• As mulheres na literatura fantástica

    Lovis Corinth Lesendes Mädchen, 1888. Imagem: ReproduçãoLovis Corinth Lesendes Mädchen, 1888. Imagem: Reprodução

     

    Tendo como precursora no Brasil Emília Freitas, essa produção, que enfatiza a aventura e o mistério, é hoje realizada de forma independente pelas autoras

    Emília Freitasera uma escritora rebelde. Nasceu no Ceará, em 1855, e desde os 18 anos passou a publicar contos e poesias nos jornais locais. Ela é a autora deA rainha do ignoto, lançado em 1899, livro que permaneceu praticamente obscuro na história da literatura brasileira, sendo somente impressa uma segunda edição em 1980. Caracterizada pela própria como um “romance psicológico”, a obra de Emília Freitas é considerada a primeira de literatura fantástica do país. Logo nas primeiras páginas, apresenta seu livro quase como um desafio aos escritores brasileiros de sua época, a quem dedica o trabalho: “Ei-la delapidada como um diamante arrancado do seio da terra e oferecido por mão selvagem”.

    Ainda que outras obras mais antigas do queA rainha do ignotopossuam elementos do fantástico, tais comoNoite na taverna,de Álvares de Azevedo, é venerável a participação esquecida de Freitas para a construção desse gênero que, ultimamente, cresce em popularidade, especialmente nas redes sociais. No romance, a autora ultrapassa os limites impostos pela cultura sexista da sociedade do Império, desafiando o “papel-lugar” da mulher; em outras palavras, o enredo poderia se encaixar perfeitamente numa história produzida nos tempos atuais. Em seu “clássico escondido”, a rainha é um ser mágico, carregado de doçura e mistério, que viaja pelo Brasil “salvando” mulheres de suas realidades sufocantes e opressoras. A Ilha do Nevoeiro, por fim, é o local onde uma sociedade secreta é formada por essas mulheres resgatadas, que desenvolvem atividades atípicas para seu sexo na época: são advogadas, médicas, engenheiras, donas de si. Portanto, ao contemplar esse livro específico de Emília Freitas, a representatividade da mulher no campo da literatura é um tema de indubitável importância.

    No Brasil, escritores do fantástico já se consagraram no meio, a exemplo de André Vianco, autor de inúmeros livros bem-sucedidos comercialmente; Eduardo Spohr, deA batalha do apocalipse(Versus Editora, 2010), traduzido em outros idiomas; e Raphael Draccon, com sua trilogiaDragões de éter(LeYa, 2011). A própria Lygia Fagundes Telles, autora de clássicos com elementos do fantástico, comoSeminários dos ratos(1977), também já se consagrou. Entretanto, ao olharmos para as estantes de literatura fantástica nacional, ainda parece existir um vácuo de nomes femininos.

    Ao questionarmos sobre representatividade, é necessário pensar numa idiossincrasia por parte de dois polos: mercado e autoras. Por exemplo, quando J.K. Rowling terminou seu rascunho deHarry Potter e a pedra filosofal, várias editoras disseram que as pessoas não leriam um livro de fantasia escrito por uma mulher. Eis o motivo da abreviação de seus nomes Joanne Kathleen (este sendo o nome do meio) ao seu sobrenome.

    No Brasil, o mercado literário é muito fechado para autores nacionais. Mas sinto que muitas coisas estão mudando, o que é gratificante”, explica Bianca Carvalho, daTrilogia das cartas, lançada de forma independente. Sua estreia foi com o primeiro volume da saga,Jardim de escuridão, durante aBienal do Livro Rio, em 2011. Na edição seguinte do evento, vendeu 600 exemplares do segundo volume,Versos sombrios. “Eu acho que elas estão chegando. De mansinho, mas vão aparecendo. Há muito preconceito ainda, principalmente vindo do público masculino, que, mesmo sabendo que existe uma J. K. Rowling (e muitas outras), ainda torcem um pouco o nariz. Temos muitas coisas publicadas de forma independente, porque algumas editoras fecham as portas. O que falta no mercado brasileiro é mais ousadia”, acrescenta Bianca, em entrevista àContinente.

