• Arte, política, sociedade e ideologia

    "Natureza morta ou estudo para ponto de fuga" (2010/2011). Foto: Divulgação"Natureza morta ou estudo para ponto de fuga" (2010/2011). Foto: Divulgação

     

    Em outubro de 2015, a exposição do 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil ocupava o Sesc Pompeia (SP), colosso arquitetônico projetado por Lina Bo Bardi (1914-1992). Embora monumental, a construção parecia abraçar as obras ali mostradas, emprestando o tom ocre de suas paredes a vídeos que descortinavam paisagens diversas – subjetivas, metafóricas e literais. Em uma das salas montadas para o festival, croquis da construção da capital do Brasil eram exibidos em duas telas lado a lado; além de ver os esboços do que seria Brasília, o visitante ouvia as vozes de duas figuras proeminentes na concepção da metrópole erigida no meio do nada – os arquitetos e urbanistas Oscar Niemeyer (1907-2012) e Lúcio Costa (1902-1998). Eles, contudo, não se referiam aos famosos traços e desenhos urbanos pelos quais também seriam celebrados, e, sim, a uma chacina ocorrida em fevereiro de 1959 em um dos canteiros de obras. Evitando responder aos questionamentos feitos pelo documentarista Vladimir de Carvalho, pareciam sacramentar a máxima de que a História é escrita, de fato, pelos vencedores.


    A fricção entre uma obra reconhecida mundialmente como um dos maiores feitos arquitetônicos do século XX, a fúria com que foram tratados dezenas dos homens que se devotavam a construí-la e o soterramento dessa memória é uma das chaves de Forma livre, videoinstalação de 2013 de Clara Ianni. Havia um outro trabalho dessa paulistana nascida em 1987 no ousado conjunto amealhado pelo 19º Videobrasil: Linha, também de 2013. Tratava-se de “uma série de gravuras de linhas que marcaram a invenção do território brasileiro, derivadas de tratados históricos ou conflitos; deixo só as linhas, o que elas têm de conteúdo político e como elas desenham e redesenham a sociabilidade e o afeto de humanos com humanos e sociedades com sociedades”, nas palavras da própria artista visual. Forma livre e Linha lhe renderam um dos prêmios de residência internacional do festival.

     

    "Forma livre". Frame do vídeo"Forma livre". Frame do vídeo


    Graduada em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Visual and Media Anthropology pela Freie Universität, de Berlim, Clara Ianni promove mergulhos investigativos em suas obras, com foco nos elos que se estabelecem entre arte, política, sociedade contemporânea e ideologia. Da 31ª Bienal de São Paulo, em 2014, por exemplo, participou com o vídeo Apelo, em que dividiu a autoria com Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio – criado por mulheres que perderam seus filhos assassinados pela Polícia Militar de São Paulo em maio de 2006, em resposta aos ataques criminosos perpetrados pelo Primeiro Comando da Capital/PCC. As sequências, filmadas no Cemitério de Perus, na zona norte da capital paulista, evidenciam a naturalização das mortes cometidas “em nome da lei” e, mais uma vez, a repressão da memória – o local foi um dos pontos de desova para cadáveres de presos políticos durante a ditadura militar que vigorou até 1985 no Brasil.


    Em Natureza morta ou estudo para ponto de fuga (2011) e Cubo (2010), a violência surge com outras camadas de leitura. Neste último, parte da exposição coletiva Trash Metal/Quem tem medo?/Vão, na galeria paulistana Vermelho, com curadoria da artista Dora Longo Bahia, um objeto montado a partir de chapas de zinco era apresentado com um taco de beisebol ao lado, dando ao visitante a oportunidade de saciar suas pulsões de agressividade, destruindo-o. No primeiro, que integrou uma coleção chamada Untitled na 12ª Bienal de Istambul, nove chapas de alumínio se ladeiam, em perfeita simetria, com dezenas de perfurações de balas disparadas por armas de calibres distintos (38, 22 mm, 12, entre outros). Muitos furos se chocam com a rigidez da igualdade das chapas, idênticas e retangulares, como se os rastros violentos colidissem, ironicamente, com a monótona repetição do cotidiano.


    Em sua obra mais recente, a série de fotografias Tratado, a artista desconstrói uma imagem obtida no momento em que o presidente interino do Brasil, Michel Temer, é empossado. Qual o sentido daquela foto e dos detalhes das mãos – todas brancas, todas masculinas – que assinam documentos preparados para legitimar um governo nascido da refutação a uma eleição democrática? Porém, assim como nas esculturas Trabalho concreto (2010) e Totem (2011), não se deve esperar respostas imediatas de Clara Ianni. Uma janela para a reflexão é o convite que ela faz, provocando os espectadores, com pertinência e acuidade, a se relacionar com suas obras a partir de uma indagação premente: qual é o lugar da arte na contemporaneidade saturada de informações, excessos e significados?

     

    GALERIA:

     

  • As cores e formas do nosso Viva São João!

    As célebres bandeirinhas de Alfredo Volpi. Imagem: ReproduçãoAs célebres bandeirinhas de Alfredo Volpi. Imagem: Reprodução

    Quando chegam os dias juninos, as cidades se transformam, principalmente aquelas distantes da capital. Nas portas de casa, madeiras cuidadosamente arranjadas esperam o grande dia para virarem... fogo! Em certos locais, as ruas também se enfeitam com palhas e as tradicionais bandeirinhas. Alguns até arriscam soltar balões. O Nordeste brasileiro transpira cultura popular nestes dias de junho devotados a Santo Antônio, São João e São Pedro, uma tríplice católica cuja festividade já ultrapassa a religião e se torna, de fato, uma grande festa para o povo.

    A tradição de acender fogueiras é secular, antes de Cristo mesmo. Surgiu na era pagã para se comemorar o solstício de verão (no Hemisfério Norte) e a renovação dos ciclos agrícolas. Porém, é claro, com o intuito de catequizar e cristianizar os povos pagãos, certos costumes antigos foram, pouco a pouco, associados à cultura dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Foi a esses processos que se mesclou a festividade de São João Batista, considerado um dos últimos profetas do Antigo Testamento. Comemora-se, então, a cultura das fogueiras. Com o passar do tempo, outros elementos também foram sendo adicionados. No Brasil, muito do que se conhece hoje como festa junina veio da herança ibérica das colonizações, especialmente a de se comemorar a Festa de Santo Antônio, o santo casamenteiro cuja terra natal é Lisboa.

    Diversos pintores e artistas visuais ajudaram a expressar essa cultura em suas obras, que muitas vezes brincam entre o sagrado e o profano. Como, por exemplo, nos tradicionais desfiles das bandeiras em que, na forma de estandartes, os ícones católicos se expressam.

    UNIVERSO PICTÓRICO
    As bandeirinhas têm no pintor modernista Alfredo Volpi uma grande representatividade. Esses elementos junto aos casarios, que retratam tão bem nosso interior, se aproximam do abstracionismo geométrico característico do movimento modernista brasileiro. As xilogravuras de J. Borges também ajudam a compor visualmente essa história. Como nas obras São João na roça,por exemplo, ou Fórro de pé de serra e ainda Forró sertanejo. Mesmo que não explicitem neceriamente o período junino, esses trabalhos mostram como o forró é quase um sinônimo das nossas festividades de junho. 

    Para citar outros artistas, igualmente interessados na cultura brasileira, Cândido Portinari já chegou a produzir quadros sobre o tema. Além dele, Alberto Guignard - famoso por retratar paisagens mineiras de maneira bastante solitária - também está na lista, onde, aliás, insere-se um sem número de pintores naïf, como é o caso de Militão Santos. 

    Não só homens contribuem com seu talento para narrar visualmente as festas de São João, mas também mulheres. Artistas como Anita Mafaltti, pintora modernista e professora brasileira, retrataram nos séculos passados as cenas da alegria popular, dos fogos e dos balões.

    De maneira geral, existe uma proximidade entre os trabalhos, na maior parte figurativos, quase sempre preocupados em transpor as cores, as formas e o espírito do nosso Viva São João!, mudando apenas a técnica, o traço. O cenário é quase sempre o mesmo: tem uma igreja como pano de fundo, com bandeirinhas, fogueiras e danças. São, afinais, signos que se transformam em ícones das festas juninas, reprozindo-se por todo canto. O que não é algo ruim: é interessante visitar essas obras para nos fazer lembrar de como costumavam ser as festas juninas antes de o forró eletrônico ou do sertanejo universitário se tornarem febres nacionais e, de certa forma, descaracterizarem a tradição popular. Em outras palavras, contemplar o que artistas já fizeram é como mergulhar num passado a ponto de se acabar. 

     

  • Berna Reale: Breves narrativas épicas

     

    DivulgaçãoDivulgação

     

    Domingo, 9 de outubro de 2015: transcorria o Círio de Nazaré em Belém e, em meio a dois milhões de pessoas, Bernadete de Lourdes Guerreiro Reale envergava o colorido fardamento da guarda suíça do Vaticano. O figurino, cujo desenho original é de Leonardo da Vinci, fora cerzido por sua mãe, Conceição. Segurando uma bandeira com as cores do arco-íris, inconfundível símbolo LGBT, a artista visual paraense caminhou por quatro horas na “maior procissão católica do mundo” para gravar imagens de Promessa. “Não queria vilipendiar a tradição da Igreja, mas propor uma reflexão sobre a hipocrisia e tudo que é escamoteado”, resume.


    Ao inserir Berna Reale como um elemento exógeno em uma paisagem urbana, Promessa não diferirá, em síntese, do vídeo Americano (2013), em exibição na mostra É tanta coisa que não cabe aqui, no pavilhão brasileiro da 56ª Bienal de Veneza; das imagens de Cantando na chuva (2014) e Soledad (2013); ou de Habitus (2015), em exposição no atual 34º Panorama da arte brasileira, no MAM/SP, do qual ela participa ao lado de Cao Guimarães, Cildo Meirelles, Erika Verzutti, Miguel Rio Branco e Pitágoras Lopes Gonçalves.


    E não será apenas sua presença cênica o elo entre seus trabalhos: em todos, noções de poder, violência, miséria e contradições se imiscuem para criar breves porém épicas narrativas – ora em série de imagens, ora em vídeos – sobre o Brasil contemporâneo. Sua arte evoca questões sociais, políticas e culturais das quais boa parte dos debates atuais tende a desviar. Mas Berna Reale não se considera panfletária: “A polaridade poder e miséria é recorrente no meu trabalho e vai me interessar sempre porque é a realidade. Sou uma artista do presente e me contamino por ele”.

