• A mulher sai da sombra no faroeste

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    Os últimos meses parecem ter transportado para o cinema, de um modo intenso e vigoroso como nunca antes, o debate feminista contemporâneo. Travada a partir de filmes que discutem criticamente o papel ativo da mulher no mundo atual, essa discussão reagenda de forma indelével a figura feminina dentro dos filmes. Sem dúvida, parte significativa desse assunto surgiu e se desenvolveu a partir do sucesso polêmico de Mad Max: Estrada da fúria (Mad Max: Fury road), de George Miller, um raro filme de ação que concentra ferozmente sua dramaticidade sobre uma personagem feminina (interpretada por Charlize Theron) forte e independente, a partir de um roteiro escrito com a consultoria de Eve Ensler, conhecida ativista pró-direitos das mulheres. O longa-metragem Dívida de honra (The homesman) realizou uma operação similar de maneira mais discreta, menos midiática, mas com uma importância simbólica maior. Afinal, o filme de Tommy Lee Jones (leia entrevista com ele nas páginas 8 a 11 desta edição) reinterpreta, à luz do feminismo contemporâneo, o mais masculino, misógino e (muitas vezes) machista gênero fílmico consagrado: o western.

     

    O enredo de Dívida de honra é emblemático, a começar pela protagonista feminina, uma brava fazendeira (Hilary Swank) – que o padre do vilarejo define como “mais homem que todos os homens da região”, por levar uma vida solitária e de trabalho árduo – que assume para si a inglória tarefa de viajar do Oeste para o Leste, levando três mulheres com distúrbios mentais, todas abandonadas pelos maridos, para receber tratamento médico. O trajeto percorrido pelo grupo inverte, e não apenas no sentido geográfico, a famosa viagem de carruagem filmada por John Ford em No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), o título que consolidou todos os arquétipos do gênero. É perfeitamente possível ler esse movimento como um retrato em negativo do grande clássico, parcialmente responsável por pintar o herói típico do Velho Oeste – o pistoleiro infalível, solitário, viril, mas, ao mesmo tempo, avesso ao sexo oposto – como um indivíduo que incorpora a misoginia com todas as cores.

     

    Nesse sentido, é possível retomar a tese lançada pela pesquisadora britânica Laura Mulvey em 1975. Em um famoso ensaio publicado na revista Screen, e considerado por muitos como o marco zero dos estudos feministas no cinema, Mulvey afirmou que os filmes – todos eles – constroem um olhar eminentemente masculino e ressaltam uma visão de mundo que objetifica o corpo feminino, sexualizando-o de uma maneira que não faz com o corpo do homem. Se aceitarmos essa premissa, devemos compreender também que o western detém grande parcela da responsabilidade por esse movimento de masculinização do olhar cinematográfico, pois o gênero mais norte-americano de todos (aquele que, afinal, lida com o mito primordial da construção do imaginário da nação) foi, do princípio do século 20 até meados dos anos 1970, responsável pela produção de nada menos que 30% de todos os longas-metragens produzidos no planeta, segundo o pesquisador inglês Edward Buscombe, autor da mais importante enciclopédia sobre o gênero já publicada. Uma estatística respeitável.

     
    Leia a matéria na íntegra na edição 175 da Revista Continente: AQUI.

  • As mulheres na literatura fantástica

    Lovis Corinth Lesendes Mädchen, 1888. Imagem: ReproduçãoLovis Corinth Lesendes Mädchen, 1888. Imagem: Reprodução

     

    Tendo como precursora no Brasil Emília Freitas, essa produção, que enfatiza a aventura e o mistério, é hoje realizada de forma independente pelas autoras

    Emília Freitasera uma escritora rebelde. Nasceu no Ceará, em 1855, e desde os 18 anos passou a publicar contos e poesias nos jornais locais. Ela é a autora deA rainha do ignoto, lançado em 1899, livro que permaneceu praticamente obscuro na história da literatura brasileira, sendo somente impressa uma segunda edição em 1980. Caracterizada pela própria como um “romance psicológico”, a obra de Emília Freitas é considerada a primeira de literatura fantástica do país. Logo nas primeiras páginas, apresenta seu livro quase como um desafio aos escritores brasileiros de sua época, a quem dedica o trabalho: “Ei-la delapidada como um diamante arrancado do seio da terra e oferecido por mão selvagem”.

