• Adeus, Guita Charifker

    Aquarela de Guita é inspiração de vidaAquarela de Guita é inspiração de vida

    Abandonei
    a sala antes de projetarem as imagens de cachoeiras, vales, lagos, despenhadeiros e campos floridos, com frases sobre o bem e a eternidade. O mesmo repertório de outras despedidas, a músicanew age e as pétalas de rosas caindo do alto, enquanto o ataúde era engolido para dentro de um espaço obscuro. Imaginei a morta sentada numa poltrona na primeira fila do velório, olhando a cena com humor cáustico e reclamando.

    Por que não escolheram uma canção de Chico Buarque? Melhor se mostrassem minhas aquarelas, ao invés dessas paisagens!

    Guita Charifker morreu. Antes que ela virasse sonho eterno, já havia largado a pintura há mais de dez anos e, lentamente, como crepúsculo boreal, a paixão pela vida. Fiel à sua rebeldia exigiu ser cremada, contrariando as leis do povo judeu.

    Espalhem as cinzas no jardim de minha casa.

    A casa do Amparo, em Olinda, que ela comprou e restaurou com a venda de desenhos e aquarelas. Ampla, alta, caiada de branco, dando para o quintal e os jardins, que haviam sido um horto botânico, há muitos anos. As portas e janelas se abriam para o mundo, acolhedoras às ideias arejadas e às pessoas amigas. Guita e a casa viraram uma mesma entidade generosa e desapegada.

    Entre, fique pro almoço. Joaninha fez um doce de banana com frutas do quintal.

    (Joaninha, a servidora fiel, partiu um mês antes. Foi abrir a porta do céu e arrumá-lo.)

    Guita fala por nada uma de suas frases habituais:

    É muita coisa acontecendo.

    Muita, nos papéis espalhados sobre a mesa de trabalho e com os pincéis trazidos do Japão por alguém.

    Nem lembro quem trouxe, ando esquecida. Envelhecer é péssimo.

    Acende um cigarro.

    Dizem que faz mal. Eu, hein? Uma coisa tão pequena fazer mal!

    E logo em seguida:

    Só quero viver enquanto trabalhar. É chato depender dos outros.

    Mostrava os pés de jasmim floridos. No fundo do quintal, o cajazeiro secular tombou. Queixava-se das freiras de Santa Gertrudes. Não sei o que elas fizeram, mas eram as culpadas, eu concordava.

    O pior é o calor. Sou judia de Olinda, a reencarnação de Branca Dias. Dizem que ela jogou as jóias no rio do Prata. Minha avó perdia tudo o que usava. Um dia, eu saí pro carnaval, e quando voltei pra casa estava sem o anel de brilhante. Não sei quem arrancou do meu dedo.

    Um presente do sogro joalheiro.

    Seu Samuel me deu muitas joias. Empenhei todas na Caixa do Rio de Janeiro e nunca fui buscar. Eu, hein? Não me acostumo ao calor. Minha família veio da Ucrânia, lá faz bastante frio.

    O pai e a mãe chegaram da Europa Central, no porto do Recife, em 1915, fugindo aospogroms, aos campos de concentração, ao holocausto. Guita nunca tinha certeza do local exato de origem. A geografia na Europa se redesenhou em sucessivas guerras, revoluções e anexações de territórios.

    Rosa e Salomão Greiber parecem pequenos, numa foto com Guita e o filho mais novo. Há tanta beleza e harmonia no retrato, dói saber que os dois morreram cedo, vítimas de tuberculose.

    O neto lê um necrológio em que lembra o ecumenismo da avó. Ela se declarava uma judia filha de Oxum, devota de Santa Clara, simpatizante de religiões orientais.

    Que sua recusa a qualquer tipo de intolerância sirva de exemplo, proclama.
    Amém.

    Às nossas costas, fecham as portas corrediças e ficamos trancados no cubículo. Vai ter início a solenidade de cremação.

    Revejo fotos de corpos amontoados em carroças, levados aos crematórios. Não consigo não pensar nessas coisas. Lacan fala em deslizamentos do inconsciente. As portas fechadas e o crematório me provocam avalanches de lembranças. Fujo da sala claustrofóbica. Lá fora, a tarde se põe linda, alegre como as aquarelas de Guita. Viva a vida! Sempre. Ela diria bebendo o uísque, fumando um cigarro, abrindo a mapoteca onde guardava os trabalhos que escapavam às vendas e aos presentes.

    Escolha uma gravura para Avelina.
    Não, Guita.
    Eu quero dar.

    Nas paredes da casa, desenhos minuciosos a bico de pena, figuras antropomórficas, que o tempo e a umidade de Olinda escureciam.

    Você é desleixada, Guita. Não basta ser pintora, é preciso zelo, catalogar o que faz. Com quem está o que saiu da mapoteca? Quem anota o destino do que você pinta?
    Não nasci com vocação para burocrata. Sou uma artista.

    Que pintou no México; em Santa Tereza e na Urca, quando morou no Rio de Janeiro; em Taiba, no Ceará; na ilha de Fernando de Noronha; séries exuberantes no Sítio Santa Clara, em Paulo de Frontin; muito em Olinda. E, bem mais tarde, na paisagem agreste de Chã Grande.

    Gosto desse ocre das novas aquarelas.

    Ela finge indiferença ao meu comentário. Respiramos as flores do jardim úmido. Há entre nós uma nostalgia lamuriosa. Conto pedrinhas recolhidas no quintal e nas viagens, arrumadas meticulosamente num batente do terraço. Uma ordem obsessiva. A mesa de trabalho se entulha de caixas vazias de chocolate, queijo, biscoitos... Parecem obedecer a um projeto. O mesmo do caixão de pinho, onde gravaram a estrela de Davi, as inicias do nome, e o corpo descansa por último, lacrado, sem chance de ser visto novamente. Um costume judaico que aprecio.

    Já vou, grita a velha empregada Joana, no andar de cima.
    Até amanhã, responde Guita.

    Os sabiás bebem água, escuto a porta bater, aceito um cigarro. Talvez seja o momento de ir embora. Contemplo a mulher com olhos sombreados de azul e batom rosa claro nos lábios. Já não sei que tempo é esse, se ontem, hoje ou amanhã. Distraí-me. Ela fala que não tem vocação para o casamento e que não há mistério em pintar aquarelas, basta água, tinta e paciência. Sorrio e me pergunto quantas vezes escutei isso. Abraço a artista admirável, sinto a força de nossa amizade.

    Lembro versos do poeta Assis Lima:

    Cabe-nos o presente,
    que, por sinal, já passou.”

    Despeço-me.

    Adeus, Guita, até quinta-feira. 

  • Baile da Rabeca no Ximxim da Baiana

    Capa: Baile de Rabeca - Maciel Salú Capa: Baile de Rabeca - Maciel Salú

     

    Maciel Salú leva até o Xinxim da Baiana a oitava edição do Baile da Rabeca para entrar no clima junino. Nesta edição, o rabequeiro convidou três artistas para tocar: o violinista Israel de França e os rabequeiros Flávio Souza e Thiago Martins. A festa acontece na sexta-feira (03/06), às 22h, no Xinxim da Baiana e os ingressos podem ser comprados no Eventick: www.eventick.com.br/macielsalu.

     

    Dentro do repertório do show, está o novo álbum de Maciel, Baile da Rabeca, além de músicas dos antigos álbuns do artista, A pisada é assim, Na luz do carburetoMundo. É possível ouvir as discografia de Maciel Salú no site do artista: macielsalu.com.br/musicas.