    Sua trajetória poderia ter sido bem diferente. Nascida na capital paraense,“perto do Ver-o-Peso, onde moro até hoje”, quis cursar Medicina. De uma amiga, ouviu falar do curso de Educação Artística. Aprovada na UFPA, atravessou a seara acadêmica sem muito deleite. “Não foi dentro da faculdade que descobri o gosto pela arte, e, sim, ao frequentar aulas de cerâmica na periferia”, rememora. Corriam os anos 2000, quando Berna enveredava pela escultura. Apreciava o artesanal, mas se incomodava com os limites físicos do barro. Migrou para a imagem e suas possibilidades. “Comecei a fotografar terra. Registrei tijolos, casas em reformas. Até hoje, uso símbolos fáceis para, sem esquecer a estética e o apelo visual, ‘dar a volta’ e neles encontrar a arte”, situa a artista.


    Há signos do cotidiano em Quando todos calam (2009), registro fotográfico de uma performance descrita pela própria artista como “fundamental” na sua construção artística: barcos no porto, urubus, pescadores ao fundo. O prisma, o ímã e o cerne do discurso eram, contudo, a própria Berna, nua sobre uma mesa adornada com uma toalha branca, com vísceras no seu corpo a esperar as famintas aves. Decepcionada com os rumos da política, sentindo-se “sem horizonte”, ela deu vazão ao desejo de se colocar no trabalho. “Já não conseguia mais falar só com imagens, queria estar presente”, resume. A atitude lhe rendeu o grande prêmio do Salão Arte Pará.


    Nada apareceu por acaso – naquela época, Berna já havia sido aprovada no concurso de perita no Centro de Perícias Científicas do Estado do Pará. Antes de assumir, havia passado meses visitando o IML local para fotografar entranhas. Essa imersão se espelha, desde então, nas suas imagens. Foram ossos enterrados em valas clandestinas na região metropolitana de Belém que ela transportou, solenemente vestida de preto, em uma carroça em Ordinário (2013). No interior de uma penitenciária, ela reinterpretou o olímpico gesto de carregar uma tocha em Americano.


    Nas ruas desertas de uma Belém ao amanhecer, filmou Palomo (2012), em que monta um cavalo vermelho (tingido sem dano algum) e aparece, ela mesma, com uma focinheira, como se as eventuais palavras que ousasse proferir lhe tivessem sido negadas – o vídeo foi um dos destaques de Vazio de nós, individual no Museu de Arte do Rio de Janeiro (2013). Tapou o rosto novamente em Cantando na chuva, no qual, como uma alienígena em dourado, invadiu um lixão com uma máscara antigás; com um elegante vestido em azul adirigir uma biga, locomoveu-se por uma favela puxada por porcos. E ocupou a sala de necrópsia em que trabalha para ambientar Habitus.


    Há vestígios de chacinas, ruídos policiais e ecos da selvageria cotidiana das metrópoles brasileiras nos seus projetos. Afinidades mais do que eletivas, portanto, aproximam a atividade forense do exercício artístico. E assim ela age como uma detetive. “Numa perícia, é uma investigação científica. Na arte, é simbólica. Quando se entra numa cena de crime, tudo está envolvido por centenas de símbolos. O perito procura evidências, trabalhando com aquilo que está lá, com o concreto, com a ciência. Isso tem relação com a arte, em que tudo é simbólico. Só que a arte não é ciência, apesar de pesquisadores quererem decodificá-la a esse ponto. Possui milhões de possibilidades de interpretação.”


    Em Precisa-se do presente (2015), série de fotografias e um vídeo realizados para o Rumos Itaú Cultural durante uma viagem pela Rússia, Índia, África do Sul e China, em O tema da festa, instalação do 4º Panorama da arte brasileira, e na performance que se multiplicará no vídeo Promessa, Berna Reale usa a ironia para convidar o espectador a tecer sua própria camada interpretativa. “A arte não pode ser fechada. Quero que o espectador fique em dúvida sobre o que é real e o que é manipulado. Para uns, um cavalo vermelho é uma mancha de sangue.” “Égua”, diz, na expressão típica do Pará, “o que seria para outros?”.




     

    (Matéria publicada na edição 179 da Revista Continente)


    --------------------------------------
    LEIA TAMBÉM:

    Mostra Marcantonio Vilaça em cartaz no Mamam

     

  • Bienal de SP em visita a Garanhuns

    Visitantes e obras de Gilvan Samico no recorte da 32ª Bienal no Sesc Garanhuns. Foto: Olga Wanderley/DivulgaçãoVisitantes e obras de Gilvan Samico no recorte da 32ª Bienal no Sesc Garanhuns. Foto: Olga Wanderley/Divulgação

    Quem estiver em Garanhuns pode conferir, até 22 de setembro, a itinerância da 32ª edição da Bienal de São Paulo, realizada ano passado. Com um recorte curatorial da exposição Incerteza viva, apresentada no Pavilhão do Ibirapuera, a mostra reúne trabalhos de nove artistas no Sesc Garanhuns, distribuídos entre a Galeria de Artes Ronaldo White e o Centro de Produção Cultural do Sesc (CPC), que ficam muito próximos e têm acesso gratuito ao público.

    Parte integrante da programação do Festival de Inverno de Garanhuns este ano, essa parceria entre Sesc e Bienal de São Paulo contempla uma das opções mais intensas entre o vasto leque do que fazer durante o evento. Afinal, o FIG não se resume à sua programação musical e trazer para o estado este recorte, mais especificamente para o Agreste, favorece o acesso e a formação do público local – incluindo os visitantes da cidade nesta época do ano , além de fomentar a descentralização de recursos culturais, geralmente destinados às capitais do país. O projeto de itinerância da bienal favorece certa vocação para engajar um maior número de pessoas e, por conta disso, após Garanhuns, outras cidades Palmas (TO) e Itajaí (SC) – receberão, cada uma, seu respectivo recorte de Incerteza viva. 

    A exposição de Garanhuns, com curadoria assinada pelo alemão Jochen Volz, foi elaborada especialmente para a cidade, que é a única do Nordeste a recebê-la. Para o local, foram selecionados os artistas Bárbara Wagner, Cristiano Lenhardt, Ebony G. Patterson, Gilvan Samico, Jonathas de Andrade, José Bento, Leon Hirszman, Rosa Barba e Wilma Martins; não só por serem em sua maioria artistas pernambucanos, mas para os que são de fora estabelecerem um diálogo conceitual – e até afetivo – mais próximo com a localidade.

    Sobre o processo inicial de Incerteza viva,a aracajuense Júlia Rebouças, uma das cocuradoras da última Bienal, relembra que a ideia de Jochen partiu de reflexões sobre as "medidas de incerteza", ou seja "medir como esse gesto que não pode ser mensurado, mas que também faz parte do plano das ações". Esse estado de incerteza sugerido pelas obras da bienal, e preservado pelo recorte apresentado em Garanhuns, teria um caráter muito mais propositivo do que determinante. Seria como se a partir do reconhecimento de uma não certeza permanente, a potência da criação artística se tornasse ainda mais enérgica. Para os curadores, o importante é preservar, em cada cidade, as linhas temáticas e de discussões, mas sempre se relacionando com o lugar, ou como pontuou Júlia em entrevista: "Mais do que uma escolha geográfica, o mais importante é que, em cada um dos lugares, nós possamos discutir sobre narrativas, sobre extinção, sobre novas formas de conhecimento, sobre meio ambiente, sobre todos os estudos que normalmente estão soterrados e a margem". 

    VISITA
    A disposição das obras na Galeria de Artes Ronaldo White chama atenção pela possível proximidade e, talvez por não serem tantas obras quanto as que foram apresentadas no Pavilhão do Ibirapuera em 2016, elas ganhem um outro olhar. Sem dúvida, a questão do local também torna viável outros significados. Um exemplo disso é o vídeo Estás vendo coisas, de Bárbara Wagner em parceria com Benjamin de Burca, que traz os processos criativos do brega pernambucano como em um processo de descontrução. Estando no Nordeste, é possível que o trabalho ganhe uma mediação muito mais direta, uma compreensão imediata.

    Enquanto isso, no andar de entrada, vemos a obra da jamaicana Ebony G. Patterson, intitulada ...doing what they always do... (when they grow up...)(em tradução livre, "fazendo o que eles sempre fazem... quando eles crescem"). A artista apresenta uma miscelânea de técnicas entre colagem, aplicação de purpurina e pinturas, criando uma espécie de tapete à parede, que certamente remete, para os olhos pernambucanos ou admiradores da cultura da Zona da Mata, aos mantos usados no maracatu rural.

    Obra da jamaicana Ebony G. Patterson, intitulada "...doing what they always do...". Foto: Olga Wanderley/DivulgaçãoObra da jamaicana Ebony G. Patterson, intitulada "...doing what they always do...". Foto: Olga Wanderley/Divulgação

    Christiano Lenhardt e Jonathas de Andrade apresentam, respectivamente, as obras Trair a espécie(2016) e O peixe (2016), ambas instaladas no CPC. Lenhardt constói um "mundo bicho" que redimensiona o pensamento sobre a história dos ciclos de exploração e a economia baseada na monocultura. São seres inumanos feitos de cará que poderiam ser comida, mas são relocados e "ganham" vida – entram em estado de oxidação ao longo da mostra. "Acho emocionante estar aqui. Uma das coisas é a proximidade com as obras. A da Wilma e a da Ebony na Bienal, eu não tinha visto tão próximo assim", afirma Christiano à Continente. A ideia de Incerteza viva está claramente conectada às noções endêmicas do corpo e da terra, com uma qualidade dos organismos e ecossistemas, e o filme O peixe, de Jonathas, corrobora para a reflexão sobre essas temáticas, mas além disso pensa as ações de trabalho e a identidade do sujeito na contemporaneidade. 

    Estando em uma exposição que traz reflexões acerca de meio ambiente, política(s) e do próprio ser humano quanto à sua existência, mas que começou a ser pensada em 2015 com muitas de suas obras elaboradas justamente para a 32ª Bienal, é inevitável a questão: "Será que que algo mudou ou nos dias de hoje não faz mais sentido?".  Imediatamente, no entanto, o recorte de Incerteza vivaconsegue responder e atenta que a arte não se prende a fatos históricos em síntese. Por mais que se relacione, ela caminha junto às nossas inquietações e questões, ou como define Júlia Rebouças: "A arte está falando de sentimentos e esse sentimento atravessa gerações. Cada vez que a gente vai se relacionando com ela, cada vez que o tempo vai passando e a gente vai complexificando a nossa maneira de estar com a obra arte, a gente vai ganhando".

