• Morre Erasto, o farol de Olinda

    Show do músico no Festival de Inverno de Garanhuns de 2013. Foto: Eric Gomes/Secult-FundarpeShow do músico no Festival de Inverno de Garanhuns de 2013. Foto: Eric Gomes/Secult-Fundarpe

    Apenas sete meses após a morte de Naná Vasconcelos, a música pernambucana perdeu, na noite da quinta-feira (27/10), Erasto Vasconcelos, aos 71 anos, vítima de uma parada cardíaca. O músico estava internado desde o dia 13 de setembro no Hospital Miguel Arraes (HMA), em Paulista, na Grande Recife.

    Irmão de Naná (vencedor de oito prêmios Grammy e eleito por oito vezes o melhor percussionista do mundo pela Down Beat), Erasto de Holanda Vasconcelos, cantor, compositor, músico, inventor de instrumentos, também era um artista respeitado no meio musical pernambucano.

    Apontado como o “farol de Olinda”, Erasto era uma das figuras marcantes da cidade. Sua ligação com a música começou desde cedo, com seu pai, maestro de orquestra, e que tocava instrumentos de cordas e escrevia partituras. O primeiro instrumento de Erasto foi uma lata de leite, na qual saía tocando com o folguedo de Carnaval, La ursa. No começo da carreira, em 1965, morou no Rio e, como percussionista, acompanhou artistas como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.

    Em Nova York, nos anos 1970, ladeou o saxofonista Stan Getz e gravou o LP Stone Alliance, com Marcio Montarroyos e Hermeto Pascoal. No começo da década de 1980, voltou ao Brasil. Seu primeiro disco, Jornal da Palmeira, só seria lançado em 2005.

    DEPOIMENTOS

     

    “Conheci Erasto quando morava na Rua de São Bento, Cidade Alta... Tocava no Eddie e o encontrava na rua quando ia para os ensaios da banda. Acabou que ele foi um dia para um ensaio e acabou virando parceiro, mudando nossa cabeça, com ritmos, melodias completamente novas. Para nós, antes de tudo, foi nosso mestre e professor. Considero Erasto um gênio... E como tal, foi incompreendido por muito tempo. Mas, para mim, sua forma de compor, de fazer poesia é de um gênio... Não existe fórmula para o que ele fez... Não se ensina, não tem método, apenas nasce assim. No último disco do Bonsucesso, o chamei para cantar uma faixa, ele escutou e disse: 'Que lindo, Rogerinho...' Respondi: 'Aprendi com você'”,ROGER MAN

     

    "Conheci Erasto por volta de 1993/94 em Olinda. Ensaiávamos na Cidade Alta e ele, a nos ver passar sempre com os instrumentos, compôs uma música pra gente: Eu sou Eddie, que gravamos no Original Olinda Style. Conversamos, ele cantou e passou a rítmica da música pra gente e convidamos ele pra ir na nossa casa estúdio/escritório que, na época, alugávamos na Cidade Alta. Daí, ele sempre aparecia, foi apresentando sua obra e ficamos amigos. Conversávamos sobre tudo: Santa Cruz, música, composição, política... Depois, convidamos ele pra recitar uns poemas seus nos shows da Eddie e daí, começamos depois a tocar e gravar músicas dele, até que também começamos a compor. Ele foi meu maior parceiro musical até agora. Fizemos músicas como Danada, Parque de diversões, Olho você...Gravamos várias: Baile Betinha, Guia de Olinda, Maranguape, Eu soul Eddie. Era um músico com uma capacidade incrível de trabalho, amava o palco e mais ainda compor, tinha uma facilidade para melodias e poesia, era uma pessoa extremamente musical, destas que está sempre batucando e cantando um verso por qualquer coisa. Gostava de ouvir as músicas dos outros, dava atenção a isso, uma sensibilidade do tamanho de todos, o que fazia ele sentir as dores do mundo primeiro que a gente, como disse Roger Man. Meu tricolor favorito, sempre conversávamos nos dias de jogos do Santa Cruz: 'Fala, meu bom!!! e o nosso Santa, hein?' Vamos ter que reaprender vários caminhos sem ele de guia agora, muita tristeza", FABIO TRUMMER

     

    "Participei do que seria seu primeiro disco, Estrela brilhante, e que, ironicamente, virou o segundo a ser lançado, muitos anos depois de ser gravado. Toquei e dirigi a gravação de muito material no disco. Teria sido minha primeira produção musical. Na época, preferi abrir mão desse crédito, de assumir o disco, pelo que me lembro. No início dos anos 1980, o vi em palco pela primeira vez, num show de Marco Polo, no prédio da UNE na Rua do Hospício. Foi um show com muitos ex-integrantes do Ave Sangria. Erasto era um grande compositor de, muitas vezes, pequenas canções. Deixou centenas inéditas, todas belíssimas, com uma singeleza original e sincera. Pequenas grandes canções. Toda canção tradicional tem um autor (ou vários). Muitas vezes trata-se estas mesmas canções como 'tradicionais', ou 'autor desconhecido'. Estar diante de Erasto com suas canções, para mim, era justamente como estar de frente a alguém poderoso, tão imbuído desse espírito popular capaz de criar canções que duram para sempre e que, muitas vezes, não se conhece o autor e, ao mesmo tempo, sabemos que estamos diante de algo eterno", SÉRGIO CASSIANO

     

    "Ali nos anos 1980 nos encontrávamos com alguma frequência no Centro Cultural Luiz Freire, que era um 'ponto de encontro' de toda uma geração. Depois, só voltei a vê-lo em anos mais recentes, já bem depois dos primeiros anos da minha volta de Portugal, mas nunca tive uma experiência musical direta com ele. Ficamos de fazer uma música juntos pro Avia e ele chegou a me ligar várias vezes pra falarmos disso, mas acabou não rolando. Comigo Erasto sempre foi uma pessoa muito afetuosa e doce, e sempre vi nele um músico bastante inquieto, talentoso e com uma energia vital e criativa invejável",GERALDO MAIA

     
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    Assista ao documentário Erasto Vasconcelos – Um milagre




  • 1817, o ano em que o Brasil nasceu

     [leia na íntegra matéria de capa de março 2017 da Revista Continente, ed. 195]


    Daaniel Araújo pintou "Tropas pernambucanas cercam o Forte do Brum" (detalhe da pintura)Daaniel Araújo pintou "Tropas pernambucanas cercam o Forte do Brum" (detalhe da pintura)

    Aos 200 anos do levante que durou pouco mais de dois meses, estudiosos apontam a relev
    ância do curto episódio, abafado pela historiografia oficial, mas fundamental para se entender o impulso democrático que mobilizava as gentes que viviam na província de Pernambuco

     

    Pernambucanos, estais tranquilos, apareceis na capital, o povo está contente, já não há distinção entre brasileiros e europeus, todos se conhecem irmãos, descendentes da mesma origem, habitantes do mesmo país, professores da mesma religião. Um Governo Provisório iluminado, escolhido entre todas as ordens do estado, preside a vossa felicidade; confiai no seu zelo e no seu patriotismo. A providência que dirigiu a obra, a levará ao termo. Vós vereis consolidar-se a vossa fortuna, vós sereis livres do peso de enormes tributos que gravam sobre vós; o vosso e nosso país, subirá ao ponto de grandeza que há muito o espera e vós colhereis o fruto dos trabalhos e do zelo dos vossos cidadãos. Ajudai-os com os vossos conselhos, eles serão ouvidos; com os vossos braços, a pátria espera por eles; a vossa aplicação à agricultura, uma nação rica e uma nação poderosa. A pátria é a nossa mãe comum, vós sois seus olhos, sois descendentes dos valerosos lusos, sois portugueses, sois americanos, sois brasileiros, sois pernambucanos.
    Proclamação do Governo Provisório de Pernambuco, escrita pelo padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro


    Ufanistas e acolhedoras, as palavras transcritas ao lado foram escritas há dois séculos, impressas e divulgadas à população de Pernambuco como parte de uma carta de proclamação, a estabelecer os preceitos pelos quais se estruturava um governo inédito nos tempos de um Brasil colônia. Lidas em voz alta pelas ruas do Recife, ratificavam a insurgência de uma província que se revelava imersa no espírito do tempo, atravessada pelos ideais de independência e liberdade, igualdade e fraternidade que emanavam tanto dos Estados Unidos como da França. O movimento conhecido como Revolução de 1817 deflagrou novo rumo para a história do país “descoberto” por Portugal desde 1500. À luz do bicentenário, o episódio histórico de extrema importância para a nação ganha outros contornos.

    A revolução de Pernambuco em 1817, se bem que muito pouco durasse, fará sempre época nos anais do Brasil; tempo virá, talvez, em que o dia 6 de março será para todos os brasileiros um dia de festa nacional”, escreve Francisco Muniz Tavares (1793–1875), no prefácio do seuHistória da Revolução em Pernambuco de 1817, publicado pela primeira vez em 1840 graças aos esforços intelectual e financeiro do próprio autor – que havia sido preso por participar do movimento. O livro é uma imprescindível fonte de informações para o estudo dos fatos que desembocaram na formação do Governo Provisório e ressurge, no bojo das celebrações dos 200 anos, em oportuna nova edição, idealizada e impressa pela Companhia Editora de Pernambuco – Cepe.

    Este volume traz o texto original de Muniz Tavares e as notas do historiador e diplomata Manuel de Oliveira Lima (1867–1928) acopladas à terceira edição, lançada em 1917 como esforço do então Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (hoje Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano) para marcar o centenário da Revolução de 1817 e, de certa forma, demarcar uma contraposição ao que a historiografia do século XIX havia determinado. Na narrativa “oficial” do Brasil, tudo que se relacionava a 1817 era minimizado. Autor deHistória geral do Brasil antes da sua separação e independência de Portugal, Francisco Adolfo Varnhagen, Visconde de Porto Seguro (1816–1878) e historiador oficial do Império, recebera de Pedro II a missão de narrar a trajetória brasileira para o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil; ao fazê-lo, nos volumes publicados entre 1854 e 1857, não incluiu o movimento nordestino entre os predecessores da Independência de 1822.

    É compreensível, portanto, que até hoje se ensine e se difunda mais sobre Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e a Inconfidência Mineira de 1789 do que sobre Domingos José Martins, padre João Ribeiro, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, ou Domingos Teotônio Jorge – todos esses componentes do Governo Provisório instaurado em março de 1817. E é justamente por causa disso que se torna mais necessário revisitá-los. “Duzentos anos depois, a grande lição é tomar consciência da contribuição que Pernambuco deu ao Brasil. O que era o Brasil naquela época? Uma simples colônia, sofrendo o peso e a extorsão de uma Coroa que havia aqui se instalado, após a pior das humilhações – a fuga de Dom João VI. 1817 foi fundamental para o conceito de pátria, nação e liberdade. A semente do Brasil nasceu duas vezes em Pernambuco – uma no século XVI, com a expulsão dos invasores holandeses e a restauração, e outra no século XIX. Devemos aproveitar o ensejo do bicentenário para voltar a ler, a ouvir, a contar, a cantar e a nos encantar com a história de 1817, contra aquele silêncio que uma história nacional impingiu sobre os fatos relacionados à revolução”, sustenta o professor Antônio Jorge Siqueira, do departamento de Sociologia e da pós-graduação em História da UFPE.

    Ao lado dos professores Antônio Paulo Rezende e Flávio Weinstein Teixeira, ele é um dos organizadores de1817 e outros ensaios, compilação de 10 textos a ser lançada ainda neste semestre pela Cepe. O interessante do livro é a oferta de análises sobre diversos aspectos do movimento, como a participação de negros e índios nas hostes revolucionárias e do papel crucial desempenhado por padres católicos.

    Não é megalomania pernambucana afirmar, como o faz o embaixador cearense Gonçalo de Barros Carvalho Mello Mourão, no ensaioSeis de março, data nacional, que “a Revolução de 1817 suscitou entre nós o poder do apelo à liberdade como despertar da consciência nacional. Representou, em suma, o surgimento da ideia de um Brasil brasileiro, através daquilo que o sublimado padre Dias Martins chamou de busca do ideal de ‘Pátria e o amor da Liberdade’. A Revolução durou parcos 76 dias, 11 semanas, dois meses e meio. Foi pouco, mas foi o suficiente para fazer nascer o Brasil”.

