    Era o Hotel Cambridge é um dos desdobramentos culturais oriundos da ocupação. No bojo da experiência criativa desencadeada pelas filmagens, ocorridas em 2014, a curadora Juliana Caffé, sobrinha de Eliane, idealizou, ao lado de Yudi Raffael, o projeto Residência Artística Cambridge. A partir de março de 2016, os artistas Ícaro Lira, a dupla Jaime Lauriano e Raphael Escobar e Virginia de Medeiros e o escritor Julián Fuks se tornaram parte da diversificada paisagem humana que frequenta, habita e fortalece o edifício. “Estamos em um microcosmo da cidade. O Estado não tem como dar conta dos refugiados e é a ocupação que faz isso. Pensamos em como seria interessante aprofundar a pesquisa sobre as articulações entre arte, política e sociedade, vias com muita força e potencial para, ao serem cruzadas, criar novas possibilidades para a cidade”, comenta Juliana Caffé.

     



    Virginia de Medeiros percebe no filme uma “potente tradução do rico universo” que encontrou no Cambridge: “Além da matéria e da arte, existe o lugar da vida e a maneira como também vamos nos construindo nesses processos. Não consigo mais me pensar, como artista e cidadã, fora dos processos de entrega e das questões humanitárias urgentes. Não podia chegar aqui com um projeto fechado, e, sim, me deixar atravessar pelo desejo de viver essa experiência.Era o Hotel Cambridge, para mim, é sobre direitos, amor e união. É sobre conviver com diferentes realidades, diferentes pessoas, bagagens e sonhos, e se deixar afetar por elas. Antes mesmo de iniciar a residência, conheci Carmen e percebi como ela era afirmativa e forte e, ao mesmo tempo, generosa demais. Foi para dentro de uma zona de crack para ajudar as famílias que lá estavam sem ter onde morar. Quero ser uma força também para o movimento. Acredito nessa luta”.

    Em novembro de 2016,Era o Hotel Cambridge foi escolhido pelo júri popular o melhor dos mais de 300 longas-metragens da40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.O número 216 da Avenida 9 de Julho é, hoje, um imóvel classificado como HIS – Habitação de Interesse Social. O Movimento Sem Teto do Centro venceu o edital 002/2015, lançado pela Prefeitura de São Paulo, e hoje tem “documentação e escritura em cartório” para não ser tratado como uma invasão. “Mas o temor não cessa, porque não sabemos o que se passa na cabeça do atual prefeito. Vivemos à mercê da política partidária e temos que seguir batalhando”, constata Carmen Silva, do MSTC.

    A diretora Eliane Caffé não dissocia a sua obra do contexto que a fez possível e, ao mesmo tempo em que se prepara para levar o longa a festivais europeus, monta, junto à Frente de Luta por Moradia, uma estratégia paralela de exibição. “Vamos organizar uma ação conjunta com os movimentos de luta. Queremos levar o filme para ser exibido nas ocupações”, antecipa. No Brasil de 2017, é essencial cavar novos espaços para as narrativas de resistência. Afinal, como dizem os personagens fictícios e os moradores reais do Hotel Cambridge, “quem não luta está morto”.

  • Barreto Junior abre inscrições para “Quartas da Dança”

    O Teatro Barreto Júnior fica localizado no bairro do Pina - Foto/DivulgaçãoO Teatro Barreto Júnior fica localizado no bairro do Pina - Foto/Divulgação

     

    Companhias, grupos e artistas independentes de Dança do Recife podem inscrever, até o dia 12 de setembro, pautas para Teatro Barreto Júnior para o programa Quartas da Dança. Os interessados devem enviar propostas espetáculos, para ocupação a partir do dia 14, acompanhando o release, ficha técnica e três fotos da montagem.

     

    Segundo a Secretaria de Cultura e Fundação de Cultura da Cidade do Recife, o material deve ser entregue até o dia 12/09, das 9h às 17h, na Divisão de Artes Cênicas da Prefeitura do Recife, localizada no Pátio de São Pedro (Casa 10 - 1º andar), no Bairro de São José.