    Além do projeto de itinerância, o CPC do Sesc realiza também a Mostra Relicário – Acervo Josevaldo Araújo de Melo, de 20 de julho a 22 de setembro, que permeia os elementos da cultura popular, da memória, dos trabalhos com o barro e outros materiais utilizados nas manifestações culturais, como o maracatu. 

    Serviço
    Itinerância da 32ª Bienal de São Paulo 
    Visitação de 20 de julho a 22 de setembro, das 9h às 21h, na Galeria de Artes Ronaldo White (Rua Manoel Clemente, 136, Centro) e no Centro de Produção Cultural do Sesc Garanhuns
    Entrada gratuita
    Informações: (87) 3761-2658 

     

  • Cada parede uma página, cada página uma parede

    Ao fundo, trabalho do artista Marcel Calbusch. Foto: Júlia MMS/DivulgaçãoAo fundo, trabalho do artista Marcel Calbusch. Foto: Júlia MMS/Divulgação

     

    Eram aproximadamente 11h de um domingo de sol no Recife e 12 pessoas prestes a sair “à deriva” pelas ruas do Bairro de Casa Amarela para a terceira edição do projeto Mutirão. Estavam ali artistas gráficos, ilustradores, um fotógrafo e uma repórter (esta aqui, que vos escreve). O processo se iniciou, como de costume, com a impressão e organização das folhas de lambe-lambe, da cola e dos pincéis. A ideia era intervir na cidade através da arte gráfica, tendo como suporte as paredes. No dia da ação, os artistas geralmente compartilham a iniciativa comum de, sem um roteiro premeditado no percurso, se permitirem transitar pelas ruas vazias da urbe. Simplesmente destinam-se a “derivar e intervir na cidade” através de imagens.

     

    O projeto Mutirão foi idealizado pelos artistas gráficos Celso Hartkopf e Raul Souza, mas conta com a colaboração de outros – entre designers, poetas, fotógrafos e ilustradores gráficos. A primeira edição aconteceu em junho deste ano e a segunda, no mês seguinte, ambas nas redondezas do centro do Recife. Há colaboradores desta e de outras cidades, mas todos têm algum tipo de relação com a localidade, conhecem o contexto. A importância dessa relação com o Recife é essencial para as intervenções, já que “o argumento do projeto é a cidade”, como disse Celso Hartkopf à Continente. Mesmo reconhecendo a importância da internet para a propagação dos conteúdos e divulgação de onde é possível encontrar as imagens (ou não, devido à toda vulnerabilidade dos lambe-lambes), os idealizadores atentam para as diferentes perspectivas a partir dessa materialidade vulnerável fixada na paredes. 

     

     Trabalho do artista Celso Hartkopf. Foto: DivulgaçãoTrabalho do artista Celso Hartkopf. Foto: Divulgação

     

    Foi através de trabalhos em conjunto e parcerias desde o ano de 2010 que Raul e Celso se conheceram. Ao longo da convivência, a ideia de um projeto foi surgindo. Até que em 2014, eles ministraram uma oficina chamada Gibi de parede na galeria Maumau, no Espinheiro. Durante uma semana, a proposta foi trocar ideias e discutir quadrinhos e desenhos gráficos com os participantes. Ao final, cada aluno trouxe um lambe-lambe e colou no bairro. Foi essa oficina que acabou se tornando despretensiosamente um piloto para o projeto.

     

    A proposta do Mutirão veio como frequentemente vêm outras – é o que se espera quando duas cabeças criativas em ebulição se aproximam, embora vários insights se perdem ou são postos de lado ao se depararem com os mecanismos burocráticos de financiamento dos editais. A necessidade de ambos de discutir o espaço urbano e intervir na cidade – material e simbolicamente – contribuiu para a criação do projeto. A saída foi o “autofinanciamento” pelos próprios participantes para colocar as mensagens e ilustrações na rua. As imagens apontam para reflexões críticas em relação a costumes conservadores, à corrupção e à situação política. A experiência de explorar as ruas a pé é para conhecer pessoas durante o processo de colagem, sobretudo, e perceber lugares e habitações que muitas vezes passam despercebidos no ritmo frenético do cotidiano.

     

    Durante as ações, a curiosidade das pessoas que circulam pelos locais é interessante. Enquanto uns olham, outros verbalizam. Um dos intuitos parece ser este mesmo: o de estimular o interesse de olhar algo que não estava ali. As reações depois das artes coladas são as mais diversas, mas Celso ressalta que é quase impossível premeditar como cada observador vai reagir. Já ocorreu de imagens que aparentemente seriam tidas como críticas acabarem despertando risadas, e vice-versa. O que é cômico para um pode não ser cômico para outro, e a comicidade não precisa necessariamente despertar o riso.

     

     Trabalho do artista Celso Hartkopf. Foto: DivulgaçãoTrabalho do artista Celso Hartkopf. Foto: Divulgação

     

    ARTISTAS

    Até a terceira edição do Mutirão, no último domingo (21/8), participaram os seguintes os artistas e colaboradores: Joana Liberal, Rodrigo Gafa, André Valença, Bia Lima, Fred Caju, Matheus Calafange, Marcel Calbusch, Thiago Duarte, Raul Souza, Maurício Nunes e Matheus Torreão, Juliana Lapa, Alex Dantas, Lucas Falcão, Igor Colares, Angélica Nascimento, Júlia MMS, Laura de Araújo, Zaca Arruda, Hermano Ramos, Isabela Stampanoni, Raissa Sobral, Felipe Vaz, Márcio Vieira, Raoni Assis, Daaniel Araujo e Igor Taborg, além dos idealizadores.

     

    Apesar de não terem precisamente a mesma visão política, os artistas participantes convergem em uma linha ideológica e crítica com relação à atual situação política no país, mesmo nada disso sendo uma exigência. Muito pelo contrário, o artista fica livre para criar. “A única exigência é a estrutura fixa do tamanho das imagens”, afirma Celso. A escolha por manter as imagens sempre no preto e branco foi para reduzir custo, mas acaba contribuindo para conferir alguma unidade dentro da variedade de traços do projeto. 

     

     Detalhe de colagem de lambe-lambe durante a ação. Foto: Thiago Duarte/DivulgaçãoDetalhe de colagem de lambe-lambe durante a ação. Foto: Thiago Duarte/Divulgação

     

    Entre as várias influências do projeto, estão os cartunistas Millôr Fernandes, Jaguar, Laerte, Angeli, André Dahmer. “Sempre que existe uma posição de enfrentamento, o humor se fortalece”, reconhece Celso, em entrevista à Continente. O enfraquecimento da democracia, frente à situação política do país, e a intolerância às diferenças são alguns dos motores que fazem linguagens como o humor gráfico emergirem através dessa potência crítico-alegórica própria das imagens. Por fim, a rua é trazida como já é de sua vocação: ser um espaço de contestação e questionamento. A frase de Millôr Fernandes “Cada parede uma página, cada página uma parede”, adotada pelo Mutirão na rede social, sintetiza a questão do suporte escolhido no projeto: as paredes como meio de comunicação urbana. Basta um olhar.

     

  • Casa Simples apresenta resultados de imersão artística

     A Casa Simples abre exposição nesta quarta (31/8) A Casa Simples abre exposição nesta quarta (31/8)

     

    Joelson Gomes, artista pernambucano, abre exposição do projeto A Casa Simples nesta quarta (31/8), às 19h. Além do anfitrião, expõem também os artistas Helio Pellegrino, Mana Bernardes e Mauricio Castro. A mostra, que trará os primeiros resultados do período de imersão entre os artistasestará aberta para visitação no ateliê Casa Simples, no Poço da Panela, de quinta a sábado, através de agendamento prévio. A exposição tem o apoio do Funcultura e conta com curadoria de Lúcia Padilha. 

     

    Serviço:
    Primeira exposição A Casa Simples
    Endereço: na Rua dos Arcos, 260, Poço da Panela, Recife
    Abertura quarta (31/8), às 19h; visitação de quinta a sábado (visitação), das 14h às 17h (através de agendamento)
    Agendamento: 3441-9776

     

  • Cristiana Tejo problematiza História da Arte em curso

     Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

     

    Ministrado pela curadora Cristiana Tejo entre os dias 22 e 25 de agosto, e organizado pelo Espaço 3emeio, o workshop teórico História e Contra-história da Arte propõe o questionamento das premissas amparadas pela história da arte, a partir de um olhar sobre sua construção no espaço e no tempo. Além disso, busca interpelar os pressupostos e conceitos-chaves através de uma ótica pós-colonial. Cristiana Tejo vive e trabalha atualmente entre o Recife e Lisboa, e já cuidou da curadoria de Artes Plásticas da Fundação Joaquim Nabuco (2002-2006) e do Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural (2005-2006), além de ter lecionado por oito anos a disciplina de História da Arte nas Faculdades Integradas Barros Melo - AESO. Alguns questionamentos como “Quais novas narrativas estão sendo geradas e por quem?”; “Qual o impacto destas mudanças nas coleções de arte e no ensino da disciplina?”; e “É possível estruturar uma história da arte global?” serão abordados nas aulas. O workshop é voltado para artistas, fotógrafos, críticos, curdadores, pesquisadores e interessados nas áreas de História da Arte, Arte, Sociologia da Arte e Estética.

     

    Serviço:

    Workshop teórico História e Contra-história da Arte
    Onde: Galeria Amparo 60, Avenida Eng. Domingos Ferreira, 92, Boa Viagem, Recife
    Quando: 22 a 25 de agosto de 2016, das 19h às 22h. 
    Valor: R$ 250

    *a inscrição pode ser feita no site do 3emeio pelo link:
    http://www.3emeio.com.br/?cursos&cid=2750#frm-inscricao

    Ou na Amparo 60 (telefone: 3033-6060)

  • Flávia Junqueira: teatralidade extravagante

    "Gorlovka, 1951": série concebida em residência para fotógrafos na Ucrânia. Foto: Flávia Junqueira/Divulgação"Gorlovka, 1951": série concebida em residência para fotógrafos na Ucrânia. Foto: Flávia Junqueira/Divulgação

    [Leia na íntegra o texto da sessão Portfólio da edição 195 (mar 2017)]

    Em um dia de junho
    da década de 1920, a londrina Clarissa Dalloway prepara-se para mais uma festa em sua casa, hábito que aprecia e parece indicar a alegria constitutiva de seu ser. Mas há qualquer coisa de deslocada e distante na personagem criada por Virginia Woolf no livroMrs. Dalloway.A narradora observa que Clarissa está “sempre dando festas para encobrir o silêncio”. Na mesma década, mas desta vez nos Estados Unidos: as suntuosas celebrações, sem motivo aparente, promovidas na mansão do milionário Jay Gatsby, protagonista deO grande Gatsby, do autor Scott Fitzgerald. Alcoolizada, uma cantora que se apresenta no local “se convencera no decorrer da canção que tudo era muito triste – de modo que não estava só cantando, mas também chorando”.