    DIREITOS CIVIS E LIBERDADE
    Corriam os primeiros dias de março de 1817 e o capitão-geral da província de Pernambuco (cargo equivalente ao de governador) era Caetano Pinto. O Recife só se tornaria cidade em 1823, porém, já era uma babel. Antônio Jorge Siqueira utiliza os dados levantados pelo professor pernambucano Luiz Geraldo Silva, da UFPR, em um dos ensaios da coletânea1817 e outros ensaios, para contextualizar o panorama da época. “Em 1762, no século XVIII, o Recife tinha uma população de 90 mil habitantes, dos quais 25% eram escravos. Dada a importância do cultivo da cana-de-açúcar, percebem-se os escravos como segmento importante para alimentar a indústria canavieira. Em 1810, dois anos após a chegada da família real ao Rio de Janeiro, e sete anos antes da revolução, a população de Pernambuco era de 392 mil habitantes, dos quais 28% eram brancos, 26,2% eram escravos, 3,2% índios e 42% eram afrodescendentes, livres ou libertos. Ou seja, o panorama era favorável à busca pelos direitos civis e pela liberdade”, indica Siqueira.

    Autor deOs padres e a teologia da ilustração – Pernambuco 1817 (Editora Universitária UFPE, 2009), em que investiga a atuação dos religiosos no levante, o professor recorda que a abertura dos portos, um dos primeiros atos de Dom João ao chegar ao Brasil, não só acarretou uma nova dinâmica comercial, como também desaguou em uma maior circulação de ideias. “Produtos, comércio e ideias formam a tríade que se complementa nesse momento de desarrumação”, aponta Antônio Jorge Siqueira.

    No ensaioEntre banquetes e batuques: a visão dos viajantes sobre o Recife em tempos de revolução, a historiadora Sylvia Costa Couceiro trabalha com os relatos de quatro forasteiros – o francês Louis de Tollenare e os ingleses Henry Koster, James Henderson e Maria Graham – para compor o quadro de uma vila em ebulição. “Como funcionava o Recife? Lanço uma série de perguntas a partir das reflexões que esses viajantes faziam. Além do que aconteceu durante a revolução, eles falam, com ênfase, da ideia de mestiçagem. O Recife de 1817 era, como o Recife de 2017 ainda é, uma cidade híbrida, mestiça e de profundas diferenças. A vila do Recife compreendia o Bairro do Recife, Santo Antônio, São José e algumas casas na Boa Vista. Locais como Apipucos, Monteiro, Várzea e Poço da Panela eram os destinos para onde as elites iam em momentos de lazer, tomar banhos de rio. Quando a revolução eclodiu, parte da população fugiu para essas casas de veraneio, deixando a área central deserta”, situa à Continente a pesquisadora titular da Fundação Joaquim Nabuco.

    Desenho "Suicídio do Padre João Ribeiro no Engenho Paulista", de Renato Valle. Imagem: ReproduçãoDesenho "Suicídio do Padre João Ribeiro no Engenho Paulista", de Renato Valle. Imagem: Reprodução

    Os gatilhos da Revolução de 1817 não podem ser percebidos como isolados. Havia o fluxo de produtos e ideias, decorrente da abertura dos portos, havia a herança da França, dos Estados Unidos e das lutas pela independência da América espanhola e havia as noções libertárias discutidas nas casas de maçonaria. Domingos José Martins, capixaba que chegara ao Recife em 1815, vindo de Londres, era adepto e entusiasta de tais ideais disseminados entre os maçons. “Entre os amantes de República, figuravam alguns maçons ou pedreiros livres. Esta sociedade secreta, respeitada por ser misteriosa, e condenada cegamente como tal, diz-se que em tempo assaz remoto fora instituída com o louvável fim de confraternizar os homens, e incitá-los à prática das virtudes morais, concedendo aos seus membros plena garantia de pensar, oferecendo mútua comunicação de ideias e socorros”, aponta Muniz Tavares, em
    História da Revolução em Pernambuco de 1817.“Os maçons – como se a lei de sangue que os prescrevia tivesse sido ab-rogada – congregavam-se quase em público, banqueteavam-se frequentemente de fé. Em seus banquetes ouviam-se brindes acompanhados de expressões que revelavam generosos desígnios.”

    VIVA A PÁTRIA”
    Consta que, ao ser alertado sobre possíveis conspirações, o capitão-geral Caetano Pinto dissera: “Os maçons divertem-se: nada farão”. Contudo, resolve agir ao receber uma denúncia do “negociante abastado Manoel de Carvalho Medeiros”. EmO Recife da revolução republicana de 1817: cenários, cenas e atores, concebido especialmente para1817 e outros ensaios, o arquiteto José Luiz da Mota Menezes esmiúça o desenrolar dos acontecimentos. No dia 5 de março, Pinto “manda prender 70 implicados”. “No dia 6 de março, às 11 horas, o governador iniciou as prisões. Foram denunciados os seguintes militares: três capitães de artilharia Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa, José de Barros Lima e Pedro da Silva Pedroso, tenente, secretário do mesmo Corpo, José Mariano de Albuquerque e o ajudante de infantaria Manoel de Sousa Teixeira. Preso o negociante Domingos José Martins e recolhido, por ser civil, à cadeia (provavelmente a da atual Rua do Imperador, antes da Rua da Cadeia Nova)”, relata Mota Menezes.

    Quando o general de brigada Manoel Joaquim Barbosa de Castro se dirigiu ao quartel da artilharia (localizado no Bairro de Santo Antônio, entre o que hoje são as avenidas Guararapes e Dantas Barreto) para efetuar as prisões dos militares, deu-se o estopim. Domingos Teotônio foi preso, mas José de Barros Lima, o Leão Coroado, desembainhou a espada e matou o oficial português. Ninguém protestou, como descreveu Muniz Tavares: “Entre tantos oficiais presentes, não houve um só que se opusesse à perpetração do delito; os que eram brasileiros, maquinalmente desembainharam as espadas, e como se fossem feridos por um golpe apoplético, permaneceram inertes espectadores. Dois portugueses, um que era sobrinho do morto, o capitão José Luiz, temendo igual sorte, saltou pela janela e escondeu-se; outro por nome Luiz Deodato, fugiu deixando a barretina e a espada”.

    Os gritos de “Viva a Pátria” e “Mata marinheiro”, como os portugueses eram chamados, ecoaram nas ruas. Houve conflitos, mortes, “arruaça” e “confusão”, como transparece nos relatos do francês Tollenare (suasNotas dominicais foram publicadas pela Secretaria de Educação e Cultura do governo de Pernambuco em 1978) e nas memórias de Muniz Tavares, que serviram de base para inúmeras revisões. Uma delas,1817, foi escrita pelo professor Denis Antônio Bernardes para o livroRevolta, motins, revoluções. Homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX, lançado em 2011 pela Alamada, e incluída em1817 e outros ensaios, como uma homenagem ao historiador, falecido em 2013.

    Sua recapitulação dos fatos: “A resistência da tropa portuguesa e de alguns marinheiros de nada adiantou. No dia 7 de março, o governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro aceitou assinar sua capitulação e deixar a capitania acompanhado da família e dos oficiais e familiares que o quisessem seguir rumo ao Rio de Janeiro. No mesmo dia foi eleito um governo provisório, com representantes dos diversos corpos sociais, refletindo a divisão estamental da sociedade: pelo clero, o padre João Ribeiro Pessoa de Mello Montenegro, pelos militares, o capitão Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa, pela magistratura, o advogado José Luís de Mendonça, pelo comércio, Domingos José Martins e, pela agricultura, o senhor de engenho e coronel de milícias Manoel Correia de Araújo. Cessava, com este ato de eleição de um governo provisório saído de uma rebelião militar, a soberania do príncipe regente D. João sobre Pernambuco. Não tardou que, inclusive pelo envio de emissários, a notícia da instalação de um governo republicano e patriótico em Pernambuco logo se espalhasse pelas províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e pela comarca das Alagoas, ainda território pertencente à província de Pernambuco”.

    Pintura de Antônio Parreiras retrata instauração da República de Pernambuco e bênção das bandeirasPintura de Antônio Parreiras retrata instauração da República de Pernambuco e bênção das bandeiras

    ECOS PARA O FUTURO
    O “tempo da Pátria” foi breve, porém intenso. Incluiu a viagem de um emissário até os Estados Unidos e a conexão com levantes bonapartistas, como detalha a pesquisadora da Fundação Rui Barbosa, Isabel Lustosa, em artigo publicado adiante, na página 26. Deixou, no cotidiano da capital pernambucana, nomes de ruas, como Padre Roma e Gervásio Pires. Foi, para centenas de escravos, o primeiro vislumbre de liberdade – os negros foram alforriados pelos senhores para lutar pela revolução. Com a debelação da insurgência, voltaram à senzala, mas o ideal de liberdade se consolidava no horizonte. “A abolição da escravatura só se deu em 1889, mas um negro que ficou livre para lutar, ao voltar a ser escravo, não era o mesmo. Apesar da repressão violenta ao movimento e das punições exemplares aos envolvidos, o término da Revolução de 1817 não fez com que a sociedade voltasse a ser o que era antes. As experiências deixaram marcas para novas atuações libertárias”, pontua a pesquisadora Sylvia Costa Couceiro, da Fundação Joaquim Nabuco.

    O próprio Joaquim do Amor Divino Rabelo, o frei Caneca, foi um dos grandes envolvidos em 1817. Preso ao lado de Muniz Tavares na Bahia, virou líder da Confederação do Equador em 1824. “Na prática e na História, com a restauração brasileira dos Guararapes, no século XVII, com a Guerra dos Mascates, a Revolução de 1817 e o movimento de 1824, Pernambuco tem um papel deveras importante para contribuir com a semente de pátria, nação, liberdade, direitos e constituição. Esses ideais não morreriam com o sacrifício dos cabeças revolucionários. Aqueles que foram para as masmorras na Bahia voltaram e continuaram com um ideal de luta. Tudo isso foi corroborado nas revoltas subsequentes, como a Praieira”, reforça o professor e historiador Antônio Jorge Siqueira, da UFPE.

    "Viva a Pátria, vivam os patriotas e acabe para sempre a tirania real”, bradavam os revolucionários, nas ruas e nos documentos que servem de esteio para reviver e repensar a Revolução de 1817. Dois séculos depois, a tirania ainda persiste e há de se olhar para o passado para reposicionar, na história da nação, o pioneiro movimento que uniu brancos, negros, pardos, índios, militares, comerciantes, padres e maçons e seu incontornável legado de luta.

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    LEIA TAMBÉM:

    O frustrado resgate de Napoleão Bonaparte em 1817

    Uma revolução quadro a quadro

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    EXTRA:

    Leia a Continente Documento nº 34 (Pernambuco: história de lutas). Edição completa AQUI

  • A sambada do Sertão

    Pesquisador percorre núcleos de povoamento urbanos ou rurais no Nordeste em busca de reminiscências do samba

    [Matéria vinculada ao especial de capada Continente 193 (jan 2017) sobre o centenário do samba]


    Roda na comunidade de Mundo Novo, em Buíque (PE). Foto: Tiago HenriqueRoda na comunidade de Mundo Novo, em Buíque (PE). Foto: Tiago Henrique

     

    “Quem jogou a primeira semente no mundo? Ninguém sabe. E elas continuam brotando e mudando e se transformando. Quando vai acabar? Também ninguém sabe! No chã da lavoura, o samba é isso: sem começo e fim.”  João Bezerra, Buíque (PE), 24/10/2014


    Quando eu era pequeno, no bar que ficava na esquina da rua da minha casa em São Paulo, todo domingo tinha um samba. Hoje, eu sei que tocavam Demônios da Garoa, Martinho da Vila, Bezerra da Silva e outros. Na época, morava com meus avós. Vó Leonor, criada na Zona da Mata de Pernambuco, depois que se converteu, passou a detestar aquela zoada. Vô Antônio, um sertanejo sisudo da Paraíba, como fazia tudo o que ela queria, fingia que não gostava. A casa da minha família ficava em cima da deles e a escada passava em frente à janela da cozinha. Vô Antônio fazia o melhor café do mundo e toda vez que eu passava, parava no meio da escada e pedia um copo. Vô servia o café, às vezes reclamando das minhas traquinagens, da malcriação, de um vidro que nem tinha sido eu que havia quebrado, mas levava a culpa. Num domingo daqueles, ele escolheu ficar calado e o som do samba da esquina pareceu mais alto. Quebrando o silêncio com aquela voz grossa, disse: “Isso não é samba!” – puxou alguns versos, loas e lembro de até ter feito um repente.

