• Carol Bensimon: uma estranha na cidade

     Foto: Fabrício SviroskiFoto: Fabrício Sviroski

    Dos problemas da memória: lembro bem do cenário, quinta-feira calma no Praia do Pina, guarda-sol azul (“como vários outros”, me escreveu por Whatsapp), a única moça de camiseta no entorno lia um livro em inglês de não ficção, escrito por Edward Abbey, mas agora esqueci o título. Chego, nos cumprimentamos com um beijo no rosto (gaúchos e pernambucanos divergem sobre quantos beijos – abraço conta? – são necessários para saudar quem se aproxima) e pedimos água de coco. Fico sabendo que no dia anterior fazia nove graus em Porto Alegre, a cidade natal de Carol Bensimon, autora de Pó de parede (2008, Não Editora), Sinuca embaixo d´água (2009, Companhia das Letras), Todos nós adorávamos caubóis (2013, Companhia das Letras) e Uma estranha na cidade (2016, Dublinense), além de cronista e tradutora. “Aquele prédio do filme Aquarius fica aqui perto?”, me questiona olhando em volta. Respondo afirmativamente, e ela pede as coordenadas, ao fim da conversa pretende ir lá ver o Edifício Oceania. Ainda não assistiu ao longa de Kleber Mendonça Filho, cuja estreia ocorrerá em 1º de setembro.

     

    Aqui, a lógica de perguntas e respostas bem-definidas, de entrevistado-entrevistador, não faz tanto sentido assim. Antes que ligue o gravador e inicie formalmente a entrevista, ela quer saber do Bairro de Boa Viagem, de sua arquitetura, dos carros, das árvores, dos espigões que margeiam a orla – “E o Edifício Caiçara, foi mesmo demolido?” –; se sempre fora assim, com tantas construções semelhantes e espelhadas, dos espaços coletivos e verdes, do Parque Dona Lindu. O interesse dela pelas questões urbanísticas é evidente não só pelo teor da conversa, e pode ser ratificado pelo seu mais recente lançamento editorial – Uma estranha na cidade, que reúne 35 crônicas, escritas sobretudo para o jornal Zero Hora e o Blog da Companhia das Letras. “Eu não me senti exatamente nova no gênero, porque já é alguma coisa que faço há alguns anos, concomitante à ficção”, explica.


    Se o também escritor Luís Henrique Pellanda, natural de Curitiba, afirmou recentemente considerar o cronista como investigador de sua cidade, Carol Bensimon se diz totalmente de acordo com ele. Tal situação surgiu de “de maneira pessoal”. Ela conta que morou dois anos em Paris e, quando retornou ao Brasil, voltou com “o olhar mais aguçado em relação à cidade, e comecei a ler bastante coisa sobre o assunto”. Por ocasião do aniversário de Porto Alegre, Carol escreveu um texto no ZH apontando uma série de problemas da urbe. “Aquilo teve uma recepção grande, muita gente leu, vários eram arquitetos, ecologistas, ali começava talvez uma preocupação maior com a localidade, as pessoas, a ocupação do espaço público. Elas se sentiram representadas, e eu meio que continuei escrevendo sobre o assunto.”

     

    ESTRANGEIRA
    Pergunto se com o retorno ao Brasil a sensação de ser estrangeira permaneceu, e Carol confirma. “Acho que eu me sinto estrangeira em qualquer lugar, sim. Por exemplo, agora, no Recife, me sinto totalmente assim, porque é muito diferente de Porto Alegre. Mas, mesmo lá, eu estou de algum modo fora do lugar. Quer dizer, a gente vive numa bolha cultural e de muitos privilégios. Então, é difícil não se sentir um pouco deslocada.” Escrever seria um modo de lidar com o deslocamento? “Talvez sim, no sentido de encontrar esses semelhantes a mim, sabe? Não de se comunicar com todo mundo, porque é uma coisa muito difícil de fazer.” Se parece impossível chegar a todos, uma das premissas de Carol Bensimon é discutir tudo, ou melhor, sempre lembrar de que, como escritora, todos os assuntos estão aí para serem (ou não) abordados em seus textos.

     

    FEMINISMO
    Carol veio esta semana ao Recife a convite da curadoria do festival A Letra e a Voz, que, este ano tem a programação toda voltada para o fomento e a divulgação da produção literária das mulheres. Termos como “literatura feminina”, porém, são vistos com receio pela escritora gaúcha. “Depende do que esses conceitos signifiquem. Eu não concordo quando esse rótulo de literatura feminina quer se referir a um jeito de escrever, porque eu não acho que isso exista, me parece até meio preconceituoso ou redutor”, avalia. Não é que ela seja contra iniciativas que privilegiem a presença da mulher no cenário da literatura, o qual, aliás, reconhece ser ditado historicamente por homens. Projetos como o #LeiaMulheres são “superválidos”, em sua opinião. “Acho importante fazer esse movimento de ler mais mulheres, eu mesma faço enquanto leitora.”

     

    NOVO LIVRO
    O que a incomoda mesmo enquanto escritora é ter que discutir questões diretamente ligadas ao que quer que seja de modo direto, sejam relativas à condição feminina, sejam referentes a contextos políticos, até porque, acredita, “o engajamento faz mais sentido na não ficção”. “Quero ter a liberdade de falar sobre isso se eu quiser, mas se eu não quiser, não falo.” Agora, por exemplo, Carol está escrevendo um romance que se passa na Califórnia (ela está prestes a passar uma temporada de seis meses por lá para finalizar a obra), com um protagonista masculino e personagens brasileiros e norte-americanos. “Eu estou há bastante tempo nesse projeto. Cada livro é diferente, mas esse exigiu bastante pesquisa, tanto de leitura, de história dos Estados Unidos e cultivo de maconha, até botânica, muita coisa dos hippies… Já passei dois meses lá e agora vou fazer uma imersão no lugar, conhecendo pessoas, vendo coisas, paisagens.”

     

    Os escritos de Carol Bensimon, de ficção ou não, se configuram, assim, como textos que dialogam com o real, com o aqui e o agora, mas de modo transversal, sem levantar bandeiras de mais ou de menos, sem esconder-se em possíveis artimanhas da linguagem. O que a interessa, de fato, é “mostrar contradições”, sugerir, apostando, desse modo, na força de quem a lê. “Não quero mostrar preto e branco, sabe? É preciso deixar um espaço interpretativo ao leitor, ele não pode ser tão direcionado assim.”

  • Cinco vezes, o poeta

    Foto: Breno LaproviteraFoto: Breno Laprovitera

     

    Antes de ser um objeto cheio de utilidade intelectual, o livro é, primordialmente, um objeto de memória. Por meio dele, podemos nos “projetar no futuro ou no passado”, para citar Montez Magno em seu ensaio A inutilidade da arte. No prefácio de Não contem com o fim do livro, o jornalista francês Jean-Philippe de Tonnac observa que as bibliotecas, os livros, revelam de modo muito preciso o que resta quando tudo foi esquecido. O que representa um livro? É uma obra que o tempo não fez ou não pôde fazer desaparecer, é um objeto de resistência, a resistência contra a morte e o esquecimento.


    Ao longo dos seus de 60 anos de carreira, o poeta, artista plástico, crítico e tradutor Montez Magno escreveu mais de 10 livros de poesia. O alcance desta parte de sua obra, porém, sempre foi um tanto limitado, já que todas as edições foram concebidas artesanalmente e com reduzidas tiragens. Além do mais, nos dizem os versos de Montez, “bons poetas/ sofrem de amnésia”. É, portanto, de muita relevância que agora tenhamos acesso à memória poética de parte de sua obra graças a Soma: poesia, iniciativa do pesquisador Itamar Morgado com apoio do Funcultura, que reúne cinco livros do autor – Estações visionárias, Dentro da caixa, cinza, Narkosis, Câmara escura e Enquanto respiro.


    Em Estações visionárias, com poemas escritos entre 1961 e 1989, temos um poeta em trânsito: Madri, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Olinda são os painéis geográficos que compõem e marcam seu discurso poético. No início na década de 1960, Montez recebe uma bolsa de estudos do Instituto de Cultura Hispânica de Madri e, lá na Espanha, realiza três exposições individuais. O fato marca a temática de sua obra literária de então e aflora a faceta de viajante do autor. Percorrendo e criando territórios físicos e sentimentais, a produção deste período já contém em si o caráter existencial cuja tônica perpassa a melancolia presente na maior parte de seus versos. Aqui, o poeta questiona-se acerca dos movimentos de partida e chegada inerentes a todos os indivíduos, afinal, “quem já não foi marinheiro um dia?”. Ele está às voltas, deste modo, com “círculos, etapas, órbitas, cansaços,/metas, pontos, bússolas e mapas”, pois, afirma o eu lírico, “a inexatidão da vida faz-me percorrer/ demandados caminhos tão frequentes”. São percursos que parecem servir a uma resolução que em nada pretende esclarecer ou apaziguar sentimentos conflitantes de permanecer ou partir: “Viajantes que somos precisamos de ausências:/ por conseguinte não viajemos”.


    É a partir de Dentro da caixa, cinza que temas caros ao autor — como o ceticismo, pessimismo e a reflexão acerca da finitude da vida — vão sendo mais precisamente delineados. “Este não é um tempo de coisas bonitas, por isso a/ impossibilidade/ de se empregar o azul”. A que tempo refere-se Montez? O poeta nos dá algumas pistas em seu discurso de descontentamento, “porque não vejo nada que me baste,/ tudo cheira a cansaço e violência”. E, embora haja o som, o silêncio e a palavra para tentarmos apreender o real e dotá-lo de sentido, “ninguém haverá de suprimir o antigo medo/ e a solidão biológica do homem no infinito/ espaço”. É o mal-estar, “este inferno constante e movediço”, que talvez flutue em sua produção, por vezes com forte carga dramática. Porém, existe uma preocupação de Montez em manter-se sóbrio na escrita e não fazer dos versos um trampolim para possíveis lamúrias que soem pessoais – para ele, o poema “tampouco é o depósito de lixo da alma atormentada/ onde o poeta deva jogar seus sentimentos/ travestidos de trapos”.


    A temática da morte é trabalhada sob dois pontos de vista, um mais adepto à filosofia oriental, isto é, “com total desprendimento”; e outro que inscreve a tristeza a partir da inevitabilidade do fim, uma vez que “não poderias jamais recuperar/ o tempo que passou e é perdido,/ os jovens momentos da vida dissipados”. Os poemas mais recentes de Montez, reunidos em Enquanto respiro, tratam sobretudo da consciência da velhice e dos seus desdobramentos, ou, mais precisamente, escreve ele, da “corrupção do corpo”. Já não é exatamente a morte o assunto central dos versos produzidos ao longo da década de 2000, mas a trajetória degradante do corpo até o momento derradeiro, a incômoda “fronteira entre a dor e o fim”. A sensação de descontentamento com o processo de ver-se falecendo é bastante evidente no seguinte trecho do poema Miniode funerária: “O que incomoda/ não é tanto o cimento/ à volta do corpo/ nem o caixão de pinho/ que os cupins roerão em cinco meses/ e sim a corrupção da carne/ o seu apodrecimento/ paulatino, lento”.

     

    (Leia matéria completa na edição 189 da Revista Continente)

  • Duas décadas sem o poeta da beat generation

    Allen Ginsberg. Foto: ReproduçãoAllen Ginsberg. Foto: Reprodução

    Junto com Jack Kerouak e William S. Bourroughs, ele formou a “divina trindade da literatura beat”, que contribuiu para a abertura das mentes de jovens de todo o mundo


    Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, famintos, histéricos, nus, se arrastando pelas quebradas da cidade na alta madrugada em busca de algum trago brutal.” Estes são os versos iniciais de um dos poemas mais populares do século XX:Uivo, de Allen Ginsberg, poeta norte-americano cuja morte completa duas décadas neste abril.

    Ginsberg foi um dos grandes expoentes dabeat generation e da contracultura do século que passou. Seu livroHowl and other poems (1956) forma, junto comOn the road (1957), de Jack Kerouac, eNaked lunch (1959), de William S. Burroughs, a divina trindade da literaturabeat (à qual podemos também adicionar o discoThe times they are a-changin’, clássico de Bob Dylan de 1964), obras que influenciariam rebeliões poético-existenciais da juventude por todo o planeta nas décadas de 1950, 1960 e 1970, principalmente. Sendo um dos momentos mais extraordinários da arte no século XX, abeat generationmisturou, em seu grande drinque existencial, doses fortes do romantismo, do simbolismo, do surrealismo, de Whitman, de Rimbaud, da filosofia oriental, do jazz. Junto a esse repertório, injetou também na circulação sanguínea a experiência de expansão da mente através da fruição de drogas, a liberdade sexual, abrindo sendas luminosas para que a juventude rebelde e insatisfeita com os rumos do mundo capitalista propusesse novos modos de vida naqueles conturbados tempos de Guerra Fria. A contracultura era a floração bonita de uma arte explosiva e afetuosa, poética e política, momento mágico do horizonte utópico, quando a poesia se torna a vida.

    Integrante central do movimento e um dos maiores artistas do seu tempo, Ginsberg – poeta libertário, inquieto, experimental, cuja escrita, de alta voltagem, revolucionária no fundo e na forma, na qual o principal combustível era a vida – abriu lugares respiráveis no meio da imensa ruína que se tornou a civilização moderna. Suas preocupações políticas eram atentas e intensas – chegou a falar, numa entrevista de 1994, sobre os problemas da hipertecnologia que, já àquela época, estava consumindo o planeta e destruindo as possibilidades humanas.