    A dimensão decadente e melancólica que pode existir numa festa – desde os motivos pelos quais é planejada até o momento em que termina, deixando rastros de alegria – e nos atores que dela participam, entre a euforia e o desamparo, também são evidenciados na série fotográficaA casa em festa(2010), da paulistana Flávia Junqueira. Nela, apesar dos balões coloridos, confetes, das caixas de presentes e personagens infantis – signos coloridos que remetem à felicidade e celebração –, a artista aparece cabisbaixa, solitária, desanimada.

    Formada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), foi sobretudo a partir do mestrado em Poéticas Visuais, na Universidade de São Paulo (USP), que Flávia passou a investigar de modo sistemático o termo alemãoheimlich, anteriormente analisado por Sigmund Freud. O conceito abriga em si significados divergentes – “pode ser atribuído a familiar, íntimo ou fantasmagórico e oculto, ou seja, desenvolve-se na direção da ambivalência”, assinala.

    Obra e pesquisa da artista se desenvolvem a partir do que ela chama de teatralidade extravagante, “aquela que se apresenta como meio de ficcionalização e distanciamento da realidade”. Os desdobramentos mais evidentes dessa temática são observados a partir da articulação proposital de maniqueísmos em suas performances, instalações e fotografias, como novo e velho, infância e maturidade.

    A estética da ruína, atrelada a elementos referentes à juventude, por exemplo, está posta em trabalhos comoSonhar com uma casa na casa (2011) eGorlovka, 1951 (2011). Este último trata-se de uma série fotográfica realizada durante residência artística na Ucrânia, em um palácio abandonado da era soviética. No interior do espaço, Flávia dispôs alguns dos objetos recorrentes no seu escopo criativo: ursinhos, balões, fantasias e serpentinas coabitam com uma paisagem outrora imponente e em estado de deterioração.

     


    EmSonhar com uma casa na casa, o processo é semelhante, e fragmentos de uma casa de boneca estão posicionados em salas antigas, desabitadas. Ambas as obras apontam para um terceiro espaço, “nem totalmente fictício, nem totalmente real”. É nesse território ambíguo que a artista desfaz a lógica de ater-se meramente a dualidades e polarizações. E é por isso que, ao observamos tais imagens, não sabemos que parte do cenário já existia e que parte foi construída. “Uma ingenuidade que anda lado a lado com o senso de tragédia, a inocência infantil justaposta ao senso de solidão e isolamento”, reflete Flávia, acerca dessas fotografias.

    Outro recurso utilizado por ela é o manejo de excessos para esvaziar conceitos ou criticá-los. Em oito autorretratos, Flávia posa em cômodos de sua casa junto a todos os artefatos dispostos no ambiente. O resultado está na sérieNa companhia dos objetos (2009), cuja pujança material não impede a artista de mostrar-se solitária e apática, algo como um retrato que poderia perfeitamente ser de Clarissa Dalloway. A infância e os símbolos que a referendam – tema caro à artista – mostram-se como uma alternativa de sublimar o real, a exemplo do carrossel.

    EmEstudo para inversão (2013) eO caminho que percorri até te encontrar (2011 e 2014), o maquinário típico dos parques de diversão ora gira ao contrário – pondo em xeque sua funcionalidade como parte de rituais de lazer –, ora aparece como indicador geográfico em um mapa de Paris, estabelecendo, desse modo, novas sinalizações cartográficas. Desse modo, o que interessa a Flávia é propor fissuras no espaço – seja ele infantil, melancólico ou festivo – em meio ao cotidiano, na tentativa de tensionar e manipular o real, ou, como afirma ela,“inventar esteticamente novos espaços e tempos”.

  • Indiano arma tenda em Kassel

    Nikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e parte de sua obra "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

    Após um percurso de cerca de 3 mil quilômetros, desde Atenas, na Grécia, onde também está acontecendo a documenta 14, o artista indiano Nikhail Chopra aportou em Kassel, mais exatamente na Kulturbahnhof, onde montou a sua obraDrawing a line through the landscape. A viagem de Chopra e sua restrita equipe compreendeu o cruzamento de montanhas gregas, a passagem por vilas desertas de antigas cidades soviéticas e por monastérios na Bulgária. Antes de chegar a Kassel, Chopra ainda passou por cidades como Budapeste, na Hungria, e Bratislava, na Eslováquia – armando a sua tenda ao longo do trajeto.

    Ao optar por não percorrer os movimentos binários Norte-Sul ou Leste-Oeste, a obra se propõe a retomar as antigas rotas nômades, através das quais é possível encontrar cidades abandonadas, povos rejeitados e o cansaço de todos aqueles que vivem à margem dos caminhos tradicionais. A tenda, aliás, funciona exatamente como este lugar de acolhimento, na qual se entra sem pagar e na qual também se pode conversar, tocar música ou simplesmente dormir. A Kulturbahnhof, espaço cultural de Kassel, não se trata exatamente de um ambiente de agruras, mas ter o símbolo de uma tenda em uma estação de trem sugere exatamente o modo de socialização daqueles que estão de passagem.

    Uma tenda na qual se pode entrar sem pagar oferece toda uma sorte de reflexões sobre a nossa lógica atual (capitalista) de socialização. Só interagimos se temos dinheiro, afinal. No entanto, o que não fica muito claro é como as rotas nômades foram percorridas com a van Volkswagen que acompanhou o grupo de artistas, uma vez que as rotas não tradicionais, na maior parte das vezes, carecem de local para a passagem de carros.

    Nikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara BurilNikhail Chopra e equipe montando, em Kassel, a tenda de "Drawing a line through the landscape". Foto: Bárbara Buril

    De modo bastante contraditório, é preciso enfatizar que a marca de automóveis Volkswagen é a patrocinadora principal da documenta este ano. O patrocínio se traduziu tanto em um alto montante reservado para a montagem da exposição, quanto para a execução de obras como a performance de Nikhail Chopra, a montagem doParthenon de Livros, da artista argentina Marta Minujín, e o acompanhamento do artista escocês Ross Birrell, no caminho de Atenas a Kassel à cavalo, que ele ainda percorre com a obraO trânsito de Hermes. O percurso de Birrell, que começou no dia 9 de abril em Atenas, durará 100 dias.

    Embora a Volkswagen já tenha apresentado o primeiro carro elétrico no ano passado, provavelmente a ser lançado em 2020, hoje a empresa alemã é a maior produtora de automóveis movidos a gasolina e diesel do mundo. Em 2015, por exemplo, a Volkswagen esteve envolvida em um escândalo após a descoberta de que os seus veículos a diesel continham um elemento que reconhecia o momento em que passava por um teste de emissão de poluentes para, somente durante os testes, diminuir essas emissões. Durante o uso cotidiano, estes automóveis superavam em até 40 vezes o limite máximo estabelecido pela legislação estadunidense para a emissão de óxido de nitrogênio.

    Para um evento dedicado não só a questionar os desastres ecológicos em uma era neoliberal, mas os processos de desenvolvimento ambíguos no Sul político e econômico, o patrocínio da Volkswagen soa, para dizer o mínimo, um paradoxo. 
    Já a obra de Chopra, apesar da perspicácia ao refletir sobre formas de socialização diferentes, poderia ser mais provocativa quanto ao modo nômade e ecológico de se locomove,  se tivesse sido feita sem um Volkswagen. 

    Interior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara BurilInterior da tenda de "Drawing a line through the landscape", em Kassel. Foto: Bárbara Buril

    *A repórter viajou a Kassel com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha.

     

  • Interseção entre texto e imagem

    Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

     

    A história da humanidade, desde o seu princípio, contém em si a desconfiança dos indivíduos em relação à possibilidade de representar totalmente o que se entende por realidade. Mitos, epopeias, contos populares, lendas religiosas – todas essas modalidades narrativas – a matéria-prima do gênero fantástico na literatura – representaram, em diferentes tempos, o choque entre a razão e a desrazão. A avidez por sensações e sentimentos para além do que se considera racional indica sobretudo a falência da representação mimética do real: o sujeito e o mundo são fragmentados e, ainda que se recomponham em alguns momentos, permanecem longe de ser totalidades tranquilizadoras. No fim das contas, o fantástico vem para atestar nossa vontade, quase sempre falha, de impor o desejo humano sobre a natureza, de dominá-la. Sacudir a familiaridade de nosso pensamento.

     

    Em seu romance de estreia, A sala verde, o artista plástico Bruno Vilela cria um thriller psicológico, como ele mesmo define, em torno do personagem recifense Joel, ilustrador freelancer, abstêmio e ex-fumante. Entediado com sua vida, mas sem motivo aparente, o protagonista, ele mesmo um homem fragmentado, vai-se aprofundando em histórias familiares e se dá conta de que há diversas pontas soltas nos relatos. Atormentado com sonhos e pesadelos igualmente sem explicação, terrores íntimos, e munido de cartas trocadas entre os avós, além de um mapa com 13 pontos prateados, Joel decide viajar a Portugal – onde morava seu avô, Pedro, a quem nunca chegou a conhecer.

     

    A história se passa em duas dimensões espaciais. A casa, onde há a sala verde a que se refere o título da obra; e os locais de Portugal que o protagonista visita, guiado pelo mapa do avô. No início do relato, feito em primeira pessoa, Joel chega a afirmar que “Lusitânia significa terra da luz”, o que aponta para sua vontade de aclarar, esclarecer os segredos de família na empreitada em busca de alguma paz interior. Ao chegar a Alfama, bairro mais antigo de Lisboa, depara-se com um imponente casarão em ruína. O local, construído no século 18 por um rico comerciante, foi decaindo nas gerações seguintes, até ser comprado por Pedro, a esta altura já falecido. Lá, encontra-se a sala verde, uma espécie de sótão assombrado, por onde vagam fantasmas e no qual uma lareira é acesa diariamente para espantar os maus espíritos.