     

     

    Serviço:

    Baile da Rabeca no Xinxim da Baiana

    Quando: 3 de junho de 2016 - 22h

    Onde:Xinxim da Baiana (Rua Doutor Manoel de Barros Lima, 742, Bairro Novo - Olinda PE)

    Quanto: R$ 15

     

     

  • Capoeira Angola do Recife e de Olinda é destaque de filme

    Cena do filme sobre capoeira Angola. Foto: DivulgaçãoCena do filme sobre capoeira Angola. Foto: Divulgação

    As relações entre capoeira, mulher, corpo, dança e autonomia roteirizam o documentário Jogo aberto: conversas sobre a capoeira Angola do Recife e de Olinda, da professora de Dança da UFPE, Gabriela Santana. O filme releva um debate entre ela e 12 mestres da luta sobre o que caracteriza a capoeira Angola, cuja técnica remete à tradicionalidade do que foi conhecida como “capoeira dos escravos”. O lançamento do doc será neste sábado (26/11), no Centro Cultural Grupo Bongar Nação Xambá, em Olinda.

    Por possuir essa característica de preservação dos costumes antigos, a capoeira Angola é referência atual, em movimentos suaves e técnica mais lenta, do passado dos escravos. Os “angoleiros”, como são chamados os que aventuram-se nesse tipo de luta/manifestação, não deixam espaço para aberturas ou mudanças na técnica de se jogar/lutar, mantendo a tradição intocada. Durante a roda de conversa em Jogo aberto, levantou-se a reflexão de que, antigamente, tanto no Recife quanto em Olinda – também num âmbito nacional – só se falava em capoeira regional, mas já faziam capoeira Angola através do Mestre Cobra Mansa, um dos fundadores da Fundação Internacional Capeira Angola.

    Abastecido por um objetivo educacional, o filme terá mil cópias distribuídas para escolas, cursos de dança, cinematotecas e instituições, uma vez que há pouco registro a respeito do tema.

    Serviço:
    Lançamento de Jogo aberto: Conversas sobre a capoeira Angola do Recife e de Olinda
    Sábado, 26 de novembro, às 19h
    Centro Cultural Grupo Bongar Nação Xambá
    Entrada gratuita

  • Festival Cena CumpliCidades segue até domingo, 6/11

    "De cómo estar con otros" (ARG) é encenado no sábado (5/11)"De cómo estar con otros" (ARG) é encenado no sábado (5/11)

    A etapa Recife-Olinda do festival Cena CumpliCidades segue em cartaz até o domingo, dia 6/11, com uma programação que prioriza espetáculos de dança e o intercâmbio entre cidades iberoamericanas. São cerca de 20 trabalhos com artistas do Brasil, Uruguai, Peru, Argentina, Espanha, além de obras da Suíça, da França e do Canadá. Confira abaixo o que está rolando.

    PROGRAMAÇÃO:

    >> Sexta-feira (4/11)

    EDIFÍCIO TEXAS (Espaço do grupo Magiluth)
    Oficina Plongée – Dança nas bibliotecas do Brasil
    Com Ilana Elkis e Joana Ferraz (São Paulo-Brasil)
    9h às 13h

    BIBLIOTECA PÚBLICA DE OLINDA
    Plongée (reprise)
    Ilana Elkis e Joana Ferraz (São Paulo-Brasil)
    15h e 17h

    TEATRO APOLO
    Turbio
    Carla Di Grazia (Buenos Aires-Argentina)
    Turbio nasce dentro de um processo de trabalho de Carla Di Grazia que derivou em um ciclo de solos chamado Manifesto, na cidade de Buenos Aires, Argentina, junto aos seus colegas de dança Sebastião Soares, Pablo Castronovo e Alina Folini. Para a realização dos solos, os artistas se perguntaram: Como manifestar o que está latente? Que forças movem-se sós?
    19h

     

    TEATRO HERMILO BORBA FILHO
    Homem torto
    Eduardo Fukushima (São Paulo-Brasil)
    Homem torto é uma dança não simétrica que sugere um corpo frágil, mas com o vigor dos fortes. É uma dança que une opostos como a dureza e a leveza, a fragilidade e a força, o estar perto e longe do público, o equilíbrio e o desequilíbrio, movimentos fluidos e cortados, o dentro e o fora do corpo.
    20h

    >> Sábado (5/11)

    TEATRO APOLO
    MoralAmoralInmoral
    Agustina Fitzsimons, Brenda Lucía Carlini, Marta Salinas y Milva Leonardi
    (Buenos Aires-Argentina)
    MoralAmoralInmoral propõe um ensaio de prova e erro na busca de respostas a inquietudes sobre a moral e as formas contemporâneas de composição cênica. A obra se constrói até chegar a uma inevitável destruição de suas cenas na tentativa de esvaziar e ressignificar a moral.
    19h

    TEATRO HERMILO BORBA FILHO
    De cómo estar con otros
    Celia Argüello (Buenos Aires-Argentina)
    Ao estar frente ao outro tivemos que nos deter. Pensamos que era possível nos desligar do contexto, abstrair-nos. Acontece então de novo, o corpo como experiência finita nos esbarra com o hábito, o social, os laços, o gesto. Um interrogante sobre a relação com o outro, um plano de execução, um transformar de ações ou uma miscelânea de significantes.
    20h

    >> Domingo (6/11)

    TEATRO APOLO
    Caminos
    Cia Puckllay (Lima-Peru)
    Proposta cênica multidisciplinar e testemunhal de criação coletiva. Inspirada nas histórias reais das famílias de “Lomas de Carabayllo”, um enorme assentamento humano, habitado por gente emergente e trabalhadora, localizado na periferia de Lima em situação de risco devido a múltiplos fatores. Caminos explora o tema da migração desde as províncias à cidade de Lima. O argumento conta a história, sonhos, ilusões e dificuldades de oito migrantes que, impulsionados por diversas necessidades, decidem deixar suas terras e partir para a capital, com o objetivo de buscar um futuro melhor.
    16h

    TEATRO HERMILO BORBA FILHO
    Moeraki
    Cia Soares-Castronovo-Di Grazia (Buenos Aires-Argentina)
    Moeraki questiona a existência de corpos pré-programados que respondem a estímulos das seguranças garantidas, propondo-lhes um lugar entre. Os criadores repensam a condição do ser humano como algo dual definido pelos gêneros, e suas características e performances culturais/sociais. O espetáculo parte do princípio que formamos um universo de imagens e afetividades a partir dos nossos hábitos culturais e, na maioria das vezes, a partir da nossa condição biológica ou de gênero.
    17h

  • Guita Charifker: "A arte é divina. Amo! Viva a arte!"

    Arte sobre aquerela e foto de Guita Charifker em seu jardimArte sobre aquerela e foto de Guita Charifker em seu jardim

    Em abril de 2001, na edição nº 4 da revista Continente, a seção Lição de Arte publicou uma conversa do escritor Ronaldo Correia de Brito com a artista Guita Charifker. Um papo sensível entre amigos ou o cumprimento de uma promessa dela, que disse um dia dar a ele "a entrevista que nunca havia dado a ninguém". Na ocasião, ela estava com 64 anos e afirmou que gostaria de pintar até os 80. Foi justamente com esta idade que ela nos deixou. Morreu nesta sexta (3/2), no Recife. Relembrando a sua passagem por aqui, a sua existência sinônimo de Olinda e beleza, republicamos na íntegra, abaixo, a entrevista com a artista, esta que foi um dos expoentes da arte pernambucana.