    Os projetos serão avaliados por uma comissão composta por três avaliadores - sendo dois representantes da sociedade civil e um da FCCR. Os selecionados terão a bilheteria da apresentação, pagando 10% do valor arrecadado como taxa de ocupação do espaço. Para mais informações, os proponentes podem entrar em contato com a Fundação de Cultura através do telefone (81) 3355-3137 ou através do email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

  • Cine Olinda, Janela e os sentidos de uma ocupação


    Seja em escolas e universidades, seja em imóveis abandonados que poderiam servir de moradia ou área-alvo da especulação mobiliária, seja em equipamentos culturais interditados: parte da força deste ano, que em breve se encerra, está no fenômeno das ocupações. Embora cada uma guarde particularidades, com estratégias diversas e objetivos específicos, tais iniciativas se irmanam pelo seu poder de mobilização e indicam o descontentamento dos indivíduos com os agentes políticos e as instituições públicas que os representam. Se na metade do século XX, o escritor e dramaturgo francês Antonin Artaud já entendia o corpo como um campo de batalha, é emblemático que, hoje, seja justo pelos corpos, pelos corpos individuais e políticos – essas duas instâncias cada vez mais imbricadas – que se conjuga o verbo ocupar.

    É neste ano que o Cine Olinda, ocupado desde o último 30 de setembro, completa 105 anos de uma existência capenga. Isto porque está (estava) fechado para obras de restauro há mais três décadas. Localizado na Avenida Sigismundo Gonçalves, no Carmo, o cinema, sempre rodeado por tapumes com dizeres de reforma, já virou uma espécie de objeto folclórico, se não uma ruína de fato, e os destroços afetivos já eram evidentes para habitantes de uma cidade-patrimônio que não possui sequer um cinema público em funcionamento. É neste contexto que, de modo espontâneo, as primeiras articulações do que viria a ser o Ocupe Cine Olinda foram se formando. Primeiro em eventos isolados, com a participação de cineclubes e discussões na frente ou ao lado do prédio que ainda conserva seu letreiro desenhado, na década de 1960, pelo artista pernambucano Bajado.

    Em setembro, motivada também pela configuração política brasileira, com a PEC 241 e a mobilização nacional contrária à proposta que, entre outros pontos, pretende congelar por 20 anos gastos em educação e saúde, a ocupação se concretizou a partir desse cenário e inseriu em seu discurso demandas próprias. No manifesto, publicado na página do Facebook do movimento, atualizada pelos próprios membros quase que diariamente, lê-se: “A reabertura e manutenção do cinema é nosso objetivo. Para vê-lo realizado, exercitamos a prática diária de criar o cinema e o mundo que queremos. Entre mutirões de limpeza, organização, melhorias e debates políticos, acreditamos que o Cine Olinda é e tem que se efetivar como espaço público popular. Isso significa que a formulação da programação e a gestão do lugar devem estar abertas à participação, com mecanismos simples e diretos para a intervenção das pessoas”. O texto é assinado por mais de 30 organizações, entre elas o Direitos Urbanos, o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), a Marcha das Vadias, o Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH) e o Movimento Ocupe Estelita.

    JANELA DE CINEMA
    Desde que foi ocupado, o Cine Olinda exibiu mais de 50 produções cinematográficas e cerca de 2 mil pessoas já visitam o local. Além disso, foi firmada uma parceria com o festival Janela Internacional de Cinema, que cedeu parte de sua programação fílmica à ocupação, apelidada de OCO-Janela. A ideia surgiu por acaso e espontaneamente, de acordo com o coordenador de programação do festival, Luís Fernando Moura. “As pessoas estão levando a ocupação de forma muito interessante, e nós, do Janela, acreditamos muito na causa. Esse gesto é a nossa maneira de apoiar as causas do Ocupe Cine Olinda”, observa. “De alguma forma, é o Janela que está sendo ocupado politicamente pelo Cine Olinda, um local que esperamos que volte a ter vida e funcione com a cidade.”