     

     

    ESPAÇO

    O filósofo e poeta francês Gaston Bachelard escreveu, em A poética do espaço, que “o espaço é um instrumento de análise para a alma humana”. Portugal, o casarão e, sobretudo, a sala verde, não são apenas locais por onde Joel simplesmente passa, mas representam elementos estruturantes do estado psicológico do personagem e, com isso, adquirem uma dimensão subjetiva. Nesse sentido, a obra de Bruno Vilela nos mostra que não é possível ser sem estar. Não só os lugares, mas todas as experiências, mentais e físicas, pelas quais passa o personagem são espacializadas. Assim, ao viajar e prescindir de apetrechos como câmera fotográfica e cadernos para desenho, anotação e colagens, o protagonista da trama nos diz sua vivência só pode ser conservada se puder ser, literalmente, carregada com ele.

     

    O geógrafo sino-americado Yi-Fu Tuan entende que “o homem, como resultado de sua experiência íntima com seu corpo, organiza o espaço a fim de conformá-lo a suas necessidades biológicas e relações sociais”. No romance de Vilela, a relação de Joel com as paisagens é quase sempre melancólica e solitária, indicando que a viagem do personagem afasta-se do turismo clássico e baseia-se mais numa busca íntima, especificamente na revelação de uma verdade supostamente libertadora sobre seus antepassados. O personagem, cujos pontos de partida e chegada estão na escura e assombrada sala verde, é como que tomado pela escuridão do sótão e, sobretudo, pelo medo.

     

    Joel é o oposto do viajante tradicional: não faz questão de falar ou conhecer as pessoas com as quais cruza, apenas as observa. Nota, em determinado ponto da viagem, que “o tempo delas é lento”, em contraste com seu próprio ritmo, o de alguém que sequer dorme duas noites seguidas no mesmo lugar, o tempo de quem passa por novas paisagens sem muita excitação pelo novo ou com uma entusiasmo contido, amedrontado com aquilo que não pode entender racionalmente. Joel passa pelos lugares como quem foge de um canto a outro e procura uma tranquilidade que o mundo exterior não é capaz de lhe dar. Vemos, portanto, que o papel da paisagem é de desestabilizar o personagem, revelando-se ou negando-se a mostrar totalmente.

     

     

    RESIDÊNCIA

    Bruno Vilela concebeu a obra após passar 70 dias em uma residência artística no Palácio do Marquês de Pombal. Ele viajou pelos 13 pontos citados no livro e, a partir dessa experiência, pintou 13 quadros. Em entrevista à Continente, o autor disse que se manifestar por meio da pintura não foi suficiente, “eu simplesmente precisei escrever sobre a viagem”. Outra experiência importante a Vilela para a feitura do romance foi ter se hospedado no sótão do palácio, num clara referência à sala verde. O livro é fruto dessa viagem e contém várias imagens produzidas pelo artista.

     

    É bom que se diga que essas imagens utilizadas por Bruno não estão a serviço do relato, e por si só representam ou fazem parte de uma narrativa de longo alcance, independentemente do recurso textual. Por isso, o autor faz questão de afirmar que “as pinturas são parte da trama no livro”. Desse modo, A sala verde pode ser considerado um livro-objeto, já que a junção de diferentes códigos oferece ao leitor experiências sinestésicas. Outro fator que põe em interseção as linguagens visual e literária é o fato de o personagem central da trama do livro, ilustrador, lidar diretamente com artes visuais. Vilela, artista plástico há 17 anos, aponta, inclusive, que a maneira com a qual descreve as paisagens selvagens de Portugal “é típica do olhar de um pintor”.

     

    FANTÁSTICO

    Em um ensaio de 1942, no qual se debruça sobre as nuances do fantástico, o escritor e crítico francês Jean-Paul Sartre assinala a sua capacidade de transcender o humano para voltar-se a este mesmo humano. Ele entende que, nas manifestações contemporâneas do gênero, é o indivíduo o verdadeiro objeto fantástico. A lógica narrativa “despojou-se, parece, de todos os artifícios: nada nas mãos, nada nos bolsos; reconhecemos ser nossa a pegada das margens”, escreve Sartre. A análise aplica-se à obra de Vilela na medida em que os fatores externos estão impregnados pela percepção turva que o personagem tem da realidade.

     

    Em dado momento do relato, Joel tem a sensação de que está “ficando louco de duas maneiras: ao mesmo tempo em que me sentia um fantoche na mão do destino, também procurava me deixar levar, com certa consciência, por dentro de uma espécie de filme que minha imaginação havia criado”. O que vemos em A sala verde, para além dos fantasmas, demônios, imagens, lugares e fatos sobrenaturais, é o protagonista no centro de um terror engendrado, em grande medida, por sua mente.

     

  • Museu da Cidade expõe retratos do nosso trânsito

     "Exílio", de Luiz Rangel  Imagem: Reprodução "Exílio", de Luiz Rangel Imagem: Reprodução

     

    Uma tarde perdida no trânsito caótico do Recife, conhecido por ser um dos piores do mundo, foi o estopim para o arquiteto, urbanista e artista plástico Luiz Rangel perceber que havia algo errado nisso tudo. Daquela situação, nasceram os esboços iniciais de Exílio, o primeiro dos nove quadros feitos por Rangel e que compõem a exposição Autos retratos, em cartaz no Museu da Cidade do Recife até o dia 2 de outubro com entrada gratuita.

     

    Com curadoria de Plinio Santos Filho e Daniel Dobbin, a mostra, segundo Luiz Rangel, propõe um retrato provocador da sociedade atual, um “auto retrato” de uma cidade refém dos veículos, com poucas interações interpessoais e espaço reduzido para pedestres e ciclistas. "Me senti isolado e confinado naquele engarrafamento. A sensação na hora foi de frustação, mas que logo se transformou em um processo criativo interessante", conta o arquiteto. A partir dali, brotaram esboços despretensiosos que, aprofundados e com base nas experiências cotidianas no trânsito, se transformaram em quadros abordando a temática da mobilidade e a dependência da sociedade por seus carros. “A reflexão me trouxe um questionamento: precisamos mesmo estar dentro de um veículo?”, indaga. O quadro Destino, por exemplo, segue esta linha. "A ideia surgiu de uma expressão comum: 'fiquei rodando atrás do endereço'. As pessoas sempre querem chegar a algum lugar, mas a sensação da cidade engolida por carros parece sugerir que, no fundo, nunca chegamos a lugar algum", diz.

     

    São nove trabalhos em óleo sobre tela, em formato quadrado, com exceção de Reflexo, em tamanho 1m x 2m, que traz um olhar de futuro dentro da temática principal, e aponta para a importância de espaços compartilhados. “A obra mostra o trânsito com o retrovisor de um carro simbolizando o passado, repleto de veículos, e o amanhã com outros partícipes da mobilidade: bicicletas e pedestres em perfeita harmonia”, explica Rangel.

     

    "Parodoxo", de Luiz Rangel Imagem: Reprodução"Parodoxo", de Luiz Rangel Imagem: Reprodução

     

    O ARTISTA
    Arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o recifense Luiz Rangel iniciou sua ligação com o desenho e a pintura na infância, de forma autodidata. Desenvolveu suas aptidões artísticas durante a graduação e a vida profissional, com projetos arquitetônicos feitos à mão – na época em que não se utilizava o computador – e, posteriormente, em curso de pintura no Espaço Vitrúvio, em 2010. Desde então, já participou de sete exposições.

     

    Serviço
    Exposição Autos retratos, de Luiz Rangel
    Em cartaz até domingo, 2 de outubro de 2016, no Museu da Cidade do Recife (Forte das Cinco Pontas, s/nº, Bairro de São José)
    De terça a domingo, das 9h às 17h
    Entrada gratuita
    Informações: (81) 3355-9540

  • O corpo, a geometria e o vento

    Móbile feito por Calder  em 1939. Foto: Calder Foundation New York AUTVIS Brasil 2016Móbile feito por Calder em 1939. Foto: Calder Foundation New York AUTVIS Brasil 2016

     

    Sobre Alexander Calder (1898-1976), o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre escreveu: “Se é verdade que a escultura deve gravar o movimento no imóvel, seria um erro aparentar a arte de Alexander Calder à do escultor, ele não sugere o movimento, ele o capta”.


    É assim que o filósofo caracteriza os “estranhos arranjos de hastes e palmas, discos, plumas” que resultam nos hipnóticos móbiles e stabiles do artista norte-americano. Esses e outros objetos “falsamente adormecidos” criados por Calder inundam os três andares do espaço expositivo do Itaú Cultural, em São Paulo, desde 31 de agosto. Com curadoria de Luiz Camillo Osorio, e em parceria com Expomus e a Fundação Calder, sediada em Nova York, a mostra Calder e a arte brasileira permanece aberta ao público de 1º de setembro a 23 de outubro, com aproximadamente 60 peças.


    Ela apresenta móbiles e stabiles do artista norte-americano– além de alguns de seus guaches, maquetes, desenhos e óleos sobre tela – em diálogo com trabalhos de artistas brasileiros que, a partir dos anos 1940 e 50, foram influenciados direta ou indiretamente por ele. Com isso, além de mostrar trabalhos cruciais de sua trajetória, a exposição busca evidenciar sua disseminação no imaginário artístico brasileiro, com o qual ele manteve conexão estreita durante quase toda a sua vida.


    O curador Luis Camillo Osorio – crítico de arte e professor da PUC-RJ – ressalta a importância da relação de Calder com os artistas e intelectuais brasileiros. Não à toa, existem diversos artigos e publicações nacionais acerca de sua obra, assinados por figuras como Sérgio Milliet, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar – não por acaso Gullar é também autor do Manifesto Neoconcreto, que reverbera muitas ideias presentes nos trabalhos de Calder.


    O arquiteto Henrique Mindlin também é personagem fundamental da história de Alexander Calder com o Brasil. Impressionado com a maneira com que seus objetos artísticos se integravam à arquitetura modernista, Mindlin passou a divulgar a obra de Calder no país logo após se conhecerem em Nova York, em 1944. O arquiteto também ciceroneou sua primeira viagem para cá, em 1948; apresentou-lhe diversos amigos artistas e arquitetos, com quem Calder viria a se corresponder e a trabalhar.