    Aquela exclamação viria a ressoar em minha memória mais ou menos 20 anos depois. No decorrer desse período, vô e vó faleceram, eu me tornei fotojornalista e resolvi morar entre o Agreste e o Sertão de Pernambuco. Foi durante uma das visitas a uma comunidade quilombola que já documentava há alguns meses, na zona rural de Buíque – onde vivo desde 2014, a 300 km do Recife – que ouvi os mesmos versos cantados por meu avô tanto tempo atrás. Era como se eu estivesse frente a frente com ele e o seu samba novamente. Os versos eram entoados por um senhor relativamente alto, pés descalços, suor escorrendo pelo rosto. Estava quente, mas ao pé da serra soprava uma brisa. Na mão, uma lata enferrujada, cujos grãos enfiados ali há anos a faziam de ganzá. “Eu tenho isso desde quando era novo, meu pai fazia samba com ele”, me disse, ofegante, Seu João Bezerra, 80 anos, um dos cantadores mais antigos ainda vivos da comunidade.

    No mesmo dia, já em casa e meio atordoado com aquela experiência, revisitei as fotos que fazia durante as frequentes sambadas que aconteciam na comunidade. Percebi nas imagens a força dos laços identitários que transcendem a consanguinidade e o parentesco, e vinculam-se a ideias tecidas sobre valores, costumes e lutas comuns. Ali, o samba motivava tensões ao mesmo tempo em que realizava um papel ritualístico. Vi o movimento assumir vários planos de significação: dança, ataque, conflito, ódio, revolta, medo, prazer, riso, esperança e liberdade.

    ***

    Mesmo correndo séria e talvez irrecuperavelmente o risco de tornar obscuro aquilo que, na melhor das circunstâncias, já seria difícil de dar clareza e intensidade adequadas em poucas linhas, minha busca aqui não é por primordialismo ou por uma “paternidade” do samba e, sim, por oferecer um contraponto que amplie a visão e a reflexão em torno de uma das maiores lacunas da história do ritmo musical que se tornou um dos pilares da identidade brasileira. 

    Por conta própria, comecei a pesquisar e a fotografar as sambadas em vilas, povoados, comunidades indígenas e quilombolas, do Sertão ao Litoral, investigando as reminiscências do samba, sempre traçando um paralelo com as realidades de quem as faz. Essa imersão em andamento me trouxe questionamentos que não fecham com a ideia do samba ter “nascido” no Rio de Janeiro. Num país como o Brasil, onde, de tempos em tempos, tem-se a sensação de redescoberta, pareceu-me curioso, para não dizer injusto, dar mais destaque a um fato repleto de controvérsias, como é a criação de Pelo telefone, do que às celebrações do centenário do samba feito pelas Irmãs Lopes de Arcoverde. A família de Ivo Lopes já sambava coco no Sertão bem antes das placas identificarem a cidade como a “Capital do Samba de Coco”. No Recife, a Nação Porto Rico também celebrou um século sambando maracatu na cidade. Isso, só para citar dois exemplos de comemorações de 100 anos em 2016.

    Leia matéria completa na edição 193 da Revista Continente (jan 2017)

     

  • Alguns episódios da Revolução de 1817

    Detalhe da pintura de Rinaldo Silva. Imagem: ReproduçãoDetalhe da pintura de Rinaldo Silva. Imagem: Reprodução

     

    Doze artistas de Pernambuco mostram suas criações que representam o espírito insurgente vivido no estado há 200 anos

    Além da história, a arte possui também o seu poder de revisão em relação ao passado. Duzentos anos depois, 12 artistas de Pernambuco cumprem agora a tarefa de recontar os fatos da Revolução de 1817, um dos marcos do espírito insurgente do estado e do país à época do Brasil Colônia. Seja a pincel, a lápis, a carimbo, pintura, desenho, gravura, diferentes técnicas traduzem cada uma dessas perspectivas dos episódios históricos na exposição que entra em cartaz a partir do dia 11 deste mês na Arte Plural Galeria, no Bairro do Recife.

    Na mostra, há artistas como Jeims Duarte, cujo trabalho costuma ser animado por um espírito crítico em relação ao espaço urbano; instigado, sobretudo, por estabelecer um diálogo contemporâneo entre a cidade e a sua história. Um dos seus desenhos marcantes nesse sentido aborda a polêmica construção das torres gêmeas da Moura Dubeux, em área antiga do Recife, a partir de uma paródia – as torres são reprojetadas em formato de glande no topo. Agora, nesta exposição, ele faz referência ao local de reunião dos maçons, responsáveis por planejar o levante emancipacionista de 1817.

    “Na prática, reproduzi o prédio da antiga maçonaria que se encontra atualmente atrás da Habbib’s da Avenida Conde da Boa Vista, com uma indicação de reunião interna através de uma única janela iluminada. O edifício simboliza, assim, a Organização”, explica Jeims, sabendo que a Loja Maçônica Conciliação, à qual se refere, não foi o “real” lugar onde tudo se passou, mas o Areópago de Itambé, no interior pernambucano. “Desejei justamente ‘linkar’ com uma referência mais próxima das pessoas hoje. O processo se deu justamente nesta tensão entre um propósito didático e um propósito crítico”, justifica. “A ‘liberdade poética’ se mostra na forma ‘expressionista’ do retrato das esfinges, a indicar, basicamente, dúvidas em relação ao futuro, que são instadas a prever, e no cenário ao redor, indicativo de nossa época; ou seja, ligando as preocupações libertárias de 1817 às atuais. Há uma placa com a inscrição (cortada) onde se lê ‘PHORA’ (grafia antiga para“FORA” ). Sabemos bem qual o personagem que tem sido convidado ultimamente a ‘dar o fora’.

    CALENDÁRIO
    As obras da coletiva foram feitas a partir de uma encomenda da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) para o seu calendário de 2017, comemorativo dos 200 anos da Revolução Pernambucana. Os originais desses trabalhos são justamente aqueles com os quais o público irá se deparar na galeria. Além de Jeims Duarte, estão na lista os artistas Helder Santos, Daaniel Araújo, Bruno Vilela, Beto Viana, Plínio Palhano, Jessica Martins, Roberto Ploeg, George Barbosa, Renato Valle, Gio Simões e Rinaldo Silva. Pernambucanos ou de outras origens, mas tendo carreira artística consolidada no Estado, eles foram convidados para fazer um “registro objetivo” dos episódios mais marcantes da Revolução de 1817. Cada um imprimiu a sua leitura sobre os acontecimentos de um povo com ideais libertários republicanos que não queria mais se submeter aos abusos da coroa portuguesa. 

    Nesse arsenal de obras, há desde interpretações para a bênção da bandeira de Pernambuco, idealizada justamente em 1817 (mas oficializada quase 100 anos depois), a representações dos maracatus, que puderam desfilar livremente nas ruas, à época, pela primeira vez. Há ainda registros de episódios trágicos, como o suicídio do padre João Ribeiro, pelas mãos do exímio desenhista Renato Valle, e o fuzilamento do padre Roma, no início da revolução, por Gio Simões, artista conhecida por desenhar mulheres, às vezes com uma pegada mais pop. Como se sabe, os padres tiveram protagonismo nesta e em outras revoluções.

    Ao reunir em sua pintura elementos-chave de 1817, é Rinaldo Silva quem resume o espírito que animou não apenas aquele momento, mas permaneceu entre os pernambucanos, mesmo com o massacre dos líderes da revolução em praça pública.

  • Corpos, djembes, alfaias, guitarras

    Encontro entre os argentinos e os pernambucanos rolou durante o festival "Ciudad Emergente". Foto: Usina de Arte/DivulgaçãoEncontro entre os argentinos e os pernambucanos rolou durante o festival "Ciudad Emergente". Foto: Usina de Arte/Divulgação

     

    Dá para imaginar o maracatu atômico da Nação Zumbi executado por percussionistas argentinos? Pois a terra do tango também tem batucada. O seu grupo mais famoso, o La Bomba del Tiempo, ainda desenvolve algo bem peculiar. Trata-se de uma espécie de orquestra de percussão, em que 16 músicos são dirigidos através de um sistema de sinais corporais criado por eles e levado ao palco de maneira improvisada. Isso faz com que cada show seja único, como a apresentação realizada junto à Nação Zumbi, no Ciudad Emergente, festival de música e cultura jovem realizado recentemente em Buenos Aires.

    “No festival, tivemos a honra de dividir o palco com essa banda tão importante para a música brasileira”, comenta Lucas Helguero, um dos oito diretores que se revezam no palco na condução do La Bomba e o responsável por guiar a apresentação dos dois grupos no festival. Ao longo dos seus 10 anos de trajetória, tocar com artistas nacionais e estrangeiros de diferentes estilos já se tornou uma rotina na badalada festa que o grupo realiza todas as segundas-feiras no Centro Cultural Konex, na capital da Argentina. Diversos grupos já participaram desse jogo de interação e improvisação, como Calle 13, Café Tacuba, Rubén Rada, Paulinho Moska, Pedro Aznar, Kevin Johansen, Jorge Drexler, Hugo Fattoruso, Totó La Momposina, Jarabe de Palo, Los Pericos e Ataque 77. 

    Apesar do reconhecimento internacional, o La Bomba del Tiempo ainda surpreende artistas de outros países, como a própria Nação Zumbi. “Eles não sabiam muito sobre nós e chegaram curiosos para conhecer como atuamos”, conta Helguero, que se autodeclara fã da música brasileira. Ele conta que ouviu a banda pernambucana pela primeira vez em 1997, quando morava em Salvador para estudar percussão com o Olodum. “Achei incrível a mistura que faziam com os ritmos regionais de maracatu, frevo e coco com o rap, heavy metal e rock. Considero um grupo contemporâneo a bandas como Living Colour e Red Hot Chili Peppers. Ao mesmo tempo grunge, como Soundgarden”, compara o argentino.

    Meu maracatu pesa uma tonelada, Manguetown e Maracatu atômico foram as músicas da Nação Zumbi que os dois grupos executaram juntos. “Sempre deixamos que a banda convidada escolha o que vamos tocar. Então, para dirigir o show com o Nação Zumbi, estudei bem essas músicas, imaginando que tipo de participação o La Bomba poderia ter”, detalha Helguero. “Por exemplo, em Meu macaratu pesa uma tonelada, os tambores graves e os surdos copiaram a linha percussiva das alfaias. Além das duas alfaias do Nação Zumbi, tinham mais seis tamboreiros tocando”, explica o percussionista argentino. “Para o agogô, o que fiz foi jogar o tempo na metade, buscando que o La bomba desenvolvesse esse tic-tac com os nossos tambores, enriquecendo o que o Nação já toca”, descreve.

     

    Improviso dita cada show do grupo, tornando-o único. Foto: Usina de Arte/DivulgaçãoImproviso dita cada show do grupo, tornando-o único. Foto: Usina de Arte/Divulgação


    “Como somos um grupo de improvisação não costumamos ensaiar, mas abrimos essa exceção e foi um encontro muito rico”, relata Helguero. A interação entre os dois grupos fluiu facilmente. “Eles já conheciam as nossas músicas e isso deixou tudo mais prático. Então, o ensaio foi mais para mapear as percussões deles e ver como tudo iria soar”, comenta Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi. O intercâmbio entre os percussionistas do La Bomba e os da Nação, Toca Ogan e Gustavo da Lua, também foi proveitoso. Toca se interessou pelo djembe, um dos instrumentos usados pelo grupo argentino. A partir disso, houve a ideia de deslocá-lo para que tocasse ao lado dos percussionistas do La bomba, durante a execução de Manguetown.

    “Nem todos conheciam previamente a Nação Zumbi tão bem como o Helguero, mas foi uma experiência interessante para todos. O nosso grupo tem diversas referências musicais, entre elas a afropercussiva do Brasil, como o maracatu. Então, existe uma grande identificação com a banda”, afirma Diego Sanchez, que toca djembe, quinto e também dirige o La Bomba.