    Carolina Vasconcelos, estudante de Psicologia na Faculdade de Saúde de Pernambuco (FPS), define-se como uma leitora ávida de literatura fantástica, mesmo assim, não lembra ter lido autores nem autoras nacionais. Ela diz que começou a admirar esse gênero na infância, pelos contos de fada. “O melhor é que não tem nenhum ou quase nenhum toque de realidade. Quando você é uma criança e sua realidade não é segura, ou não faz com que você se sinta segura, uma coisa completamente fora dela te ajuda muito”, categoriza a estudante.

    Olhando em retrospecto ao contexto histórico da literatura fantástica no Brasil, vimos que, por muitos séculos, esse gênero era subestimado pelos críticos: é o que aponta a professora doutora Maria Cristina Batalha em entrevista para a revistaDesassossego, da USP. A pesquisadora é especialista em literatura fantástica no país, estudando também o Romantismo e Ultrarromantismo. Em entrevista concedida por e-mail àContinente, afirma que – nos dias atuais – o papel da mulher nesse nicho literário vem aumentando, uma vez que “uma retomada do gênero de um modo geral e a sequência de filmes, quadrinhos, livros, no Brasil e no mundo, trouxeram de volta o fantástico e suas variantes (gótico, horror, maravilhoso, fantástico, ficção científica etc.)”.

    Essa manifestação literária, embora com presença relativamente forte no Romantismo, era tida como ‘não séria’, vinculada à literatura de baixa qualidade ou àquela que era dirigida às mulheres, por gostarem de histórias escabrosas. Por conta disso, era sistematicamente excluída dos espaços de alto valor simbólico, como livros, antologias, currículos escolares”, acrescenta Batalha.

    Leia matéria na íntegra na versão impressa da Continente de maio 2017 (n. 197)

  • Hibisco roxo no Leia Mulheres Recife

    DivulgaçãoDivulgação

     

    A décima edição do clube de leitura Leia Mulheres de Recife, projeto que busca discutir e trazer luz à literatura produzida por mulheres, debate no mês de junho o livro Hibisco Roxo, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que vem ganhado destaque pelas suas palestras internacionais sobre feminismo e cujo último livro, Americanah, trata da vida de uma imigrante nigeriana nos Estado Unidos.

     

    Já a obra a ser discutida no encontro, Hibisco roxo, se passa na Nigéria pós-colonial destroçada economica e socialmente, e é narrada pela perspectiva da personagem principal, Kambili Achike, uma adolescente de 15 anos que junto com sua mãe e irmão, sofrem violências físicas e psicológicas nas mãos do patriarca da família, o seu pai.  Toda a obra da autora levanta questões como racismo, machismo e a situação da Nigéria. O debate será mediado pelas jornalistas Carol Almeida e Priscilla Campos.

     

     

    Serviço:

    Leia Mulheres #10 - Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

    Quando: 22 de junho de 2016 - 19h30

    Onde: Edf. Texas (Rua Rosário da Boa Vista, 163, Boa Vista - Recife PE)

    Quanto: Entrada Gratuita

     

  • Uma semana para pensar 2016

    Elvira Vigna vem para o Leia Mulheres. Foito: TV HumanaElvira Vigna vem para o Leia Mulheres. Foito: TV Humana

    A literatura e o universo das palavras, de uma forma geral, são uma ferramenta potente para pensarmos a atualidade. Com o tema Narrativas possíveis do presente, a Semana do Livro de Pernambuco estreia sua primeira edição no Museu do Estado de Pernambuco, no fim deste mês (dia 30), com o propósito de discutir o que marcou o ano de 2016, em termos políticos e sociais, através da visão literária. Seguindo até o dia 4 de dezembro, o evento promoverá encontros, debates e mesas redondas com escritores, jornalistas e críticos literários renomados. 