    Guita Charifker: a sagração da natureza


    A aquarelista, desenhista e pintora de Olinda celebra a vida e a natureza, como uma sacerdotisa dos pincéis


    Conheci Guita Charifker no Atelier Coletivo, na Rua de São Bento, em Olinda, numa tarde em que os artistas do grupo se reuniram para uma matéria com a imprensa. Baccaro se agitava de um lado para o outro e Samico, como sempre, se mantinha calado. Não lembro o que faziam Luciano Pinheiro e José de Barros. Guita dava acabamento numa gravura em metal, tomando uma cachaça preparada por ela mesma, com rótulo da garrafa desenhado por Zé Cláudio: “Pau Dentro”. Gil Vicente não tinha vindo ao encontro e Eduardo Araújo estava viajando. Havia uma certa euforia nas pessoas, um esforço em manter funcionando o Atelier, que não andava bem das pernas.

    A senha da amizade com Guita foi dada por Baccaro, quando me apresentou como romeiro de Juazeiro do Norte. Em pouco tempo, eu estava adentrado no coração da desenhista, pintora, gravadora e aquarelista. O Ceará tinha a mesma luz do México, a Praia de Taiba dera uma série de aquarelas, ela amava os cearenses. Melhor para mim. Três dias depois, eu batia a aldrava da porta da casa de Guita, no Amparo, com um ramalhete de flores amarelas, cor do orixá de quem ela se diz filha: Oxum.

    Nesses anos em que partilhamos alegrias e angústias comuns, como o judeu Spinosa que polia as suas lentes e o seu pensamento de filósofo, demos polimento na nossa amizade, esta que considero a mais elevada das artes. Ao mesmo tempo, iniciei-me como estudioso e apreciador do desenho e da aquarela de Guita, impressionado com a independência da sua criação, com o seu modo de ver o mundo e a natureza que tanto ama.

    Guita prometeu-me dar a entrevista que nunca havia dado a ninguém. Não sei se é esta. É bom que o artista nunca se desfaça dos seus mistérios. Que esteja sempre por revelar-se. Surpreendente a cada criação, como na arte de Guita, onde os mesmos símbolos se repetem originais, como o sol que nasce diferente todos os dias. É falando dessa vontade de criar que ela principia a sua conversa comigo.

    "Quando criança, já gostava de desenhar. Eu devia ter sete anos e estava numa mesa desenhando, quando um primo me olhou e disse: 'Essa menina tem talento. Hoje, sei que toda criança tem talento. Quando dou um ateliê de aquarela, explico que o desenho é como a nossa letra. Para os chineses, isto é um fato consagrado. Um “m” é um arabesco. Escrevê-lo é como desenhar um animal, o tronco de uma árvore ou uma flor. Levei muitos anos desenhando sozinha. Um dia, andava pela Rua Velha, na Boa Vista, vi uma janela aberta e, através dela, pessoas desenhando. Eu tinha 16 anos. Se não fosse esse momento, não sei o que teria sido a minha vida. Descobri que aquele era o Atelier da Sociedade de Arte Moderna do Recife, dirigido por Abelardo da Hora, frequentado por Samico, Zé Cláudio, Wellington Virgolino, Ivonaldo Marins e outros. Fui aceita como aluna e fiquei vários anos. Ali comecei a minha vida e compreendi o que é arte: a troca com outros artistas, a vida coletiva."

    CONTINENTE Você teve excelentes mestres, como Aloisio Magalhães, e foi companheira da melhor geração de artistas plásticos de Pernambuco. O Atelier de Arte Moderna era um mundo só de homens?
    GUITA CHARIFKER Não, tinha Celina Lima Verde, Maria de Jesus Costa e eu. Mas ainda éramos minoria. Representava um milagre, naqueles idos de 1954, poder frequentar um ateliê onde predominavam homens. Abelardo da Hora era um professor generoso, que percebia o caminho de cada aluno. Meu irmão até desenhava melhor do que eu. Mas desenho é paixão. Eu tinha essa paixão, coisa que ele não tinha. Quando não estava desenhando, eu sentia saudade. Comecei esculpindo. Amassei muito barro. Quando esculpia e voltava para casa, é como se tivesse deixado uma pessoa esperando por mim no ateliê. Retornava no dia seguinte na maior alegria. Ao mesmo tempo em que descobria a minha arte, me apaixonei por um rapaz, Júlio Charifker.

    CONTINENTE Da forma como você lembra é como se houvesse uma incompatibilidade entre amar um homem e gostar do próprio trabalho. A quem você estava mais apegada?
    GUITA CHARIFKER Não dava pra saber. Aos dois. Mais adiante, ao meu trabalho. Porém, muito mais adiante. Depois de três anos de namoro, Júlio Charifker me pediu em casamento. Pensei: se tenho de ser uma artista medíocre, é melhor casar. Eu tinha muita vontade de ter filhos. Casamos em 1957 e um ano depois, nasceu minha filha Rosali e dois anos depois, o meu filho Saulo. Um dia, quando me penteava diante de um espelho, me perguntei: 'O que estou fazendo da minha vida?' Eu devia fazer alguma coisa além de cuidar de filhos e casa. Voltei a ter aulas com Abelardo da Hora, dessa vez na Associação Cristã Feminina. Pintava a óleo, principalmente figuras. Improvisei um ateliê para mim, na garagem da minha casa, na Rua do Sossego. Dividia o espaço com a lavadeira. Enquanto ela passava roupa, dava opiniões sobre os meus quadros. Em 1967, fiz minha primeira viagem à Europa e a Israel. Meu marido não quis me acompanhar e eu viajei sozinha. Cheguei em Roma à noite e de manhã cedo fui à Capela Sistina. Quando me vi no interior da capela, fiquei tão emocionada que botei pra chorar. Vendo a produção italiana, senti vergonha do que fizera e percebi o quanto faltava para eu ser artista.

    CONTINENTE O escritor português, Miguel Torga, teve essa mesma sensação de pequenez diante da grandeza da arte italiana.
    GUITA CHARIFKER Enquanto me sentia perplexa no meio de tanta maravilha, vi uma vitrinezinha com desenhos, uma arte aparentemente modesta no meio de tanta exuberância. Decidi voltar a desenhar. De Roma, fui a Israel. Lá, a primeira coisa que fiz foi comprar o material necessário para o meu trabalho. Visitei o Mar Morto, a Galileia, desenhando o que via da janela do ônibus. As pessoas me cediam o lugar, o motorista parava a viagem para eu concluir algum detalhe. Nessa viagem em que procurava as minhas origens, redescobri o prazer do desenho.

    CONTINENTE Aqui na sua casa, olhando uma de suas mesas de trabalho, verifico que os símbolos de muitas religiões estão presentes, compondo um verdadeiro altar. Fica difícil supor que você é judia.
    GUITA CHARIFKER Isto sou. Vivi a minha infância integrada à comunidade judaica. Meus pais vieram da Europa Central por volta de 1914. Primeiro, veio o meu pai. Um dia ele foi ao Porto do Recife, acompanhando um tio materno, que ia buscar minha avó e minha mãe. Mamãe tinha apenas 15 anos. Quando ele a viu descendo do navio, apaixonou-se por ela. Logo se casaram e nascemos eu e meu irmão Fernando Greiber. A minha família praticava as tradições judaicas e, na infância, vivi intensamente essas tradições. Hoje, sei que o ecumenismo é a única saída para as intolerâncias religiosas. Deus é um só e é nele que creio. As religiões são meras linguagens para falar de um mesmo Deus. Sou uma pessoa mística, mas não frequento sinagogas. Nas minhas aquarelas, posso me dar à liberdade de pintar um menorah, um espelho de Oxum ou uma Santa Luzia com os olhinhos na mão. Importa-me apenas o deleite artístico e espiritual.