    Ainda que outras obras mais antigas do queA rainha do ignotopossuam elementos do fantástico, tais comoNoite na taverna,de Álvares de Azevedo, é venerável a participação esquecida de Freitas para a construção desse gênero que, ultimamente, cresce em popularidade, especialmente nas redes sociais. No romance, a autora ultrapassa os limites impostos pela cultura sexista da sociedade do Império, desafiando o “papel-lugar” da mulher; em outras palavras, o enredo poderia se encaixar perfeitamente numa história produzida nos tempos atuais. Em seu “clássico escondido”, a rainha é um ser mágico, carregado de doçura e mistério, que viaja pelo Brasil “salvando” mulheres de suas realidades sufocantes e opressoras. A Ilha do Nevoeiro, por fim, é o local onde uma sociedade secreta é formada por essas mulheres resgatadas, que desenvolvem atividades atípicas para seu sexo na época: são advogadas, médicas, engenheiras, donas de si. Portanto, ao contemplar esse livro específico de Emília Freitas, a representatividade da mulher no campo da literatura é um tema de indubitável importância.

    No Brasil, escritores do fantástico já se consagraram no meio, a exemplo de André Vianco, autor de inúmeros livros bem-sucedidos comercialmente; Eduardo Spohr, deA batalha do apocalipse(Versus Editora, 2010), traduzido em outros idiomas; e Raphael Draccon, com sua trilogiaDragões de éter(LeYa, 2011). A própria Lygia Fagundes Telles, autora de clássicos com elementos do fantástico, comoSeminários dos ratos(1977), também já se consagrou. Entretanto, ao olharmos para as estantes de literatura fantástica nacional, ainda parece existir um vácuo de nomes femininos.

    Ao questionarmos sobre representatividade, é necessário pensar numa idiossincrasia por parte de dois polos: mercado e autoras. Por exemplo, quando J.K. Rowling terminou seu rascunho deHarry Potter e a pedra filosofal, várias editoras disseram que as pessoas não leriam um livro de fantasia escrito por uma mulher. Eis o motivo da abreviação de seus nomes Joanne Kathleen (este sendo o nome do meio) ao seu sobrenome.

    No Brasil, o mercado literário é muito fechado para autores nacionais. Mas sinto que muitas coisas estão mudando, o que é gratificante”, explica Bianca Carvalho, daTrilogia das cartas, lançada de forma independente. Sua estreia foi com o primeiro volume da saga,Jardim de escuridão, durante aBienal do Livro Rio, em 2011. Na edição seguinte do evento, vendeu 600 exemplares do segundo volume,Versos sombrios. “Eu acho que elas estão chegando. De mansinho, mas vão aparecendo. Há muito preconceito ainda, principalmente vindo do público masculino, que, mesmo sabendo que existe uma J. K. Rowling (e muitas outras), ainda torcem um pouco o nariz. Temos muitas coisas publicadas de forma independente, porque algumas editoras fecham as portas. O que falta no mercado brasileiro é mais ousadia”, acrescenta Bianca, em entrevista àContinente.

    Carolina Vasconcelos, estudante de Psicologia na Faculdade de Saúde de Pernambuco (FPS), define-se como uma leitora ávida de literatura fantástica, mesmo assim, não lembra ter lido autores nem autoras nacionais. Ela diz que começou a admirar esse gênero na infância, pelos contos de fada. “O melhor é que não tem nenhum ou quase nenhum toque de realidade. Quando você é uma criança e sua realidade não é segura, ou não faz com que você se sinta segura, uma coisa completamente fora dela te ajuda muito”, categoriza a estudante.