    O clima do ensaio se refletiu na apresentação, com um resultado muito positivo, na avaliação das duas partes. “Tudo correu bem já do encontro. No final, ficou muito bonito”, afirma Jorge du Peixe. “Ficamos muito felizes, nos abraçamos muito quando terminou. E o mais gratificante foi vê-los assistindo ao show que fizemos sozinhos, logo após a apresentação com eles”, conta Lucas Helguero. Os dois grupos se prometeram um reencontro no palco. "Da próxima vez, será no Brasil. Em São Paulo ou no Recife", antecipa Helguero.

    HISTÓRIA
    Apesar das semelhanças, o La Bomba del Tempo se diferencia de outros grupos de percussão, como o brasileiro Olodum, por não constituir um gênero musical. Defendem que podem ser comparados a uma orquestra sinfônica, de tango ou de jazz. Da mesma forma que uma banda de jazz se divide entre saxofone, trombone e trompeta, por exemplo, seus 16 músicos estão divididos em cinco famílias de instrumentos: os djembes e dundunes (parte mais afro); quinto congas e tumbador (afrolatina); repique e piano (candomblé); surdos; além dos acessórios, como agogô, xequerê e maracas. Também fazem referências à improvisação jazzística. Dos 16 músicos, oito deles se revezam na posição de diretor, o “maestro” do grupo. Cada apresentação costuma ser conduzida por vários diretores. Como o grupo não executa músicas prontas e, sim, reproduzem comandos que são escolhidos aleatoriamente pelos diretores, isso explica o porquê de cada show ser diferente do outro. Alguns percussionistas também se alternam nos instrumentos ao longo da apresentação.

    Festival Ciudad Emergente 2016. Foto: Usina de Arte/DivulgaçãoFestival Ciudad Emergente 2016. Foto: Usina de Arte/Divulgação

    O La Bomba del Tiempo foi criado em 2006, idealizado por Santiago Vazquez, músico que colocou em prática sua linguagem de direção de ritmo com base em um sistema de sinais corporais. A proposta era produzir uma música potente e dançável, que pudesse representar de modo genuíno a cultura multifacética de Buenos Aires. Para isso, convocou os melhores percussionistas de capital argentina, todos eles integrantes do La Bomba até o momento, exceto Vazques. 

    Há anos, o grupo vem tocando de forma ininterrupta todas as segundas para milhares de pessoas no Centro Cultural Konex. O ambiente atrai um público de perfil alternativo e também muitos estrangeiros que estão a passeio na cidade. Os shows ganham novo fôlego com a chegada da primavera, quando a banda se apresenta no palco ao ar livre. Em 2014, o La Bomba gravou seu primeiro CD e DVD. Neste ano em que comemora seu décimo aniversário de atividades, o grupo foi declarado de “interesse cultural” para a cidade pela legislatura portenha.

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  • De fevereiro a fevereiro

    Apresentação de dança e música em frente ao Paço do Frevo movimenta o Bairro do Recife. Foto: Bruna Monteiro/DivulgaçãoApresentação de dança e música em frente ao Paço do Frevo movimenta o Bairro do Recife. Foto: Bruna Monteiro/Divulgação

    Ações realizadas em instituições como o Paço do Frevo, e por diversos músicos, vêm conseguindo levar o gênero musical, que completa 110 anos, para além do Carnaval


    Clóvis vem comerum bolo de chocolate, que ele adora. Ele sai de casa para vir pra cá, fora toda uma geração de músicos que está produzindo aqui dentro. Edson Rodrigues, quando vai resolver alguma coisa no centro da cidade, deixa o sax dele com a gente, no centro de documentação”. Esse “aqui” ao qual o músico André Freitas refere-se é o Paço do Frevo, mistura de museu, ambiente de salvaguarda, formação, pesquisa, experimentação, propagação, criação e, sim, renovação, que, em três anos de intenso funcionamento na Rua da Guia, em frente à Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, tornou-se um espaço de convivência, colaboração e crescimento profissional para compositores, instrumentistas, intérpretes, produtores, ouvintes e demais amantes do gênero pernambucano, que, neste 2017, completa 110 anos.

    Coordenador de música da instituição, inaugurada em 9 de fevereiro de 2014, André Freitas confessa que, ao ocupar o cargo, via o gênero musical de uma forma totalmente diferente. “Quando cheguei, achava que o frevo estava em crise. Eu tinha uma visão restrita a partir de seis cordas, sou guitarrista, já tinha tocado com alguns maestros e artistas. O repertório era sempre recorrente, algumas coisas de Capiba, de Michiles, mas sempre frevo-canção. Achava que frevo era isso mesmo, que não tinha novos autores, novas composições. O que acontece é que isso não tem visibilidade – mas não tem crise. A crise é do mercado fonográfico, que vai ter que se reencontrar”, afirma. “O que existe hoje é essa necessidade de ocupar as lacunas dessa cadeia produtiva.”

    Essa ocupação vem sendo promovida através de diversas ações do Paço em sua coordenação de música. Nesses três anos de atuação, foram realizadas mais de 200 apresentações artísticas, 70 delas naHora do Frevo, que acontece ao meio-dia das sextas, com releituras do gênero musical – o que seria, em princípio, uma saída para o oneroso valor de contratação de uma orquestra de frevo, acabou se tornando uma forma de promover experiências em torno do estilo. “Uma formação em orquestra é caríssima, então aHora do Frevo foi um projeto pensado para novas formações, possibilidades estéticas, trio, quarteto, quinteto. Umas coisas surgem naturalmente, outras a gente provoca, tipo duas guitarras e dois contrabaixos, que foi Luciano Magno, Renato Bandeira, Bráulio Araújo e Hélio Silva”, conta André, acrescentando que o Paço do Frevo pretende, até o final deste ano, contar com uma orquestra de pau e corda, a partir da formação do regional de choro.

    Com um ano e meio de atividades do espaço, foi criada a Orquestra Frevo Essência, desde o 1º Programa de Qualificação Musical. Dirigida pelo Maestro Spok (que participou ativamente das discussões iniciais sobre como seria o Paço do Frevo), ela funciona como uma incubadora de talentos. “Foi feita uma escolha estratégica para atender o aluno do nível intermediário para o avançado, porque a iniciação musical já existe na rede pública ou privada, mesmo com toda as questões. Não é a melhor do mundo, mas isso já é feito. Então, surgem muitos músicos sempre, todo ano. A gente viu que estava faltando a esse músico uma outra qualificação profissional, que fosse uma chave de acesso para outra fatia do mercado. Dominar o conhecimento técnico para orquestração e arranjo era algo não comumente oferecido na cidade, e foi aí que preferimos focar e investir. Isso tem um desdobramento, por exemplo, no repertório, no surgimento de uma geração de compositores; é o que está acontecendo, agora”, aponta o coordenador, complementando que esses músicos também recebem noções de gestão de carreira artística – área que é um “calo” na música independente em Pernambuco.

    Leiamatériana íntegra na edição 194 da Revista Continente (Fev 2017)

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    LEIA TAMBÉM:

    "Acontece hoje uma revolução silenciosa"

    Por dentro do passo

    "Você está no frevo para inventar e reinventar"

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    EXTRA:

    Assista ao documentário 7 corações, de Dea Ferraz:

     
    Acesse AQUI a Continente Documento Frevo 100 anos(nº 54)

     

  • Febre de contar

    Trabalhadores rurais em caminhada de protesto. Foto: Acervo Zito da GalileiaTrabalhadores rurais em caminhada de protesto. Foto: Acervo Zito da Galileia

     

    Zito começou a escrever seu testemunho à mão. “Escrevia, escrevia, escrevia”, diz, como quem tem uma febre de contar. Depois, comprou uma máquina de datilografia e foi organizando o material. Quando voltou de vez para Galileia, em 1999, com centenas de páginas, decidiu passar tudo para o computador. Ele conta que a maior parte do que escreveu é de coisas que lembra, mas aproveitou o período em São Paulo para se aventurar como pesquisador.


    Nos dias de folga, costumava ir à Biblioteca Mário de Andrade ou à Biblioteca Vergueiro, em busca de livros sobre as lutas camponesas no Brasil. Numa delas, encontrou uma raridade: Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco, do jornalista Antonio Callado. Foi na Vergueiro que encontrou uma foto microfilmada de João Pedro Teixeira, militante das Ligas, assassinado. Ao contrário do Recife, onde poderia ser perseguido se fosse reconhecido como “um dos galileus”, o fato de ser “descoberto” despertava o interesse. As Ligas tinham sido aniquiladas, mas a memória sobrevivia.


    “Depois de pesquisar fui até a máquina de revelação e falei com o cidadão responsável, que pegou a foto e começou a olhar. ‘Que foto é esta?’, perguntou ele. Eu respondi: ‘De João Pedro Teixeira, um camponês que foi assassinado por latifundiários da Paraíba’. Ele disse: ‘E o senhor o conheceu?’. ‘Sim’, respondi. Ele disse: ‘Não venha me dizer que você foi das Ligas Camponesas!’. ‘Fui, sim senhor’, respondi. Ele me abraçou, levou-me a uma sala e me entrevistou por mais de uma hora.”


    Mas só quando retornou ao Recife, já aposentado, foi que viveu o impasse. Como transformar todo aquele material em um livro? Como deixar as ideias mais organizadas? Em meio a tantas coisas que viveu, escutou e leu, como contar também a própria vida?


    Foi quando resolveu buscar o jornalista e escritor Marcelo Mário de Melo, militante político, preso pela ditadura e que sempre mantém acesa a chama da memória, em livros, artigos, debates. E Marcelo tinha uma vantagem, para um livro que tratava da memória das Ligas Camponesas – a admiração pelos que lutam e uma vasta pesquisa que vem fazendo sobre as disputas pela terra no Brasil, desde as Capitanias Hereditárias.


    Desde muito jovem, Marcelo acompanhava as Ligas, e admirava a capacidade oratória do deputado Francisco Julião, defensor ardoroso dos grupos. No livro, há um texto dele intitulado O tribuno Francisco Julião. Ao receber os originais, ele não teve dúvida em ajudar. Fez um cuidadoso trabalho de edição, deu sugestões e fez uma pesquisa complementar. “É um depoimento substancial, importante. Ele estava lá dentro e viveu o crescimento das Ligas, o apogeu e a repressão. Depois foi para São Paulo e voltou, para organizar a memória”, observa. “Ele era uma criança quando tudo começou. É também o olhar de um menino.”


    Ele destaca o conteúdo do livro que mostra como as instituições, no Brasil, são marcadas pela escravidão. “Só agora estamos fechando a questão das empregadas domésticas. Os excluídos de hoje são escravos reciclados”, avalia. Lembra também que a repressão aos camponeses, antes e depois do golpe, teve um aspecto “paranoico”.“O simples fato de o governo Arraes aplicar a legislação trabalhista no campo, em plena década de 1960, foi um escândalo. Mas era uma legislação que já existia desde a década de 1940. A reação foi terrível”, lembra.

     

    (Leia texto na íntegra na edição 189 da Revista Continente)

  • Inscrições abertas para escritores do estado até 15/12

     

    Atenção, escritoras e escritores pernambucanos.

    O Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura/Fundarpe e em parceria com a Cepe Editora, acaba de lançar o V Prêmio Pernambuco de Literatura. O objetivo é fomentar a produção literária em todas as macrorregiões do estado. Pernambucanos natos ou que comprovem residência no estado poderão inscrever uma obra até o dia 15 de dezembro, exclusivamente por meio eletrônico, através do e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

    Serão selecionados e premiados livros inéditos, nos gêneros conto, poema ou romance, escritos em língua portuguesa, de autores residentes nas quatro macrorregiões do estado, a saber: Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão. Por inédito, o edital considera o original não publicado em formato de livro (físico ou digital) até a divulgação do resultado e entrega dos prêmios aos vencedores. É permitido que parte do conteúdo da obra inscrita tenha sido publicado em blogs, sites, redes sociais e afins.

    A comissão julgadora avaliará a partir dos critérios Originalidade/Singularidade, Qualidade técnica e Domínio da linguagem. Os vencedores serão entregues até cinco prêmios, no valor de R$ 5 mil reais brutos, para cada um dos vencedores de cada macrorregião. Além de um prêmio especial de R$ 15 mil (bruto) para a melhor obra, entre as cinco finalistas, o chamado Grande Prêmio. Todos os livros vencedores também serão editados e publicados pela Cepe Editora, com tiragem de 1 mil exemplares. A previsão é de que a divulgação do resultado aconteça na segunda quinzena de agosto de 2017.