    Nanquim sobre papel de 1978. Imagem: ReproduçãoNanquim sobre papel de 1978. Imagem: Reprodução

    CONTINENTE Existe um conto árabe do homem que morava em Bássora e vai a Bagdá atrás de um tesouro que todas as noites ele via em sonho. Ao chegar lá, ele descobre que o tesouro estava escondido no fundo de um poço, no meio de seu jardim.
    GUITA CHARIFKER Comigo aconteceu a mesma coisa. O encontro com Israel e as minhas raízes fez que eu me sentisse uma semente bem plantada no Nordeste e me descobrisse uma desenhista. Abandonei os modelos vivos e passei a desenhar de imaginação. Trabalhava 10 horas, diariamente. Durante o dia, cuidava da família. Às oito da noite, quando os meninos dormiam e o marido ia para a televisão, eu me recolhia no meu novo ateliê até as seis da manhã. Desenhava, lia, ouvia música, a noite inteira. Júlio era muito bom, um homem especial. Cuidava das crianças, levava para a escola, me deixava dormir até as 11 horas.

    CONTINENTE E como é que tudo sendo tão bom, um dia você deixa a casa e vai embora?
    GUITA CHARIFKER Porque ser artista é bem mais complicado. Você assume compromissos além do casamento. O casamento é uma vocação e arte é uma vocação também. Não dá para ter duas vocações. Ou você tem uma, ou outra. Chega uma hora que você tem que escolher.

    CONTINENTE Joseph Campbell fala que os filósofos vivem absortos no pensamento e por isso não casam. Não sabia que isto também acontecia com os pintores. Você não está idealizando o artista?
    GUITA CHARIFKER Estava tudo maravilhoso, mas a arte foi mais forte e me chamou. Sou artista até hoje, aos 64 anos, e espero ser até os 80. E não casei nunca mais, porque casamento é uma única vez na vida, não precisa se repetir. Atualmente, quase todas as mulheres pintam. Naquela época, poucas eram as mulheres que pintavam e tinham a coragem de assumir as posturas que assumi. Ao me entregarem o Troféu Cultural Cidade do Recife – 2000, é como se tivessem premiado as fantasias de uma menina que um dia sonhou ser artista e conseguiu.

    CONTINENTE Nas histórias de fadas, chega o dia em que o herói deixa a casa e vai à procura do seu destino.
    GUITA CHARIFKER Para a gente ser um artista universal, tem de conhecer o mundo e voltar. Se não der esta saída, fica muito limitado ao regional e isso não é bom. Foi importante viajar, ver o mundo e ser vista, conviver com artistas como Anna Letycia, Scliar, Marília Rodrigues e Roberto Pontual. Um dia voltei e estou aqui na minha terra, de novo. Eu saí com uma pasta de desenhos e uma mala de roupas. Deixei tudo na minha casa, porque deixei os meus filhos. Levava muito sofrimento. Largava minha vida para trás, um mundo que nunca mais seria meu, porque eu escolhera outro mundo. Quando cheguei no Rio de Janeiro, fui recebida de braços abertos pelas pessoas e pelo Cristo Redentor. Fui morar na Urca, um lugar especial como Olinda, onde só moravam artistas. Meu primeiro apartamento foi o ateliê de Anna Letycia. Da minha janela, eu via o bondinho, subindo e descendo. Com pouco tempo estava integrada ao Rio, participando de oficinas e salões. Nos anos 1970, apesar de vivermos uma ditadura, tínhamos um senso de liberdade e uma grande alegria.

    CONTINENTE Olhando as suas aquarelas encontramos muitas paisagens e cores. Fico imaginando o momento em que você decidiu largar o desenho em nanquim e experimentar as cores no papel. Onde aconteceu isto?
    GUITA CHARIFKER Eu não fiquei apenas no Rio. Fui a Portugal, Argentina, França e Alemanha. Fiz exposições pelo mundo inteiro. Vivi em muitos lugares. Fui ao México para uma exposição íbero-americana de desenhos e gravuras e a cor daquele país me deslumbrou de tal maneira que comprei papel, pincéis, uma caixa de aquarelas e tornei-me aquarelista sem precisar fazer nenhum curso. Aqui em Pernambuco, nós éramos muito ligados aos artistas mexicanos. Rivera, Orosco e outros pintores faziam parte da nossa formação em arte. Cheguei no México para passar uma semana e terminei passando seis meses. Fiquei morando num sítio, próximo à capital. Lá, eu encontrei a poesia e o carinho que procurava. Nunca vou esquecer o casal de camponeses que me acolheu, Dona Ângela e D. Sabino. Eles queriam que eu mandasse buscar os meus filhos no Brasil e ficasse morando com eles. O meu trabalho com aquarela começou no México, naquele sítio. É uma técnica delicada, que não admite erros. Quando se erra, tem-se de rasgar o papel e começar de novo. A pintura a óleo pode ser refeita, corrigida, retocada. A aquarela não. Mas ela tem a vantagem de poder ser praticada em qualquer lugar. Se você viaja, não tem de carregar telas e tinta a óleo. Basta uma caixinha de aquarelas, papel, luz e imaginação.



    CONTINENTE Tento recompor a sua trajetória de artista: o desenho, a pintura a óleo, o desenho, a aquarela... E a gravura, quando começa?
    GUITA CHARIFKER Eu desejava praticar a gravura em metal, que, na verdade, é um desenho em cima de uma chapa de cobre, muito antes de ter começado com a aquarela. Ana Letycia, minha mestra em gravura, dizia: 'Para que fazer gravura? Com o desenho que você tem, você tem mais é que desenhar'. Só que o desenho é uma peça única e eu levava um mês fazendo um trabalho. A gravura tem a grande vantagem de ser um múltiplo. Insisti em aprender a gravar e pratico essa técnica até hoje. Sempre que vou ao Rio, retomo o meu trabalho de gravadora, lá no ateliê da minha mestra.

    CONTINENTE Conversar com você é girar em torno de alguns temas obsessivos, que se repetem sempre: família, casa, cores, luz, amizade...
    GUITA CHARIFKER Minha vida tem sido um exercício constante da amizade. Primeiro, teve o ateliê da Ribeira: Roberto Amorim, que já está no céu; Tavares, que misteriosamente sumiu; João Câmara, José Barbosa, Adão Pinheiro, Ipiranga Filho e eu. O Mercado da Ribeira, naquela época, era apenas um decadente mercado de carne. Nós o transformamos num mercado de arte. Eu dava aulas de desenho; Adão Pinheiro, de história da arte... Cada exposição era uma festa, com toda a população jovem de Olinda participando. Um dia, resolveram fechar a Ribeira e nós nos transferimos para um ateliê menor, chamado 154, na Rua de São Bento. Defendíamos as mesmas ideias, mas, com o tempo, o grupo foi se dissolvendo. Meu último ateliê foi feito no campo, ao ar livre, em mais um desses movimentos surgidos em Olinda, eu diria que uma retomada do gosto pelo paisagismo. Nós nos dividíamos em dois grupos: um com Samico, Célida, Luciano Pinheiro e Gil Vicente; outro, com Zé Cláudio e Eduardo Araújo. Num eu pintava aquarela, noutro pintava a óleo, porque Zé Cláudio achava que eu já tinha gasto papel demais. Viajávamos para Itapissuma, Itamaracá, Ipojuca... Saíamos às sete da manhã e retornávamos às cinco da tarde. Esse grupo terminou formando o Atelier Coletivo. Giuseppe Baccaro ofereceu um espaço na Rua de São Bento, onde ele morava. Eu viajei para o Sítio Santa Clara, no Rio, onde criei uma série de novas aquarelas, e perdi o contato com o grupo. Fiz muitos amigos nas viagens. Em Nova Viçosa, na Bahia, junto de Krajcberg, comecei a apreciar os seres vegetais e a observar a natureza.