    Luis Camillo Osorio explica que, junto com o crítico de arte Mário Pedrosa, Mindlin foi um dos grandes divulgadores da obra de Calder no Brasil. Para ele, os artigos sobre Calder escritos por Mário Pedrosa nesse período abriram caminho para se pensar a relação da arte concreta no Brasil dos anos 1950, e do movimento neoconcreto na virada dos anos 1960, com a obra do norte-americano, “no que diz respeito à sua dimensão expressiva e lúdica, de como as formas se integram ao espaço, e de como demandam um outro tipo de relação, mais ativa, com o público”, pontua. “Foi a partir desses ensaios que comecei a tentar entender e apostar nesta influência”.


    A seleção dos artistas e obras para compor a mostra, portanto, passa pelo aprofundamento da reflexão sobre essa influência, e – conforme o curador ressalta – pela parceria com a Fundação Calder e com Roberta Saraiva, diretora da Expomus, que alguns anos atrás organizou uma mostra sobre as incursões de Calder no Brasil, na Pinacoteca de São Paulo. Ele conta que, pensando principalmente “em como a forma se solta no espaço e na arquitetura”, dispôs a conversa das obras brasileiras com as de Calder em três camadas, “uma da geometria; outra do corpo; e outra do vento, ou do ar”.


    “Na discussão sobre geometria, está a maior parte do diálogo entre Calder e a geração dos concretistas e neoconcretistas”, esclarece o curador, “e é também onde a pintura de Calder está mais proeminente”. Ele também destaca que essa primeira camada culmina em um dos encontros mais importantes da exposição: entre o Balé neoconcreto de Lygia Pape, e o móbile/cenário que o artista concebeu para a apresentação de Sócrates, do pianista Erik Satie. Segundo Osorio, a enorme estrutura também configura um balé, “de um móbile que se move pelo espaço coreográfico”.


    Na segunda camada, o corpo como mote, dialogam com Calder obras de Helio Oiticica, Lygia Clark, Ernesto Neto, Carlos Bevilacqua, entre outros. Já na terceira, sobre o ar e o vento, estão a maioria dos móbiles de Calder, acompanhados de obras e intervenções de Waltercio Caldas, Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander.


    (Leia matéria na íntegra na edição 189 da Revista Continente)

  • O Nordeste de Dominique Berthé em exposição

    Chapada Diamantina por Dominique BerthéChapada Diamantina por Dominique Berthé

     

    Era o início dos anos 2000 quando a artista francesa Dominique Berthé resolveu fincar raízes no Nordeste do Brasil. Mais especificamente, na capital pernambucana. Desde então, ela vem captando imagens na região; são registros de texturas naturais, marcas da passagem do tempo no homem e na natureza que podem ser vistos no Museu da Cidade do Recife, com a exposição Paisagens, em cartaz até 28 de agosto. A mostra individual de Dominique é composta por 22 fotografias e baseia-se em seu livro homônimo, lançado em março deste ano no mesmo museu, com imagens feitas por ela no Nordeste desde que aqui fixou morada. 

     

    As fotografias foram impressas em papel de tela de algodão, em diferentes dimensões, para compor uma exposição dividida em quatro ambientes: cinza de cana queimada, cana queimada inteira, cabelos e sala de projeção de imagens (serão projetadas todas as fotos do livro e mais 50 extras) com paisagem sonora – a captação de sons foi feita por Saluá Oliveira, durante as viagens de Dominique. A poeta pernambucana Maria Alice Amorim também acompanhou a fotógrafa na feitura de algumas imagens (as mais recentes), em busca de inspiração para a concepção do poema Pays sage, que recorta todo o livro e agora estará disposto para leitura na mostra.

     

    Trazendo elementos das plantações de cana de açúcar, Paisagens dialoga com a exposição anual Doc(e) Recife, em cartaz no Museu da Cidade, onde aborda a história do município através da trajetória do açúcar e de seu impacto na vida política, econômica, social e cultural da capital.


    No museu, está disponível para venda o livro Paisagens. São 84 páginas com 96 fotos realizadas desde seus primeiros carnavais olindenses, em 1997, até a Chapada Diamantina, em 2015, cujo ensaio foi feito especialmente para o projeto, abrangendo também cidades como Petrolina, Recife, Ipojuca e Seridó.

     

    O Museu funciona de terça a domingo, das 9h às 17h.


    Serviço:
    Exposição Paisagem, de Dominique Berthé
    Onde: Forte das Cinco Pontas – Museu da Cidade do Recife (Praça das Cinco Pontas, s/nº, Bairro de São José)
    Quando: De 16 de julho a 28 de agosto
    Acesso gratuito

  • Obras inéditas de Hugo de Paula no Dona Lindu

    "Frevo pernambucano", de 1937"Frevo pernambucano", de 1937


    Pela primeira vez em Pernambuco, a exposição Hugo de Paula: Visõesdo povo brasileirotraz mais de 200 obras inéditas do artista pernambucano, com mais de sete décadas de pinturas e esculturas na sua trajetória. A mostra segue em cartaz até o dia 20 de novembro, na Galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu, bairro de Boa Viagem.

    O trabalho de Hugo de Paula foi construído da metade da década do 1930 até a primeira década do século XXI, preferindo sempre o desenho como primeiro esboço da obra, passando depois, precisamente nos anos 1974 e 2005, para a tela. A concepção de suas obras sempre foi reservada, assim como o artista, introvertido, discreto. Por isso, a obra dele é inédita em Pernambuco e no Brasil. Até o presente, foram realizadas três pequenas exposições no Rio de Janeiro, na década de 1990. 

    Segundo o curador Raul Córdula, “Não é simples, porém, apresentar, em palavras, a obra de Hugo de Paula, pois sua arte traçou caminhos entre diversificados modos e costumes do povo do Nordeste, o que sugere uma significativa anotação da sociologia cultural do seu povo, como, também, a descrição da pobreza e dos abismos culturais entre a dura realidade dos camponeses, a perversidade dos capatazes e a opulência dos usineiros".

    Ao todo, estão expostos 198 desenhos, 17 pinturas, além de uma mostra iconográfica sobre o artista e sua época.  Para dar acesso a todos os públicos, a galeria conta com sete aparelhos MP3 disponibilizando áudio descrição, além de cartilhas em braile com os textos da curadoria, além de vídeos em libras com o mesmo conteúdo.

    Visitas guiadas e laboratórios experimentais para escolas públicas também fazem parte da exposição. A programação completa pode ser conferida AQUI.

    Serviço:
    Exposição Hugo de Paula. Visões do povo brasileiro
    Período: de 13 de outubro até 20 de novembro
    Local: Galeria Janete Costa, Parque Dona Lindu, Avenida Boa Viagem, Recife
    Horários: das quartas às sextas, das 12h às 20h; sábados e domingos, das 14h às 20h
    Agendamento de escolas: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

  • Olimpíadas: entre o Rio clássico e o programa de TV

    Foto: Getty Images/Comitê Olímpico InternacionalFoto: Getty Images/Comitê Olímpico Internacional 

     

    É difícil uma cerimônia de abertura fugir de clichês, especialmente quando mais de 90% do público potencial de 3 bilhões de pessoas que acompanham o evento pela TV estão fora do país. Apesar dos clichês (samba, Carnaval e bossa nova), a cerimônia de abertura dasOlimpíadas do Rio não chegou a nos fazer passar vergonha. E isso não é pouca coisa em se tratando de uma abertura de um grande evento esportivo no Brasil.

     

    Houve belos momentos como a rede gigante trançada pelos índios, de múltiplos significados, representando o início da nossa formação, e a decolagem do avião de Santos Dumont (o grande momento da coreografia). A parte cerimonial final foi correta, prestando homenagens justas aos grandes ídolos do esporte nacional.

     

    Rede gigante trançada por índiosRede gigante trançada por índios

     

    Mas quando se tratou das escolhas das figuras que iam representar o Brasil nas apresentações culturais, a coisa mudou de figura. Ao decidir convidar celebridades do momento como Anitta e Ludmilla, os organizadores incorreram num risco imenso de apostar no descartável. Primeiro porque esses nomes não são - e dificilmente virão a ser - conhecidos do público estrangeiro. São modas descartáveis do momento. E a abertura de uma olimpíada não é um programa de domingo na TV lutando por audiência. Faltou essa compreensão à equipe liderada apor Andrucha Waddington, Daniela Thomas, Fernando Meirelles e Deborah Colker. Daqui a cinco, dez anos, alguns dos que se apresentaram podem parecer risíveis, como quando alguém lembra hoje um Beto Barbosa e sua lambada.

     

    A turma do funk carioca somente serviu para ocupar espaço da cultura brasileira já consagrada. Alguns clássicos cariocas até estavam lá, como Paulinho da Viola contando o hino nacional, Jorge Ben Jor e Tom Jobim, representado por seu neto Daniel Jobim. A obra de Niemeyer até apareceu em duas discretas reproduções de Brasília que compuseram o cenário. Mas não havia sinal de Villa-Lobos, Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Glauber Rocha, Sebastião Salgado. Nem sinal do lado mais popular (e de qualidade) como a turma da Jovem Guarda e Martinho da Vila (que podem surgir no encerramento). Também foram ignoradas as culturas regionais de raiz, do norte ao sul, passando pelo forró do Nordeste e o caipira do Sudeste. O fato de esses nomes e expressões culturais serem pouco conhecidos internacionalmente não seria problema. Os apresentadores de TV que transmitem a cerimônia recebem um roteiro explicativo completo da cerimônia e podem explicar do que se trata para o público estrangeiro.

     

    Ver Marcelo D2 macaqueando o hip hop diante do Dream Team norte-americano foi constrangedor, o que ressalta a relação complicada de amor e ressentimento que muitos brasileiros têm com os Estados Unidos (amor e ódio).

     

    Regina Casé foi o ponto mais baixo e mostrou não ter aprendido com as derrapadas do prefeito Eduardo Paes. O brasileiro em geral – e particularmente o carioca “ixperto” – acha que suas piadinhas têm tradução fácil em outras línguas e culturas. Como os estrangeiros não têm o contexto cultural, não podem perceber a entonação irônica, o tom de voz jocoso, tudo se transforma em gafes sem graça. Casé apareceu no meio do Maracanã sozinha antes da transmissão começar e, apresentada como a “rainha da diversidade”, tentou ser engraçada sem nunca conseguir. No fim tentou comandar uma corrente de energia positiva com um mantra indiano. O público, mais interessado em tirar selfies e beber cerveja, não deu a mínima.