    Por ter se construído como um movimento horizontal, participativo e democrático, a programação incorporada do Janela seguiu o mesmo caminho. Luís Fernado faz questão de frisar que “os integrantes do Ocupe tiveram autonomia total, como um programa convidado, então eles sugeriram, organizaram e fizeram a curadoria dos filmes”. Assim, formou-se uma comissão, eleita em assembleia aberta ao público. Elaine Una, membro da comissão e representante da plataforma de comunicação Amaro Branco, deixa claro que a escolha de curtas e longas não passou simplesmente por uma análise de qualidade fílmica, mas “buscou dialogar com a ocupação enquanto estratégia de estabelecer e gerir um cinema popular”.

    Outro critério levado em conta pelo júri foi a autorização dos diretores dos filmes e a disponibilidade desses realizadores de debaterem com o público do Cine Olinda. Envolvida com o Ocupe, a jornalista Débora Britto pontua que estimular a discussão “abre possibilidades de diálogo e representa muito bem o caráter aglutinador do movimento”. Uma vez concluído o Janela, porém, as atividades do Cine Olinda devem ser continuadas, com sessões às terças, quintas, sábados e domingos.

    Segundo os integrantes da ocupação, ainda não houve contato da Prefeitura de Olinda, da Fundação de Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), instituições envolvidas na reforma do cinema, que ainda precisa de instalação de poltronas e aparatos técnicos para a exibição de filmes. Débora aponta que o desejo “é dialogar com o poder público”. Até lá, a ocupação segue seu projeto de reivindicar por um “equipamento cultural que exista para as pessoas”. Para ela, o grande legado do Ocupe Cine Olinda é justamente o de “recriar o sentimento de pertencimento da sociedade”.

    Confira programação do OCO-Janela:

    Sexta-feira 04/11

    18h30 – Sessão OCO-Janela: HETERÔNIMO + debate com o realizador
    Direção: Vitor Medeiros (RJ, 2016, 25', COR)
    Sinopse: Mariana vive no fundo do mar. Um dia, sua professora Cecília lhe apresenta Christian, um príncipe de outro mundo. Ele é perfeito pra você.

    19h – Sessão OCO-Janela: O ÚLTIMO TRAGO + debate com os realizadores
    Direção: Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti (BRA, 2016, 93')
    Sinopse: Os vivos pedem vingança. Os mortos minerais e vegetais pedem vingança. É a hora do protesto geral. É a hora dos voos destruidores. É a hora das barricadas, dos fuzilamentos. Fomes, desejos, ânsias, sonhos perdidos, misérias de todos os países, uni-vos!

    Sábado 05/11

    15h – Sessão OCO-Janela – Filme surpresa!

    17h – Sessão OCO-Janela Curtas + Debate com os relizadores

    Rua Cuba – Direção: Felipe Marcena (BRA, 2016, 20'). Sinopse: Uma casa numa ladeira. Um grupo de amigos. Uma noite de festa. Um inquilino recluso. Um filme de horror?

    Quarto para alugar – Direção: Enock Carvalho e Matheus Farias (BRA, 2016, 21'). Sinopse: Letícia mora sozinha. Após conhecer Gabriela numa festa e trazê-la para casa, estranhas movimentações passam a se desenvolver em seu antigo apartamento.

    O delírio é a redenção dos aflitos. Direção: Fellipe Fernandes (BRA, 2016, 21'). Sinopse: Última moradora de um prédio ameaçado, Raquel precisa se mudar com a sua família o quanto antes. Este belo exercício de direção de Fellipe Fernandes, premiado em diversos festivais, revela tanto amor pela cena de cinema quanto pelo muito olindense bairro de Jardim Atlântico, onde se ambienta. É também crônica cinematográfica sobre espaço, com claro carinho fotogênico pelos folclóricos prédios-caixão.