    O poeta nasceu em Newark, Nova Jersey, em 3 de junho de 1926, e morreu no dia 5 de abril de 1997, em Manhattan, Nova York. Deixou uma das bibliografias mais poderosas do século XX, além do já citadoHowl and other poems (1956), publicou os essenciaisKaddish and other poems (1961),Reality sandwiches (1963),The fall of America – Poems of these states (1973), entre outros. Sob o influxo de Whitman, do jazz e da prosabop de Kerouac, criou, com seus poemas, um fulcro de resistência, acendendo novas possibilidades de escrita inventiva, através de um ritmo alucinado e caminhos sintáticos enviesados que abriam grandes portais de dizeres diretos, como palavras de fogo em cartazes numa imensa manifestação, demonstrando a sua inabalável ética. Uma poesia de todo antípoda da poesia departamental em que imperava o beletrismo e seu vasto vestuário moral, poemas moralizantes travestidos de “formalmente bem-resolvidos” com suas burocracias ruminantes, flertes baratos e flores de plástico.

    A poesia, portanto, era o espelho daquela sociedade de plástico que se construíra sob os pilotis doamerican way of life. É nesse contexto que a poesia de Ginsberg surge. E surge assumindo-se publicamente homossexual e simpatizante do comunismo – a clássica figura das bruxas que o senador Joseph McCarthy adorava caçar –, gerando, claro, grande escândalo, o que levará, inclusive, a tentativas de censura e processo contra ele. Ainda assim, valente, será uma poesia de resistência e experiência do início ao fim. Uma escrita que estremecerá os alicerces do já apodrecido sonho americano e todo seu infinito arsenal de hipocrisia e mentira.

    Causando incômodos tanto à direita quanto à esquerda, sua poética libertária proporá caminhos que não se conciliam com a ideia – já bem velha e falha, aliás – de uma sociedade tutelada por um Estado. Podemos pensar no ideário místico de Ginsberg como propostas de combate político. Através da poesia, cultivar a mentalidade mágica, daí para aquilo que o autor deUivo chamava de “Suprema Realidade”, através da qual se pode ver todo o Universo sobre os telhados das velhas fábricas abandonadas de subúrbios esquecidos pelo tempo, num imenso e portátil mirante cósmico. É a fusão do poeta e do xamã. Na busca de uma ancestralidade selvagem, orgiástica, libertária, que inaugure uma nova sociedade. Uma busca desesperada pelo ser natural, pela felicidade.

    Lido por gente como Bob Dylan, John Lennon, Patti Smith, Kurt Cobain, tornou-se um fenômeno editorial. Isso faria sua figura muito popular, colocando-o como um dos artistas-símbolo das resistências e revoltas da segunda metade do século XX. Jamais, porém, foi devidamente reconhecido pela academia, pois, como diziam, era obsceno. Não ganhou Pulitzer, nem Nobel. Sem problemas. Era da rua que sua mente captava a frequência da moçada e a devolvia, num diálogo enriquecedor e luminoso. A escritura visionária e a ação revolucionária caminharam juntas até o fim. O poema como gesto afetivo-político.

    Leia matéria na íntegra na edição 196 da Revista Continente #abril 2017

  • Fenelivro divulga programação

     Luzilá será homenageadaLuzilá será homenageada

     
    A Feira Nordestina do Livro (Fenelivro) deste ano vai ter “a mulher como centro da cena”, como afirma o jornalista Evaldo Costa, curador do evento. Em sua segunda edição, a feira, sob a temática “Literatura, um substantivo feminino”, vai homenagear duas pernambucanas: a poeta Celina de Holanda (1915-1990) e a escritora e pesquisadora Luzilá Gonçalves Ferreira. A Fenelivro acontece entre os dias 7 e 12 de outubro, no Centro de Convenções, Olinda. Com exceção do primeiro dia, no qual haverá abertura só para convidados, o evento é gratuito e aberto ao público.


    As duas homenageadas terão livros relançados na feira. Viagens gerais reúne todos os livros publicados por Celina de Holanda, incluindo os inéditos Afago e faca e Tarefas de Nigiam. Já “Muito além do corpo” será autografado por Luzilá na terça (11), às 19h30. A programação principal será exclusivamente composta por mulheres. Entre as 15 convidadas, destaque a poeta curitibana Alice Ruiz, que autografa seu livro Luminares e bate papo com o público no sábado (8), às 19h30. Stella Maris Rezende, Micheliny Verunschk, Paula Pimeira e Clara Averbuck são algumas das autoras convidadas.

     

    PROGRAMAÇÃO PRINCIPAL: LITERATURA – UM SUBSTANTIVO FEMININO


    SÁBADO, 8/10

    11h - Paula Pimenta autografa Fazendo meu filme em quadrinhos vol. 3 e bate papo com o público. Local: Palco principal.
    16h30 - Débora Ferraz autografa Enquanto Deus Não Está Olhando e bate papo com o público. Mediação: Tatiana Notaro. Local: Sala Celina Holanda.
    18h – Mesa-redonda sobre as homenageadas Luzilá Gonçalves Ferreira e Celina Holanda. Com Evaldo Costa e Lourival Holanda. Local: Sala Luzilá Gonçalves Ferreira.
    19h - Alice Ruiz autografa Luminares e bate papo com o público. Mediação: Marco Polo. Local: Sala Celina Holanda.
    20h – Mocinha de Passira. Apresentação de José Teles. Local: Palco principal. 


    DOMINGO, 09/10
    15h- Sonia Rodrigues autografa Fronteiras e bate papo com o público. Local: Sala Celina Holanda.
    16h30- Micheliny Verunschk autografa Aqui, no Coração do Inferno e conversa com o público. Local: Sala Luzilá Gonçalves Ferreira.
    18h- Leticia Wierzchowski autografa Navegue a Lágrima e conversa com o público. Local: Sala Celina Holanda.
    19h30- Debate Conversa; Blogs e feminismo. Com Clara Averbuck, Thais Campolina e Kel Campos. Local: Sala Luzilá Gonçalves Ferreira.


    SEGUNDA, 10/10
    18h- FML Pepper autografa Não Pare! e dialoga com o público. Mediação: Marília Paes. Local: Sala Celina Holanda.
    19h30 - Babi Dewet autografa Sonata em Punk Rock e bate papo com o público. Local: Sala Luzilá Gonçalves Ferreira.
    20h – Lançamento de Viagens Gerais, de Celina Holanda. Local: Estande da Cepe.


    TERÇA, 11/10
    18h - Ana Paula Maia autografa Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos e bate papo com o público. Local: Sala Celina Holanda.
    19h – Sessão de Autógrafos de Muito Além do Corpo, de Luzilá Gonçalves Ferreira. Local: Estande da Cepe. 
    19h30- Ana Maria Gonçalves autografa Um Defeito de Cor e bate papo com o público. Local: Sala Luzilá Gonçalves Ferreira.


    QUARTA, 12/10
    10h - Stella Maris Rezende ministra a oficina Letras Mágicas. Local: Sala de Oficinas.
    15h - Stella Maris Rezende autografa Missão Moleskine e o infantil A Fantasia da Família Distante e bate papo com o público. Local: Sala Celina Holanda.
    16h30 – Palestra A Experiência da Rede Brasileira de Escritoras (Rebra), com Joyce Cavalcanti. Local: Sala Luzilá Gonçalves Ferreira. 


    PROGRAMAÇÃO PARALELA
    Segunda (10)
    18h – Inez Cabral apresenta coletânea A Literatura Como Turismo e edição comemorativa de Morte e Vida Severina. Sala de Oficinas.
    19h – Debate e lançamento do livro Ivan Corrêa – Senhor de Lugares e Pessoas. Coleção Memória. Sala a definir.
    20h – Pocket show de Frei Damião e sessão de autógrafos. Palco principal.

    Terça (11)
    10h – Premiação da Secretaria de Educação. Palco principal
    20h – Maciel Melo autografa “A Poeira e A Estrada” e faz show. Palco principal

    Quarta (12) - Especial do Dia das Crianças
    11h – Banda Mini Rock. Palco principal
    14h às 19h – Maratona de Contação de Histórias. Cantinho da Trela


    PROGRAMAÇÃO DE OFICINAS
    Sábado (8)
    10h – Eu, Repórter: a elaboração da notícia pelo cidadão

    Segunda, 10
    10h - Oficina Cartonera – David Henrique
    14h – Oficina Narrativa Visual – Caminhos da Leitura. Com Luciano Pontes

    Terça, 11
    16h - Oficina de Criação Literária com Raimundo Carrero

    Quarta, 12
    16h - Oficina de Criação Literária com Raimundo Carrero

  • Floriano, um personagem controverso

    Ilustração: Jânio SantosIlustração: Jânio Santos


    Em
    O marechal de costas, José Luiz Passos cria ficção cujo protagonista é o segundo presidente do Brasil, Floriano Peixoto, em história que enlaça no enredo outros nordestinos e presidentes


    Figura das mais controversas dos primeiros anos da nossa República, seria difícil para qualquer historiador pensar em Floriano Peixoto como protagonista de um romance. Especialmente de um romance que mistura aspectos da História com a história íntima desse que, para muitos contemporâneos, foi considerado um ditador. E não um ditador como os ditadores modernos que, segundo alguns depoimentos eram, no trato pessoal, amáveis, sedutores, vivendo em ambientes luxuosos, cercados por artistas e belas mulheres. Mas um ditador prosaico, pai de numerosa família, que morava no subúrbio, vinha para o Itamaraty de bonde e não tinha nada na aparência física que o distinguisse. Ao contrário, a acreditar-se na descrição que fez dele Lima Barreto em Triste fim de Policarpo Quaresma, a aparência do Marechal de Ferro “era vulgar e desoladora”, “o bigode caído e o lábio inferior pendente”, “os traços flácidos e grosseiros”, “o olhar mortiço, redondo e pobre de expressões”. Finalmente, arremata o escritor: “tudo nele era gelatinoso, parecia não ter nervos”. 

    Na verdade, a descrição de Lima Barreto era a de quem não via o novo regime com bons olhos e, especialmente, aquele governante, que passaria à história como o consolidador da República, cognome que se devia justamente à dureza com que reprimiu os adversários. Mas o presidente, homem maduro, castigado pelas tantas doenças que trouxera da Guerra do Paraguai, era bem diverso do jovem que protagoniza as primeiras partes de O marechal de costas, romance de José Luiz Passos. Este é rapaz sadio, forte e de corpo trabalhado pelos exercícios e as lutas marciais; exímio esgrimista; excelente atirador; bom desenhista e de aparência relativamente agradável. Apesar de tipo físico característico do caboclo brasileiro e que lhe valera alguns apelidos, apesar da estatura mediana, a presença de Floriano sempre impôs certo respeito. 

    Respeito que impunha talvez pela placidez quase indiferente com que realizava seus feitos militares, sem alardes, pois tinha horror a qualquer exagero; talvez pelo seu jeito de homem desconfiado, de olhos sempre baixos, de pouca conversa, econômico no uso das palavras que usava apenas nos momentos certos. Talvez ainda pela coragem e pelo talento estratégico com que comandara suas tropas no Paraguai; talvez pela violência com que punia os preguiçosos e recalcitrantes. Talvez, ainda mesmo, já na presidência, pela forma implacável com que puniu os adversários, fossem eles de que estatura fossem ou pela soma de todos esses atributos que fizeram dele um líder tão popular e amado por uns, quanto detestado por outros. O personagem que emerge da narrativa ficcional de José Luiz Passos respeita as contradições da imagem pública com que ele passou à história e, a partir dela e dos recursos estéticos do escritor, apresenta um novo Floriano.

    O ROMANCE 
    A primeira imagem que se guarda da leitura do livro de José Luiz Passos tem um clima de cinema italiano da escola de Frederico Fellini. É a cena em que o rapaz aparece vestido de forma ridícula, numa fantasia que, pela descrição, faz lembrar as roupas com que as antigas gravuras italianas apresentavam o Pinóquio. É a figura melancólica de um moço de calças no joelho, com um chapéu alto na cabeça e uns sapatos de saltos de madeira que lhe dão um ar desengonçado, entrando em cena, trazido pela mão do preceptor. Era uma apresentação teatral que marcaria o final de seu curso na Escola Militar, e o preceptor de Floriano, ao qual ele se manteria ligado por toda a vida, fazia ali o papel de Napoleão Bonaparte. Ofuscado pelo jogo de sombra e luz do palco e intimidado pela plateia, o rapaz que se mostrara tão talentoso para as artes plásticas, a ponto de ter pintado o pano de boca e os cenários do palco, não consegue sequer balbuciar o texto que decorara. 

    A essa imagem que parece emergir de um sonho ou de um pesadelo se somam outras tantas situações que nos apresentam Floriano como um rapaz sonhador, silencioso e isolado, movido a fantasias eróticas. Um Floriano tão obcecado pelas partes íntimas femininas, que “desenhava em cadernetas diferentes tipos de vagina. Via no Corcovado e na Serra dos Órgãos formas e volumes de mulher. Até mesmo a boca em couro na bainha do sabre lhe lembrava a coisa”. Um Floriano que, na mocidade, “visitava semanalmente bordéis no Centro”, no Rio de Janeiro. Um Floriano que alimentava um desejo sensual pela prima-irmã que crescera ao lado dele, bem mais nova, e que ele desposaria depois que voltasse da Guerra do Paraguai. Guerra em que um Floriano, metido em orgias imaginárias, mistura as imagens da noiva Josina com a de Rosaura, a mulher uruguaia que se dava a toda a tropa na ausência do marido. 