    Olhando em retrospecto ao contexto histórico da literatura fantástica no Brasil, vimos que, por muitos séculos, esse gênero era subestimado pelos críticos: é o que aponta a professora doutora Maria Cristina Batalha em entrevista para a revistaDesassossego, da USP. A pesquisadora é especialista em literatura fantástica no país, estudando também o Romantismo e Ultrarromantismo. Em entrevista concedida por e-mail àContinente, afirma que – nos dias atuais – o papel da mulher nesse nicho literário vem aumentando, uma vez que “uma retomada do gênero de um modo geral e a sequência de filmes, quadrinhos, livros, no Brasil e no mundo, trouxeram de volta o fantástico e suas variantes (gótico, horror, maravilhoso, fantástico, ficção científica etc.)”.

    Essa manifestação literária, embora com presença relativamente forte no Romantismo, era tida como ‘não séria’, vinculada à literatura de baixa qualidade ou àquela que era dirigida às mulheres, por gostarem de histórias escabrosas. Por conta disso, era sistematicamente excluída dos espaços de alto valor simbólico, como livros, antologias, currículos escolares”, acrescenta Batalha.

    Leia matéria na íntegra na versão impressa da Continente de maio 2017 (n. 197)

  • Coletivo feminista faz campanha para intervenções urbanas

     

    Foto: DivulgaçãoFoto: Divulgação

     

    Cantadas de rua, assédio no transporte coletivo, abordagens no trabalho, tratamento mais agressivo de flanelinhas de carro ou de vendedores em semáforos, assédio de taxistas, todos essas situações desagradáveis são enfrentadas diariamente por diversas mulheres ao circularem pela cidade. A importância de estratégias de enfrentamento para esses contextos fez com que o coletivo Deixa Ela em Paz, formado por mulheres pernambucanas, criasse uma campanha para financiamento coletivo do projeto Circuito de Enfrentamento Urbano – CEU para Mulheres, que está no ar (acesse aqui) e tem o objetivo de realizar laboratórios gratuitos de intervenções urbanas para transformar a realidade das mulheres em suas vivências diárias.

     

    A ocupação da rua é uma das principais maneiras utilizadas pelo projeto como forma de lutar pela equidade de gênero. Garantir melhores condições de circulação, mais segurança, mais respeito e autonomia para as mulheres na cidade seriam  formas de transformar a realidade social, pois a rua “é também um espaço de atuação política e o planejamento urbano insensível à presença”, como defende o coletivo.

     

    Através de oficinas em várias regiões do país, a ideia é dialogar com as moradoras de cada uma das cidades e mapear suas respectivas necessidades. A partir disso, será elaborada, em conjunto, uma intervenção que aborde as questões mais sensíveis a elas. “Realizar ações de intervenção urbana proporciona, além do contato com outras mulheres e com as questões feministas, a dimensão simbólica da reapropriação do espaço urbano como algo que também é nosso por direito”, comenta Manuela Galindo, uma das fundadoras do projeto. É o discurso das mulheres trazido para o espaço público.

     

    Intervenção de Tainá TamashiroIntervenção de Tainá Tamashiro

     

    A partir de um financiamento coletivo com tempo de arrecadação pré-definido (10 dias) e com iniciativa do site de financiamento coletivo social da Benfeitoria, da ONG Think Olga e da ONU Mulheres, o Deixa Ela em Paz oferece aos que colaborarem com a campanha uma recompensa equivalente ao apoio que elas estão oferecendo ao projeto, tendo, entre as opções, produtos como camiseta com a frase homônima do grupo, canecas, ilustrações e até palestras, oficinas. O coletivo tem conseguido sensibilizar diversas mulheres importantes da cultura brasileira, como a atriz Sônia Braga e a cantora Karina Buhr, que ilustrou uma camisa vendida na campanha.

     

    Quem tiver interesse em contribuir, as doações podem ser feitas através do site de crowdfounding Benfeitoria - www.benfeitoria.com/deixaelaempaz -, por meio de diferentes valores (a partir de R$ 20). Além do nome nos agradecimentos do projeto por email, quem participa ganha um kit digital com textos-imagens, dicas e referências sobre o ativismo feminista. Nas demais recompensas, camiseta do projeto e camiseta com ilustração da cantora Karina Buhr, canecas, ilustração da artista Simone Mendes e muito mais.