    Dia de pagamento. Direção: Fabiana Moraes (PE, 2016, 28). Sinopse: Em Rio da Barra, sertão de Pernambuco, a transposição de um rio possibilitou a compra de biscoito, casa, suco de caixinha, perfume, terreno. Quase todos foram usados como substitutos da cidadania.

    19h – Sessão OCO-Janela: CÂMARA DE ESPELHOS + debate com a realizadora
    Direção: Dea Ferraz (BRA, 2016, 76', COR). Sinopse: Um grupo de homens é selecionado no Recife para ingressar numa sala hermética, onde a diretora os observa e os filma. Uma televisão participa da conversa e, controlada meticulosamente dos bastidores, interrompe-os repentinamente com imagens diversas, nas quais as mulheres são figura permanente. A diretora está à espreita para ouvir os comentários de seus personagens e nos revelar uma coleção de sintomas históricos. Em tempos de combate amplamente midiatizado ao machismo, surge no Brasil um filme de ação, com muita munição.

    Domingo 06/11

    16h – Teatro de sombras: Ensaio aberto do novo espetáculo de Habib Zahra e Valeria Rey Soto

    17h – Sessão OCO-Janela: PINÓQUIO
    Direção: Hamilton Luske, Ben Sharpsteen [Walt Disney] (EUA, 1940, 88', COR, LEGENDADO)
    Sinopse: Talhado em madeira pelo velho Gepeto, Pinóquio quer se tornar um menino de verdade. A animação que eternizou a figura da mentira em um nariz que cresce rebeldemente é, no fim das contas, uma bela fábula sobre a persistência.

    19h – Sessão OCO-Janela: GENTE BONITA
    Direção: Leon Sampaio (74 min) + debate. Sinopse: Neste filme de invasão, jovens carnavalescos vestidos de abadá empunham paus de selfie e adentram os salões dos camarotes privados no Carnaval de Salvador. Em seu primeiro longa-metragem, Leon Sampaio desloca para o cinema uma experiência até então secreta aos nossos filmes, revelando o que se passa neste universo VIP, enquanto produz um antimusical de classe.

  • Fotografar e resistir

    Fotos do Occupy Wall Street (por Fernando Azevedo) e de estudante de São Paulo mostram a luta que não está nos jornaisFotos do Occupy Wall Street (por Fernando Azevedo) e de estudante de São Paulo mostram a luta que não está nos jornais

     

    "Pela luz de Deus, esses vilões tornarão a palavra tão odiosa quanto a palavra ‘ocupar’; que era uma excelente palavra antes de ter tido a má sorte que teve."

    —William Shakespeare, Henry VI, Part 2, II.iv. c. 1590.
    [Epígrafe retirada de A arte de ocupar, tese de doutorado de Fernando Azevedo]

     

    Reativar, aprofundar, deslocar conceitos. Eis algumas funções inerentes às palavras, mais até do que simplesmente atribuir significados muitas vezes estanques nos dicionários. Foi a partir desse pressuposto que o fotógrafo Fernando Azevedo resolveu participar do Occupy Wall Street (#OWS), interferindo e relacionando-se com o movimento que, em 2011, resolveu protestar contra a desigualdade socieconômica, com seus efeitos mais evidentes a partir da crise mundial de 2008 nos Estados Unidos. Em um dos centros financeiros do mundo, centenas e depois milhares de manifestantes acamparam nas imediações do Zuccotti Park, em Nova York e, ao longo de três meses, ocuparam o local com barracas, faixas, cartazes e – sobretudo – seus corpos como forma de resistência. No site do grupo, que já nasceu propondo horizontalidade, lia-se:

     

    “Este movimento #OWS dá poder a pessoas reais para criar uma mudança real, de baixo para cima. Queremos ver uma assembleia em todo quintal, toda esquina, porque nós não precisamos de Wall Street e não precisamos de políticos para construir uma sociedade melhor”.