    A construção desse Floriano fictício também se faz a partir de outros personagens que com ele se confundem ou se alternam na narrativa. O fascínio por Napoleão Bonaparte, cuja biografia lhe inspirava e cujo ideário lhe servia de modelo vinha do tempo da Escola Militar, se consolidara na leitura de obras sobre o imperador dos franceses e se afirmara também na identidade com o militar que Floriano queria ser e que procuraria imitar. Dessas leituras, constatara que o triunfo de Napoleão se deveu “menos às suas medidas tomadas durante os combates e mais a um grande talento para a organização das tropas e o perfeito arranjo da marchada”. Espirito técnico e frio que Floriano mimetizaria em suas ações militares e políticas. Na narrativa, trechos de falas, de estratégia de campanha e mesmo de concepções estéticas de Bonaparte se confundem com a fala do próprio protagonista. Difícil às vezes separar um do outro. Bem poderia ser do desconfiado e silencioso Floriano o trecho em que Napoleão diz que não pretendia escrever suas memórias pois não se inclinava às confissões como Rousseau, já que elas não dariam conta de explicar seu lugar no mundo: “os eventos causados pelas minhas ações, sim. Ao atuar, altero meu povo, modifico-lhe a história, porque a gênese do passado está no presente, não o contrário”. 

    Dizem que Floriano também admirava Solano Lopez e que, diante da bravura e do destemor do paraguaio, teria dito: “de um homem desses é que o Brasil precisa”. O general implacável que executava os desertores era também um estrategista. A informação de que o ataque ao Brasil fora preparado minuciosamente por Lopez com dois anos de antecedência contribuiu certamente para infundir em Floriano ainda mais respeito pelo inimigo.

    Também Dom Pedro II, figura que na historiografia é quase o oposto de Floriano, comparece aqui com elementos inspiradores. No imperador, é a simplicidade que lhe chama a atenção: “a longa casaca de fazenda inglesa, de um negro aceso e denso que reluz no sol da tardinha” e sobre a qual não brilha nenhuma insígnia, nenhuma joia. Floriano nunca se preocupou com a própria aparência e se vestia com modéstia, até mesmo com desleixo. Talvez também o aproximasse do Imperador a infância de meninos mal-amados, criados sem mãe. Circunstância que jogou seu papel no destino desses dois brasileiros que governaram o país. Se Floriano foi um dos que derrubaram o imperador do trono, sentiu profundamente o impacto da morte desse homem que vira em Uruguaiana, saudando as tropas brasileiras.

    PODER E LUGAR DA FALA 
    Uma narrativa corre paralela à vida romanceada de Floriano. Ela transcorre nos nossos dias e tem como protagonista uma cozinheira, nascida na mesma cidade onde nascera Floriano, Ipioca, em Alagoas. Como tantos migrantes, acabou como empregada doméstica em um lar burguês do Bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Personagem que mistura, em sua composição, elementos típicos da trajetória de muitas mulheres nordestinas, distingue-se, no entanto, por certa sofisticação de gosto e de conhecimentos que, se não a credenciaram para ofícios mais nobres, fazem com que mereça certo respeito e consideração por parte do patrão benevolente e de seus convidados.

    O momento é junho de 2013, e essa virada temporal da narrativa faz com que movimentos acontecidos no final do século XIX, de certa forma, dialoguem com as circunstâncias do Brasil contemporâneo. Brasil governado por uma mulher, Dilma Rousseff, cujos pequenos deslizes ou declarações infelizes em discursos espontâneos seriam francamente explorados pela grande imprensa, ocupada em desconstruir a imagem da presidenta. Neste romance, Dilma, que, três anos depois seria deposta, fala de forma clara e honesta, em textos claros e límpidos, cheios de humanismo. Discursos que, pronunciados em meio à grande agitação que marcou o ano de 2013, ninguém quis ouvir. Ninguém prestou atenção. 

    É interessante pensar como esses três governantes que José Luiz Passos reuniu de forma bastante feliz em seu romance tiveram na fala – ou ausência dela – um elemento fundamental em sua trajetória política. Se a voz fina de Dom Pedro II não é muito comentada pelos contemporâneos, deve ter sido um elemento inibidor em suas manifestações públicas. A fracassada estreia de Floriano no palco foi um indicador de que não estaria na palavra seu elemento de força. Dilma, reduzida ao silêncio pelos ataques que suas falas mereciam, tanto da imprensa quanto dos que batiam panelas para abafar o som de sua voz na TV, perdeu força e espaço político. Mas o silêncio de Floriano, associado a uma personalidade complexa que as páginas deste romance se propõem a decifrar, foi um elemento a mais a compor o enigmático marechal.

  • García Lorca: esta morte não foi política

     

    No século XX, nenhuma das figuras exponenciais da cultura (e foram muitas) teve a vida ligada a fatos extremos da luta política tão tragicamente quanto Federico García Lorca, o grande poeta espanhol assassinado no dia 19 de agosto de 1936, num recanto à margem da estrada Víznar-Alfaca, na sua província natal.

     

    Lorca era andaluz, e foi fuzilado dois dias depois de preso por uma milícia fascista, na Granada da Alhambra encarapitada nos morros da cidade e, até hoje, a memória de Federico segue preenchendo a história granadina e contribui para fazer de Andaluzia um dos destinos turísticos mais carismáticos da Europa.

     

    De certo modo, Granada se tornou duas legendas: Alhambra & Lorca – uma no seu esplendor arquitetônico e outro nos seus cantares “gitanos” e, por fim, no pranto de condenado à morte quase podendo ser ouvido pelos amigos e pela família detentora de boas propriedades de gente abastada, na cidade e no campo.

     

    Quando alguém as visita, é impossível não se perguntar como foi possível o fuzilamento sumário, a agressão covarde e fatal contra o membro mais destacado – intelectualmente – daquela linhagem andaluza enraizada num lugar em que todos se conheciam. É claro, de imediato tudo foi atribuído ao descontrole do fascismo, nas três etapas: a da intenção de prender, a da decisão de nem “julgar” e a da ordem, por fim, de executar sem mais delongas. Quem foi o responsável? E por quê?

     

    Essa pergunta esteve posta desde que começou a circular largamente a notícia da morte do homem que, segundo relatos da época, chorou na madrugada, diante do inacreditável fato de que iriam realmente fuzilá-lo de face para aquela manhã clara da Andaluzia que ele, filho da região, havia cantado em versos imortais.

     

    Existiriam “motivos” políticos para a ousadia de matar um poeta já muito conhecido, um jovem com um vasto círculo de amizades na Espanha e também no exterior? Sabemos que fascistas são temerários (a palavra é essa), mas sempre houve algo de estranho nesse crime, além de obscuridades diversas, telefonemas vários, discussões, ordens e contraordens… e até uma arma apontada para a autoridade militar de Granada – por um fascista da Falange! – em defesa veemente do preso.

     

    É necessário, na verdade, recontar um pouco da tragédia, desde antes daquela manhã fatídica e, para isso, devemos ver Federico, ainda em Madri, sendo desaconselhado à ideia de seguir “para casa”, justamente para fugir dos perigos da capital, naquele primeiro ano da Guerra Civil. Os amigos tentaram fazê-lo desistir da viagem e permanecer entre eles. Alegavam que, na pequena Granada, ele estaria muito “mais exposto” do que na grande cidade, porém o poeta retrucou que lá, na sua Andaluzia, todos o conheciam e sabiam das suas origens. Ninguém conseguiu demovê-lo do intuito de assim se proteger e, dias depois, o poeta viajaria para Granada – e para a morte.

     

    ÓDIOS ENTRE MUROS
    Os amigos de Lorca tinham razão. O poeta encontraria, na Granada antigamente “mágica”, os eflúvios de ódios desatados à direita e à esquerda, no estreito ambiente limitado pelos muros seculares. Sim, ele era conhecido, para bem e para mal, como poeta e jovem boêmio de vida mais ou menos dissipada (e gostariam de dizer, claramente, a palavra derrisória para homossexuais: “vida de maricón”)…

     

    A cidade estava inevitavelmente alterada por medos, rumores e rancores velhos de antes da guerra. Circulavam boatos em torno de prisões já decretadas, e o seu nome teria sido mencionado. Assim, de acordo com recomendações familiares, Federico se transfere da sua casa para, algumas ruas depois, uma mansão de amigos dos Lorca-García: os Rosales, igualmente bem-relacionados e com integrantes da Falange (a sinistra agremiação política identificada com o “nacionalismo” de Franco) dentro de casa, do mesmo modo como também havia um poeta adolescente, Luis Rosales, mais tarde autor da obra-prima La casa encendida. A mudança parecia segura e conveniente para a segurança do belo rapaz das noitadas madrilenas.

     

    Neste momento no qual acompanhamos FGL seguindo para abrigar-se no meio dos Rosales, é preciso notar uma primeira discrepância, talvez, com relação ao futuro matiz da lenda que, após o crime, começará a ser fixada pela última manhã do poeta máximo da moderna literatura espanhola (em termos de repercussão internacional). Dela, dessa aurora nascida para a morte – inesperada –, viria a se compor um retrato sacrificial, isto é, a efígie de Federico Garcia Lorca coberta de sangue, vítima republicana a mais ilustre possível: havia sido fuzilado o bardo do “amor bruxo”, o cantor do romanceiro das estradas de saltimbancos, o vate andaluz, o “herói” em queda pelo lado esquerdo do peito varado pelas balas da Guarda Civil e outras hostes fascistas que levaram o ditador Franco a esmagar a Espanha por quatro décadas de autoritarismo, repressão violenta e controle absoluto de um povo tão difícil de domar quanto um miúra bravo nas plazas de areia e sangue.

     

    Sangue, sim, se derrama por toda a ardente Península Ibérica, mas, ali na Espanha, ele se concentra como coágulos nos cristos deitados nas catedrais escuras, no espetáculo dos touros (e dos toureiros) feridos e nas graves sequelas de um conflito interno que, em agosto de 1936, envolveria o gênio de Andaluzia até arrastá-lo para morrer como um animal de abate, naquele morticínio maldito para todos.

     

    Esse “para todos” introduz a maior parte das dúvidas que vinham se alargando, há anos, sobre quem realmente matou Lorca, ou seja, sobre quais nomes e quais motivos provavelmente se ocultaram num assassinato que ganhou a aura, imediata, de barbaridade máxima nessa confusa quadra da história do país de Cervantes. E, desde já, parece que temos de abandonar uma querida certeza acalentada por décadas: a do Lorca sacrificado em nome da ideologia – pois há que encarar a face, menos exposta, de um poeta lírico que não foi nenhum quixote, ou que não pretendia ser um paladino das esquerdas e, pelo contrário, estava em fuga das bandeiras e das fumaças da frente de combate. Federico era praticamente apolítico – segundo a unânime opinião dos que o conheceram – e até teria nutrido, num certo momento, uma velada simpatia por “governos fortes”, por autoridades que pudessem pôr “ordem” naquela casa, mais do que caótica, da Espanha da primeira metade do século passado.

     

    Isso foi confirmado por Luis Rosales, a respeito de um artista no auge do sucesso, como poeta e dramaturgo, quando a guerra estalou, fratricida. Naquela altura, mais do que nunca, ele era um Lorca vivaz em Madri, um ser risonho e animado na capital onde mantinha outros interesses muito para além da política (que nenhum dos seus colegas da famosa “Residência dos Estudantes” e amigos das letras, do teatro e da boêmia de Madri enxergaram, jamais, no horizonte do rapaz bem-nascido, bonito e dândi de todas as fotografias do mito que veio a se tornar Federico, o Assassinado).

     

    Esse é o primeiro degrau que se tem que firmar, a fim de galgar os patamares mais obscuros da tragédia. Ela surpreende, antes de mais ninguém, o povo de Granada, e a verdade – ou o que parece ser a “verdade”, tantos anos depois – vem se insinuando no território mais íntimo da família do poeta, entre parentes insultados e queixosos de negócios em sociedade com o pai de Lorca, o “patriarca” Federico García Rodriguez.

     

     

    QUEM MATOU LORCA?
    Todos que leram a obra do irlandês Ian Gibson (que serviu mais ou menos de “cânone” para estabelecer a versão do assassinato eminentemente “político”) decerto lembram o nome do pai do poeta como apenas uma referência ao marido de Vicenta Lorca, no registro da filiação do artista caído “sob os disparos pelas costas, feitos pelos fuzis do ódio fascista” etc.

     

    Nada a contestar sobre a periculosidade dos “ódios fascistas” (é claro), porém as pesquisas mais fundas foram, recentemente, bem mais eficazes no levantar das discórdias e invejas no seio dos quatro ramos familiares, no caso de Lorca: os Roldán, os Benavides, os Alba e os García da linhagem paterna do poeta assassinado.

     

    Longe da idealidade firmada – com as melhores intenções – por Gibson, de imediato ouçamos o historiador andaluz Miguel Caballero, dentre outros que foram revolver os quintais domésticos, na retaguarda de Víznar-Alfaca: “Afirmar que mataram Lorca por ser homossexual e ‘vermelho’ é uma simplificação que já não se admite. As verdadeiras razões de seu assassinato devem ser buscadas na sua própria família”.