    CONTINENTE Nós dois estamos aqui sentados, nesse fim de tarde, olhando esse quintal olindense que mais parece uma floresta tropical. Vez por outra, você me aponta uma flor, ou uma folha, ou um passarinho. Imediatamente reconheço as suas aquarelas.
    GUITA CHARIFKER Aqui, tenho o que mais necessito para a minha criação: tranquilidade, modelos, muita luz e cor. Sem luz, não existe aquarela. Tenho água, tintas e papel de boa qualidade. A solidão não me assusta. Nunca me sinto só, pois tenho os meus sonhos, fantasias e fantasmas. Amo a solidão e o silêncio. Mas essa solidão é relativa, pois estou sempre cercada de seres vivos, sobretudo os vegetais, os seres que mais compreendo e amo. Eles são o meu modelo. Observo a natureza e crio. Mas a minha aquarela é bem diferente de uma aquarela de Margaret Mee, por quem tenho o mais alto respeito. Eu pinto numa perspectiva artística e a ela interessa o registro naturalista, chegar o mais próximo do real. Capto uma sensualidade emanada da própria natureza. Se olho uma árvore, vejo homens, mulheres e bichos, nos troncos, nos galhos, nas folhas... Não é mérito meu vê-los, é pura observação. Quem olha a natureza vê tudo que precisa para criar uma obra de arte. Basta sensibilidade para ver. Apesar dos seres humanos serem mais imperfeitos que os vegetais, eu os amo, pois sou humana. Os vegetais dão sombra, frutos, flores e não cometem atrocidades. Quando misturo figuras humanas com seres vegetais, proponho uma melhora para a nossa espécie. É como se dissesse: "Olhem os seres vegetais e tentem melhorar".

    CONTINENTE Sinto essa alegria no seu trabalho, um quase júbilo. Todo o tempo você celebra a vida, como uma sacerdotisa. Seus desenhos e aquarelas estão repletos de “amo” e “viva”.
    GUITA CHARIFKER Criar não é um sofrimento para mim, é uma alegria. Há artistas que sofrem para criar e outros que extraem a alegria da criação. Estou no segundo grupo. Nunca me dilacerei. Sofrer, para mim, é não criar. Criar é amar e o amor não é uma enfermidade. Preciso me sentir prenhe de amor para criar. Amor é um estado de graça. Não falo do amor de um homem por uma mulher. Falo de um sentimento mais pleno e universal.

    CONTINENTE Ágape é o nome dado a esse amor, noBanquete de Platão.
    GUITA CHARIFKER Sim, ágape. O ato de criação é a plenitude desse amor. Sigo a minha intuição, o meu instinto e sem nenhuma pretensão intelectual, faço. Deixo-me guiar pela emoção, pela música e principalmente pela luz. Não há sofrimento na minha criação. Nada de sofrimento. Eu não me violento para criar. Só crio quando estou em paz comigo. Quando não estou em paz, faço outras coisas: arrumo casa, cuido de plantas, lavo louça... Quando a minha plenitude retorna, eu crio. Sempre com muito prazer e alegria. A arte não precisa ser maldita ou danada para ser uma grande arte. A arte é divina. Amo! Viva a arte!

    Suas aquarelas são uma declaração de amor aos vegetais. Imagem: reproduçãoSuas aquarelas são uma declaração de amor aos vegetais. Imagem: reprodução


  • João Lin ministra oficina de desenho em Olinda

    "Decifra-me", um dos desenhos de João Lin, que ministra a oficina"Decifra-me", um dos desenhos de João Lin, que ministra a oficina

    "Desenhar é uma forma de raciocinar sobre o papel", disse o cartunista norte-americano Saul Steinberg. Para o artista pernambucano João Lin, desenhar é, além disso, uma forma de sentir e sonhar. E com o propósito de potencializar a imaginação e a criação, ele ministra a oficina Desenho - Pesquisa e invenção, entre os dias 3 de maio e 14 de junho, sempre às quartas-feiras, das 13h30 às 17h30, no ateliê do pintor Roberto Ploeg. O valor do curso é R$ 480.

    O laboratório oferecerá momentos de reflexão conceitual sobre o desenho, experimentações dos elementos básicos (a linha, as possíveis texturas, o gesto) e passeios pelos universos de artistas como o próprio Steinberg, Paul Klee, Millôr Fernandes, Fábio Zimbres, Guto Lacaz, entre outros. Os processos de criação na arte, a intuição e a imaginação criativa são conteúdos que permearão todo o percurso da oficina. Em Desenho - Pesquisa e invenção,o fazer e a elaboração coletiva serão mesclados às vivências individuais e à exploração do desenho pessoal dos participantes, respeitando os traços de originalidade e autoralidade de cada um.

    Serviço
    Oficina Desenho - Pesquisa e invenção com João Lin
    Todas as quartas-feiras, de 3 de maio a 14 de junho, das 13h30 às 17h30
    Carga horária total: 28 horas
    No ateliê de Roberto Ploeg (Rua Herculano de Holanda Cunha, 26, Ouro Preto, Olinda)
    Valor: R$ 480
    Inscrições pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou pelos telefones (81) 98649-0015/ (81) 98871-3849

  • Mimo: de volta à Cidade Alta

    Totó La Momposina é atração deste sábado (19/11)Totó La Momposina é atração deste sábado (19/11)

    Sem apresentações em Olinda em 2015, este ano o festival retorna ao seu local de origem com shows que afirmam seu perfil multiétnico e sofisticado musicalmente


    Pesquisa apresentada em julho deste ano pela universidade australiana Victoria’s Deakin revelou algo que muita gente já sabia por experiência própria. Frequentar festivais de música proporciona altos níveis de satisfação e alegria. O prazer torna-se maior quando o ato de assistir a shows é partilhado com pessoas próximas. Quando as atrações incluem artistas internacionais de variadas nacionalidades, alguns passos são dados em direção ao entendimento humano mais global. Enfim, além dos tão comentados e mensuráveis efeitos econômicos (incremento do turismo, mais clientes em restaurantes, lojas), quem investe na realização de determinados festivais também está contribuindo para o bem-estar geral da população. 

    Criado em 2004, o Mimo vinha cumprindo bem esse papel até que sua realização em Olinda, cidade matriz do projeto, foi interrompida por falta de verbas no ano passado. Este ano, entre os dias 18 e 20 de novembro, ruas e igrejas da cidade voltam a sintonizar-se com as boas vibrações sonoras do festival. Já foram confirmadas as presenças do grupo britânico Sons of Kemet; da dupla portuguesa de pianistas Mário Laginha e Pedro Burmester; Bixiga 70, banda de São Paulo; Totó La Momposina, destaque da música tradicional colombiana; e Pat Thomas & Kwashiru Area Band, de Gana.