    "A ideia é fazer deste um evento anual, sendo sempre uma problematização do que aconteceu no decorrer do ano. Por isso, os painéis vão sempre se chamar Narrativas possíveis do presente, o agora nunca termina", diz o curador Schneider Carppegiani, editor do Suplemento Pernambuco. "A gente parte da literatura, mas não se fecha nisso", explica.

    Entre as convidadas, virão nomes de peso da literatura contemporânea brasileira, como Elvira Vigna, que conversa no projeto Leia Mulheres sobre o seu romance Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, um dos destaques entre os lançamentos editoriais deste ano no país. A jornalista e escritora Eliane Brum, colunista do El País, vinha para uma conversa de reflexão sobre o jornalismo em 2016, mas acabou cancelando sua participação.

    E por falar neste ano difícil, quem abre a programação dos painéis Narrativas possíveis do presente é o crítico e escritor José Castello com uma masterclass sobre O processoromance de Franz Kafka, como ferramenta para refletir o papel do judiciário nos últimos meses, no Brasil.

    A programação é voltada para adultos e crianças. Com apoio do Ministério da Cultura (MinC), a Semana do Livro de Pernambuco é realizada pela Cia de Eventos/Ideação, nome por trás da Bienal do Livro de Pernambuco. Além dos debates, também acontecerão shows, performance do Magiluth e apresentações culturais. 

    Todo o evento é aberto ao público. "Para participar, é só chegar", convida o curador.

    O Museu do Estado fica na Avenida Rui Barbosa, 960, Graças, Recife/PE.

    PROGRAMAÇÃO:

    30 DE NOVEMBRO (QUARTA-FEIRA)

    Painéis | Narrativas possíveis do presente

    15h - 2016 sob o signo de K
    O crítico e escritor José Castello abre o painel Narrativas possíveis do presente com uma masterclass sobre O processo, romance de Franz Kafka, como uma forma de pensar o ano judiciário que foi 2016. 
    Local: Auditório Cícero Dias

    17h - A escrita como resgate
    O escritor Bernardo Kucinski (Os visitantes, K.) e a tradutora e escritora Ivone Benedetti (Cabo de guerra) falam sobre a literatura como estratégia para dar voz às vítimas da ditadura brasileira das décadas de 1960 e 1970.
    Local: Auditório Cícero Dias

    18h30 - Lançamento da Bienal do Livro 2017 e estreia do projeto O ano das lágrimas na chuva
    Além das novidades da próxima edição da Bienal, a primeira edição do projeto que, durante 2017, levará o escritor e cineasta Fernando Monteiro a debater com poetas brasileiros. Para a estreia, Adelaide Ivánova (O martelo, Polaróides), poeta e fotógrafa pernambucana radicada na Alemanha. 
    Local: Auditório Cícero Dias

    20h - Performance Obreiros, do grupo Magiluth (PE)
    Local: Área externa – Palco Espaço Livro Aberto

    18h – Lançamento do livro Pegadas de um sertanejo - Vida e memória de José Saturnino, de Antonio Neto e José Alves Sobrinho
    Local: Área externa

    1º DE DEZEMBRO (QUINTA-FEIRA)

    Painéis | Narrativas possíveis do presente

    17h30 - Leia Mulheres recebe Elvira Vigna
    A autora conversa sobre seu romance Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, que traz um olhar ácido sobre a atual sociedade.
    Local: Auditório Cícero Dias

    19h - Lançamento do livro A história incompleta de Brenda e de outras mulheres, de Chico Ludermir
    O fotógrafo e jornalista Chico Ludermir fala sobre seu processo criativo com as mulheres trans que perfila em sua obra, lançada pela Confraria do Vento.
    Local: Auditório Cícero Dias

    Espaço Livro Aberto

    18h – Bate-papo com Léo Asfora
    Local: Área externa

    18h45 – Apresentação do grupo Cacuriá de Dona Teté
    Local: Área externa - Palco

    20h – Apresentação musical com o grupo Em Canto e Poesia
    Local: Área externa - Palco