  • Confira programação do festival

     

    O 14º Festival Literário do Recife: A Letra e A Voz está em cartaz e transforma a Av. Rio Branco, no Recife Antigo, em um imenso corredor cultural e de representatividade. O evento, este ano, homenageia as mulheres em cinco dias de divulgação e fomento da produção literária feminina, sobretudo pernambucana. As bibliotecas públicas de Afogados, Casa Amarela e Afrânio Godoy também receberão ações. A realização desta edição do evento é uma parceria da Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e Fundação de Cultura, com as secretarias da Mulher, de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos e de Turismo e Lazer.

     

    As mesas temáticas acontecerão na Avenida Rio Branco com temáticas sobre o espaço das mulheres na literatura, o mercado para as produções femininas e as influências nas criações artísticas das escritoras. Na quinta (25/8), o recital Pérolas negras, às 18h30, é destaque com textos e poemas de poetas negras. Na sexta (26/8), as jovens escritoras pernambucanas terão um momento dedicado a elas.

     

    A feira de livros, tradicional em todas as edições, tem início às 8h do sábado (27/8) e conta com 25 expositores, que farão lançamentos de novas edições, sessão de autógrafos e recitais poéticos.

     

    Além da programação de debates, no Recife Antigo, de quarta a sexta, as bibliotecas de Casa Amarela e Afogados receberão oficinas, entre elas Literatura de cordel para crianças, com Mariane Bigio (PE), e a Floreando aquilo que me contaram, com Fabiana Coelho (PE); a Biblioteca Afrânio Godoy, no Alto Santa Terezinha, recebe, no sábado (27/8), a oficina O empoderamento feminino através do cordel, com a cordelista Susana Morais, e no domingo (28/8), a oficina Cordel para infância e juventude.

     

    MESA
    Sobre a programação nesta quarta (24/8), o destaque vai para a mesa Mulher, literatura e mercado, com Berenice Bento (RN), Micheliny Verunschky (PE/SP) e Renata Pimentel (PE). Na quinta (25/8), é a vez da Conversa com a poesia, com Socorro Nunes (PE), Clarissa de Figueirêdo (PE) e Mariana Tabosa (PE), sob a mediação de Pedro Américo de Farias (PE), e, em seguida, Silvana Menezes (PE), Carol Bensimon (RS) e Mariane Bigio (PE) discutem De quem é a escrita? Da mulher, do homem, ou da gente?

     

     Renata Pimentel compõe a mesa "Mulher, literatura e mercado"Renata Pimentel compõe a mesa "Mulher, literatura e mercado"

     

    Na sexta (26/8), a produção das jovens escritoras pernambucanas Bárbara Nunes, Luna Vitrolira e Isabelly Moreira será apresentada na mesa Literatura da hora, com mediação de Renata Santana (PE). As convidadas Ivana Arruda Leite (SP), Vitória Lima (PB) e Cida Pedrosa (PE) serão provocadas por Inácio França (PE) a contar suas inquietudes durante o processo criativo, na mesa Que literatura te (tu) consome(s)?

     

    No sábado (27/8), a programação traz o recital Eu, poeta!, com as escritoras Luana Maysa Reis de Souza (PE) e Ana Carla Lemos (PE) e, por fim, o grupo As Severinas traz um pedaço da poesia do sertão do estado. Domingo (28/8) tem a contação de histórias para as crianças com a Companhia "Agora eu era" (PE).

     

    Serviço:
    14º Festival Literário do Recife: A Letra e a Voz
    De quarta (24/8) a domingo (28/8), com programação na Av. Rio Branco (Recife Antigo) e nas bibliotecas públicas de Afogados, Casa Amarela e Afrânio Godoy, no Alto Santa Terezinha.  Os horários são na quarta (24/8) e na quinta (25/8), das 17h às 21h; sexta (26/8), das 14h às 21h, e sábado (27/8) e domingo (28/8), das 9h às 21h.