    Fernando Azevedo compreendeu que os registros imagéticos de iniciativas como o #OWS eram dominados pela mídia hegemônica, em sua maioria subordinada aos mesmos interesses combatidos e criticados pela ocupação e, justamente por isto, eram imagens, a priori, repletas de parcialidade e pré-julgamentos. Quis propor narrativas fotográficas, não negando o fotojornalismo, mas ampliando-o ao documental e também à dimensão artística inerente à militância política. Ao conviver com os integrantes do acampamento em todas as suas dimensões, realizou quatro ensaios fotográficos, que posteriormente viram a ser objeto de sua tese de doutoramento pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), sob o título de A arte de ocupar, defendida em 2016.

    Uma das preocupações de Fernando era não cair no tom raso e distante de denúncia social. Em seu trabalho, ele relembra exemplos nos quais a fotografia foi fundamental para revelar situações de injustiça, como o caso clássico do norte-americano Lewis Hine, que, no início do século XX, através de imagens contundentes de crianças trabalhando em fábricas, conseguiu alterar a legislação referente ao trabalho infantil nos Estados Unidos. “Hoje, imagens de pobreza e outros sofrimentos humanos circulam como arte pelas galerias e livros do mundo. O que era possível à foto-documento de então não me parece estar mais tão ao nosso alcance atualmente”, reflete Azevedo. E continua: “Pelo uso e pelo abuso, nos tornamos cínicos diante da fotografia”.

    Em quatro ensaios, captou os diversos espectros da ocupação, num “cruzamento entre arte e política”, como define. Assim, Noite, Dia, Ritos e Guerra se articulam de modo sensível e autoral e propõem uma visão fotográfica na qual os discursos objetivo e subjetivo se diluem e irmanam-se. Em Noite, devido à chuva e à pouca luminosidade, as fotos são borradas, granuladas e de caráter expressionista. “Em minha primeira noite fotografando o acampamento, registrei pessoas, lixo, trabalho, sinalizações, barracas, comidas, reuniões, edifícios, gestos e atitudes. Não há hierarquia entre forma e significado nessas imagens”, comenta o autor. Já no segundo ensaio, Dia, é o rosto, a expressão dos manifestantes e policiais que estão em evidência. Embora o foco nas feições remeta ao retrato, que Fernando reconhece ser historicamente um “gênero artístico autocontido que se caracteriza pela imobilidade e passividade”, é justamente o seu contrário que tais imagens demonstram: são corpos em movimento que acompanham as expressões de indignação, tristeza, raiva ou choque diante de gestos arbitrários da polícia. Como diz o fotógrafo a respeito da força de uma feição, “a qualquer momento, a identificação de um rosto pode significar a diferença entre conceder ou não um emprego, entre liberdade e prisão ou, até mesmo, entre vida e morte, como foi o caso das execuções sumárias dos membros da Comuna de Paris já nos idos do século XIX”.

    O olhar de Fernando Azevedo...



    ARTE E MILITÂNCIA
    Para além do registro jornalístico e do documento histórico trabalhados nos ensaios anteriores, o caráter artístico do #OWS foi salientado em Ritos. No ensaio, a coreógrafa Felicia Norton foi convidada por Azevedo a intervir no mesmo espaço onde se dava a manifestação. Assim, a dança e a fotografia, duas modalidades artísticas, entrariam em ação direta e participativa. “Não nos víamos, porém, fazendo arte política, mas, sim, arte dentro de um contexto politicamente carregado — o que é, em si, um ato político”, afirma Fernando.

    A estratégia de aliar linguagens do campo da arte a ocupações tem sido, aliás, uma tendência. O jornalista e fotógrafo pernambucano Chico Ludermir, que acompanha e registra, há alguns anos, movimentos sociais e ocupações – a exemplo do Ocupe Estelita e Ocupa UFPE – acredita que a afinidade é evidente:

     

    “As movimentações sociais contemporâneas têm utilizado bastante esse recurso da arte. A música, o vídeo, a fotografia, a dança, está tudo lá. E é importante que essas modalidades estejam presentes para que se saia de um registro mais duro e puro e se consiga também fazer um registro performático”.