    Edital e anexos AQUI.

     

  • José Paulo expõe reflexões sobre o interior urbano

    O artista plástico pernambucano José Paulo teve um 2015 movimentado. A partir do projeto3 Cidades, realizado com incentivo do Funcultura e apoio do Sesc, ele realizou uma extensa pesquisa em três diferentes cidades do agreste e sertão pernambucano (Belo Jardim, Petrolina e Garanhuns), nas quais mesclava residência com deslocamento para compor novas obras, além de referências e reflexões para somar à sua extensa trajetória.

     

    A proposta, que inicialmente parece simples – visitar três cidades distintas e produzir trabalhos resultantes dessa experiência para serem expostos nos espaços expositivos do Sesc nesses locais – culminou numa profunda imersão na vida do interior, levantando questões como urbanidade, pertencimento e reapropriação.

     

    Do inquietante processo de criação, resultaram as obras O pinguim e o jardim de palmas e A praça (Belo Jardim); Sol estranho (Petrolina); e Saudade danada (Garanhuns), que, após expostos no seus respectivos locais de origem – que propositalmente abrangem uma vasta área do interior do Estado –, chegam agora ao Recife.

     

    Como norte para a realização da pesquisa nas cidades, Zé Paulo se baseou na dinâmica utilizada em um trabalho anterior:Labirinto caruaruense. Realizado durante uma visita à “capital do Agreste” para a Bienal do Barro, ele mergulhou nas vivências e na urbanidade de Caruaru.

     

    “Eu já vivenciava alguns momentos e situações que não são do meu cotidiano, e que me trouxeram referências e estímulos para produzir trabalhos diferentes. Não é o local que eu vou, é a dinâmica em que eu me coloco que define o trabalho”, defende.

     

    A fotografia "O pinguim e o jardim de palmas" nos adverte sobre as conexões existentes entre o que é aparentemente inegociável e diverso - Foto Francisco Baccaro/DivulgaçãoA fotografia "O pinguim e o jardim de palmas" nos adverte sobre as conexões existentes entre o que é aparentemente inegociável e diverso - Foto Francisco Baccaro/Divulgação 

     
    A ESTRANHEZA DO SER
    As visitas tiveram início entre em maio e junho de 2015, no município de Belo Jardim (a 187 km do Recife), onde, após um longo processo de pesquisa e maturação – dividido em diversas viagens à região –, explorou a dimensão social da paisagem. Ora com a imagem insólita de um pinguim em tamanho humano, em um campo de palmas, ora com a recriação do principal espaço de convivência da cidade, emA praça.

     

    “Foi uma situação curiosa porque, durante o processo de pesquisa, eu fui visitar alguns lugares que tinham produção de artesania, com barro, couro e esculturas de fibra de vidro que traziam elementos comuns à vida da região: celas de vaqueiro para montaria à cavalo, imagens sacras e reproduções de diversos animais, como cavalos, bois, porcos e cabras em tamanho real. E no meio deles, me deparei com a figura de um pinguim em tamanho humano”, narra.

     

    A imagem ficou gravada na cabeça do artista, que, processando a extraordinária visão, teve a ideia de deslocar a figura da loja para algumas paisagens locais. Em uma destas, ao lado do fotógrafo Francisco Baccaro, levou o animal para uma plantação de palmas – cenário característico do agreste e sertão pernambucano.

     

    Na plantação, uma das locações saltou à vista por sua ambiência poética, que mais parecia um jardim,por conta das chuvas de meio de ano,do que a esperada cena de aridez. Destes encontros, surgiu o ensaioO pinguim e o jardim de palmas, um paralelo entre os extremos da natureza e as conexões existentes entre o que aparentemente é diverso na realidade do homem, abrindo possibilidades de interpretação sobre deslocamento, mistério e estranhamento, com um bom toque de humor.

     

    Da vivência em Belo Jardim, outra questão ficou bastante evidente para Zé Paulo (que além da prática como artista plástico, tem formação em Arquitetura): o constante processo de reorganização urbana da cidade. Onde antes havia agrupamentos de edificações com caráter histórico, surgia uma nova visualidade com as fachadas dos prédios e das casas tomadas pelo revestimento de cerâmica.

     

    O modo de vida em Belo Jardim e a reorganização da paisagem urbana é retratado em "A Praca" - Foto: Francisco Baccaro/DivulgaçãoO modo de vida em Belo Jardim e a reorganização da paisagem urbana é retratado em "A Praca" - Foto: Francisco Baccaro/Divulgação

     

    “Eu não queria simplesmente abordar essa questão a partir de um posicionamento crítico estético estrangeiro. Ao mesmo tempo, eu percebi que existe um gesto de cuidado, atenção e de carinho pelas propriedades”, argumenta. Essa percepção sobre o zelo também veio à tona de uma forma inusitada, ao entrar no cemitério da cidade: “Lá dentro tem as tumbas, mas também tem quartinho em que as pessoas mantêm plantas, baldes, vassouras, entre outros objetos. E eu percebi que não é somente um cuidado, um zelo pelos falecidos, mas também pela edificações”.

     

    Dessas reflexões sobre o contexto urbano – ainda que em um ambiente bucólico – nasce a instalaçãoA praça. Com base em seu principal espaço de convivência, ele levou os questionamentos sobre a reorganização urbana, ao produzir o mobiliário inerente à este espaço, bancos e jardineiras, revestido com a cerâmica.

     

    “No meu entendimento, eu trago a ideia de que isso possibilita a discussão sobre o temas como patrimônio e identidade cultural. Eu peguei essas atmosferas e visualidades caóticas, em que cada um é revestido de uma padronagem diferente, levantando um sentimento visual semelhante ao das cidades”, aponta. Para ele, a ausência de uma padronagem estética, com uma visualidade conturbada e assimétrica, expressa a busca pela individualidade, em contraste com a proposta de convivência e acolhimento do espaço.

     

    "Sol estranho" questiona a perspectiva do homem diante do universo e sua tentativa de restringir a presença do sol - Foto Francisco Baccaro/Divulgação"Sol estranho" questiona a perspectiva do homem diante do universo e sua tentativa de restringir a presença do sol - Foto Francisco Baccaro/Divulgação

     

    SUPREMACIA SOLAR
    Das residências, a segunda, em Petrolina, foi o lugar em que o artista ficou por mais tempo, aproveitando para sair do âmbito urbano e ter um contato mais intenso com a natureza.

     

    “Duas coisas me impressionaram fortemente: a água, através da riqueza e intensidade do Rio São Francisco, e o sol, a aridez de sua presença na vida das pessoas”, relata. A dificuldade da vida sob intensidade solar da região levou José Paulo a refletir sobre a complexidade humana da região, com suas disputas de propriedade e riqueza a partir da exploração. “Não é algo que acontece de forma controlada e com respeito à natureza. E isso me estimulou a fazer um trabalho próprio pra lá”, revela, sobre o surgimento da instalaçãoSol estranho.

     

    Da literatura veio a referência que faltava. A partir de trecho do poemaHá metafísica bastante em não pensar em nada, de Fernando Pessoa (publicado originalmente sob o heterónimo Alberto Caiero).

     

    “A luz do sol não sabe o que faz

    E por isso não erra e é comum e boa”
    (trecho do poema)

     

    “Essa colocação sobre o sol, trazendo esse entendimento da natureza, faz a gente visualizar essa necessidade humana de tencionar e tentar controlar, conduzir, alterar e explorar a natureza. Ao mesmo tempo em que ela tem essa grandiosidade, muito maior que arrogância humana”, pondera o artista sobre a onipresença do sol, para ele, sempre apontando alguma coisa no horizonte.

     

    Na instalaçãoSol estranho, Zé Paulo utiliza uma plantação de melancias e lâmpadas fluorescentes amarelas para compor uma metáfora acerca da tentativa de controle humano sobre natureza – o sol representando nas luzes o momento em que tentamos reproduzir a natureza artificial, utilizada para os nossos interesses; e as melancias referenciando as relações cósmicas e os planetas. “Não é um sol único, é um sol fragmentado, porque a gente nunca vai conseguir ter a mesma magnitude dele”, pondera.

     

    Os vazios de nossas memórias e afetos preenchem a mala de secar carne de "Saudade danada" - Foto: Francisco Baccaro/DivulgaçãoOs vazios de nossas memórias e afetos preenchem a mala de secar carne de "Saudade danada" - Foto: Francisco Baccaro/Divulgação

     

    IDENTIDADE AMBULANTE

    Ao chegar a Garanhuns, já com o acúmulo dos trabalhos realizados em Belo Jardim e Petrolina, surge para o artista o sentimento do deslocamento como uma situação recorrente, não somente no momento de pesquisa, mas dentro da situação de interior - Agreste e Sertão - e suas pessoas. A necessidade do êxodo, seja pelo clima, economia ou abandono social.

     

    “Eu me deparei com esse sentimento que vem das referências culturais e emoções que as pessoas carregam para o resto da vida sobre um lugar, apesar do deslocamento, como a estética, a música ou a gastronomia.” Para ele, essas memórias afeitas são algo que acalenta esse vazio da mudança e alimenta a sensação de que essas referências não são perdidas. “Por mais que você construa sua complexidade cultural em outro local, carrega também esse sentimento de pertencimento que, às vezes, fica dentro de você de uma forma muito sutil”, emenda o raciocínio.

     

    Com uma boa pitada de bom humor, surgiu a proposta da mala de secar carnes, em que pega as tradicionais tábuas de secar carne de sol, comuns nas feiras e mercados livres do interior, e imerge na reflexão sobre pertencimento, ao transformar em uma memória afetiva gastronômica ambulante. “É uma mala que você pode ir para qualquer lugar do mundo e curtir a sua carne de sol”, brinca. A obra recebeu o título deSaudade danada, expressão bem característica do vocabulário nordestino que traduz o sentimento de profunda identificação à distância.

     

    À mala de secar carnes, somou-se na exposição em Garanhuns a obra que norteou toda a pesquisa: o vídeoLabirinto caruaruense, que, para a curadora do projeto Clarissa Diniz, salta aos olhos a estratégia de lidar com aquilo que já existe de forma menos habitual. “É o que faz, com poesia e força política, José Paulo no vídeo Labirintos caruaruenses, do qual a Sulanca fechada, desabitada e, ainda assim, pulsante é a protagonista”, afirma.

     

    A partir das experiências do artista no Agreste e Sertão, o público recebe o desafio de lançar novos olhares sobre as coisas do nosso cotidiano. Esta, porém, não é a primeira vez que José Paulo propõe novas perspectivas sobre o mundo do habitual, tendo em seu trabalho um exercício de sensibilidade como constante.

     

    No ano passado, o artista já havia mergulhado em discossões da atualizade com a instalação "Cidade Caiada" - Foto: Francisco Baccaro/DivulgaçãoNo ano passado, o artista já havia mergulhado em discossões da atualizade com a instalação "Cidade Caiada" - Foto: Francisco Baccaro/Divulgação

     

    “Em muitos momentos da minha produção, eu tenciono dialogar com o momento em que eu vivo, a minha realidade existencial – não como indivíduo: eu me tendo como referência; busquei questões externas, sociais, urbanas ou éticas.  Buscar situações em que me coloco dentro de discussões da atualidade é uma constância em minha produção”, reflete. Como exemplo, cria a instalaçãoCidade caiada, um manifesto realizado no momento em que se estava no auge da discussão sobre a ocupação do Cais José Estelita, no Recife, em apoio ao Movimento Ocupe Estelita. “É a maneira que encontro de agregar a estas pessoas, não somente participando como cidadão, mas expressando nas artes”, completa.

     

    Como consolidação dessas pesquisas, José Paulo leva agora as exposições para a galeria Amparo 60 em praticamente sua totalidade. A exceção é a instalação Sol estranho, que devido à sua dimensão física e planejamento para o espaço expositivo do Sesc Petrolina, chega ao Recife em um recorte. A abertura da exposição acontece no dia 1º de setembro, às 19h.