    Inscrições para participar das oficinas pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

     

    Confira a programação completa no link http://goo.gl/4S6z5t

  • Três olhares sobre a violência contra a mulher

    "O delírio é a redenção dos aflitos". Fotos: Divulgação"O delírio é a redenção dos aflitos". Fotos: Divulgação

     

    Três filmes que, de maneiras completamente distintas, dialogam de alguma forma com a violência contra a mulher. A primeira sessão da Mostra Competitiva na noite do sábado (24/9), no Festival de Brasília, foi possivelmente aquela com maior unidade temática entre os pacotes de curtas e longas exibidos durante o evento. E a diversidade com que esse mesmo assunto é atravessado pelas três produções em questão diz muito sobre como o cinema vem se aproximando de algo que é tão forte quanto complexo (e cuja relação com o próprio cinema é historicamente guiada por um olhar igualmente violento sobre a mulher).

    No primeiro curta, O delírio é a redenção dos aflitos, do pernambucano Fellipe Fernandes, estreando como diretor, há uma proposta estética que beira o realismo mágico para dar conta do pesadelo cotidiano que é ser periférica, trabalhadora, mãe e, claro, mulher abandonada pelo companheiro que não a vê e muito menos a escuta. Sabemos já na primeira sequência que, no prédio-caixão onde ela mora, todos os moradores estão sendo despejados e sendo levados para outros lugares. Raquel (Nash Laila, em mais uma interpretação potente) é a última residente daquele edifício fantasma.

    Qualquer semelhança com Aquarius é mera coincidência, dadas as situações diversas em que os roteiros foram escritos, mas não deixa de ser rico colocar os dois filmes em diálogo para ver como, para uma mulher periférica, resistir em um edifício abandonado nunca será uma opção. O filme acompanha essa personagem em seu cansaço, sua dormência diante das luzes de Natal no atacadão onde trabalha, a anestesia do mundo tão bem sonorizada por uma voz de Simone lá no fundo que canta “o ano termina e começa outra vez” ou mesmo pela boneca da filha que, incansavelmente, repete: “let it go, let it go”. Com senso de humor e muito do delírio já descrito no título, o filme traz uma solução poética e relativamente simples para que, enfim, se ache alguma redenção possível, redenção esta que surge apenas da ação da mulher.


    "Estado itinerante""Estado itinerante"

    Caminho semelhante toma o segundo filme da noite, Estado itinerante, de Ana Carolina Soares, produção de Minas Gerais. Grande destaque da noite, o filme constrói, com sutileza, completo domínio de câmera, montagem e uma atuação extraordinária da atriz protagonista, uma história sobre uma cobradora de ônibus e sua própria saga de redenção. Viviana fala pouco, fuma muito e olha constantemente pra baixo. Nunca vemos os homens que, de alguma forma, se relacionam com ela, mas sabemos exatamente como eles a violentam diariamente. Seja o motorista do ônibus que grita e a repreende, sejam os motoqueiros que passam na rua desfilando suas máquinas de “machos”, seja o marido que nunca aparece, mas que ganha corpo na segunda pele que Viviana usa por debaixo da farda da firma. A diretora, equipe e, particularmente, a atriz estreante Lira Ribas estão de parabéns por um dos curtas mais contundentes dos últimos anos (com um dos planos-sequência mais poderosos de 2016) no que diz respeito ao trato das mulheres que sofrem violência no Brasil.

    O terceiro filme da noite, também de Minas, Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr., traz como protagonista um homem que, se sugere mas nunca se define, mantinha uma relação violenta com sua mulher. Portanto, ao contrário do que acontece nos dois curtas que precederam sua exibição, o ponto de vista do longa que acompanhamos agora (e com frequência) é o masculino, de alguém que parece estar sempre muito carregado, não sabemos se por culpa, se por trauma, se pela própria natureza violenta que o move.