    Contando com as edições que ocorreram e vão ocorrer nas cidades de Tiradentes, Ouro Preto, Paraty, Olinda e Rio de Janeiro, entre o mês passado e este, somam-se cerca de 50 concertos, exibição de 27 filmes inéditos, além da realização de oficinas, palestras e recitais de poesias. “É a melhor sensação do mundo!”, vibra Lu Araújo, idealizadora, diretora-geral e artística, ao expressar o sentimento de trazer o evento de volta para onde ele nasceu. “Durante os últimos meses, inúmeras lembranças do Mimo em Olinda me vêm à memória inesperadamente. Afinal, são muitos anos de convivência e de um relacionamento afetivo com a cidade, seus moradores, personagens e a beleza do lugar, que eu já frequentava há tempo.” 

    De acordo com ela, 2015 marcou o pior momento do Mimo, em razão das dificuldades econômicas vividas pelo Brasil. Dois anos antes, o festival havia crescido, o que acarretou mais custos. Mas as verbas não vieram. “Fizemos de tudo para viabilizá-lo no mesmo padrão de excelência com que sempre trabalhamos. Infelizmente, não deu. Desde então, redobramos os esforços para conseguir investimentos que nos garantissem a realização de uma nova edição”, conta Araújo. Durante os dias 21, 22 e 23 julho, o Mimo chegou à cidade de Amarante, em Portugal. Nessa primeira incursão por terra estrangeira, o Mimo fez com que cerca de 25 mil pessoas, provenientes de diversos lugares do país e da Europa, apreciassem as apresentações do duo pernambucano Walter Areia & Rafael Marques, Pat Metheny & Ron Carter, Tom Zé, Hamilton de Holanda e o Baile do Almeidinha, Egberto Gismonti, entre outros. 

    “O Mimo Amarante superou as nossas melhores expectativas. Foi muito gratificante apresentar uma seleção de artistas brasileiros de primeira linha ao lado de feras do jazz mundial. Acho que, em pouco tempo, o Mimo será reconhecido como um ponto de encontro da boa música brasileira na Europa”, vislumbra Lu Araújo. Para ela, a combinação do patrimônio histórico com as várias manifestações artísticas apresentadas é a fórmula que encanta tanto os frequentadores quanto os próprios artistas. “Em Portugal, confirmei que o Mimo é atraente para um público moderno, antenado, sedento por novidades e feliz. A plateia de Amarante me lembrou demais a de Olinda e isso me deixou emocionada. Me senti em casa.”

    Pat Thomas, de Gana, se apresenta nesta sexta (18/11). Foto: DivulgaçãoPat Thomas, de Gana, se apresenta nesta sexta (18/11). Foto: Divulgação

    ATRAÇÕES 2016
    Em anos anteriores, o público que foi a Olinda se deleitou com performances inspiradas e inspiradoras de gente como o pianista cubano Chucho Valdés, a fusão de jazz e sonoridades orientais do percussionista indiano Trilok Gurtu, a lenda Chick Corea, a dupla Philip Glass & Tim Fain, o tango pop do Gotan Project. Sem falar nas vibrantes e ricas passagens dos brasileiros Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos, Bongar, Azymuth, Eumir Deodato, Siba, Nelson Freire, Carlos Malta, Jards Macalé, entre outros. Indagada sobre quais diretrizes nortearam a escolha das atrações deste ano, Lu Araújo responde: “A qualidade em primeiro lugar. Além disso, o empenho em trazer ao Brasil atrações que estão sendo apresentadas nos grandes festivais do mundo, muitas delas completamente desconhecidas por aqui. Me dá uma sensação de desbravamento e quero compartilhar isso com o público”. 

    Considerada uma das guardiãs da música tradicional colombiana, a cantora e dançarina Totó La Momposina foi um dos primeiros nomes confirmados para o Mimo Olinda 2016. Filha de mãe com as mesmas habilidades artísticas e de pai baterista, Totó iniciou a carreira nos anos 1950. Mas foi no início da década de 1990 que seu nome ganhou projeção internacional, por conta de uma turnê que passou por três continentes, organizada pelo Womad – festival e organização cultural, criados pelo cantor Peter Gabriel, cuja maior missão é celebrar manifestações culturais além do universo anglo-saxônico. Em 1982, ela acompanhou Gabriel García Marquez na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura ao escritor. Nos discos e shows, Momposina passeia por ritmos e sons originados a partir do contato entre povos indígenas, africanos e espanhóis. 

    A apresentação do Sons of Kemet deve causar grande impacto no Mimo, por conta da veia “original Olinda style” dos ingleses. Quem já frequentou as ladeiras de Olinda durante o Carnaval provavelmente vai sentir uma estranha conexão com a “irreverência” do trabalho da banda. O som reúne elementos de jazz, rock, música caribenha e africana. Os ouvidos e corpos mais atentos notarão semelhanças com o frevo e até com o baião, caso da música Play mass, presente no Lest we forget what we came here to do, segundo álbum deles, lançado em 2015. 

    No YouTube, há um vídeo bem irreverente da música em questão (veja abaixo). O quarteto é novo, surgiu em 2011, e é formado por Shabaka Hutchings (sax e clarinete), Theon Cross (tuba) e por dois bateristas: Tom Skinner e Seb Rochford, os quais costumam executar levadas diferentes, mas que se entrelaçam muito bem. Curioso observar que, até na relação cor da pele dos músicos com os instrumentos que tocam, o Sons of Kemet foge do que se observa normalmente. A ala percussiva fica nas mãos dos brancos Skinner e Rochford, enquanto a parte melódica e harmônica é comandada pelos negros Cross e Hutchings. O grupo possui a notável habilidade de conseguir agradar tanto a plateias sentadas em teatros quanto pessoas que vão aos seus shows em casas noturnas e festivais. O nome do quarteto se refere ao modo como o Egito era chamado na antiguidade. 



    A big band Bixiga 70 já é conhecida por boa parte do público pernambucano interessado em fusões dançantes entre música brasileira, latina e jazz. O grupo foi formado há seis anos, no bairro paulistano que lhe dá nome, famoso por abrigar uma grande comunidade de italianos e suas sensacionais cantinas e pizzarias. Eles sempre empolgam quando por aqui se apresentam – como ficou comprovado por passagens pelo Coquetel Molotov, Rec-Beat, Porto Musical e Festival de Inverno de Garanhuns. Também já tocaram e causaram ótima impressão nos Estados Unidos e países da Europa. No início da carreira, a banda mantinha forte ligação com o afrobeat. Mas em pouco tempo foram ampliando a sua teia sonora. O trabalho mais recente é o álbum The Copan connection: Bixiga 70 meets Vitor Rice. A obra é uma remixagem do disco anterior, III, baseada no dub jamaicano. Especialidade do baixista e produtor norte-americano Vitor Rice, radicado em São Paulo desde 2002. 

    Mário Laginha e Pedro Burmester fizeram parte da programação do Mimo Amarante. Agora, os portugueses apresentam o que o próprio Laginha define como “viagem musical”. Os dois possuem formação erudita, mas nesse projeto incluem interpretações de obras de artistas do seu país de origem, a exemplo de João Paulo Esteves, do brasileiro Pixinguinha, e do norte-americano Aaron Copland. O repertório percorre muitos estilos e épocas, o que pode significar incursões pelo barroco, indo a seguir direto para o século XX. Para Laginha, a escolha das músicas que compõem os concertos pode parecer pouco convencional, mas elas se conectam harmonicamente quando executadas nos palcos.