    2 DE DEZEMBRO (SEXTA-FEIRA)

    Painéis | Narrativas possíveis do presente

    16h - Campus em disputa
    Conversa sobre as formas de resistência e de luta por direitos na universidade pública, a partir dos modos de agir na ou a partir da instituição. Com as presenças de Dandara Luísa Alves (graduanda em Ciências Sociais, integrante do Laboratório de Estudos em Sexualidade Humana e estagiária da Diretoria LGBT – UFPE), Chico Ludermir (jornalista e artista multimídia), Maria Eduarda da Mota Rocha (professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia – UFPE) e Yvana Fechine (professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação – UFPE).
    Local: Auditório Cícero Dias

    17h30 - A gestação dePérolas porcas
    Raimundo Carrero recita e comenta textos do seu romance a ser lançado em 2017, Pérolas porcas (Iluminuras)
    Local: Auditório Cícero Dias

    Espaço Livro Aberto

    20h - Apresentação musical de Isaar França e Maciel Salu
    Local: Área externa – Palco

    3 DE DEZEMBRO (SÁBADO)

    Painéis | Narrativas possíveis do presente

    16h - As vantagens de ser malvado – O quadrinista André Dahmer (O Globo/ Folha de S. Paulo) em debate com a jornalista Carol Almeida sobre o trabalho de transformar em imagens os conflitos da sociedade. Auditório Cícero Dias

    17h30 - Livrarias: vocação humanística? Uma conversa entre Lourival Holanda (professor do Departamento de Letras da UFPE) e Daniel Bandeira Louzada (atual proprietário da carioca Livraria Leonardo da Vinci), com mediação do curador Schneider Carpeggiani, sobre o papel humanístico, para além do comercial, que precisam ter as livrarias. Auditório Cícero Dias

    Espaço Livro Aberto

    15h – Lançamento do livro Religiosidade Popular, de Silvério Pessoa com apresentação de Roberto Motta. Auditório Cícero Dias

    18h30 – Bate papo com os escritores Andréa Nunes e Sidney Niceas. Área externa

    19h - Lançamento do livro Guerra de ninguém
    O escritor Sidney Rocha autografa e conversa sobre seu novo livro de contos, Guerra de ninguém (Iluminuras)
    Local: Auditório Cícero Dias

    20h – Apresentação de Zelito Nunes e Eugênio Jerônimo - Humor na feira
    Local: Área externa - Palco

    4 DE DEZEMBRO (SÁBADO)

    Painéis | Narrativas possíveis do presente

    15h - Como fazer a magia de Harry Potter funcionar
    Monica Figueiredo, editora da Rocco responsável, no Brasil, por todos os livros da série Harry Potter, conversa sobre o processo de implantação e manutenção da marca Harry Potter.
    Local: Auditório Cícero Dias

    17h - Booktubers – Modos de ser e usar
    Uma conversa com a booktuber catarinense Pam Gonçalves, que tem quase 200 mil inscritos no seu canal do YouTube, sobre o que implica a expressão “booktuber” e como sobreviver a ela.
    Local: Auditório Cícero Dias

    Espaço Livro Aberto

    15h - Apresentação do escritor e poeta Sidney Niceas do seu livro Noite em Clara.
    Local: Área externa

    18h - Apresentação do poeta Miró. Área externa

    18h - Bate papo com Patrícia Maês e Sidney Niceas
    Local: Auditório Cicero Dias

    Oficinas e cursos

    Dias 1º e 2 de dezembro – quinta e sexta-feira
    14h - Mitologia e feminino, com Carolina Leão
    Local: Auditório Cícero Dias

    Dias 3 e 4 de dezembro – sábado e domingo
    9h – Atividades lúdicas cantadas, com Rose Jarocki e Pedro Ivo da Silveira (Cia do Lazer).
    Local: Bienalzinha

    Dia 4 de dezembro – domingo
    9h – Oficina cartonera, com Wellington Melo
    Local: Área externa