     

    Performance "Ocularpation: Wall Street", idealizada por Zefrey Throwell. Foto: NYTPerformance "Ocularpation: Wall Street", idealizada por Zefrey Throwell. Foto: NYT

    Chico fez parte da ocupação do Estelita, no Recife, e registrou diversos momentos, entre 2014 e 2015, do movimento que nasceu em oposição ao projeto imobiliário com pretensão de construir, na área do Cais José Estelita, no centro da cidade, 12 torres de 40 andares cada. Com o planejamento urbano e a ideia de uma cidade mais humana em pauta, Chico concebeu uma instalação fotográfica registrando as mãos dos ocupantes. “Eu tirei fotos de mais de 500 mãos, imprimi essas imagens e colei embaixo do viaduto que passa próximo ao cais, preenchendo toda a parede. A ideia da exposição é discutir como os corpos são uma extensão da cidade, e vice-versa. A vida humana é reflexo dessa cidade, e nós estamos carregados dela. Optei por registrar as mãos porque, em um processo de ocupação, em que se tenta criminalizar e identificar certos integrantes, elas funcionam como um elemento não personificador e representam a horizontalidade do movimento. A mão também é símbolo de resistência, cuidado, afeto e proteção — demandas do Ocupe Estelita”, analisou ele em entrevista à Continente.

    O olhar de Chico Ludermir...



    A potência da fotografia como projeto artístico está também em promover reflexões sobre determinados fatos, mesmo após eles terem ocorrido. A série de retratos Tropa de Elite, do coletivo Trëma, foi realizada em 2013 com ex-moradores da ocupação de Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo. Durante oito anos, essas pessoas ocuparam um terreno abandonado e, diante da ameça de reintegração de posse (que viria a ocorrer de forma violenta em uma madrugada de 2012), formaram um exército, treinando técnicas de ataque e defesa, e utilizando armas e vestimentas improvisadas para se defender da polícia e proteger o lugar em que moravam. Quase dois anos após um despejo traumático, os moradores relembraram a ocasião por meio do ensaio.

    "Tropa de Elite", pelo Coletivo Trëma. Foto: Divulgação"Tropa de Elite", pelo Coletivo Trëma. Foto: Divulgação

    O fotógrafo Gabo Morales, um dos integrantes do coletivo, comentou a respeito em encontro promovido pela revista ZUM na ocupação da UFPE, no final de 2016: “A gente queria fazer a reconstituição da memória dessas pessoas. Nesse caso, a memória se reconstituiu também a partir da vestimenta, porque algumas foram perdidas durante a reintegração de posse e precisaram ser recriadas por eles. A missão era: você recria sua roupa, a gente faz uma entrevista, você vai fazer uma foto com e sem essa roupa”. Desse modo, cada personagem é retratado em duas imagens, que estão lado a lado, uma com vestes “normais”, outra com os trajes de resistência. O objetivo do ensaio era ouvir a história dessas pessoas e recriar uma outra narrativa da ocupação, já que a mídia tradicional tratou o caso do exército improvisado em tons folclóricos e, na opinião de Gabo, só acelerou o processo de reintegração de posse do terreno. “O Trëma quis diminuir a nossa distância em relação a essas pessoas, aumentar o nosso telescópio para olhar mais de perto para esses indivíduos”, afirmou.

    Essas diferentes abordagens fotográficas, antes, durante ou depois das ocupações, constituem a transgressão própria da ação artística, que vai “além do monopólio crítico, polarizado, das ciências sociais”, nas palavras de Fernando Azevedo, e não necessariamente influem de modo direto nos fatos ou em seus resultados concretos. Não é o caso de se perguntar objetivamente “No que resultaram tantas ocupações?” ou “Do que adiantaram tais ações?”, pois os atos de resistência e seu registro reverberam no presente e no futuro de modo pouco orquestrado e, ainda assim, veementes e decisivos. É nisto que acreditava a escritora, crítica e ativista Susan Sontag, quando proferiu este discurso:

     

    “Não fazemos isso só para agir corretamente, ou para aplacar a nossa consciência; muito menos porque estamos confiantes de que a nossa ação vai alcançar o seu objetivo. Resistimos como um ato de solidariedade. Com as comunidades daqueles que agem por princípio e que desobedecem: aqui, em toda parte”.