     

    Outro pesquisador incansável, Manuel Ayllón, arquiteto e autor de Granada, 1936 (Editorial Stella Maris), também é taxativo sobre isso: “Lorca não era um problema político, não ‘militava’ no sentido estrito, e podia ser extravagante, incômodo e meio afrontador nos seus hábitos joviais, mas nunca foi um perigo para absolutamente ninguém; politicamente, não era visado pelos fascistas, uma vez que era inofensivo. Na realidade, contra ele não houve sequer uma ordem de detenção assinada. Federico foi simplesmente levado da casa dos Rosales, que lutaram para libertá-lo no minuto seguinte e não descansaram nos dois dias subsequentes. O poeta Luis Rosales, irmão de dois falangistas, foi visitá-lo, pelos dois dias, na prisão perto de Granada. Ninguém imaginava que ele corresse qualquer risco de vida, ali adentro. Seguiam tentando tirá-lo de lá, quando veio a incrível notícia da sua morte por um pelotão que incluía membros do quarteto de famílias proprietárias da Vega de Granada que, então, estava dando bons lucros a Federico Rodriguez e aos seus Lorca-García”…

     

    Não é, de modo algum, “teoria conspiratória” surgida 80 anos depois. Nem envolve somente as pesquisas de Caballero e Ayllón, mas começou a abalar até as antigas certezas de Gibson, que está, no momento, empenhado em rever suas descrições, desde o “sequestro” no dia 17 até a execução apenas dois dias depois, sem julgamento e causando, mesmo, alguma desagradável surpresa nos círculos mais próximos do quartel-general de Francisco Franco. Claro: um fuzilamento tão brutal não seria, jamais, a melhor propaganda para os fascistas empenhados em tomar o poder na Espanha culta, também. Aliás, consta que as primeiras notícias sobre a morte de Lorca foram veiculadas por eles, os nacionalistas, pretendendo que o poeta houvesse sido vítima da “loucura republicana” (ironia das ironias) e, quando a Guarda Civil emergiu como a assassina de FGL, fez-se um silêncio sepulcral sobre o assunto, por parte dos amigos do futuro ditador.

     

    VINGANÇA LITERÁRIA
    Miguel Caballero é quem traz mais uma surpreendente pista: “A chave para abrir o cofre de estranhezas em torno do fuzilamento sumário de Lorca esteve desde sempre ali, representada, escrita de punho e letra pelo poeta: trata-se de um presságio fatídico que, agora, oito décadas depois do crime, assume outra dimensão. A casa de Bernarda Alba foi uma vingança literária – enfatiza o historiador granadino. Caballero vê a famosa peça – que correu mundo – como um dos fios de meada da morte, os quais vêm sendo desenrolados por mais de uma dezena de pesquisadores que investigam a história da família desde a metade do século XIX. Naquela época, a Vega de Granada estava em poder de uma aristocracia residente em Madri, e que viria a cair em ruína financeira no alvorecer do século seguinte. As terras foram, então, adquiridas por um grupo da burguesia ascendente em Andaluzia, no qual figuravam o pai de Lorca e seus parentes, os Roldán e os Alba.

     

    Caballero descreve: “Eles foram comprando as terras de modo coletivo, através de sociedades. E estes campos vão adquirindo muito valor com o plantio açucareiro, enquanto a Granada de 21 engenhos se converte numa das províncias mais ricas da Espanha. O pai de Lorca participa como acionista de vários deles. E a disputa começa com a divisão dos lucros e mais uma tentativa de dividir as terras, porque nem todos tinham a mesma sombra nem a mesma água, sendo daí que surgiram os primeiros desentendimentos entre os Roldán, os Lorca e os Alba. Uma mesma família, na verdade, porque eram endogâmicos: casavam-se entre si, a fim de manter as terras antes de mais nada”…

     

    Família de Lorca em 1912. Poeta à esquerda de pé, ao lado dos irmãosFamília de Lorca em 1912. Poeta à esquerda de pé, ao lado dos irmãos

     

    Ora, para a tragédia rural A casa de Bernarda Alba, Federico García Lorca foi se inspirar em personagens reais, entre as quais avulta Francisca Alba Sierra, uma mulher forte e que se comporta da forma tirânica mostrada nos palcos, para desagrado dos Alba de carne e osso, pouco afeitos às licenças poéticas. Para eles, a peça cheirava mal e tinha insinuações insultuosas.

     

    Os Lorca possuíam uma residência de verão granadina – a Huerta de San Vicente –, que foi assaltada em 9 de agosto de 1936 por alguns primos de Federico, do ramo dos Roldán, tidos como conspiradores contra a República. Além dos Roldán, o historiador Miguel Caballero lembra que outros familiares estiveram implicados nos atos de detenção e execução de Federico, nomeadamente Antonio Benavides, que era sobrinho-neto da primeira mulher do pai do poeta (e que será o homem acusado de disparar, pelas costas, contra a sua cabeça, na manhã desatada de ódios redimidos não só no plano da política de mistura com os preconceitos).

     

    Além desse pano de fundo – nada teatral –, existiu ainda uma ameaça vinda diretamente da poesia de Lorca, para a sua vida prestes a findar tragicamente: consta que, no dia 19, ele foi levado para a morte por um pelotão comandado pelo oficial da Guarda Civil (Nicolás Velasco Simarro), que teria se sentido pessoalmente ofendido pelos versos de Romance de la Guardia Civil Española, em virtude de referências à dura repressão da Guarda contra uma greve em Málaga. Mais: o ressentimento pessoal de Simarro pode ter sido “bem-reforçado” pelo fato de esse oficial haver desempenhado funções – pagas por um Roldán (Alejandro Benavides) – no caso de uma fuga de um grupo de camponeses da Vega, sempre objeto de disputas mesquinhas com o pai de Lorca…

     

    Uma rede de ódios e intrigas familiares começa a assumir a frente do assunto “assassinato do poeta”. Seu cadáver jaz em algum lugar da estrada, na vala comum na qual teria sido abandonado e encoberto de areia e pedras andaluzas? Talvez não. A própria família é, ainda hoje, totalmente contrária (?) a buscas mais profundas por lá. O que é muito estranho. Todos os Lorcas velhos parecem saber que Federico não se encontra mais naquela vala há muito tempo, tendo sido de imediato exumado (ainda naquele agosto aziago, há 80 anos), como certamente não o seria, no caso de um horrível crime político, que a Guarda Civil naturalmente teria todo interesse em camuflar de incertezas, ao longo do tempo. Essa é mais uma nota que soa falsa na orquestração das obscuridades que aproximam o García Lorca póstumo dos piores motivos de discórdia entre familiares, em cenário ainda mais violento do que o de um romance como Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Mais uma vez, talvez a vida imite a arte, se é que não a supere de muito.

  • Inscrições abertas para escritores do estado até 15/12

     

    Atenção, escritoras e escritores pernambucanos.

    O Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura/Fundarpe e em parceria com a Cepe Editora, acaba de lançar o V Prêmio Pernambuco de Literatura. O objetivo é fomentar a produção literária em todas as macrorregiões do estado. Pernambucanos natos ou que comprovem residência no estado poderão inscrever uma obra até o dia 15 de dezembro, exclusivamente por meio eletrônico, através do e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

    Serão selecionados e premiados livros inéditos, nos gêneros conto, poema ou romance, escritos em língua portuguesa, de autores residentes nas quatro macrorregiões do estado, a saber: Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão. Por inédito, o edital considera o original não publicado em formato de livro (físico ou digital) até a divulgação do resultado e entrega dos prêmios aos vencedores. É permitido que parte do conteúdo da obra inscrita tenha sido publicado em blogs, sites, redes sociais e afins.

    A comissão julgadora avaliará a partir dos critérios Originalidade/Singularidade, Qualidade técnica e Domínio da linguagem. Os vencedores serão entregues até cinco prêmios, no valor de R$ 5 mil reais brutos, para cada um dos vencedores de cada macrorregião. Além de um prêmio especial de R$ 15 mil (bruto) para a melhor obra, entre as cinco finalistas, o chamado Grande Prêmio. Todos os livros vencedores também serão editados e publicados pela Cepe Editora, com tiragem de 1 mil exemplares. A previsão é de que a divulgação do resultado aconteça na segunda quinzena de agosto de 2017.

    Edital e anexos AQUI.

     

  • Palavras de um beatlemaníaco

     

    Assim como a maioria dos brasileiros, José Teles começou a gostar dos Beatles através das versões em português cometidas pela Jovem Guarda. Não demorou muito, tornou-se mais um beatlemaníaco no mundo, ouvia com afinco as músicas do quarteto inglês, acompanhava os lançamentos dos discos, as notícias, comprava as revistas com cifras e fotos. Quatro décadas depois, como respeitado crítico de música, teve a oportunidade de entrevistar um de seus ídolos. Em meio à coletiva com Ringo Starr, no México, em 2011, Teles foi acometido por um pensamento abrupto, que o levou de volta à época em que era estudante em Campina Grande: “Porra, esse cara é um beatle, o que aparece no começo de Help! tocando bateria!!!”.

     

    Neste ano, o jornalista e cronista tem outro reencontro com seus ídolos da juventude, desta vez através do livro Acordei esta manhã cantando uma velha canção dos Beatles, que será lançado no próximo domingo (25), às 17h, no bar Rock and Ribs (Bairro do Recife), com show da Revolution Band.

     

    O título da compilação de contos inéditos pega emprestada uma frase em inglês da música It's a Long Way, faixa do disco Transa, de Caetano Veloso. Em 1972, quando o compositor baiano se referiu à “velha canção” dos Beatles, The long and winding road, o álbum Abbey Road tinha apenas dois anos de lançamento. Agora, Teles se inspira realmente em velhas canções. Velhas, mas imortais canções, que não dataram e nunca saíram de sua cabeça: “Se fechar os olhos, consigo lembrar os detalhes de cada música”, conta, nesta entrevista em que fala sobre sua relação afetiva com o grupo.

     

    O autor se inspirou em 13 músicas do Fab Four para criar histórias a partir delas: Magical Mistery Tour, A taste of honey, Don't bother me, Eleanor Rigby, Her Majesty, I want to hold your hand, Happiness is a warm gun, Lady Madonna, Norwegian wood, Revolution, She's leaving home, The fool on the hill e The end. Os pequenos contos são permeados por estrofes dessas composições e também de outras. Além de destilar nessas citações um pouco de seu vasto conhecimento musical, José Teles escreve com a desenvoltura exibida nas suas bem-humoradas crônicas.

     

    CONTINENTE Quando você começou a ouvir os Beatles?
    JOSÉ TELES A música dos Beatles, primeiro nas versões que o pessoal fazia na Jovem Guarda, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, que fizeram muito mais sucesso do que as originais. Mas eles tocavam, acho que desde She loves you e I want to hold your hand, mas o rádio tocava tudo, não tinha, pelo menos que lembre, programas especiais de rock. Com a explosão da Jovem Guarda, a assimilação dos Beatles no Brasil, os programas foram surgindo no rádio e TV. Acho que, a partir de Rubber Soul, eles tocavam muito, o disco inteiro, no rádio. Mas até um certo tempo, eu gostava tanto dos Beatles quanto dos Herman’s Hermits.

     

    CONTINENTE Qual a importância da banda em sua vida?
    JOSÉ TELES Muita, porque foi ouvindo Beatles que descobri um universo inteiro de bandas e interpretes de que ninguém falava no Brasil ou, pelo menos, no Nordeste. Da Invasão Inglesa, às bandas de garagem americanas, como o Five Americans, The Gants e outras, até da Argentina ou Uruguai.

     

    CONTINENTE Você foi beatlemaníaco? Ainda é?
    JOSÉ TELES Aqui no Nordeste, os filmes chegavam atrasados. Acho que só vi Help! em 1968, mas vi uma dez vezes. Depois dos filmes, revistinhas especializadas, álbum de figurinhas, era impossível não ser beatlemaníaco. E só se pode saber o que eram os Beatles na época, quem a viveu. Iam muito mais além da música. Você ia prum filme, feito Os Reis do Ié Ié Ié, com a mesma excitação de como iria pra um concerto deles. Era preciso até polícia no cinema, as meninas gritavam histéricas como se fosse ao vivo.

     

    CONTINENTE Tem ideia de quantos livros sobre os Beatles já leu?
    JOSÉ TELES Muitos, acho que tenho uns vinte. Da Biografia de Hunter Davis, a primeira autorizada, a coisas mais recentes, como a do engenheiro de som Geoffrey Emerick, que é uma biografia musical, não apenas para beatlemaníacos.

     

    CONTINENTE Qual o seu beatle preferido?
    JOSÉ TELES Todos, até Ringo. Individualmente, nenhum deles fez nada comparável ao que fez em conjunto. Era um todo maior, muito maior do que as partes. Cada um tem um grande disco, o Ringo, de 1973, cinco estrelas.

     

    CONTINENTE Você ainda ouve a banda?
    JOSÉ TELES Raramente. Acho que ouvi tanto, que, se fechar os olhos, consigo lembrar os detalhes de cada música. Abbey Road foi o disco deles que ouvi mais. Precisava nem comprar. O rádio tocava todas as faixas. Tocava tanto quanto Roberto Carlos.