    A câmera o segue por corredores mal iluminados, onde o vemos de costas andando e tateando as paredes com as mãos (é um personagem cujo corpo solitário busca algum tipo de contato). Esses travellings por cenários kafkianos de ambientes maquínicos (a fábrica) e burocráticos (a delegacia, o prédio abandonado onde ele trabalha) nos coloca na posição de cúmplices do estado de torpor e contido nervosismo do protagonista. O primeiro plano do rosto sempre tensionado do ator Rômulo Braga (um caso exemplar daquilo que Gilles Deleuze viria chamar de "imagem-afecção") é a potência de medo que o filme carrega. Existe, para além desses travellings e das imagens fotograficamente frias, um muito bem-realizado trabalho de som do filme que, igualmente, nos leva a compartilhar subjetivamente desse ambiente que exala uma silenciosa violência.

    "Elon não acredita na morte""Elon não acredita na morte"


    Mas... O fato é que, ao contrário do que acontecia em Tremor, curta-metragem anterior de Ricardo Alves Jr., em que esse mesmo personagem do Elon busca por sua mulher enquanto a câmera o busca por trás, no longa em que o protagonista ganha novas camadas de significação e outras personagens surgem em cena, a figura da mulher (das mulheres, na verdade) está visualmente presente. E sua representação é problemática. Madalena (Clara Choveaux), a mulher desaparecida, aparece em determinado momento. E ela é lida como a mulher louca, cujo corpo já surge erotizado. Sim, é olhar do personagem que estamos vendo, e o personagem é evidentemente um homem de olhar violento (“você tem um jeito muito estranho de amar, sufoca”, é mais ou menos isso que diz a irmã de Madalena para ele), mas é preciso questionar até que ponto o cinema pode pôr na conta da ficção essa representação sempre tão naturalizada de que as mulheres servem mais dramaticamente à trama quando elas são as mulheres transtornadas e nuas de sempre. Narrativamente falando, é um filme muito poderoso, com completo domínio da tensão que carrega, mas dentro de um debate maior sobre como esses personagens masculinos, mesmo no papel eles mesmos de homens loucos e paranoicos, são postos a serviço de uma violência que acontece também na ação do olhar, há de se questionar essa recorrência de soluções narrativas.

  • Um outro olhar sobre o "impeachment"

    [leia abaixo na íntegra matéria publicada na edição deste mês da revista Continente]

     

    Sessão de impeachment de Dilma. Foto: Marcelo Camargo/Agência BrasilSessão de impeachment de Dilma. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

     

    Cineastas brasileiras acompanham o processo de deposição de Dilma Rousseff e produzem obras para refletir sobre o atual cenário político do país

     

    Na manhã da segunda-feira, 29 de agosto de 2016, enquanto a então primeira mulher eleita para a presidência do Brasil apresentava sua defesa ante a denúncia de que havia cometido o crime das pedaladas fiscais em 2015, havia dezenas, centenas até, de câmeras no plenário do Senado, em Brasília. A maioria delas apontava para uma senhora de 68 anos, eleita em 2010 e reeleita quatro anos depois com mais de 54 milhões de votos; eram cinegrafistas de emissoras de televisão, ávidos para registrar os cerca de 45 minutos do seu discurso. Havia, contudo, outras lentes que miravam a plateia, composta na sua maioria pelos homens engravatados que, assim como Dilma, haviam sido eleitos pelo voto direto em 2014. Por trás das câmeras, mulheres cineastas e o intuito de documentar o controverso rito de impeachment de Dilma Rousseff.


    Dois dias depois, quando 61 senadores votaram pela destituição da presidenta, chegava ao fim a trajetória dela como sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. Assumia o vice-presidente Michel Temer, desde maio governando na interinidade, e o Brasil entrava em uma nova fase de um conturbado processo sociopolítico. As diretoras Anna Muylaert (Que horas ela volta?), Petra Costa (Elena; O olmo e a gaivota) e Maria Augusta Ramos (Justiça; Seca) também retrataram a sessão que determinou a perda do mandato de Dilma. A presença delas nas semanas que antecederam a cassação incomodou tanto os parlamentares, que Petra Costa e Maria Augusta Ramos chegaram a divulgar uma nota conjunta em que chancelavam o caráter independente de suas realizações: “Nossas produções não estão a serviço de partido algum”.