     

    A profusão de celulares ligados o tempo todo deu às arquibancadas do Maracanã a aparência de um morro com bicos de luzes acesos, o que combinava com o cenário principal que mostrava uma cornucópia de barracos representando um misto de favela no morro com toques de carro alegórico. Combinava com o lado sombrio do Rio de Janeiro, mas não com a cidade maravilhosa que devia ser ressaltada num momento de festa. Mas favela está na moda, é produto turístico e compõe o discurso ideológico dominante.

     

    E aí encontra-se o maior problema a cerimônia. A adesão incondicional aos clichês do politicamente correto em voga, a insistência no discurso da diversidade, a defesa do meio ambiente, a valorização da bicicleta. As melhores cerimônias olímpicas das últimas décadas – Moscou, Seul, Barcelona, Atenas e Pequim miraram no lado da permanência, na tradição dos jogos milenares. Rio 2016 preferiu inserir nulidades do momento, reforçar lugares-comuns e arriscar-se ao ridículo quando se leva em conta o médio prazo.

     

    Durante o desfile, cada delegação era seguida por um grupo de cinco integrantes de escolas de samba. Além de tumultuar a música dançante que já tocava em todo o estádio, criava uma cacofonia desagradável, um efeito excessivo. Mas como dizia a canção de Ary Barroso “Isto aqui, o que é?”, cantada por Gil e Caetano, “...Isso aqui é um pouquinho de Brasil, iá-iá”.

     

    É tradição nas Olimpíadas que a cerimônia de encerramento traga o lado mais leve e popular de cada país. Baseados no que já vimos na abertura, Faustão terá um concorrente à altura no domingão, 21 de agosto.

     

     

    Foto: Getty Images/Comitê Olímpico Internacional)

  • Paulo Nazareth: Você é parte desta arte

    Foto: Cortesia Mendes Wood DM, São PauloFoto: Cortesia Mendes Wood DM, São Paulo

     

    O valor da etimologia pode ser facilmente verificável ao leitor que se permitir abrir o dicionário e procurar, por exemplo, pelo verbete trabalhar. Para além das definições evidentes, que sabemos de modo empírico ao sermos, com frequência, lembrados de seu valor físico, psíquico e material, deparamo-nos com a raiz do termo, o qual remonta ao século XIII: do latim tripalium, seu significado remete a um instrumento de tortura. Ao longo de um mês, três pessoas – devidamente contratadas com salário-mínimo em carteira assinada – deveriam comparecer diariamente a uma galeria de arte e permanecerem deitadas em uma rede durante oito horas. Eis o breve resumo da instalação intitulada Trabalho, idealizada pelo artista mineiro Paulo Nazareth. O que interessava a Paulo era investigar as relações empregatícias a partir de outro ponto de vista, deslocando sentidos e ressignificando o conceito. O artista conta que a experiência chegou a ser maçante para os três voluntários, e houve, inclusive, uma desistência – o que denota que a “tortura” estava mais ligada à obrigação em si e menos ao tipo de atividade que se exerce.


    Nascido em 1975, em Governador Valadares, Nazareth é bacharel em Desenho e Gravura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estudou Linguística na mesma instituição e aprendeu as técnicas do entalhe em madeira com o artista popular baiano Mestre Orlando. São muitos os desdobramentos das atividades artísticas que desenvolve: desenho, performance, vídeo e instalação fazem parte do seu escopo criativo. Ainda que repletas de pluralidade entre si, as obras de Paulo Nazareth convergem ao que poderíamos tomar emprestado da definição do filósofo e crítico francês Nicolas Bourriaud, que, nos anos 1990, cunhou o termo “estética relacional”, para a qual “a obra de arte nega o artista como sua origem única, isto é, trata-se de uma situação compartilhada, que implica o espectador”.


    É por meio de situações compartilhadas que muitas das obras de Nazareth se projetam. Um homem (ele mesmo) vai até uma cafeteria com um pedaço de carne crua no rosto, senta-se e faz tudo o que todos no local fazem, come e bebe enquanto equilibra o pedaço de carne. Em outro momento, o artista segue caminhando ou de carona, de Belo Horizonte até Brasília, depois até Nova York (este último percurso durou cerca de seis meses e deu origem à residência em trânsito Notícias da América), fotografando lugares, pessoas, intervindo no meio com cartazes ou imagens, juntando tampinhas de garrafa, raízes de plantas nativas, tudo isto descalço, “transportando a poeira”, em suas palavras – por cada lugar por onde passa, Paulo Nazareth toma um pouco para si e devolve em forma de arte (numa de suas placas, lê-se: “Esta é uma ação artística. Arte-vida. Eu sou um performer. Você é parte desta arte. Colabore!”).


    Em uma barraca no meio da feira de Palmital, Santa Luzia, na Região Metropolitana de Minas Gerais, em vez de frutas ou legumes, Paulo vende pequenos objetos artísticos, utilizando técnicas de arte postal ou panfletos, e é possível comprá-los por R$ 1. A ironia, outra marca de suas obras, é evidenciada no nome do “empreendimento”: Paulo Nazareth, Arte Contemporânea/LTDA.


    É numa espécie de corda bamba, entre o mercado da arte e sua negação, que se equilibra com argúcia Paulo Nazareth, explorando as fissuras do entrelugar, daquilo que é considerado canonicamente artístico e do cotidiano em toda sua trivialidade. Convidado para as bienais de Veneza e Lyon, Nazareth não só recusou comparecer ao continente europeu, como se colocou um desafio: pisar, antes, em todo o território africano, tal qual um andarilho, em busca de redescobrir conexões e raízes. Ele ainda criou uma bienal paralela, com uma galeria-residência, noutra Veneza, situada na porção norte do município mineiro de Ribeirão das Neves, sua “Bienal imaginária”, fincada no chão de suas vivências e aberta aos moradores de lá – estes que, possivelmente, não pisariam em qualquer outra bienal. Para citar novamente Bourriaud, os trabalhos de Nazareth podem ser vistos como “obras que já não perseguem a meta de formar realidades imaginárias ou utópicas, mas procuram construir modos de existência ou modelos de ação dentro da realidade existente, qualquer que seja a escala escolhida pelo artista”.

     

  • Raul Córdula expõe trajetória em Brasília

     Foto: Beto Figueirôa/DivulgaçãoFoto: Beto Figueirôa/Divulgação

     

    Um apanhado da carreira do artista Raul Córdula ocupa o Museu Nacional de Brasília a partir desta quinta-feira (15/9). Pinturas, desenhos, serigrafias, impressões em canvas e esculturas produzidas entre 1960 até os dias de hoje integram a montagem de Raul Córdula – Antologia, com curadoria do também artista plástico e coordenador Wagner Barja. A realização é do Instituto Cultural Raul Córdula e do Museu Nacional da República, e o incentivo é do Funcultura.

     

    Paraibano que adotou Olinda como morada, em seu ateliê – e residência –, o artista compõe obras inéditas e continua a dar seguimento a séries e às etapas da sua própria pintura, desde suas primeiras exposições nos anos 1960. É esse vasto recorte temporal que estará presente na capital federal, por meio das 32 obras da exposição. Repleta de experimentação e rigor estético, a obra de Córdula está sendo revisitada pela segunda vez, posto que, em 2012, celebrou seus 50 anos de arte na Galeria Janete Costa (Parque Dona Lindu, Recife).

     

     "Brasil 68", de Raul Córdula. Imagem: Reprodução"Brasil 68", de Raul Córdula. Imagem: Reprodução

     

    Sobre a natureza criativa de sua arte, Raul afirma: “Sempre fui um artista voltado à arte como questionamento. Não no aspecto decorativo, mas, de certa forma, político, no sentido de quebrar determinadas situações que operam na identificação do olhar. Nós, da minha geração de 1960, já temos a compreensão de uma arte sem figura. Por isso, não me coloco hoje como arte contemporânea, e, sim, ainda como arte moderna”. A exposição apresenta, além de algumas obras que compuseram a exposição recifense de 2012, trabalhos inéditos, como a intervenção Brigada da hora (2016), obra de pintura coletiva feita sobre o que restou no antigo Cine Duarte Coelho, em Olinda, juntamente com os artistas Manoel Quirino, Cecília Araújo, João Lin, Raoni Assis, Kária Fujita, entre outros.

     

    Desde o início de suas atividades culturais, a relação de Raul Córdula com a palavra se estabelece. Vale ressaltar toda a carga semiótica de sua obra, que faz ressurgir sentidos e valores existentes nas camadas invisíveis das relações sociais, sensíveis e imagéticas. “Atento à crise do mundo contemporâneo, esse inconformista faz ressoar sua palavra/imagem, na obra certeira, impulsionada pelo conflito. O objetivo: atingir alvos - ideologias autoritárias. Retirar do cotidiano a matéria-prima para construir o castelo da resistência fez de Córdula um bastião estético do Nordeste. A mistura do poeta visual, com a cultura plural da região, fez dele um ativista que navega em brumas poéticas para entender o mundo através do seu ofício”, afirma Wagner Barja, curador da mostra.

     

    Serviço:
    Exposição Raul Córdula - Antologia
    De 15 de Setembro a 16 de Outubro, no Museu Nacional da República (Setor Cultural Sul, lote 2, próximo à Rodoviária do Plano Piloto - Zona 0, Brasília – DF)
    Visitação: de terça-feira a domingo, das 9h às 18h30
    Entrada gratuita
    Informações: (61) 3325-5220

  • Renato Valle e as feridas que precisam ser curadas

    Renato Valle. Foto: Carol Chaves Madureira/DivulgaçãoRenato Valle. Foto: Carol Chaves Madureira/Divulgação

    Em tempos de constantes disputas ideológicas, a apropriação de símbolos e a flutuabilidade de significados são algumas das principais problemáticas do Brasil atual. Essa guerra de sentidos não está limitada apenas à política, mas é, especialmente para a arte contemporânea, o campo minado no qual ela insiste em jogar. Ao persistir (ou existir) nesse campo incerto e perigoso, a arte torna-se um agente político de potência intangível. E é justamente jogando em terrenos perigosos que o artista Renato Valle construiu boa parte de sua obra, em cartaz atualmente na Galeria Janete Costa (Parque Dona Lindu, Recife), com exposição Religiosidade e política na obra de Renato Valle. Reunindo 30 trabalhos produzidos pelo artista ao longo dos últimos 15 anos, com desenhos em dimensões gigantescas, objetos e instalações que ocupam os dois andares da galeria, sob curadoria de Valquíria Farias, a mostra apresenta o fazer artístico como fazer político, atentando para um olhar crítico em direção a diversos aspectos incrustados em sociedade, que no contexto brasileiro, tem a religião enraizada em sua identidade. 