     

    CONTINENTE Esses contos foram escritos em qual período?
    JOSÉ TELES Num período de vinte dias. Poderia ter deixado maturar, e reescrever cada um deles. Mas não tenho paciência. Os Beatles, na verdade, entraram por acaso. Vi uma foto de uma amiga no Face. Ela vestia uma camiseta com o refrão de Yellow Submarine. Uma foto escura, num bar. Lembrei de um bar em que estive em Austin, em, 2012, onde vi uma menina parecida, com uma camiseta com frase "Keep Austin Weird", e tocava na hora uma música meio psicodélica. Veio uma associação e fiz um conto, Magical Mistery Tour.

     

    CONTINENTE Qual era o seu objetivo quando pensou em escrever sobre a banda?
    JOSÉ TELES O livro não é exatamente sobre os Beatles. Depois que fiz esse conto, veio a ideia de fazer uma série deles inspirados em músicas do grupo. Fiz uns 16. Deixei três “outtakes” porque eram pesados, e destoavam dos outros. Mas se Wanessa, essa amiga minha, estivesse com uma camiseta dos Rolling Stones, talvez tivesse escrito um livro de contos inspirados em músicas do Stones. Até penso em fazer "Beatles X Stones".

     

    CONTINENTE Antes desse livro, você pensava em escrever algo que tivesse alguma relação com a banda?
    JOSÉ TELES Até cheguei a escrever anos atrás, mas desisti, seria um livro de curiosidades (acho que ainda tenho os originais, escrito à máquina). Tudo que fosse fazer seria de segunda mão, baseado em livros de caras que viram o grupo, entrevistaram os Beatles, ou pessoas íntimas deles. Até entrevistei um beatle, que dizer, participei de uma coletiva, no México, com Ringo Starr, em 2011, mas foi uma coisa impessoal, como qualquer coletiva. Embora, no meio dela, tenha caído a ficha: "Porra, esse cara é um beatle, o que aparece no começo de Help! tocando bateria!!!"

     

  • Quais os melhores livros de 2016?

    José Luiz Passos, Cláudia Lucas Chéu, Lima Barreto, Veronica Stigger, Marcílio França e McEwan entre os escolhidosJosé Luiz Passos, Cláudia Lucas Chéu, Lima Barreto, Veronica Stigger, Marcílio França e McEwan entre os escolhidos

    Ser contemporâneo exige, antes de tudo, singularidade com o próprio tempo. No espaço entre a aproximação com o seu tempo, sem negar o distanciamento, a relação do escritor contemporâneo se dá para que novos olhares e ressignificações se tornem possíveis. Tudo isso, através da torcedura e experimentação com a linguagem. Vale ressaltar que não simplesmente tornar ficção o seu tempo – como se fosse uma "radiografia literária" –, já que “aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la”, como afirma Agamben. 

    Dois mil e dezesseis foi um ano de transições em vários aspectos, inclusive na literatura. A começar por toda a simbologia que a premiação do Nobel para Bob Dylan promove, o fim da editora brasileira Cosac Naify e as perdas, entre elas, de Umberto Eco e Ferreira Gullar. A contínua produção de grandes obras "contemporâneas" (e boas edições) ratifica que a potência da linguagem literária permanece em intensa renovação. Como demonstração disso, convidamos alguns críticos e escritores para eleger os melhores lançamentos nacionais e internacionais do ano. Confira abaixo:


    Noemi Jaffe
    Escritora, professora e crítica literária



    Histórias naturais, de Marcílio de França Castro 
    Em Histórias naturais (Companhia das Letras), precisão e coloquialidade se conjugam para produzir alguns dos melhores contos dos últimos tempos, num autor que, como poucos, conhece o quanto o conto vence o leitor por “nocaute”.

    O porto, de Leda Cartum 
    No livro (Iluminuras), a autora faz experimentações de linguagem narrativa, costurando, por fragmentos, uma história que é também um questionamento sobre o tempo.

    Caderno americano, de Fabrício Corsaletti e Alberto Martins
    A editora Luna Parque prossegue com a excelente ideia de reunir dois autores em torno de um mesmo tema, mostrando ao leitor como são próximas e, ainda assim, diferentes as linguagens de cada um.


    Vanderley Mendonça
    Jornalista, tradutor e editor do Selo Demônio Negro e Edtih



    Pornographia, de Cláudia Lucas Chéu 
    Cláudia Lucas Chéu, que também é dramaturga, é capaz de nos fazer pensar que aquilo que se assenta na normalidade é a negação da vida, da liberdade e do amor. A palavra pornographia resume num único nome as estruturas que penetram a pele humana, antes de ocuparem a mente e dominarem a linguagem, tornando o que chamamos relações humanas apenas desejo e poder. Pornografia é fome, é ódio, é tédio, é desamor, é alienação, é o que perde sentido. A poesia nos pode alertar que os preconceitos criados pelo que chamamos civilização reforçam a vida sem liberdade. Pornographia (Ed. Labirinto) é um livro raro.

    Sul, de Veronica Stigger
    "O coração dos homens é o que sangra como as mulheres e que obriga os verdadeiros homens a se responsabilizarem por seus atos, quaisquer que sejam", disse Veronica Stigger sobre o conto O coração dos homens, um dos três que integram seu último livro Sul (Editora 34). A autora gaúcha é, sem dúvida, uma das melhores contistas da atualidade no Brasil.

    Trânsito, de Kenneth Goldsmith 
    Conhecido na mídia norte-americana como o "colecionador de linguagens", por se apropriar de notícias em jornal, conversas com amigos e interlocutores como elementos de construção de sua poesia, Kenneth Goldsmith tem gerado polêmica por tentar fazer dos mais variados registros experimentos poéticos, em que a ideia de criação é posta em xeque. A apropriação torna-se a sua "escrita não-criativa", como ele a denomina. Nesta "tradução -- versão / dublagem", Leonardo Gandolfi e Marilia Garcia dão um drible no poeta norte-americano e opõem ao "gênio não-original" de Goldsmith a uma das mais interessantes traduções de 2016. PEla Editora Luna Parque.


    Fernando Monteiro
    Crítico, escritor e cineasta



    Enclausurado, de Ian McEwan
    Um dos melhores escritores vivos (o inglês Ian McEwan) resolve se inspirar na intriga básica do Hamlet (atualizada), talvez para provar que ainda devemos ter em mente os clássicos (pelo menos muito mais do que os mais fantásticos autores de todos os tempos da semana passada)... Ao mesmo tempo, nos apresenta ao primeiro narrador-feto da literatura, porque McEwan é adepto (conforme confessa) de se alinhar com a tradição desde que se mantenha também o compromisso com a (verdadeira) originalidade. Isso parece difícil ou, mesmo, impossível? Bem, ele prova que não é, nesse seu livro tão bom quanto Jardins de cimento, Restauração e A praia, para citar apenas seus pontos máximos, antes do bem-humorado e magnificamente escrito Enclausurado (Companhia das Letras). Se enclausure em algum lugar, comece a ler e não largue.


    Anco Márcio Tenório Vieira
    Professor da Pós-Graduação em Letras da UFPE



    O nome do livro, de Francisco Brennand 
    Fato raro na cena artística brasileira: um artista plástico que registra o seu cotidiano ao longo de quase 70 anos e nele versa sobre como foi se dando o seu próprio crescimento espiritual (seus impasses, suas decisões e as implicações dessas posições assumidas), sobre como ele vê o mundo que o cerca (as pessoas, os livros que leu, as obras de arte que viu, os acontecimentos do seu tempo) e sobre a sua vida pessoal. Tudo isso narrado em uma prosa cativante, plástica, que já nasce como um dos pontos altos do nosso memorialismo. Quatro volumes, Ed. Inquietude.

    Sátiras e outras subversões, de Lima Barreto
    Organizado por Felipe Botelho Côrrea através da Ed. Penguin/Companhia das Letras, livro que reúne crônicas publicadas nas revistas cariocas Fon-Fon e Careta, e que até o presente momento permaneciam inéditas em livro. Nessas crônicas, recupera-se não apenas uma parte perdida da obra de um dos nossos mais importantes escritores, mas também uma parte da história urbana vista por um dos seus críticos mais argutos.

    Nordestinados, de Marcus Accioly
    Apesar de não ser um livro inédito de Marcus Accioly, pois teve a sua publicação em 1971, a reedição de Nordestinados (Ed. Bagaço) é um acontecimento literário: seja porque ela é, em língua portuguesa, uma das obras mais importantes da sua geração, seja porque coloca em circulação um livro que andava sumido das livrarias e da companhia dos mais jovens.


    Raimundo Carrero
    Escritor


    O marechal de costas
    , de José Luiz Passos 
    Neste romance (Alfaguara), o escritor José Luiz Passos reafirma suas qualidades de grande criador de personagens através de Floriano Peixoto, não esquecendo, porém, a força da linguagem, até porque é na linguagem que a literatura de ficção se realiza.

    Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho
    Não só um romance mas, principalmente, uma grave reflexão sobre o mundo contemporâneo. Bernardo Carvalho é, sem dúvida, um dos grandes autores contemporâneos e deve ser lido sempre com muita atenção. Pela Companhia das Letras.

    Guerra de ninguém, de Sidney Rocha 
    Este é o melhor livro de Sidney Rocha, com a qualidade de bom contador de fábulas. Está aqui em terceiro lugar, mas pode, tranquilamente, ocupar o primeiro, pelas qualidades de narrador, criador de personagens e linguagem. Pela Ed. Iluminuras.

     

  • Toda a potência de Raduan Nassar

    [leia abaixo na íntegra matéria publicada na edição 190 da revista Continente]

     

    Raduan Nassar. Foto: DivulgaçãoRaduan Nassar. Foto: Divulgação

     

    Este mês, em volume de 465 páginas, saem os dois romances do escritor de origem libanesa, a coletânea Menina a caminho, mais dois contos e ensaio inéditos

     

    “Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo…” As primeiras palavras de Lavoura arcaica são impactantes, como de resto é todo o livro, publicado em 1976 pela editora José Olympio. Elas permitem entrever a narrativa caudalosa urdida por Raduan Nassar, então um filho de imigrantes libaneses que, tendo cursado Direito e Filosofia em São Paulo, decidira-se por escrever um romance. Quem já folheou suas páginas, assevera: trata-se de um exercício que transcende a leitura, uma epifania para muitos, um acontecimento incontornável para outros tantos.


    Neste outubro, a Companhia das Letras lança, em um volume de 465 páginas, a reedição da obra completa de Raduan Nassar – incluindo a novela Um copo de cólera (1978), os contos de Menina a caminho (1997) e três textos inéditos no Brasil: um conto publicado nos anos 1990 na antologia francesa Des nouvelles du Brésil, chamado O velho (escrito antes mesmo dos romances, em 1960), um outro conto, Monsenhores, e o ensaio A corrente do esforço humano, disponibilizado apenas na Alemanha, em 1987. Segundo a editora, a tiragem será de 6 mil livros, ao preço de R$ 74,90 e e-book por R$ 44,90.


    É impossível prever, por hora, se essa tiragem inicial se esgotará rapidamente. O que se sabe é que, ante a notícia do agrupamento de todos os escritos de Raduan Nassar em um único tomo, rejubilaram-se os seus leitores e fãs. Um deles é o diretor Luiz Fernando Carvalho, responsável pela adaptação cinematográfica de Lavoura arcaica, lançada em 2001. “O encontro com um livro pode se tornar um acontecimento sagrado. Pode mudar sua vida e sua maneira de ver o mundo. Na história da humanidade, certamente, muitos livros marcaram milhares de pessoas. No meu caso, o livro foi Lavoura arcaica. Não haverá outro. O tempo passará, mas ele permanecerá dentro de mim, calando cada vez mais fundo a cada leitura”, revela à Continente.


    Lavoura arcaica, o filme, trazia Selton Mello na pele de André, o jovem atormentado – “eu estava escuro por dentro, não conseguia sair da carne dos meus sentimentos” – que recebe a visita do irmão Pedro (Leonardo Medeiros) na pensão barata em que mora, após fugir da fazenda da família governada com austeridade pelo pai (Raul Cortez). Instado pelo primogênito, ele retorna à casa sobre a qual repousa o manto da obediência total à figura paterna: “que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto com os sinos graves marcando as horas”.

     


    Acontece que lá está Ana (Simone Spoladore, no filme), a irmã mais nova, causa da partida e da “fome” que o protagonista descreve: “era Ana a minha enfermidade, ela a minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu sopro, o assédio impertinente dos meus testículos”, confessa André. “Poderia apontar os inúmeros motivos estéticos e de linguagem”, diz o cineasta, aludindo à indubitável potência dos arranjos linguísticos de Nassar – arranjos esses que ele respeitou ao escrever o roteiro, reunindo o elenco para ensaiar durante quatro meses a partir de leituras recorrentes do romance. “Mas, pensando bem, prefiro agradecer à misteriosa força de vida que ele evoca em redemoinho. Foi para onde Raduan me arrastou, para o núcleo deste redemoinho de mim mesmo, da própria vida que se desdobra em mais vida”, resume Luiz Fernando Carvalho.