     

    Serviço:

    Exposição3 Cidades, de José Paulo

    Curadoria: Clarissa Diniz

    Onde: galeria Amparo 60– Av. Domingos Ferreira, 92 A, Boa Viagem, Recife.
    Abertura: 1º de setembro de 2016, às 19h

    Visitação: Segunda a sexta, das 9 às 13h e das 14h às 19h; sábados das 10 às 14h (com agendamento prévio)

    Informações: (81) 3033-6060

  • O frustrado resgate de Napoleão Bonaparte em 1817

    "Napoleon Bonaparte", de Benjamin Robert Haydon/Acervo National Portrait Gallery"Napoleon Bonaparte", de Benjamin Robert Haydon/Acervo National Portrait Gallery

    [artigo vinculado à matéria de capa dos 200 anos da Revolução de 1817 (mar 2017)]


    Depois da sensacional
    volta de Napoleão Bonaparte da Ilha de Elba e de seu reinado de 100 dias e com a certeza de que havia ainda um contingente respeitável de admiradores seus que se mobilizaria ao primeiro chamado do imperador deposto, as monarquias europeias mais do que escaldadas, resolveram tomar providências drásticas. Napoleão esperava ou fingiu que esperava ficar na Inglaterra como hóspede da Coroa inglesa. Sua decepção foi grande, quando lhe informaram que ele ficaria prisioneiro para sempre em uma pequena ilha, quase inexpugnável, no meio do Atlântico.

    E, de fato, viveria na Ilha de Santa Helena até morrer em 1821, doente e deprimido, desejando antes ter sido executado do que definhar naquele lugar nenhum. No entanto, durante os seis anos em que viveu ali, mesmo sob a maior vigilância, Napoleão e seus admiradores encontraram meios de se corresponder e até mesmo de tramar um possível resgate. Um desses projetos envolveu brasileiros e um momento importante da História do Brasil: a Revolução Pernambucana de 1817.

    A CONSPIRAÇÃO
    Os Estados Unidos da América, única democracia de fato que então havia no mundo, era um grande atrativo para os antigos oficiais do império francês. Humilhados com a exclusão do exército e com a perspectiva de viver a meio-soldo, poucos meses depois de Waterloo, cerca de mil oficiais franceses de várias patentes tinham partido para os EUA. Além de buscar novas oportunidades, boa parte dessa gente continuava a sonhar com a volta do imperador, nem que fosse para reinar em algum pedaço das Américas. O malogrado rei de Espanha, José Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão, também se estabelecera nos Estados Unidos e era um verdadeiro ímã a atrair toda a sorte de conspiradores com planos para o resgate do ex-imperador.

    Assim, quando tiveram notícia de que uma revolução republicana estourara em Pernambuco, o ponto da costa americana mais próximo de Santa Helena, as esperanças dos bonapartistas foram renovadas. A notícia dessa revolução que pretendia instalar no nordeste brasileiro uma república chegou aos jornais americanos por intermédio de um de seus líderes, Antônio Gonçalves da Cruz, mais conhecido como Cabugá. Ele promovera em sua casa muitas das reuniões que impulsionaram a rebelião que eclodiria em 6 de março de 1817. Poucos dias depois, em 25 de março, ele embarcava para os EUA como embaixador do governo revolucionário junto às autoridades daquele país. Tal como para os mineiros de 1789, para os revolucionários de Pernambuco, os EUA representavam o modelo ideal de nação. Ainda mais naquele momento em que as monarquias da Europa tentavam destruir a herança da Revolução Francesa e voltar às práticas do Antigo Regime.

    Se o ministro dos Negócios Estrangeiros, Richard Rush, que recebeu Cabugá em caráter informal, não prometeu que seu governo daria suporte aos revolucionários, também não impediu suas idas e vindas. Sob o pretexto das leis liberais e democráticas que regiam a vida no país, o governo norte-americano fez ouvidos moucos aos rogos do embaixador de Portugal, o padre José Correia da Serra, para que Cabugá fosse impedido de comprar armas, fretar navios e contratar homens para levar ao Recife.

    Leiaartigo na íntegra na edição 195 da Revista Continente (mar 2017)

  • Páginas para o "Baile perfumado"

    Baile Perfumado e suas imagens inesquecíveis. Foto: Fred Jordão (still do filme)Baile Perfumado e suas imagens inesquecíveis. Foto: Fred Jordão (still do filme)

     

    "Uma boa maneira de definir Baile Perfumado é afirmar que se trata de um filme que vibra dirigido por dois inquietos. Realizado vinte anos depois do último longa-metragem rodado em Pernambuco, a comédia O Palavrão, de Cleto Mergulhão, o filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira vinha interromper um longo intervalo que consolidara a ideia de que seria impossível viabilizar uma produção profissional no estado em que viu florescer, entre 1923 e 1931, o Ciclo do Recife, o mais vigoroso surto produtivo do cinema brasileiro dos anos 1920."


    O parágrafo que abre o livro A aventura do Baile perfumado: 20 anos depois (Cepe, 2016), escrito pelos organizadores Amanda Mansur e Paulo Cunha, nos convence não apenas da importância de uma publicação como esta - o que parece óbvio. As palavras que introduzem estas páginas que acabam de sair nos colocam também com os olhos atentos para Pernambuco e os pés bem-fincados nele, que a despeito de qualquer polêmica (ou despeito), mantém seu solo fértil e resistente para a produção audiovisual. Às vésperas da abertura do 9º Janela Internacional de Cinema, festival que ocupa o Recife até o dia 6 de novembro, o lançamento do livro na quinta (27/10), na loja Passa Discos, às 19h, vem a calhar.

    Baile perfumado é um filme emblemático para o cinema nacional. Não por acaso, recebeu homenagens este ano, pela comemoração de suas duas décadas, do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde ganhou o prêmio, em 1996, de Melhor Filme do Júri e da Crítica, tornando-se "um marco na 'retomada do cinema brasileiro', participando de diversos festivais internacionais", na palavras do próprio festival. O encerramento da edição deste ano do evento, aliás, aconteceu com a reexibição do longa-metragem. O livro de Paulo Cunha e Amanda Mansur, uma compilação de diferentes textos sobre a obra, além de imagems de still e todo o roteiro original do filme (rascunhado), vem reforçar o coro de legitimação em torno dessa história que mergulha na vida de Lampião e seu bando a partir da perspectiva de bastidor, puxada pelas lentes do fotógrafo Benjamin Abrahão que ajudaram a construir um mito.



    Ao longo das 270 páginas d'A aventura do Baile perfumado, podemos ler uma análise histórica de Frederico Pernambucano de Mello sobre Abrahão, nas suas palavras "o aventureiro nascido em Bethlem, na Terra Santa - conterrâneo de Jesus, para delírio do Padre Cícero". Podemos ler também uma reportagem sobre cangaço e cinema escrita pelo crítico Fernando Spencer para o Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado. O mais importante desse livro, contudo, é o apanhado que faz de todo o processo de produção do filme, com depoimentos dos dois diretores; do roteirista e também assistente de direção Hilton Lacerda; de Luiz Carlos Vasconcelos, que atuou no papel de Lampião; dos assitentes de produção Marcelo Gomes e Cláudio Assis (hoje, diretores consagrados da cena local); do diretor de arte Adão Pinheiro, artista plástico que anda sumido do Recife; entre outros.

    Por todo o seu conteúdo, este é um livro para apreciadores do cinema e profissionais do audiovisual. Mas, por toda a história do filme, a publicação é capaz de abarcar um público mais amplo de músicos, artistas, jornalistas, historiadores, geógrafos, sociólogos, antropólogos e demais interessados na história da nossa produção cinematográfica e na própria história de Lampião, que ganhou novos vernizes depois de Baile perfumado, a ponto de ser esta uma obra de frames bastante marcados em nosso imaginário. Até porque a narrativa é metalinguística; imagem dentro de imagem, filme dentro de filme, o que potencializa justamente a força de uma narrativa feita em pleno Sertão nordestino, em torno de um grupo clandestino que, como sabemos, virou a bandeira de um Nordeste afoito e resistente.

    Além disso, nos lembra os organizadores do livro, em Pernambuco havia, naqueles meados de 1990, "o adensamento de um conjunto de sentimentos comuns, que visavam romper com o isolamento cultural de Pernambuco". Estás falando, claro, do Manguebeat. E Baile perfumado é um filme com todas as estéticas e pessoas desse movimento. Se o filme se tornou, portanto, "um catalisador de tensões diversas", temos muitas razões para desvendar, por meio dessas páginas, a história de toda essa aventura que foi filmar em Pernambuco há 20 anos atrás.

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    Veja filme completo aqui:

  • Pernambuco (ainda) falando para o mundo?

    DJ Dolores e Orchestra Santa Massa. Foto: Maria Chaves/DivulgaçãoDJ Dolores e Orchestra Santa Massa. Foto: Maria Chaves/Divulgação

     

    Agosto de 1995. Chico Science & Nação Zumbi (CSNZ) davam início à From Mud to Chaos World Tour, primeira turnê da banda fora do país. Quarenta e três dias depois – com shows na Suíça, Holanda, Alemanha, Bélgica e mais 11 cidades nos EUA –, o grupo voltava cheio de histórias para contar. Era o impulso para uma nova relação da música pernambucana com o Brasil e o mundo. A turnê carimbava o passaporte de Pernambuco no circuito internacional.

     

    “Todo mundo estava se lixando para Da lama ao caos, o mercado brasileiro era muito difícil pra quem não tocava na rádio”, conta o produtor Paulo André, empresário de CSNZ à época, sobre o primeiro álbum da banda, que não havia correspondido às expectativas de vendas da Sony e tinha dificuldade de tocar nas rádios, pelo som tão diferente do que se ouvia até então. A aposta no circuito estrangeiro de festivais, quando até mesmo a gravadora duvidava desse potencial, foi certeira.


    Logo depois, Mestre Ambrósio, Mundo Livre S/A e Cascabulho também aprontaram as malas. Uma série de convites se sucedeu e as turnês estrangeiras passaram a ser mais frequentes. No início dos 2000, Pernambuco chega ao seu momento mais forte nesse mercado. Uma nova leva de artistas – DJ Dolores & Orchestra Santa Massa, Silvério Pessoa, Siba e Fuloresta, Coco Raízes de Arcoverde, Nação Zumbi – já havia pisado no palco de festivais renomados, como Roskilde (Dinamarca), Sfinks (Bélgica), Heimatklange (Alemanha), Womad (Espanha), Montreaux (Suíça). Dali por diante, Pernambuco começava a falar para o mundo… e a ser ouvido.


    “Foram os tempos áureos”, conta a produtora Melina Hickson, sócia e parceira de Paulo André em parte dessa trajetória. “Os festivais estavam com interesse, dinheiro para investir nos cachês, o momento artístico era ótimo e havia empresários interessados”, resume. “O que mais chamou a atenção do público foi exatamente essa ruptura com uma visão estereotipada do que era a música brasileira, não só samba e bossa nova, nem só Rio e São Paulo. O que começou a chegar lá era algo diferente, que apresentava estética híbrida, dialógica, combinativa”, diz Silvério Pessoa, que, ao longo de 12 anos, excursionou pelo continente.


    Com a novidade, uma cadeia de atores se desenhou para conectar essa música aos diversos circuitos. Numa ponta, estavam as bandas e seus produtores. Na outra, festivais de música, clubes e casas de show. No meio de campo, selos, distribuidoras e managers (agenciadores) estrangeiros. “Pernambuco é um foco de música independente bem importante e diferente, mas se as coisas acontecem é porque alguém investiu tempo, dinheiro e conhecimento naquilo”, afirma a britânica Jody Gillet, uma das responsáveis, nos anos 2000, pelo gerenciamento e lançamento de discos do catálogo da gravadora Trama na Europa. Entre eles, estavam os da Nação Zumbi e Otto.


    “Visão estratégica é importante para levar sua música ao exterior. Associar o lançamento do disco, assessoria de imprensa, TV, rádio. Todos os meios de comunicação têm que fazer parte do desenvolvimento do artista”, endossa o francês Frédéric Gluzman, da VO Music, um dos responsáveis, nos anos 2000, por fomentar esse circuito. “Meu nome foi construído pela combinação de uma obra original somada ao empenho dos selos e agentes”, afirma DJ Dolores, que há mais de 15 anos viaja pela Europa e América do Norte.