    A Continenteconversou com o artista sobre os temas presentes em sua obra, a relação entre arte, política e religião, e como esses temas permeiam as problemáticas do Brasil atual, tão fragmentado e polarizado.

    CONTINENTE O quanto de religião e de política estão presentes na exposição?
    RENATO VALLETodas as obras da exposição têm algum conteúdo de religiosidade ou política – uma micropolítica. Tratam da arte como uma ação política e sobre as coisas que eu penso no meu dia a dia, não a religião institucional ou a política partidária. Em algumas obras, como Criança sentada, sob impacto de uma determinada programação televisiva infantile A filha da Monga, trato da exploração da criança.A filha da Mongavem da história popular sobre a filha que nasceu morta e que foi exibida ao público pelo próprio pai, que ganhava dinheiro às suas custas. Tratar dessa exploração sofrida pelas crianças, em âmbitos particulares e comuns, é mostrar as feridas da sociedade que precisam ser curadas. Nesse sentido, é uma ação política.

    "A filha da monga", de Renato Valle. Foto: Divulgação"A filha da monga", de Renato Valle. Foto: Divulgação

    CONTINENTE A exposição tem muitas imagens de Cristo em situações irônicas. Por quê?
    RENATO VALLE Eu quero ressignificar Cristo. Não gosto daquele símbolo morto, pesado, do Cristo na cruz. Coloco o Cristo numa brincadeira, em situações circenses, fazendo nado sincronizado ou numa dança. Um cristo vivo, humano, em situações de convivência. Conceber Cristo como algo acima da humanidade afasta a figura do humano que que pisou na terra, que existiu. Em oposto aos sentimentos de sacrifício, de culpa e castigo, prefiro um Cristo humano: fraterno, generoso, conversando e convivendo com todas as diferenças, participando das festas – que são cenas que a gente o "vê" participando, como banquetes e reuniões.

    CONTINENTE Você também propõe outras críticas a partir da utilização de símbolos religiosos.
    RENATO VALLE EmOs cristos e anticristos(os cristos invertidos), o negativo e positivo, trago uma espécie de grade de janela, que pode ser uma grade de prisão, de convento. É uma grade que tanto pode proteger como aprisionar. Em Cristo e Anticristo Coca-Cola I, coloco a ideia da cruz que, quando vira um símbolo de marketing, é tão poderosa quanto a Coca-Cola. Talvez estes sejam os dois maiores símbolos de marketing do mundo.O Mealheiroé uma obra mais direta, em relação a uma crítica da exploração da fé como um negócio comercial. Aqui, eu quis mostrar o Cristo nu, porque ele sempre aparece com roupa. A crueldade da crucificação era para humilhar, então, chicoteavam-se as pessoas até que suas roupas fossem esfarrapadas e o corpo, esfolado. Tento trazer a crueza da história. Trago as imagens agrupadas também, pois quando se agrupa, não se sente aquela sensação de dor, que é o que me incomoda no símbolo do Cristo morto.

    CONTINENTE Qual é a relação entre religiosidade e política?
    RENATO VALLE  A religiosidade pode ser um caminho de ação política, como bem demonstrado por Gandhi, que fez revolução sem derramamento de sangue. Essas coisas podem coincidir, mas necessitam estar claramente separadas. O sentimento de religiosidade, de fraternidade e de harmonia entre iguais pode estar em qualquer coisa. Ninguém precisa ter religião para se sentir igual aos outros ou se sentir como parte de algo. Na maioria das vezes, quando as igrejas ou as religiões juntam-se ao poder político, essa relação direta acaba trazendo desastres. Vemos isso nos exemplos históricos, como na Inquisição. Vemos hoje, no Brasil, com a bancada evangélica. Há uma apropriação da religião e da fé para a expansão de poderes políticos.

    Cristos equilibristas por Renato Valle. Foto: DivulgaçãoCristos equilibristas por Renato Valle. Foto: Divulgação


    "Cristo e Anticristo Coca-Cola I", por Renato Valle. Foto: Divulgação"Cristo e Anticristo Coca-Cola I", por Renato Valle. Foto: Divulgação

    CONTINENTE Como você vê o momento político que estamos passando hoje?
    RENATO VALLE No momento, a agressividade parece estar muito aflorada e evidente. Vemos como é necessário pacificar as relações entre as pessoas. Às vezes, as pessoas estão se xingando e achando que estão certas, mas ambas estão fazendo exatamente a mesma coisa. A discussão passa por um processo de respeito, se não acaba se transformando em monólogo. Democracia exige consenso e bom senso. Hoje, tudo é muito fragmentado e existe uma necessidade de impor um pensamento, de estar certo. Acho que não é só no Brasil, é algo que está acontecendo no mundo. Em oposição a isso, começo a perceber que há na música, nas artes e em vários setores, um  movimento de dentro para fora. Com o fracasso e o esgotamento desse movimento de fora para dentro – grandes corporações, grandes partidos e líderes que se fascinam pelo poder econômico e político –, existe uma necessidade hoje de fazer uma onda contrária. O mar veio até a gente e agora está na hora de empurrar a onda para lá. Muitos modelos políticos fracassaram. O poder, os modelos políticos e as democracias têm dado muito sinal de fragilidade. Tanto que começam a se radicalizar e até a romper com conceitos que defenderam anos atrás para poder preservar um modelo já falido. É hora de rever nossos conceitos. É hora de fazer autocrítica. É hora de mudar. E tudo começa a partir dessas pequenas ações, micropolíticas.

    Serviço
    Exposição Religiosidade e política na obra de Renato Valle
    Na Galeria Janete Costa – Parque Dona Lindu (Avenida Boa Viagem, s/nº, Recife)
    Visitação: até 23 de julho de 2017
    Horário de visitação: quarta a sexta, das 12h às 20h; sábados, das 14h às 20h, e domingos, das 15h às 19h
    Agendamento para educativo: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
    Telefone: 3355-9825
    Entrada gratuita

  • Transformando o entorno

    Foto: Léo CaldasFoto: Léo Caldas

     

    Projeto ousado, iniciado em 2015, leva movimentação cultural incomum à Mata Sul do estado

    O trajeto entreo Recife e a Usina Santa Terezinha, no município de Água Preta, a 140 km da capital, é formado por uma paisagem que fala muito sobre o passado da região, a monocultura da cana-de-açúcar, seus engenhos e usinas. Tempos atrás, Pernambuco possuía 60 usinas em funcionamento. Hoje, são 13, divididas entre a Zona da Mata Norte e a Mata Sul. A Santa Terezinha – que na década de 1950 viveu tempos áureos e chegou a ser, em um ano, a maior produtora do país – está entre aquelas que foram desativadas. Há pouco mais de 15 anos não se mói cana por lá, ainda que parte de suas terras ainda sirva para sua plantação.

    O imaginário desses tempos de cultura canavieira forte parece estar impregnado no lugar e também nas pessoas que lá vivem. Usinas como a de Barreiros e a de Catende conseguiram, diante da sua potência, constituir comunidades que foram alçadas à categoria de municípios. Hoje, também desativadas, deixaram uma lacuna no modo de vida das pessoas. A Santa Terezinha não chegou a fundar um município, mas criou uma vila em seu entorno, cujos moradores também sofreram os impactos do fim da moagem de cana. Enquanto essa cultura arraigada se deteriora, a população local viu surgir, em 2015, algo novo naquele lugar onde antes a cana-de-açúcar era centro da vida. Uma movimentação cultural brotou de forma pouco organizada: nascia o projeto Usina de Arte.

    Proprietário das terras da usina, o empresário Ricardo Pessoa de Queiroz deu início – informalmente – ao projeto após uma viagem ao Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, instalado na cidade de Brumadinho (MG), espaço ao qual o Usina de Arte vem sendo reiteradamente comparado. Em 2012, Ricardo e sua esposa, Bruna, fizeram uma visita ao centro mineiro. Lá, eles se apaixonaram pelo trabalho do artista Hugo França, que desenvolve “esculturas mobiliárias” em madeira. “Falei para Bruna que queria uma peça dele. E o convidei para vir até a usina e aproveitar a matéria-prima que temos em abundância por aqui. Depois, alguns amigos me pediram para convidá-lo novamente para desenvolver outras peças para eles. Hugo veio em 2013, depois novamente em 2014. A partir daí, em nossas conversas, surgiu a ideia de chamar outros artistas para vir a esse lugar, dialogar com o entorno e com as questões culturais da região”, conta Ricardo.

    Leiamatéria na íntegra na versão impressa da Continente de maio 2017 (n. 197)

  • VIII Salão Único recebe projetos até sexta (2/9)

     

    Estudantes universitários ou coletivos de estudantes de arte de quaisquer instituições de ensino superior do estado de Pernambuco podem participar do VIII Salão Único Universitário de Arte Contemporânea do Sesc, que nesta edição traz a temática Identidades: Territórios fluidos. Esse tema propõe pensar sobre a constituição das identidades no mundo contemporâneo e por quais territórios elas caminham; se antes as fronteiras dessas identidades eram demarcadas e rígidas, atualmente elas têm dado lugar a zonas fluidas. Desse modo, o VIII Salão Único sugere reflexões sobre o papel da arte contemporânea nas construções desses territórios de identidades. As categorias oferecidas são Exposição e Pesquisa em criação e formação. As inscrições estão abertas até esta sexta (2/9), através do preenchimento do formulário disponível no site do Sesc Pernambuco (www.sescpe.com.br), que deverá ser impresso e assinado. Os projetos inscritos na Região Metropolitana do Recife deverão ser entregues no Sesc Casa Amarela, enquanto os inscritos nas demais regiões do estado poderão ser entregues no setor de cultura de qualquer unidade do Sesc em Pernambuco. Ambos seguindo os procedimentos do edital. Tudo disponível neste link: http://sesc-pe.com.br/hotsites/2016/unico/inscricao.php

    PREMIAÇÃO
    A Comissão Curatorial formada por membros com qualificação profissional ligada às artes, à proposta temática e um representante do próprio Sesc classificará até 10 projetos que participarão da mostra e até três projetos para pesquisa em criação. O VIII Salão Único concederá aos selecionados da categoria Exposição um incentivo financeiro no valor de R$ 1.500 para cada projeto e para a categoria Pesquisa em Criação, o valor de R$ 5.000 para cada projeto aprovado. O resultado será divulgado no dia 21 de setembro.