    O Festival do Rio prestará, este mês, uma homenagem à versão fílmica de Lavoura arcaica, exibindo-o em comemoração aos 15 anos de lançamento do longa. Para os admiradores da linguagem torrencial e catártica de Nassar, o filme serviu, e ainda serve, de condutor/indutor de novas leituras. “Lavoura arcaica é um livro para ser apreciado em imagens. Quando penso nele, sempre me lembro do quanto assistir ao filme enriqueceu ainda mais o conteúdo das palavras. Em regra, acontece o oposto: um livro muito bom sempre chega faltando ao cinema. Mas esse não foi o caso. Até hoje uso o trecho do livro em que o coroinha chega ao portal da igreja e no filme a imagem é dos pés em voo até que chegam à igreja… Ele me remete a momentos de ‘escapismo’ para realização vital. Toda sua obra é, para mim, uma experiência de assistir, com detalhes, através da escrita”, pontua a juíza pernambucana Renata Nóbrega, que decidiu reler Lavoura após ver o filme. “Precisei. Tornou-se melhor.”

    A palavra “experiência” é utilizada com frequência para definir a relação que se estabelece com a obra de Raduan Nassar. É comum alguém perguntar “Já leu Lavoura arcaica?” com o mesmo assombro com que se pergunta “Já leu Grande sertão: veredas?”, ou, ainda, “Já leu A paixão segundo G.H.?”. E é provável ser tomado pelo mesmo sentimento quando se mergulha nessas três obras. Cotejá-lo ao mineiro Guimarães Rosa (1908-1967) e à ucraniana naturalizada brasileira Clarice Lispector (1910-1977) não é exagero. Raduan Nassar é artífice das palavras; sua habilidade em articulá-las provoca estupor tanto quanto os neologismos de Guimarães ou o adensamento existencial de Clarice. “Poucas vezes li um autor com essa capacidade de conhecer a força das palavras e usá-las de uma forma tão livre, tão original, tão explosiva”, observa o escritor recifense Bernardo Brayner, que mantém o site livrosquevoceprecisaler.wordpress.com.

    “Uma vez, escrevi uma história sobre um homem e uma mulher que criam um idioma completamente novo para se comunicar. Quando dissessem ‘eu te amo’, seria a primeira vez que alguém diria ‘eu te amo’ naquela língua. Quando falassem na morte seria a primeira vez que alguém falaria na morte. Enquanto pensava na história lembrava da importância da palavra”, prossegue Brayner. Ele chama a atenção para “a dança de Ana no final de Lavoura arcaica” e lembra que “Ana, em árabe, quer dizer ‘eu’”. “Desde a primeira vez que li Raduan Nassar, não sou mais o mesmo. Li toda a obra em uma sentada há quase 20 anos e, com o passar do tempo, ela vai ganhando novas camadas: ‘Não tem quem não se toque, não tem quem não blasfeme contra a família, não tem quem não chore de nostalgia’”, cita o escritor.

    UM COPO DE CÓLERA
    Em Um copo de cólera, menos louvado do que Lavoura arcaica, porém capaz de gerar igual comoção, descortinam-se as entranhas de um relacionamento entre um homem e uma mulher – sem pudor algum, como se a linguagem fosse livre, aguda e fértil: “…e repassei na cabeça esse outro lance trivial do nosso jogo, preâmbulo contudo de insuspeitadas tramas posteriores, e tão necessário como fazer avançar de começo um simples peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando minha mão na sua, arrumava-lhe os dedos, imprimindo-lhes coragem, conduzindo-os sob meu comando aos cabelos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol, desenvolvessem por si sós uma primorosa atividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados nossos pelos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos medíamos o caminho mais prolongado de um único beijo, nossas mãos em palma se colando, os braços se abrindo num exercício quase cristão, nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração”.

    Irma Chaves é psicanalista e professora potiguar há muito radicada em Pernambuco, onde lecionou durante décadas no curso de Letras da UFPE. Já havia estudado Teoria da Literatura em Madri e Lisboa e dissecado a obra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960), no mestrado na PUC/RJ, quando se deparou com Um copo de cólera. “A primeira vez que li, no final da década de 1970, foi a partir de um comentário em um jornal no Rio de Janeiro. Foi um impacto. Fiquei meio perdida, pois era uma coisa inteiramente nova. Na ocasião, era uma forma diferente de narrativa, que perdia às vezes quanto aos protagonistas, que por sua vez não tinham perfil definido. Essa linguagem nova me atraiu de imediato. Continuo gostando muito”, comenta à Continente. Anos depois, já tendo lido Lavoura arcaica, ela se confrontou com críticas que reclamavam da falta de estruturação dos personagens na obra do escritor. “Mas é do estilo dele buscar um outro tipo de aproximação com os personagens a partir da linguagem. É a palavra, a linguagem e a força da literatura que nos possibilitam, nesses livros, escutar e ler coisas diferentes, que de uma certa forma nos desafiam”, pondera Irma.

    Em fevereiro deste ano, A cup of rage, primeira tradução inglesa para Um copo de cólera, foi publicada na Inglaterra e nos Estados Unidos (em janeiro de 2017, chegará às livrarias Ancient tillage, versão de Lavoura arcaica que a tradutora Karen Sherwood Sotelino esperou anos para ver nas prateleiras). Em maio, Raduan Nassar foi anunciado como vencedor do Prêmio Camões, que desde 1989 reconhece a literatura em língua portuguesa. Talvez essa láurea tenha impulsionado a Companhia das Letras a promover a reedição, pois o júri da premiação, concedida em conjunto pelos governos do Brasil e de Portugal, ressaltou a “a extraordinária qualidade da sua linguagem e da força poética da sua prosa”. Aos 81 anos, recluso e avesso a quaisquer rituais de fama, o escritor teria exclamado, ao saber do Camões e dos 100 mil euros acoplados ao prêmio: “Mas minha obra é um livro e meio!”. 

    Lavoura arcaica (decerto o livro desse “livro e meio”) é uma ode ao tempo: “o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história”. É, também, uma reflexão profunda sobre a mítica impossibilidade de se contestá-lo. Nas últimas quatro décadas, nem o próprio Raduan conseguiu conter o fluxo expansivo e a contínua celebração da sua obra literária, que segue fecunda e gigante. Em 2016, não cabe, como ele mesmo fraseou, “menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento”.

  • Uma lição de como amar coisas ignoradas

    Ilustrações: Matheus CalafangeIlustrações: Matheus Calafange

    Manoel de Barros, que faria 100 anos este mês, construiu seu projeto literário sobre a vida comum, combatendo o “sublime” como um valor imprescindível da poesia

    A poesia pode falar de qualquer coisa? O que seria “assunto” ou “tema” próprio da poesia? O nosso tempo conheceu algumas respostas a essas questões. O que implica em dizer que nem sempre foi assim. Houve uma época em que havia, sim, temas mais apropriados à poesia e, em consonância com esses temas, uma linguagem igualmente “adequada”. 

    A tradição clássica que dominou a literatura ao longo de muitos séculos previa esse ajuste entre um assunto ou tema e o tipo de discurso escolhido, o mais apropriado para exprimir o objetivo do autor, do poeta. Essa primeira distinção entre os modos de discurso e as suas respectivas possibilidades trazia consigo uma escolha rigorosa de palavras, a utilização de determinados lugares-comuns etc. Em resumo, foi um tempo em que a linguagem literária e a poesia, consequentemente, eram reguladas por um conjunto de regras e preceitos. O que não impediu que surgissem grandes obras. 

    Com o Romantismo, no século XIX, essa tradição foi questionada. Novos assuntos, novos estilos, novos modos do falar poético desafiaram a tradição. Processo que culmina com o Modernismo do início do século XX, momento em que a literatura conquistou uma liberdade sem precedentes. As vanguardas foram a principal manifestação desse espírito de liberdade radical. E o caráter experimentalista – de valorização do novo, do inesperado, do incomum e do original – foi a materialização coletiva dessa postura iconoclasta. Qualquer coisa podia se converter em matéria de poesia. Não há palavras poéticas e palavras não poéticas. Todas as palavras, sem exceção, podem participar do poema e contribuir para exprimir o mundo e a vida social moderna com todas as suas contradições, misérias e iluminações. 

    Uma forma de entender a poesia moderna, ou ao menos parte dela, é a recusa ao “sublime”. E aí pesaram tanto a liberdade criativa, que passou a ser cultivada a partir do Romantismo, como a ironia. Muitas vezes, a junção desses dois traços é comum e não faltariam exemplos disso em alguns dos nossos grandes poetas modernos. É o caso de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Ao mesmo tempo em que essa liberdade de temas, assuntos, formas e modos de composição alargam a ideia do que é poético, a ironia investe contra a antiga ideia do sublime na forma de uma distância que é a marca de toda ironia. 

    Assim, por exemplo, a linguagem quase infantil de Bandeira ao tratar das paisagens da infância, ou o tom “melodramático” de vários dos seus poemas. Ou ainda, a fina ironia de João Cabral que justapõe flor e fezes como símbolos da poesia: “Poesia te escrevia: / flor! Conhecendo / que és fezes! Fezes / como qualquer”. Mesmo num Drummond ou num Mário Quintana é possível encontrar exemplos desses golpes contra a pretensa poesia “profunda”. 

    É na culminância desse processo de rebaixamento do tom poético que se encontra o mais original e interessante da poesia de Manoel de Barros. Em dezembro de 2016, completam-se os 100 anos de nascimento desse menino dono de saberes de chão e de coisas. Na medida em que uma voz inconfundível foi se construindo, mais luz foi sendo projetada sobre o poeta, quase um outsider

    Avesso aos holofotes e à vida literária – o que, segundo alguns, teria retardado uma recepção mais justa de sua obra – parecia preferir o camarim ao picadeiro. Na intimidade úmida do pantanal, ele concebeu seus poemas, ou antipoemas, cada vez mais impregnados de um olhar e de uma linguagem entranhada no universo fértil das várzeas e vadiações. 

    O início da trajetória se dá com o livro Poemas concebidos sem pecado (1937), iniciando uma fase sintonizada com o Modernismo de segundo momento. Ela se estende até Gramática expositiva do chão (1966), que apresenta boa parte dos ingredientes que se transformaram no tempero inconfundível de sua poesia. Elementos que atingem grande amplitude e lhe conferem, a partir de O livro das ignorãças (1993) e Livro sobre nada (1996), grande popularidade. No projeto literário do poeta Manoel de Barros, três aspectos sempre me chamaram a atenção, pela força com que eles configuram certo “primitivismo”, e sua maneira especial de combater o “sublime” como um valor imprescindível da poesia: o olhar sobre a vida comum; a valorização de bichos, coisas e objetos; e o mergulho na linguagem da infância.

    VIDA COMUM
    O olhar sobre a vida comum é uma característica que une a poesia de Manoel de Barros a alguns dos nossos grandes líricos modernos: Drummond, Bandeira e Quintana, por exemplo. Esse canto do seu canto, em que o colorido da vida pantaneira vai deixar também seus ovos, integra um mundo familiar e conhecido: “A de muito que na Corruptela onde a gente / vivia / Não passava ninguém / nem mascate muleiro / nem anta batizada / nem cachorro de bugre. / O dia demorava de uma lesma”. É perceptível também nesse trecho do poema outro ponto de coligação entre Manoel de Barros e nossos grandes líricos modernistas: o uso da linguagem de apropriação regionalista – mais em alguns livros do que em outros. Apropriação estimulada muito mais por uma reflexão metalinguística do que por um projeto nacionalista. O próprio poeta define exemplarmente essa relação com a palavra: “A palavra garça em meu perceber é bela / não seja só pela elegância da ave. / Há também a beleza letral. / O corpo sônico da palavra / e o corpo níveo da ave / se comungam”. 

    No caso de Manoel de Barros, a aproximação da poesia com a vida comum desencadeia uma simbiose entre o sujeito lírico e a paisagem. Essa paisagem pantaneira se manifesta através e elementos claramente identificáveis, mas, principalmente, através de uma linguagem que exprime esse universo não de maneira simplesmente temática, mas isomórfica; ou seja: através de um princípio de identidade entre o modo linguístico do poema e o universo que ele – mais do que exprimir – simboliza. É o que o leitor encontra num poema como Maçã: “Uma palavra abriu o roupão para mim. / Vi tudo dela: a escova fofa, o pente a doce maçã. / A mesma maçã que perdeu Adão. / Tentei pegar na fruta / Meu braço não se moveu. / (Acho que eu estava em sonho) / Tentei de novo / O braço não se moveu. / Depois a palavra teve piedade / E esfregou a lesma dela em mim”. O erotismo verbal tem uma umidade, um langor que é próprio do ritmo e da vida anfíbia do universo pantaneiro e que se potencializa na imagem invertebrada da “lesma”. 

    Além da paisagem, há o evento miúdo, corriqueiro, que conquista a atenção da poesia. Brincadeiras de meninos, causos, tipos curiosos, práticas seculares ditadas pela vida comum que estabelece igualmente uma espécie de simbiose com a paisagem: “Araras cruzavam por cima dos ranchos / conversando em ararês. / Ninguém de nós sabia conversar em ararês. / Os maridos que não ficavam de prosa na porta / da venda / Iam plantar mandioca / Ou fazer filhos nas patroas. / A vida era bem largada. Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia / atravessar”. 

    A poesia de Manoel de Barros parece nos falar constantemente desse transitar através das fronteiras dos reinos. Bichos, plantas, pedras, homens… tudo isso parece namorar incessantemente, mesclar-se, confundir-se. Confirmando, inclusive, o dito de um tipo muito próximo ao “menino” de Manoel de Barros, que é o Riobaldo de Guimarães Rosa: “No mundo, tudo é misturado”. É esse olhar impregnante que compõe a figura arquetípica do “menino” e a linguagem infantil, que o próprio poeta chamará, mais apropriadamente, num de seus poemas de “infância da língua”.