    PAT THOMAS
    Nascido em Gana, em 1951, Pat Thomas passou vários anos de sua vida no Canadá, Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Ainda assim, essas experiências não afrouxaram os fortes laços que ele continua a manter com os sons do seu país e continente de origem. “Minha música é o highlife, música africana. Minhas raízes ficaram em Gana”, assevera. O estilo pelo qual demonstra grande apreço e identificação é irmão do nigeriano afrobeat e reúne ritmos africanos, arranjos poderosos de metais, linhas de guitarra ora melódicas ora rítmicas, vocalizações conectadas a cânticos ancestrais. Tudo isso aliado a letras que celebram o lado bom do espírito humano – essa junção de elementos se traduz em música festiva e alegre.

    Thomas se mostra bastante empolgado com sua primeira incursão por terras brasileiras. “Vocês vão mexer seus pés e esqueletos. Esperem só pra ver”, brinca. Além de Olinda, ele se apresenta no Mimo Rio de Janeiro. O repertório dos shows deve focar no álbum Pat Thomas & Kwashibu Area Band, lançado em 2015. A banda tem a presença do multi-instrumentista Kwame Yeboah, que já tocou com Cat Stevens, e com o saxofonista Ben Abarbanel-Wolff. O disco conta com a participação mais do que especial do baterista nigeriano Tony Allen, o qual tocou no grupo do lendário Fela Kuti e se mantém bastante ativo, com sua carreira solo e colaborando em outros projetos. “Sou um baterista de afrobeat. Mas Pat Thomas é o próprio highlife. Isso ele sabe fazer muito bem”, exaltou Allen, quando a obra foi lançada. Também devem entrar composições da coletânea Original Ghanaian highlife and afrobeat classics 1967–1981, que chegou ao mercado este ano.

    Diferentemente de Fela Kuti, Pat Thomas não compõe letras políticas ou de protesto. “Canto sobre o amor e a paz, o que pode parecer estar relacionado à política, mas não é a mesma coisa. Minha música surgiu com o propósito de fazer com que as pessoas tenham paz”, explica. De acordo com Thomas, o estilo que consagrou Kuti pode ter surgido em razão da “tentativa” dele em tocar o outro ritmo. “Não soube na época, mas Fela morou em Gana, chegando a tocar highlife com um grupo. Mas o highlife era de Gana, e ele era nigeriano, então decidiu fazer tudo do jeito dele mesmo, pois a Nigéria tinha que ter algo também. E o afrobeat acabou surgindo e veio para ficar”, explica. Devido à sua militância política, Kuti sofreu perseguição do governo e chegou a ser espancado. A mãe dele morreu ao ser arremessada da janela do prédio onde morava. Fela tinha várias esposas e morreu aos 58 anos, vítima de aids.

    No disco Pat Thomas & Kwashibu Area Band, há alguns afrobeats, caso de Amaehu e Odoo be ba, que ganham personalidade na voz de Thomas. E qual a situação do highlife, hoje, em Gana? Segundo ele, o estilo continua sendo o mais popular no país. “Atualmente, nossos jovens escutam diferentes fusões de highlife, além de hip-hop e música eletrônica dançante”.

    Quando o país a ser visitado volta à tona, Pat diz que enxerga conexões entre Gana e Brasil. “Vocês têm o samba, que mostra essa relação. Durante o tempo que estiver aí, espero poder colaborar com músicos brasileiros. Quero muito fazer isso e acho que será ótimo, justamente por causa dessa questão da relação entre os ritmos. Estou muito ansioso para ver a reação do público brasileiro nos concertos do Mimo”, adianta. Ele também se diz um grande fã de futebol e, por isso, sempre relaciona o esporte à nação.

    A mãe de Pat Thomas cantava em igreja e seu pai dava aulas de música. A arte musical sempre esteve presente na vida dele. Apesar disso, o artista diz acreditar que razões internas foram mais fortes do que uma possível influência dos genitores. “Não posso dizer que foi por causa dos meus pais que de fato quis ser músico.” Ele afirma isso baseado em memórias e desejos que surgiram ainda antes de perceber que seus pais possuíam uma carreira. “Talvez minha mãe tenha me influenciado mais, pois meu pai não era muito presente. Quando eu tinha 10 anos, ele foi para Londres. Ela gostava de cantar o tempo todo. Mas, ainda assim, creio ter sido algo que veio de dentro mesmo, tinha que sair de mim”, reforça.

    King Onyina, um dos tios de Thomas, foi um guitarrista reconhecido em Gana. Tanto pelos seus trabalhos quanto por ter trabalhado com o cantor negro norte-americano Nat King Cole. Foi com ele que Pat aprendeu a ler música. Também desenvolveu habilidades na bateria e se tornou um respeitado compositor e cantor ainda na adolescência.

    O primeiro contato com o highlife foi em 1971, quando ele foi morar na cidade ganense de Accra e juntou-se ao grupo Blue Monks, liderado pelo guitarrista, compositor e arranjador Ebo Taylor – um dos maiores e mais respeitados artistas de Gana. Os dois chegaram a tocar juntos em dois outros importantes grupos da época: Broadway Dance Band e Stargazers. “Conheci Ebo no início dos anos 1960. Cantei várias de suas canções, e ele fez arranjos para muitas das minhas músicas. Sempre tivemos um relacionamento muito produtivo. Mas ele não vai ao Brasil conosco.”

    Durante toda a década de 1990, Pat Thomas morou no Canadá, onde deu aulas de música em uma universidade local. Aliás, o país vizinho aos Estados Unidos é um dos que melhor recebem músicos africanos. Assim como o ganense, outros muitos artistas da África costumam expor seus conhecimentos e tocar com instrumentistas e cantores canadenses. A agenda de shows de Pat Thomas, porém, não era muito intensa. Além de só ter lançado um disco na época, Nkae on Sikafutro Productions, de 1996. Em 2000, ele voltou para Gana e só em 2015 apresentou nova gravação, o supracitado Pat Thomas & Kwashibu Area Band. “É meu primeiro álbum com eles. Passei um tempo sem lançar discos inteiros. Acho que o mercado não favorecia”, aponta.

    Confira programação completa:

    Sexta-feira (18/11)

    Etapa Educativa:

    14h/16h – A Cúmbia e o Ritmo dos Tambores – Músicos da Toto La Momposina (Colômbia)/COM – Auditório do Conservatório Pernambucano de Música

    14h/16h – Workshop de Criação Musical – Arismar do Espírito Santo/COM – Sala 11 – Conservatório Pernambucano de Música

    14h/16h – A Linguagem Brasileira do Saxofone – Léo Gandelman/Cemo – Auditório – Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO)

    Cinema
    :

    18h – Tenda Mercado da Ribeira
    O Trovador, o cabra, os Mundos (26min) | Perdido em Júpiter (74min)

    18h30 – Igreja da Sé
    Sete Corações (100min)

    20h – Tenda Mercado da Ribeira
    Gramatyka (15min)| Não tem só mandacaru (20min)| Pedro Osmar, prá liberdade que se conquista (76min)

    Concertos:
    18h – Zeca Baleiro (Brasil)/Palco Se Ligaê – Pátio do Mosteiro de São Bento
    19h – João Fênix (Brasil)/Igreja do Carmo
    19h30 – João Bosco & Hamilton de Holanda (Brasil)/Palco Se Ligaê – Pátio do Mosteiro de São Bento
    20h30 – Mário Laginha & Pedro Burmester (Portugal)/Igreja da Sé
    22h – Sons Of Kemet (Inglaterra)/Palco MIMO – Praça do Carmo
    23h30 – Pat Thomas & Kwashibu Area Band (Gana)/Palco MIMO – Praça do Carmo