    Impeachment, o documentário de Petra, foi o único projeto não europeu selecionado para o Venice Production Bridge, o programa de fomento do Festival de Veneza. Da Europa, contatada pela Continente, a cineasta prefere silenciar sobre o documentário: “Nesse momento, estou elaborando a experiência. Acabei dando algumas entrevistas contra a minha vontade, por conta da pressão que tivemos no meio do Congresso, mas agora prefiro realmente mergulhar no filme antes de me pronunciar sobre ele”. Anna Muylaert também opta por não comentar, por ora. Sabe-se que ela acompanhou a rotina de Dilma no Palácio da Alvorada a convite da cineasta Lô Politi, da Maria Bonita Filmes; Lô dirige, Anna produz. “O filme não é sobre a situação política; é um filme humano, dentro do palácio sobre esses 180 dias de suspensão”, comentou Anna, em entrevistas feitas para o lançamento do seu longa Mãe só há uma, em julho.


    Já Maria Augusta Ramos tomou a decisão movida por “uma angústia pessoal e pelo desejo de retratar um momento traumático”; começou a filmar 10 dias após a sessão da Câmara dos Deputados, quando a maior parte dos deputados evocou família, religião e diversos motivos estapafúrdios para justificar seu “sim” ou “não”. “Senti a necessidade de retratar e refletir sobre esse processo histórico. Como documentarista, quero desconstruir as narrativas que, para mim, não conseguem dar conta de toda a complexidade do momento”, afirma a cineasta, nascida em Brasília, formada na Holanda e radicada no Rio.


    Em Justiça, de 2004, ela começou a radiografar os meandros do poder judiciário no Brasil. De uma certa forma, seus filmes subsequentes, Juízo (2007) e Morros dos Prazeres (2013), também observam experiências kafkanianas vividas nesse âmbito. Em Futuro junho, cuja narrativa passeia das “jornadas de junho” de 2013 aos jogos da Copa do Mundo de 2014, Maria Augusta buscou apreender a miríade de tensões desse biênio crucial. Um analista financeiro, um metalúrgico, um motoboy e um metroviário paulistanos seguem suas rotinas distintas enquanto o país se dirige a uma convulsão política. Seria Futuro junho uma espécie de prenúncio da crise institucional que culminou no polêmico impeachment? “Penso que essa percepção está correta. Tudo que aconteceu em 2016 é consequência daquelas tensões de 2013 e 2014“, responde à Continente.


    Maria Augusta Ramos está em fase de decantação do seu projeto, cujo título ainda não se descortinou. Ela tem centenas de horas gravadas (“dos meus sete longas, foi de longe o que mais filmei”), entre sessões no Congresso Nacional, atos de Dilma ainda como presidenta nos palácios do Planalto e do Alvorada e mobilizações pró e contra o impeachment ocorridas na capital federal, para onde se mudou para a casa dos pais por alguns meses. “O foco do meu documentário é o processo jurídico-midiático do impeachment. Não é um filme sobre a presidenta e não é partidário, pois não foi feito em função de partido algum. Faço questão de ressaltar isso. Quem conhece meu trabalho sabe como construo meus documentários. Vai ser, portanto, um filme de 1h30 ou 2h com a minha visão de documentarista sobre esse processo complexo”, situa a diretora.


    Indagada sobre eventuais comparações com Entreatos, o documentário de João Moreira Salles que registrou Lula entre o primeiro e o segundo turnos da eleição de 2002, ela remete à sua filmografia: “Meus filmes têm um interesse no social e em como o funcionamento das instituições afeta o cidadão. Entreatos é um ótimo filme, mas vejo nos meus próprios trabalhos uma chave para esse documentário que estou fazendo. Assim, será uma contranarrativa, pois nunca seria um ‘discurso oficial’”.