    OLHAR INFANTIL
    A figura do menino aparece constantemente na poética de Manoel de Barros. Representa metaforicamente o poeta e, através dele, do menino, emerge muito da infância que o tempo naturalmente submergira. O valor das coisas imprestáveis, a simbiose entre os seres e a paisagem, entre linguagem e coisa, tudo isso está associado a essa matriz metafórica do olhar infantil: “O menino podia ver até a cor das vogais – / como o poeta Rimbaud viu. / (…) Mas ele mesmo, o menino / Se ignorava como as pedras se ignoram”. Não é casual a referência a Rimbaud, seja pela celebração da lógica sinestésica e sensorial da poesia simbolista, que permitiu a associação das vogais com cores e sensações, seja pelo fato de ser um poeta menino. Como bem se sabe, Rimbaud escreveu toda sua obra até os 17 anos.

    Assim, o menino adquire grande protagonismo no universo poético de Manoel de Barros. Ele é responsável pelo potencial imaginativo, logo criativo, da vida. Dono de um saber imediato e fértil que insiste em apresentar a infância como a idade essencialmente inaugural: “Por forma que nossa tarefa principal / era de aumentar / o que não acontecia. / (Nós era um rebanho de guris) / A gente era bem-dotado para aquele serviço / de aumentar o que não acontecia”. Esse saber é, por sua vez, uma forma de ignorãça, para usar a feliz expressão do próprio poeta e que intitula um de seus livros mais importantes. 

    O oposto desse saber direto que a vida comum proporciona é a explicação racional que, entretanto, é apresentada com muita ironia, porque impotente contra a força com que esse conhecimento nasce da experiência do viver. A explicação racional apenas arranha a superfície irregular dessa beleza inexplicável – imprestável – das coisas pequenas e nossas: “E aquele colega que tinha ganho um olhar / de pássaro / Era o campeão de aumentar os desacontecimentos. / Uma tarde ele falou para nós que enxergara um / lagarto espichado na areia / a beber um copo de sol. / Apareceu um homem que era adepto da razão / e disse: / Lagarto não bebe sol no copo! / Isso é uma estultícia. / Ele falou de sério. / Ficamos instruídos”. O mesmo movimento se encontra no arremate do poema Vento. A ironia frente ao conhecimento formal só parece insistir que o mundo continua dotado de um encanto que, na infância, não se domestica: “Hoje eu tasquei uma pedra no organismo / do vento. / Depois me ensinaram que o vento não tem / organismo. / Fiquei estudado”.

    POESIA DAS COISAS
    Outra característica importante da poética de Manoel de Barros é a valorização das coisas imprestáveis. O precursor moderno dessa tendência de dar voz aos objetos, às coisas, aos seres inanimados e – mais do que isso – ao que não tem valor, é o poeta Francis Ponge, autor de Le parti pris des choses (O partido das coisas, na edição brasileira). Ponge escreveu sobre uma infinidade de quinquilharias, coisas e seres minúsculos: o camarão, a lata de conserva, o pingo da chuva, a crosta de pão, o cigarro gasto, a bicicleta etc. 

    Na poesia de Manoel de Barros, lê-se exatamente a lição do poeta francês: dar voz às coisas, deixar que elas falem através de nós, dar voz àquela parcela muda do mundo. Nas palavras da crítica Leda Tenório da Mota, grande estudiosa da poesia pongiana: “Desaforadamente, pois, dizer as coisas é tomá-las em sua existência insondável. É fazer falar o que não dá sinal de si”. 

    Esse dar voz ao mundo mudo é muito frequente na poesia de Manoel de Barros, como se lê no poema Poste: “Eu quis filmar o abandono do poste. / O seu estar parado. / O seu não ter voz. / O seu não ter sequer as mãos para se pronunciar com / as mãos”. Os objetos, os animais, os seres minúsculos, compõem uma galeria de motivos que enfatizam o caráter concreto e sensorial da experiência poética que, carregada de ironia, pode afirmar preferir latas – “essas pessoas léxicas pobres porém concretas” – às ideias que, por serem abstratas, não podem ser reaproveitadas, se jogadas fora por “motivo de traste”. 

    Tal tendência pode ser encarada como um verdadeiro anti-intelectualismo da poesia e negativa do sublime. É algo que pode, por exemplo, ser encontrado na poesia de Alberto Caeiro. Negação do caráter “profundo” da atitude filosófica ao tentar esquadrinhar o mundo com o racionalismo. Racionalismo que amortizaria o caráter inaugural da experiência ao abstraí-la. 

    O saber que a poesia oferece é um saber profundamente mundano, assistemático. Tem a força e a volatilidade do olhar infantil, sempre assediado, encantado pela própria curiosidade. O reconhecimento de um deslocamento fundamental do poeta, esse porta-voz das coisas desutilizáveis, em relação ao mundo contemporâneo, é algo marcante na poesia de Manoel de Barros e tem ressonâncias políticas muito fortes, para além dos credos e ideologia do autor. Resíduos, trastes, restos e refugos não contribuem para a marcha do mundo tecnocrata, estão à margem. São tão inúteis quanto os passarinhos. Mesmo que eles, os passarinhos, sejam capazes de botar “primavera nas palavras”.

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  • “A literatura precisa se libertar da teoria”

    Foto: Tomas Rangel/DivulgaçãoFoto: Tomas Rangel/Divulgação
    Escritor, que acaba de lançar uma coletânea de seus contos, fala sobre sua produção de textos curtos e dos seus romances, apontando mudanças na sua forma de narrar


    “Coleção de todas as minhas narrativas curtas que podem ser lidas de maneira autônoma, livres de qualquer contexto”, que contém contos e “histórias que estão inseridas ou que são desmembráveis de três dos meus romances”, sendo que “todos os textos sofreram revisões mais ou menos profundas; e alguns chegaram a ser completamente reescritos, mudando até de título”. É assim que Alberto Mussa define Os contos completos, seu livro mais recente, lançado pela Record – as palavras acima foram retiradas da própria apresentação da obra.

    Um dos autores mais originais do país, enaltecido por aliar ficção e historiografia de maneira primorosa, mostrando que uma mesma história pode ter uma infinidade de pontos de vista, sempre permeados pelas referências e influências culturais, não surpreende que a reunião de textos breves de Mussa seja mesmo diferente das coletâneas convencionais. Esse novo trabalho, elaborado a partir de textos antigos, norteou a conversa do escritor com a Continente.

    CONTINENTE Você acaba de reescrever, reeditar ou ao menos reler as suas narrativas breves para publicarOs contos completos. Algumas perguntas parecem inevitáveis em qualquer entrevista com você, como as que tratam de mitologia ou história do Brasil, por exemplo – responder novamente a uma mesma pergunta é uma chance de reescrever as próprias opiniões, de modo semelhante ao que fez no novo livro?
    ALBERTO MUSSA Algumas perguntas são recorrentes. Nunca fiz essa pesquisa, talvez o que eu dizia em 2004 para algumas questões se mantenham, mas para outras sempre tento dar uma forma nova à resposta. Falando do livro, nem todos os contos sofreram um processo de reescrita, foram mais os que estavam no Elegbara, que saiu em 1997, tem quase 20 anos. 

    CONTINENTE Por que mexer com mais afinco especificamente nos contos doElegbara?
    ALBERTO MUSSA Eu ainda era inexperiente, então tinha uns finais muito abertos, algumas frases muito sofisticadas, quase incompreensíveis. Alguns contos eu achava muito herméticos, aí tentei criar uma versão que fosse mais fechada para o entendimento do leitor. Cada vez mais acho que a narrativa precisa contar uma história, ser compreendida. Talvez, em 1997, eu ainda tivesse resquícios da formação acadêmica em Letras. Hoje, percebo que quanto mais afastada das teorias literárias, mais sincera é a literatura. O escritor que estuda teoria literária para escrever acaba dependente do conhecimento dos teóricos. O público geral, por sua vez – o médico, o mecânico, o jornalista –, que frequenta a livraria, não é especializado. Todo mundo lia até os anos 1980 e um dos fatores para a redução da leitura, creio, foi essa prevalência do pensamento acadêmico dentro do meio literário, que torna o texto muitas vezes incompreensível para boa parte das pessoas. A arte não tem nenhuma obrigação de refletir sobre ela, a arte é a arte, não precisa ser meta artística. Na academia, reflete-se sobre a arte. A literatura, hoje, para se recuperar, precisa se libertar da teoria. O trabalho do escritor precisa ser livre, espontâneo. Então, o Elegbara se ressentia um pouco dessa carga, agora tentei amenizar esse problema.

    CONTINENTE Mas, se teve essa mudança de visão com relação a esses textos, ao revisitar outros, com certeza você se deparou com algumas surpresas positivas, não?
    ALBERTO MUSSA Cada vez eu gosto mais dos meus romances do que dos meus contos, embora muita gente prefira o contrário. Gosto de alguns contos como Encruzilhada na Ladeira do Timbau, que é uma história que escrevo de um jeito um pouco diferente da maneira que geralmente faço. Ali tem uns ecos leves da linguagem de botequim, do morro… Isso surgiu espontaneamente, então nem quis mexer, não sei se conseguiria fazer outro parecido. Gosto também do De canibus questio, que é bem cerebral, escrevi para uma coletânea sobre a questão árabe-judaica. Era um universo completamente diferente para mim, tive que estudar bastante, aprendi coisas novas e gostei do resultado. Mas tem uns de que não gosto mesmo. Um de que até gostava muito quando escrevi, mas passei a odiar é o A primeira comunhão de Afonso Ribeiro. Ele tem uma interpretação de textos de 1500 que, depois que estudei um pouco melhor as culturas tupis, passei a discordar, então, passei a discordar também do que escrevi, havia outra interpretação para a questão canibal que abordo ali.

    CONTINENTE Em seus escritos, aliás, tanto em contos quanto em romances comoA primeira história do mundo, você lida com questões relacionadas aos índios de uma forma bastante interessante e respeitando as peculiaridades de cada tribo, povo ou etnia. Acha que normalmente falta esse tratamento estético apurado, não infantil ou acadêmico, quando os indígenas são retratados em nossa arte?
    ALBERTO MUSSA Eu acho, sim. É muito interessante a evolução da literatura brasileira e a relação com as culturas indígenas e negras. No século XIX, o que estava na moda eram as culturas indígenas, que tinham uma aceitação melhor do que as culturas africanas; essas praticamente não existiam na literatura. Os negros eram tratados quase como animais, os índios, não. Já no século XX, com o desenvolvimento da cidade, como o índio ficou afastado e chegou até a ser considerado um obstáculo para o desenvolvimento do Brasil durante a ditadura, um representante do atraso completo, aliás, ideia que domina até hoje, o negro passou a ganhar mais espaço e respeito, ainda que não esteja no patamar ideal. Então, as posições se inverteram. Atualmente, há um completo desinteresse com relação ao índio. Uma vez, conversando com uma pessoa inteligentíssima, gente da elite cultural brasileira, que não revelarei o nome, estava comentando sobre essas questões e ele falou “qual o interesse que pode haver na cultura indígena?”. Isso mostra o desconhecimento completo, como se as histórias fossem banais, como se as culturas indígenas fossem todas iguais e uma noção de que eles não pertencem ao Brasil. Esse é um problema seríssimo de rejeição do índio na cultura brasileira. O escritor indígena, por exemplo, só tem aceitação se escrever para criança. E uma imagem que fez muito mal é a do Macunaíma, de Mário de Andrade. Acho um livro bobo, infantil, uma reprodução de estereótipos que não prosperou literariamente. A imagem do índio ali é essa, um pastiche, uma grande caricatura. Em Macunaíma, em vez de se aprofundar na questão do caráter do brasileiro – o que poderia ter feito com propriedade, porque o trabalho de pesquisa foi respeitável, bebendo em fontes originais para colher os mitos –, Mário se limitou em fazer uma interpretação estereotipada.

    (Leia entrevista na íntegra na Revista Continente de novembro, n. 191)

  • “A sociedade tem o lugar do negro”

    Isaar. Foto: Ana Rosa Passos/FlickrIsaar. Foto: Ana Rosa Passos/Flickr

    “Já entrei num camarim, no querido Pátio de São Pedro, e todos eram brancos e eu era o único negro. Aí um(a) grande fomentador(a) cultural veio até mim e perguntou quem eu era, com quem eu estava, qual era a minha banda e eu nem conseguia responder, fui expulso violentamente do local.” A vítima dessa agressão, Angelo Souza, mais conhecido como Graxa, é um dos raros guitarristas negros de Pernambuco.

    O rock, que tomou forma por nomes como Bo Diddley, Fats Domino, Chuck Berry, Little Richard, não demorou a passar às mãos dos brancos, a partir do surgimento de artistas como Buddy Holly, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Bill Halley e, principalmente, Elvis Presley. Se o advento do Rei do Rock colaborou para atenuar o preconceito contra o gênero musical, por outro lado funcionou como um marco na apropriação do rock pelos brancos. A invasão britânica, capitaneada pelos Beatles e Rolling Stones, na década seguinte, só veio reforçar esse “branqueamento”. 