     

    Selos musicais lançaram alguns desses discos, fazendo com que chegassem ao público estrangeiro. Um deles, o L’autre Distribution, do francês Marc Regnier, tem no seu catálogo 10 álbuns pernambucanos, de artistas como Siba e a Fuloresta, Eddie, Seu Luiz Paixão. Além do selo, Marc foi o criador da agência Outro Brasil, que viabiliza shows no mercado europeu. “Uma série de pessoas estava empenhada em difundir essa música, que ganhava pela sua riqueza, diversidade”, afirma.


    A produção do estado também escoou em coletâneas produzidas aqui, com a Music from Pernambuco (com quatro volumes, lançados a partir de 2003), idealizada por Paulo André, e fora, a exemplo da What’s happening in Pernambuco? (2008), produzida pelo selo Luaka Bop, de David Byrne.


    São 21 anos de 1995 pra cá. Na atual conjuntura mundial, o cenário continua favorável para a exportação da música do estado? Nos relatos de quem tem sido parte dessa engrenagem, a realidade atual é outra. Nos últimos anos, vários fatores levaram à diminuição da frequência de turnês e viagens internacionais. Praticamente tudo converge para o mesmo ponto: a crise econômica mundial, que desencadeou a reconfiguração de mercados, inclusive o musical.


    RETRAÇÃO
    “Já não é mais fácil excursionar fora do país como era há 10 anos. Os custos são altos”, diz Paulo André. A reorientação das escolhas do line-up dos festivais também foi sentida. “Com a diminuição do orçamento, eles passaram a priorizar as bandas principais. Grupos estrangeiros, desconhecidos, acabaram ficando com menos espaço”, diz Melina Hickson. Marc Regnier lembra não só a queda de investimentos dos eventos, mas a extinção de muitos deles. “Nos últimos cinco anos, o número de festivais tem diminuído cerca de 30% anualmente”. Além disso, ele aponta a diminuição específica do mercado da chamada world music. “Era uma enxurrada de propostas das mais diversas. Num festival, você ouvia polifonias árabes, forró de rabeca, percussões africanas, grupos japoneses. Era muito bom, mas desproporcional.”


    O percussionista Jam da Silva, que faz parte da Orchestra Santa Massa, comenta: “Nos 1990, tudo era novidade, era o impacto do diferente. Hoje, talvez, tenha mudado um pouco a forma de observar, olhar e o querer da nossa música, talvez queiram algo mais tradicional… Exótico”.


    O desmantelo do mercado fonográfico também foi decisivo. “Não se compram mais tantos discos porque a música está disponível digitalmente, sem precisar pagar por ela”, afirma Jody Gillet. “Hoje, nada está sendo tão eficaz como o streaming. Isso não deixa de ser desafiador para o mercado europeu”, complementa Silvério Pessoa. Torna-se assim mais árduo ao artista independente viabilizar empreitadas lá fora. “É difícil encontrar uma agência ou selo que queira apostar em alguém novo no mercado europeu, pois há necessidade de se investir até estabelecer o nome, com incerteza no resultado. Raro o empreendedor com esse perfil. Prefere-se relançar nomes já consagrados”, conta Marc Regnier, que decidiu por não mais continuar com o L’aurtre distribution e o Outro Brasil.


    A excessiva quantidade de pernambucanos que desembarcaram na Europa, num curto período de tempo, em 2005, no Ano do Brasil na França, também influenciou, acredita Melina. “Pernambuco foi o estado brasileiro que mais levou bandas para se apresentar na Europa. E isso rendia também shows em outros países. Foi uma overdose de música pernambucana”, pontua.


    O espaço na mídia especializada se encontra reduzido. “Hoje, há poucas revistas, cada uma com tiragem de 25 mil exemplares, alguns jornais que uma vez na semana têm espaço para resenhar um disco”, diz Jody Gillet. O radialista belga Zjakki Willems acompanha a “nova música pernambucana” desde a explosão do Movimento Mangue e observa: “Cada vez mais as rádios públicas se comportam como comerciais: menos cultura, menos diversidade, explora-se menos a música desconhecida. No início dos anos 2000, o público teve a oportunidade de ouvir a música de Pernambuco e gostou disso. Agora, há menos chance de ouvi-la e, consequentemente, o número de pessoas que gostam dela é menor”.


    Apesar do cenário desanimador, ainda é possível empreender, acreditam os entrevistados. Feiras e convenções de música, como o Porto Musical, dirigido por Melina, em Pernambuco, são vitrine importante. A cada edição, circulam produtores estrangeiros, donos de selos, agências e demais atores da cadeia de negócios da música. E os showcases têm tido um resultado positivo para despertar o interesse dessas pessoas. Coco Bongar e Orquestra Contemporânea, por exemplo, alçaram voos mais altos depois de se apresentarem no Porto Musical. A dupla Radiola Serra Alta, de Triunfo, também. Esteve, recentemente, no Festival Glastonbury, na Inglaterra. Saiu pela primeira vez do Brasil.


    Este ano, artistas se apresentaram e ainda se apresentarão no Exterior: Saracotia, DJ Dolores, Quarteto Olinda, Renata Rosa, entre outros. Silvério Pessoa está negociando shows futuros. E a Nação Zumbi, aquela que, junto a Chico Science, não tinha menor ideia do passo que dava há 21 anos, está na programação do Festival de Montreaux 2016, na Suíça.

     

    SpokFrevo no Lincoln Center. Foto: Marcelo Barreto/Divulgação SpokFrevo no Lincoln Center. Foto: Marcelo Barreto/Divulgação


    AMÉRICAS
    Apesar da proximidade geográfica, o circuito musical nos EUA e países da América Latina ainda é pouco explorado pelos artistas pernambucanos. É notório que as turnês empreendidas têm a Europa como destino preferencial. E a questão não é, necessariamente, espaço (há de se lembrar, por exemplo, que Chico Science & Nação Zumbi fizeram um show histórico no Central Park Summer Stage, em 1995). Dois nomes tiveram grande repercussão na mídia ao pisar em solo estadunidense: Orquestra Contemporânea de Olinda (OCO) e SpokFrevo Orquestra. E com uma semelhança: ambos viraram notícia da imprensa internacional (demarcando espaço no New York Times) ao se apresentarem no Lincoln Center, um dos templos da música mundial.


    Spok e sua orquestra têm um nome consolidado nos EUA. Boa parte disso se deve à conjunção de dois fatores: o frevo com características jazzísticas feito pelo grupo e a aposta do produtor francês Frédéric Gluzman no potencial dessa música. O impacto que o frevo exerce nos primeiros segundos de apresentação é descrito por Spok: “Assim que a gente chega ao palco, as pessoas olham e pensam que é mais uma big band. Mas basta nosso baterista começa a fazer aquela levada, que a gente nota um certo susto na plateia, em quem nunca tinha ouvido aquilo antes”. Frédéric é o responsável pela empreitada norte-americana da SpokFrevo. “Como a música deles têm uma proximidade com o jazz, foi mais fácil entrar no mercado, mas também tinha uma coisa diferente no som. Entrei nessa junto com eles, propondo essa novidade”, conta.


    No entanto, Frédéric faz ressalvas ao mercado musical americano. “É muito bom para o perfil de um artista como Spok, mas, ao mesmo tempo, é complicado. Os cachês são baixos. Algumas vezes, eles não pagam transporte e alojamento”, relata. Segundo Juliano Holanda, guitarrista da OCO, questões culturais também são determinantes para essa falta de assertividade dos pernambucanos no mercado americano. “Diferentemente dos países da Europa, os EUA são uma nação mais fechada, mais ensimesmada, centrada nos seus próprios interesses, geopoliticamente e culturalmente também. É menos receptiva”, diz.


    No caso da América Latina, alguns nomes pernambucanos já pisaram em seus palcos, como Nação Zumbi, Jam da Silva, Siba, Naná Vasconcelos, Saracotia – mas, numa escala pequena, se comparada com a Europa. Segundo Gutie, produtor do Rec-Beat (que nos últimos anos vem inserindo a cena musical latino-americana no seu line-up), “o Brasil sempre foi meio dissociado dos países vizinhos, pelo fato de ser o único deles que fala a língua portuguesa; pela dimensão territorial; por estar mais voltado para a música anglo-saxônica. Há um distanciamento histórico e uma relação truncada”, conta, lembrando, porém, que existem festivais a se explorar lá. “Tem o Circulart, na Colômbia; AM-PM, em Cuba; Amplifica, no Chile.” E reforça que, em tempos de crise econômica, quando ir à Europa está mais caro, o bom é investir nos territórios mais próximos, que têm demanda. “Há um interesse desse mercado de festivais pela nossa música e existe a possibilidade de a banda mapear esses encontros e fazer contato, apresentar seu material. Hoje em dia, não tem a gravadora pra fazer isso. Então, tem que correr atrás”, assevera.

     

    Quarteto Olinda no Festival PE na Terra, em Faro Portugal. Foto: Dewis Caldas/DivulgaçãoQuarteto Olinda no Festival PE na Terra, em Faro Portugal. Foto: Dewis Caldas/Divulgação


    PARA TODOS
    Se vem do termo forrobodó (que significa festança, farra, no linguajar nordestino) ou da corruptela de for all (do inglês “para todos”), pouco importa. O que se observa é que, nos últimos anos, o forró vem conquistando territórios no Velho Mundo. No esteio da dança, a música começou a ter mais representatividade na Europa. Uma rede articulada de produtores (em geral, professores de dança), brasileiros ou estrangeiros, faz essa ponte entre o ritmo nordestino e o público estrangeiro.


    O primeiro festival europeu dedicado ao forró aconteceu em 2006, em Stuttgart (Alemanha). De lá para cá, a presença dos forrozeiros aumentou, intensificando-se nos últimos três anos. “Hoje, somos mais de 15 professores de forró espalhados pela Europa, de Portugal até a Rússia”, conta Rudolfo Batista, olindense que mora há 16 anos em Colônia (Alemanha) e é um dos responsáveis por articular esse movimento exitoso. São casas de show, bares, pubs e escolas de dança dedicadas ao forró.

     

    A Alemanha, segundo ele, é o país onde o forró é mais forte na Europa. “Temos oito grandes cidades e inúmeras menores onde o forró acontece. E os três maiores festivais, o Forro de Domingo, No rela bucho e o Forro Aachen”. O Quarteto Olinda é um dos grupos que vêm participando desses eventos. Em sua quarta ida ao continente, eles passaram 20 dias se apresentando em cidades como Bruxelas, Genebra, Barcelona. Além dos shows, um workshop de forró, em Bordeaux. “Eu sinto que lá há uma carência do tipo de som que a gente faz. Não que não tenham qualidade, mas esse balanço, essa pegada, o sotaque, só a gente tem. E quando eles veem, ficam loucos. Parece que é aquele imaginário que se materializa diante deles, aquele som do Nordeste de que ouvem tanto falar. Quando eles veem ao vivo, o olhinho chega brilha”, conta Cláudio Rabeca, frontman do Quarteto.

  • Revolução quadro a quadro

    Capa do livro ilustrado por Pedro ZenivalCapa do livro ilustrado por Pedro Zenival

    [HQ vinculada à matéria de capa dos 200 anos da Revolução de 1817 (mar 2017)]


    Na edição de março da revista impressa, disponibilizamos, em primeira mão, as páginas iniciais do álbum de quadrinhos
    1817 - Amor e revolução, ilustrado por Pedro Zenival, que levou um ano para ser concluído, sendo o primeiro do gênero a ser lançado pela Cepe Editora


    Por trás da Revolução de 1817, dos arroubos libertários e da luta pela democracia que Pernambuco capitaneou, paira um romance que, como muitos detalhes desse singular episódio republicano, permanece à margem da história oficial. “É o nossoRomeu e Julieta. Domingos José Martins passou quatro anos namorando escondido com Maria Teodora da Costa e decidiu fazer uma revolução para casar com ela”, explica o jornalista e escritor pernambucano Paulo Santos de Oliveira, autor do roteiro da história em quadrinhos1817 – Amor e revolução, um dos lançamentos da Companhia Editora de Pernambuco – Cepe para celebrar o bicentenário do movimento.