    CÂMERA COMO ARMA
    O último ensaio de Fernando Azevedo em Wall Street, denominado Guerra, toca no ponto do confronto direto entre os militantes e a polícia e, como consequência, no fim da ocupação. Ele observa que curiosamente, mas não por acaso, “movimentos e manifestações políticas pelo mundo afora são confrontados por soldados armados para guerra aplicando táticas e equipamentos militares a civis desarmados”. O testemunho visual dessas circunstâncias de maior truculência costuma (ou costumava, antes das redes sociais surgirem como um aparato informativo) ser ignorado pelos veículos de comunicação ou cuidadosamente distorcidos. Nesse sentido, as fotografias de simpatizantes ou integrantes dos próprios movimentos constituem um outro olhar quanto a esses conflitos e são peça fundamental para entendê-los.

    O fotógrafo Eric Gomes acompanhou de perto o Ocupe Estelita e, mais recentemente, ocupações de secundaristas em escolas públicas do Recife, que se colocavam contra a PEC 55 e a proposta de mudança do Ensino Médio. “A gente que fotografa para e de dentro desses movimentos quer propor uma outra narrativa. Essa história de imparcialidade não existe. Quando você vai registrar a história, você escolhe a parte que vai contar. Inclusive, ainda que pretenda contar 100% da história, você só vai contar o que viu e presenciou, e é sempre menos que a totalidade dos fatos. O que eu faço é parcial, sim, e tem o objetivo de legitimar esses movimentos”, comenta.

    Fotografando ocupações, não raro Eric ouve queixas de colegas de profissão que trabalham para a imprensa.

     

    “Muitas dessas pessoas que cobrem as ocupações reclamavam que os integrantes dos movimentos eram agressivos e pouco abertos, e eu me pergunto: por qual motivo? Você tem certeza de que não cometeu nenhuma agressão contra essas pessoas? Há várias maneiras de agredir e desqualificar movimentos, escrever e fotografar são exemplos disso”, diz Eric.


    O olhar de Eric Gomes...



    Chico Ludermir entende que o registro das ações de violência policial exercem uma função tanto histórica, mais voltada à posteridade, quanto imediata, para “demarcar a força de um momento, tão bem condensado em uma imagem”. E as redes sociais têm sido as principais plataformas desses movimentos e fazem circular o registro visual dos acontecimentos que não saem no jornal, na TV, tampouco se ouve no rádio. “Quando divulgamos as fotos, e geralmente a divulgação se dá pelo Facebook, e a gente divulga para informar o que a mídia deixa de informar e para fazer o outro compreender. Por isso, quando publico uma imagem, ela vem com um texto de contextualização, porque é uma construção discursiva e um posicionamento político. Para além da rua e do movimento, a fotografia ocupa os espaços de convencimento, é um registro engajado”, acredita.

    “Carregar, apontar, disparar, capturar é uma linguagem que, não por acaso, a fotografia tomou emprestado dos armamentos e suas aplicações”, escreve Fernando Azevedo em A arte de ocupar. O registro fotográfico das ocupações se confunde, assim — na medida em que não se coloca a serviço de quaisquer interesses externos aos movimentos retratados — com as próprias ações de resistência, seja na dimensão artística, seja na política. Afinal, como lembrou Susan Sontag,“a relação de causa e efeito em programas de resistência é tortuosa e não raro indireta. Toda luta, toda resistência é —deve ser — concreta. E toda luta tem uma repercussão global. Se não aqui, então lá. Se não agora, então em breve. Em outra parte, bem como aqui”.

    O olhar de Marcelo Vidal...