    O resultado disso é que hoje são poucos os músicos negros em bandas de rock ou, até mesmo, espectadores negros na plateia de um show de rock. “Quando eu era guri, e fui conhecendo músicos do rock, eu pensava em duas coisas: a primeira era que eu poderia ser o primeiro negro do rock – Ai, Meu Deus, como eu era inocente e puro! – e a segunda coisa que eu pensava era que aquilo não era pra mim, pois não tinha negros. Isso eu era muito jovem mesmo, depois descobri Jimi Hendrix e disse: 'Olha aí, que beleza!'. Depois descobri, ainda mais, que toda a estrutura rítmica da música popular é de origem africana. Sendo assim, é tudo nosso!”, diz Graxa. 

    Essa carência de músicos negros em músicas que não pertençam às tradições populares também pode ser percebida em outras artes, cujos espaços são ocupados geralmente por homens, brancos e, sim, héteros. No cinema pernambucano, por exemplo, há uma ausência de negros por trás das câmeras. Nas artes plásticas e na literatura também, são raríssimos. 

    Conversamos com alguns artistas sobre essa discussão necessária e que se refere ao passado, ao presente e ao futuro do Brasil. Veja abaixo:

    GRAXA
    Guitarrista e compositor



    “Eu acho que recebo muito mal por pessoas que recebem muito bem. Existem artistas negros que, acho eu, devam receber muito bem e o motivo é o mesmo que te falei na pergunta/resposta acima: porque existem pessoas que os legitimam até certa linha tênue e eles são brancos. Uma vez eu perguntei quais os artistas negros que surgiram no Recife nos últimos anos e muitos voltavam no tempo pra data que eu não especifiquei e a maioria desses exemplos eram músicos representantes das tradições populares. Tem a galera do brega que, pelo pouco que acompanho nesse nicho musical, existe uma grande quantia de representantes negros. Alguns deles devem ganhar bem também. Mas a maioria ganha mal e quando ganham, nem tem mais graça.”

    “Você vê o exemplo do Carnaval, das bandas de frevo de rua, pra ser mais exato. Quem sabe tocar algum instrumento vai ganhar miseravelmente pra passar mais de oito horas tocando por vários dias. Quem não sabe vai se fantasiar de garrafa de marca de bebida, ou fazer proteção de cordão de isolamento, ou vender latinha dessas mesmas marcas de bebidas. São coisas dignas, claro, todas essas funções, mas a troca de valores de dignidade não são as mesmas e o que eu quero dizer também é que existe um perfil que deve estar nessas posições de toda uma estruturação das representatividades culturais.”

    “O Brasil nunca gostou do rock. A época em que o Brasil só gostou do rock, que pode ser considerada, os anos 1980, foi guiada por pessoas brancas e ricas, que hoje são bem conservadoras e tal. Tá, tiveram os anos 1970, que eu consigo me lembrar de Raul Seixas como o mais rentável, mas todos os outros não faziam sucesso. Fazem hoje nessas revisitações dos jovens. Tinha também a Jovem Guarda, a Tropicália, né? Mas não são literalmente rock em si.”

    “O rock sempre foi maldito. Não é uma coisa boa ser do rock. Nunca foi. Quando o rock conseguiu mais expressividade foi em função mercadológica e a maiorias desses representantes, pra não se dizer todos, era branca. Brancos que pegaram uma música de originalidade negra e tomaram pra si, num mix de auxílio e respeito, ou não – como, por exemplo, a invasão britânica, com Stones, Beatles, Kinks e todos aqueles outros que faziam versões das músicas dos artistas negros para uma inserção e aceitação mercadológica. Sendo assim, dificilmente, um negro que socialmente tem mais possibilidades de ser pobre vai se identificar com um desses personagens que os meios de comunicação bombardeavam.”

    “Quando eu era mais guri, o que eu mais ouvia era: 'Isso é música de doido. Oxe! A pessoa vai ouvir uma coisa que num dá pra entender nada. Isso é música de Satanás. Esses caras tão tudo doidão!' E por aí ia! Mas era louco porque a turma ouvia músicas românticas, músicas de amor. Ou então ouviam música eletrônica, como Stevie B, Tony Garcia e tal, que são pessoas que cantam em inglês. O lance mesmo é que o Brasil nunca gostou do rock e quando gostou, foi sob essas circunstâncias. Dessa forma, dificilmente um neguinho iria se identificar com um personagem como, por exemplo, o roqueiro Dinho Ouro Preto. É mais fácil ele – eu – me identificar com Bezerra da Silva, Cartola, Evaldo Braga.”

    “Quando eu era guri, e fui conhecendo músicos do rock, eu pensava em duas coisas: a primeira era que eu poderia ser o primeiro negro do rock – Ai, Meu Deus, como eu era inocente e puro! – e a segunda coisa que eu pensava era que aquilo não era pra mim, pois não tinha negros. Isso eu era muito jovem mesmo, depois descobri Jimi Hendrix e disse: 'Olha aí, que beleza!'. Depois descobri, ainda mais, que toda a estrutura rítmica da música popular é de origem africana. Sendo assim, é tudo nosso!”

    “Quando fui tocar em São Paulo, teve uma pessoa que veio até mim e disse: é incrível como você não tem nada de regional.”

    “Teve uma vez que me disseram assim: 'Graxa, quando eu ouvi teu som, eu nunca imaginaria que você fosse assim'! (Assim como, bebê? Você pensava que eu tinha um Giroflex na cabeça?)."

    "Já entrei num camarim, no querido Pátio de São Pedro, e todos eram brancos e eu era o único negro. Aí um(a) grande formentador(a) cultural veio até mim e perguntou quem eu era, com quem eu estava, qual era a minha banda e eu nem conseguia responder, fui expulso violentamente do local.”

    “No mesmo Pátio de São Pedro, anos 2000, por aí, na época daquele limbo após o fim do Manguebeat, quando a gente tentava tocar, sempre perguntavam pela 'alfaia' na nossa banda.”


    ISAAR
    Cantora e compositora

    Foto: Diego Di NiglioFoto: Diego Di Niglio


    “A sociedade tem o lugar do negro. O lugar onde ele não incomoda. Existem também vários mercados na música. No mainstream, quem podemos encontrar? O Brasil vende a imagem do moreno. Uma forma mais atenuada e aparentemente menos pobre.”

    “Na minha carreira, teve o fato de começar numa banda de mulher. Mesmo me mantendo num mercado alternativo, a gente esbarra em situações desagradáveis quando ameaçamos ampliar nosso espaço. Quando eu falo em mercado alternativo, eu digo: 'Aqui me cabe, aqui eu posso, aqui não tem grana. Apenas sonhadores'.”

    JAM DA SILVA
    Cantor, compositor, músico e produtor



    “No campo da música há uma possibilidade de igualdade, é a profissão em que o negro é bem-visto, acho que nesse meio, é o único lugar onde não sinto preconceito. O racismo brasileiro é muito velado e pra identificar essas ações racistas nas negociações e dinâmicas de pagamento no mercado da música, é muito mais subjetivo e leve do que o racismo cotidiano. Percebo, sim, uma questão de classes sociais pesando bastante, pois a comunidade negra não está na classe social alta e isso pode ser um agravante, podendo detonar um preconceito diante de grupos da cultura popular.”

    “Ainda existe muito preconceito contra o negro na sociedade e acaba que alguns músicos que conseguem alcançar um lugar de status, não são isentos dos preconceitos que eles sofrem nesses espaços sociais em que vivem. O racismo é uma ideologia do mal, através da qual até hoje, em 2016, tentam impedir que nós, negros, tenhamos acesso aos bens simbólicos.”

    “Essa semana fui convidado a três jantares que estavam fazendo pra mim na zona sul do Rio de Janeiro, mais especificamente em Ipanema, e chega a ser previsível, acontecendo nas três vezes a mesma pergunta por parte dos porteiros: 'É entrega, é boy?'. Eu respondi: 'Boa noite, é entrega sim. Vou entregar meu coração ao casal que está me oferecendo um jantar na cobertura X'”.

    “No mercado internacional, nunca tive problemas em relacionamentos profissionais, cachês etc. Às vezes, consigo bons contratos e a falta de oportunidade limita essa expansão do meu trabalho nesses bons contratos. Acredito que a falta de oportunidades está ligada a uma questão de privilégios e sabemos que, no Brasil, privilegio é do povo branco. Recentemente, fui convidado pra lançar meu segundo disco, NORD, no Central Park em Nova York e não consegui ir, pois precisava de apoios nas passagens aéreas, procurei algumas pessoas e não deu certo. Sabemos que esses apoios financeiros são ou via edital público, ou por amizade, e com relação à amizade, ela é muito fechada em ciclos sociais, e todos sabemos historicamente que são ciclos de pessoas privilegiadas.”

    ÉRICO JOSÉ
    Ator e diretor teatral



    “Sendo o teatro um espelho da sociedade, ele reflete todas as questões e tensões que fazem parte do mundo à sua volta. O preconceito contra negros e negras é flagrante tanto na sociedade quanto no meio teatral. E facilmente identificável, a partir do momento em que a referência maior, em se tratando de história do teatro, literatura dramática e modelos de encenação e atuação é, fundamentalmente, eurocêntrica e/ou norte-americana, porém branca. Desde que ingressamos no teatro, somos forçados a cultuar um teatro pensado e feito por brancos, com seus cânones e suas estéticas. Se olharmos para o ensino do teatro, por exemplo, seja no âmbito acadêmico ou não, a referência ainda continua sendo a de uma Europa supostamente pura e branca. Esta mentalidade rapidamente impregna-se em qualquer pessoa que inicia, de forma sistemática, no universo teatral. As referências aos mitos gregos, aos momentos históricos italianos, ingleses, espanhóis e, sobretudo, franceses, são o que chamam de 'as bases do teatro', como se os povos africanos, por exemplo, não tivessem nenhuma influência sobre a teatralidade brasileira e, por conseguinte, como se as obras culturais brasileiras relacionadas à negritude não tivessem valor algum. Há uma ínfima quantidade de papéis negros na dramaturgia mundial e brasileira. E o pior: há uma anulação das práticas culturais e das questões socioculturais de cunho negro como problemática teatral. E isso desde a implementação do teatro no Brasil.”

    “Na mesma direção, a mídia televisiva e o cinema incorporam de forma assustadora e sem nenhum pudor uma imagem, em sua maioria, de um Brasil de padrão estético branco. Há, evidentemente, muitas discussões sobre essas questões, mas que conseguem minimamente dar visibilidade efetiva aos negros e às negras, sobretudo na televisão. Se compararmos quantitativamente, não há como negar que a imagem que se quer vender é de um país de feições brancas.”

    “Sofri e ainda sofro preconceito por ser negro. E as formas de preconceitos são inúmeras e, em dados momentos, camufladas e dissimuladas, mas não menos latentes. Desde as escolhas de papéis principais para uma produção à seleção da equipe principal do projeto, ou até o fato de que negros e negras precisam estar sempre provando que são capazes, ou melhor, que são virtuosos no que fazem, pois não adianta ser bom quando se é negro/a, é preciso ser excelente para conquistar algum espaço. E a luta é diária, não há trégua. Geralmente, o lugar reservado é o da cozinha e nunca o da grande sala.”

    “O que vejo é um mercado fechado para artistas negros e negras no Brasil como um todo, pois a tendência nacional é pensar um Brasil de cor clara, com questões que envolvem um imaginário branco. Quando se dá espaço aos artistas negros e/ou negras, sempre estamos vinculados aos estereótipos que ao fenótipo são atribuídos, como a sexualidade, as classes menos favorecidas, as questões de violência etc. Há uma dificuldade abissal de se pensar o negro e a negra fora destes parâmetros e o que acontece é um reforço de uma mentalidade que se perpetua e que contribui de forma danosa para uma mudança de pensamento de base sobre as questões sociais que envolvem esse segmento da sociedade.”

    WANDER SHIRUKAYA
    Professor e escritor



    “Espaços como o das artes não são para nós, isso por causa da condição quase geral de vulnerabilidade em que vivemos. Por causa disso, precisamos nos preocupar com demandas mais urgentes, que nos afastam de outras atividades que queiramos exercer. É verdade que temos tido bons avanços nas últimas décadas, mas a condição que prevalece ainda é a da vida à margem, seja das artes, do lazer e das demais relações sociais. Talvez por isso você encontre mais artistas negros envolvidos com a literatura marginal. Aqui na Mata Norte, por exemplo, vários escritores da região estão fazendo algumas ações nas escolas do estado mostrando poesia e publicações independentes. A maioria deles é negra e engajada em coletivos literários. Ou seja, a literatura marginal acaba se tornando uma importante forma de resistência.”

    “Não posso dizer que não há ações que busquem melhorias. Aqui em Itambé, há uns dois anos, um professor ganhou um prêmio nacional com um projeto para que seus alunos deixassem de ter vergonha de si mesmos, ou seja, temos profissionais cada vez mais sensibilizados e empenhados em minimizar esses efeitos do preconceito. Isso também vale para o estado. O grande problema é que ainda temos um investimento pequeno. As pessoas mais vulneráveis são sempre as primeiras a sofrer com crises e cortes de gastos por parte dos governantes em geral. Deveríamos priorizar ações que proporcionem mais oportunidades para os negros e demais minorias. Gradativamente, a criança que hoje se sente mal ao ver que o mundo não é para ela vai pensar diferente.” 

    “No meio literário, nunca sofri preconceito (ao menos não que eu tenha percebido), apenas alguns preconceitos velados em alguns estabelecimentos, lojas etc.”