    A novela gráficaé uma adaptação deA noiva da revolução, escrito por Paulo e publicado em 2007. Com ilustrações de Pedro Zenival Ramos Ferraz, traz uma síntese dos acontecimentos que, a partir de 6 de março de 1817, provocam a erupção da insurgência. Porém, o foco reside na história de amor entre Domingos, 36 anos, um dos líderes da rebelião contra a Coroa Portuguesa, e Teodora, 17, filha de Bento da Costa, um abastado português. Depois de negar a mão da filha por diversas vezes, Bento resolve aceitar o pedido de casamento no dia 8 de março, quando Domingos já era um dos integrantes do governo provisório de Pernambuco.

    Foi o casamento politicamente mais importante da história do Brasil”, observa Paulo Santos de Oliveira. “Apesar de ele ser galã e rico, o pai da moça não permitia antes porque ele era brasileiro. Essa derrubada de preconceito foi importante. Diferente de outros estados, como Bahia e Rio de Janeiro, em Pernambuco, os brasileiros e os portugueses viviam brigando. A união de um pernambucano com a filha de um português rico ajudou a promover uma pacificação. Quando o casamento ocorreu, o povo foi às ruas para comemorar”, completa o escritor.

    Para Pedro Zenival, o trabalho de um ano na transposição da linguagem literária foi meticuloso e de extrema dedicação. “Fiz uma pesquisa visual nos livros ilustrados relacionados à época, em especial nos registros da era napoleônica, que condizia com a moda e as vestimentas do Recife daquele momento”, comenta o ilustrador, um dos mais prolíficos colaboradores da Cepe, onde trabalha desde 1987. O resultado é de um apuro imenso e faz de1817 - Amor e revolução uma leitura obrigatória nesse contexto de resgate de um acontecimento sem comparação na história do Brasil.

  • Um olhar sobre a luta pela terra

    Zito da Galileia por Iza VarejãoZito da Galileia por Iza Varejão

     

    “Fiquei mastigando essa história. Nunca dava certo, mas eu sempre escrevendo. Já estava sem esperança de publicar.” A frase é de José Joaquim da Silva, de 69 anos, o Zito da Galileia, que lança, em dezembro, pela Cepe Editora, o livro de memórias A história das Ligas Camponesas – Testemunho de quem a viveu, projeto que o autor vem acalentando desde a década de 1990, quando morava em São Paulo.


    O testemunho de Zito vem acompanhado de um anexo, com vários textos coletados (e redigidos) pelo escritor e jornalista Marcelo Mario de Melo, que o ajudou a transformar o calhamaço de originais em livro. Nele, o leitor terá uma visão mais ampla do que foi a luta pela reforma agrária no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960, liderada pelas Ligas Camponesas. Autores como Paulo Cavalcanti, Francisco Julião, Josué de Castro (Programa de 10 pontos para vencer a fome, elaborado nos anos 1950), trechos do famoso discurso do presidente João Goulart em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro, pouco antes do golpe que estava sendo urdido, no qual defendia a reforma agrária, e um poema de Vinicius de Morais, intitulado Oshomens da terra, publicado em 1962 estão na publicação. Além disso, um ensaio fotográfico de Iza Varejão retoma as imagens de um lugar cheio de significados – o Engenho Galileia.


    Sim, mas quem foi Zito da Galileia? – perguntarão muitos leitores. Zito era menino de oito anos, em 1955, quando foi criada, no Engenho Galileia, próximo a Vitória de Santo Antão, a 60 quilômetros do Recife, a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco – SAAP. Hoje é difícil lembrar essa sigla, mas ela conseguiu algo improvável em dezembro de 1959. Enfrentou o poder dos latifundiários, donos de engenho, políticos poderosos, e conseguiu desapropriar o Engenho Galileia. A posse da terra foi em fevereiro de 1960. O detalhe é que Zito era neto de José Francisco de Souza, o Zezé da Galileia, que foi presidente da Sociedade, que se tornou o embrião para o nascimento de um dos maiores movimentos libertários dos trabalhadores rurais do Nordeste – as Ligas Camponesas.


    “Este livro foi escrito por uma questão de paixão pela história da Liga Camponesa da Galileia, que nasceu na residência do meu avô, o velho Zezé da Galileia”, lembra Zito na introdução à publicação. Ele acompanhou tudo, em diferentes fases de sua vida. Quando era menino, viu os camponeses tirarem as enxadas do chão (ou do lombo) e as erguerem, em passeatas, reclamando por direitos básicos mínimos – como o de não serem tratados como escravos. As rodas de conversa, na casa do avô, eram aulas de História, Sociologia, política: eram frequentadores Francisco Julião, Gregório Bezerra, Davi Capistrano e todas as lideranças do movimento. Tinha oito anos quando participou do primeiro evento, no Recife, o Congresso Camponês de Pernambuco, que reuniu mais de três mil pessoas. Estava com 13 anos, quando o churrasco para duas mil pessoas celebrou a posse da terra, em Galileia. Tinha 16 anos e estava defronte ao Palácio do Campo das Princesas, junto a centenas de trabalhadores rurais, para celebrar a posse do recém-eleito governador Miguel Arraes. E, aos 17, viu o golpe militar e a fúria repressiva destruírem tudo o que se referisse às Ligas – pessoas, especialmente.


    Numa narrativa simples, que segue o fluxo de suas memórias, entremeada por pesquisas (especialmente do período em que morou em São Paulo), relatos e fatos que presenciou, Zito traz para a bibliografia do período a contribuição rara do “eu”. A narrativa é marcada por uma espécie de contenção reguladora, de quem esteve próximo demais e não pretende ir além limite de suas memórias.

      Memória da atuação das Ligas Camponesas em Pernambuco é o foco da publicaçãoMemória da atuação das Ligas Camponesas em Pernambuco é o foco da publicação

     

    O AVÔ ZEZÉ
    Os militares começaram a tomar o poder na noite do dia 31 de março de 1964 e concluíram tudo no dia 1º de abril. Mas as prisões, torturas, assassinatos, fechamento dos sindicatos rurais, já faziam parte do cotidiano dos que ousaram “tomar posse” de algum pedaço de terra – mesmo com a sanção do governador, como foi o caso de Galileia.


    Era dia 26 de abril, e seu avô Zezé ainda não tinha sido preso. Às 10h, chegou à casa dele o “tenente Saraiva”, acompanhado de quatro soldados. Disse à dona Marieta, sua esposa, que o chamasse onde ele estava escondido, porque não seria preso, por ser idoso. Iria só “dar um depoimento na delegacia de Vitória” e seria trazido de volta.


    “Dona Marieta acreditou. Foi chamar seu esposo que, ao chegar em casa, foi abraçado pelo tenente e não recebeu voz de prisão. Mas, em vez de irem para Vitória, seguiram para a Secretaria de Segurança no Recife. Zezé ficou alguns dias incomunicável, a família correndo presídios, delegacias, quartéis, sem encontrá-lo. Até que se soube que ele estava no quartel do 7º R.O., em Olinda.”


    No breve relato de uma cilada, uma prisão, a incerteza sobre o paradeiro de um parente, o desespero pela falta de notícias, Zito mostra também os primeiros dias da ditadura que durou 21 anos. Em nenhum momento ele se refere a Zezé como “vovô”. Sequer o “ele”. Parece querer apenas mostrar ao leitor o que aconteceu. Não é um texto marcado pela indignação. Zito conta, e deixa ao leitor o entendimento. Ou, neste caso, o sentimento. E a memória parece renascer.


    “Aí foi colocado em um cubículo de dois metros quadrados, comendo pão sem receber água, que retirava de um esgoto quebrado no meio da cela. Ficou seis meses incomunicável. Dentro do cárcere, teve um AVC. Então os militares resolveram libertá-lo. Voltou para Galileia barbudo, doente, desnutrido e fragilizado. Faleceu no dia 30 de agosto de 1969, no Hospital João Murilo de Oliveira, em Vitória de Santo Antão, deixando esposa, filhos, filhas e netos.”
    O tom do livro é atravessado pela necessidade de contar, mas o fato de ter “mastigado” tantos anos o que pretendia dizer, parece ter produzido em Zito os efeitos do próprio tempo. Não há um “acerto de contas”, por assim dizer. Ele quer apenas que outros saibam o que foi vivido e o que foi silenciado.


    Na primeira lembrança, ele estava com oito anos. Aos 18, tirou os documentos para procurar emprego. Passou por várias fábricas, oficinas, enchimento de bebidas, tecelagens, fábricas de papel. Bastava alguém citar a palavra Galileia, que Zito era chamado de “comunista”. Em outro emprego, descobriram que ele era “camponês”. Eram palavras que podiam custar caro, em plena perseguição. Mudou-se para o Recife. Ficou morando em um pequeno barraco, escondido, ainda preocupado com as notícias que lia nos jornais. Prisões, mortes, torturas, corpos de camponeses encontrados nos canaviais. “Os militares ainda não tinham esquecido Galileia”, diz.


    Em 1969, começara o mais brutal período do regime – o governo Médici. Zito conseguira uma vaga como cobrador de ônibus. Ficou trabalhando, mas sempre nervoso com a agitação da cidade. Voltou para Galileia, ficou alguns meses com o pai. Mesmo com pouca educação formal, mandou-se para São Paulo. Era o dia 29 de junho de 1971.

     

    CELESTE E SERAFIM
    Um dos capítulos mais contundentes do livro é o sobre o golpe militar, e a quixotesca tentativa de resistência de gente comum, como a professora Maria Celeste Vidal Barros e o militante Joaquim Serafim dos Santos. No dia 31 de março de 1964, quando as rádios anunciavam o cerco ao Palácio do Campo das Princesas, eles estavam na sede das Ligas, em Vitória. Pegaram os microfones da Radio Jurema, e convocaram os camponeses para a resistência.


    “Com dois mil camponeses, invadiram as delegacias de Vitória e Pombos, renderam 30 policiais efetivos, tomaram as armas, distribuíram-nas com os camponeses e passaram a telefonar para o Recife solicitando armas para a resistência. Ligaram para o Palácio do Campo das Princesas, o quartel do Derby, a Escola de Aprendizes Marinheiros, mas nada conseguiram, pois os oficiais não estavam dispostos a arriscar a pele. E como resistir era impossível, no dia 2, às 17 horas, Luiz Serafim e Maria Alceste resolveram se esconder.”


    Zito segue os caminhos desses resistentes. No dia 3 de abril, à noite, eles estavam reunidos na sede da Liga de Bento Velho, escutando as notícias pelo rádio. Não tinha mais jeito, o golpe militar estava consolidado. Pegam um jipe e fogem para Glória do Goitá. Minutos depois, chegaram dois jipões lotados de soldados do Exército, que invadiram a Liga e destruíram o que era possível, além de rasgar o livro de atas e roubar o dinheiro das mensalidades dos associados. Celeste pede que a deixem em casa, pois os filhos tinham ficado sozinhos. Temendo ser localizada por causa do jipe, ela resolve ir a pé e depois pegar um táxi. Ao se aproximar de casa, vê que estava cercada pelos militares. Entra na residência de uma amiga e se esconde.


    “Enquanto isso, os militares estavam na sua casa vasculhando tudo, jogando livros pelo chão, derrubando móveis e objetos. Passaram a pressionar as crianças, perguntando se Celeste tinha amigos naquele bairro. As crianças inocentemente começaram a falar em nomes de amigas de Celeste. E, na terceira casa invadida, encontraram Celeste escondida debaixo de um tanque de lavar roupa, e deram-lhe voz de prisão.”


    O relato de Zito é seco, duro, um retrato contundente do que aconteceu com centenas de camponeses que fizeram parte das Ligas, naqueles anos de luta pela posse da terra.“Transportada até o Recife na carroceria de um caminhão, foi estuprada seis vezes pelos militares durante o trajeto. Ao chegar à Secretaria de Segurança, continuaram as torturas: o telefone, o choque elétrico, a queimadura nos mamilos com pontas de cigarros, para revelar onde estavam escondidos os outros companheiros.” Em raros momentos do seu testemunho, Zito usa o “meu” ou o “minha”, como se pudesse, finalmente, revelar alguma posse.


    “Em 1974, visitei em Galileia o meu velho pai, já um tanto cansado, e minha mãe doente. Só alguns filhos estavam ali.” Os pais, como metáfora de uma terra que se possui, e que jamais poderá ser arrancada.