    CONTRANARRATIVAS
    É nessa chave de “produção de contranarrativas” para combater a “tendência ao apagamento da memória” que operam as realizadoras Adriana Komives e Mariana Otero – a primeira é uma montadora brasileira radicada na França, a segunda é uma documentarista parisiense. Ambas são instrutoras dos Ateliers Varan, oficinas que, desde 1981, já percorreram mais de 30 países com o intuito de democratizar a produção audiovisual. Criado a partir de uma experiência que o documentarista francês Jean Rouch (1917-2004) teve em Moçambique, o Varan incute no aluno não apenas a importância do “aprender fazendo”, mas sobretudo a compreensão de que a produção de imagens é um ato político. Por coincidência, a temporada brasileira de 2016 transcorreu em concomitância ao processo de impeachment, dando às professoras a chance de acompanhá-lo.

    Não foi a primeira vez que a presença dos Ateliers Varan coincidiu com marcos de transformações políticas. Guerra no Afeganistão, censura na produção imagética no Vietnã, apartheid na África do Sul, mobilização social na Bolívia e na Colômbia, reconstrução da identidade nacional na Sérvia – todos esses processos foram acompanhados pela instituição e, de várias maneiras, transbordaram nos filmes produzidos a partir das sete semanas de oficinas. “O cinema é essencial para a preservação da memória de um país. O Brasil tem uma tendência a apagar sua história. Se essa mesma história não for registrada, como analisá-la depois? As imagens são essenciais. Dizer não ao golpe é poder se manifestar contra ele a partir, também, de produção de imagens e significados”, pontua Adriana Komives.

    Entre abril e junho deste ano, Mariana Otero registrou as manifestações populares na Place de la Republique, em Paris, contra a Lei El-Khomry. Sancionada pelo presidente François Hollande, a legislação prevê alterações nas configurações trabalhistas, o que gerou diversos protestos (em um contexto parecido com o que se passou no Brasil, após o presidente Michel Temer anunciar mudanças similares).

    “Em várias cidades francesas, os cidadãos começaram a se reunir e passar a madrugada inteira na praça discutindo caminhos para construir uma alternativa a essa lei. Eles buscavam, também, uma nova forma de se fazer política. Não é uma democracia, se você não se sente representado, não é? O que vi no Brasil é extremamente parecido com o que tem acontecido na França: tudo que se conta na televisão é falso, narrado para levar as pessoas a acreditar na versão do governo. É preciso estar nas ruas para produzir essas contranarrativas, que serão essenciais para podermos ter um olhar mais crítico e honesto para toda essa ebulição do presente”, ratifica a cineasta.

    Para a diretora pernambucana Déa Ferraz, a possibilidade de existirem três filmes sobre o impeachment de Dilma Rousseff, e todos com direção de cineastas mulheres, é um alento no que descreve como “tempos sombrios”. “Os aspectos machistas e misóginos do golpe foram escancarados. Historicamente, o lugar que a presidenta ocupava não era o das mulheres – um espaço de poder e progresso pertence sempre aos homens. Para aqueles homens brancos e engravatados, como os senadores, era difícil ver uma mulher em posição de poder. O cinema é necessário para criar uma gaveta de histórias sobre a contemporaneidade e assim buscar entender o que estamos vivendo”, pondera a cineasta.

    Em setembro, ela exibiu Câmara de espelhos no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – em que diversas equipes subiram ao palco envergando camisas com os dizeres de “Cinema contra o golpe” e “Viver sem temer”. Sua obra é um documentário sobre a representação feminina em um mundo no qual o machismo é naturalizado. Déa Ferraz enxerga paralelos entre os comentários dos seus personagens sobre as mulheres e “tudo que saiu sobre Dilma”: “A cultura patriarcal está arraigada. Não tem como o cinema se descolar disso. Acho maravilhoso que essas cineastas tenham filmado o impeachment porque vejo aí a chance de complexificar questões como a misoginia na política brasileira”. 

    Não há previsão de lançamento para os projetos de Petra Costa e Anna Muylaert; Maria Augusta Ramos, por sua vez, não quer correr com a montagem. “Estou tomando uma distância do material e imagino que ficarei seis meses em edição. Não é um filme que pode ser feito às pressas; vou rever e repensar tudo que filmei com o maior cuidado possível”, garante. Se o estado de ruptura permitir as eleições presidenciais programadas para 2018, seu documentário tende a ser um ótimo instrumento de discussão.