    Sábado (19/11)

    Etapa Educativa:

    10h/12h – Descolonizando a Mente – Perspectiva de um Músico de Jazz Contemporâneo – Shabaka Hutchings (Sons Of Kemet)/CPM – Sala 11

    10h/12h – Violons Barbares – Multiculturalidade e Inovação (Mongólia/Bulgária/França)/CEMO – Auditório

    14h/16h – Quatro Mãos, Dois Olhares – Pedro Brumester e Mario Laginha (Portugal)/CPM – Sala 11

    Fórum de Ideias:
    15h30/16h30 – Lugares da memória – Miguel Araújo (Portugal)/ Convento de São Francisco

    Cinema:

    18h – Tenda Mercado da Ribeira
    A batalha de São Bráz (26min) | Perdido em Júpiter (74min)

    18h30 – Igreja da Sé
    Morena dos Olhos Pretos (86min)

    20h – Tenda Mercado da Ribeira
    Filme em Fúria (25min) | Chico Science, Caranguejo Elétrico (86min)

    Concertos:
    16h30 – Arismar do Espírito Santo (Brasil)/Palco Se Ligaê – Pátio do Mosteiro de São Bento
    18h – Isaar (Brasil)/Palco Se Ligaê – Pátio do Mosteiro de São Bento
    19h – Pablo Lapidusas Trio (Portugal) – Igreja do Carmo
    19h30 – Léo Gandelman & Paula Lima (Brasil)/Palco Se Ligaê – Pátio do Mosteiro de São Bento
    20h30 – Violons Barbares (Mongólia/Bulgária/França) – Igreja da Sé
    22h – Totó La Momposina (Colômbia)/Palco MIMO – Praça do Carmo
    23h30 – Bixiga 70 (Brasil)/Palco MIMO – Praça do Carmo

    Domingo (20)

    Cinema:

    18h – Tenda Mercado da Ribeira IK80
    O maestro e sua orquestra (23min) | As incríveis artimanhas da Nuvem Cigana (82min)

    20h – Tenda Mercado da Ribeira
    Faz que vai (12min) | Caminhos do coco (91min)

    Concertos:

    11h – Amaro Freitas Trio – Prêmio MIMO Instrumental/Convento de São Francisco
    18h – Mario Lucio Sousa & Convidados (Cabo Verde)/Igreja do Rosário

    ***Distribuição de senhas***

    Concertos 19h: senhas a partir das 17h do dia do concerto
    Concertos 20h30: senhas a partir das 18h do dia do concerto
    Os demais concertos/horários não precisam de senhas
    Local de distribuição de senhas: 
    Biblioteca Municipal de Olinda - Av. da Liberdade, 100, Carmo, Olinda.

    Mais informações AQUI

  • O menino da tarde

    Foto: Hélia ScheppaFoto: Hélia Scheppa


    No começo da tarde de uma bem-vinda e ensolarada sexta-feira, depois de uma semana de maio em que o clima brincou de sol e chuva, a cidade alta de Olinda, indiferente ao barulho e à agitação de sua parte baixa, se comporta como se estivesse em um tempo longínquo. Os poucos automóveis que circulam pelas ruas estreitas e seculares interrompem o silêncio que permeia as casas coloridas. Uma delas, situada à Rua de São Bento, abriga um morador-símbolo desse lugar impregnado de história, música e alegria: Alceu Paiva Valença.

    Assim que passou pela porta de entrada da residência, a reportagem da Continente avistou o artista sentado no sofá posicionado no lado esquerdo da sala. Empertigado e altivo como um cacique, Alceu ainda estava se refazendo do cochilo que tirara alguns minutos antes. De óculos Ray-Ban estilo aviador, camisa preta de manga longa, concedia entrevista ao primeiro dos três veículos de comunicação que receberia naquele turno. Ao redor, Júlio Moura, seu assessor de imprensa há mais de sete anos, se encarrega de acompanhar os ponteiros e lembrar a passagem das horas ao loquaz assessorado.

    Ao final da primeira entrevista, o cantor atende à nossa equipe. Para aproveitar a luz das quatro da tarde, mais propícia à fotografia, a sessão de fotos é feita de imediato. Ele não nega nenhum pedido da fotógrafa Hélia Scheppa: tira a camisa, bota a camisa, deita no chão, senta na janela. O fotografado ideal. Ao sentar para a conversa, o compositor não espera a primeira pergunta e já vai falando – um sinal de que o roteiro de mais de 30 perguntas seria fatalmente alterado.

    Em cada uma de suas respostas, o artista aproveita para contar histórias hilárias, declamar poemas, cantar e/ou imitar alguém, praticamente uma performance. A função de um repórter, nessa hora, é se esforçar para sair da quase irresistível condição de espectador e tentar trazer o entrevistado de volta à questão e, assim, conduzir de alguma forma a entrevista. “Sempre fui muito tímido. Estou falando muito pra acabar com a minha timidez, mas eu fico com vergonha. Tenho duas pessoas dentro de mim. Uma que diz, ‘Alceu, fale!’ E outra, ‘Alceu, Psssiu!’ Tem um outro que diz, ‘Alceu, por favor, está querendo aparecer?!’”, conta, entre gargalhadas, já na metade da entrevista. 

    Essa hiperatividade foi percebida logo cedo por sua mãe, Dona Adelma, quando residia em São Bento do Una, cidade de cinco mil habitantes a 213 quilômetros de Olinda. Em pleno Agreste, na porta do Sertão, o garoto era uma espécie de Tom Sawyer. Assim como o personagem de Mark Twain, sempre estava aprontando alguma travessura e, principalmente, observando e absorvendo a cultura ao redor: os causos acerca de Lampião, os alto-falantes da feira, as quadrilhas juninas, os violeiros, os aboiadores, a literatura de cordel, os familiares que tocavam instrumentos em casa…

    Quando Alceu tinha sete anos, a família mudou-se para Garanhuns, e, três anos depois, para o Recife. Ele trouxe à capital pernambucana a formação cultural do interior e nunca mais abandonou essas referências sólidas, mesmo tendo contato com as transformações musicais dos anos 1960, mais ligadas ao rock. Seu primeiro disco, lançado em 1972, em parceria com o amigo Geraldo Azevedo, é uma prova disso. O álbum foi gravado no Rio de Janeiro, cidade para onde migrou em 1970 com a intenção de viver de arte. Viajou sem dinheiro e sem apoio de Seu Décio. Ao contrário da mãe, que incentivava o filho e até o presenteou com o primeiro violão, o pai insistia em que ele fosse advogado. Alceu tentou, formou-se em Direito em 1969, mas o interesse durou poucos meses. “Meu irmão Decinho ajudou a alugar apartamento para mim. Eu não tinha dinheiro pra nada, andava quilômetros. Por isso que ando até hoje 10 mil metros por dia. Eu ia do Leme até a Glória encontrar Geraldo Azevedo. Ia a pé pra não gastar o dinheiro do ônibus”, revela.

    Um dos produtores do disco, o italiano Cesare Benvenuti, ofereceu seu apartamento para os dois nordestinos morarem e ensaiarem. Como a verba da gravadora Copacabana era curta, o que significava poucas horas de gravação, o produtor teve uma ideia que combinava com o espírito peralta de Alceu: acertou com o técnico de som que deixasse a chave do estúdio debaixo do tapete para que os dois músicos pudessem chegar de madrugada, na surdina, para gravar.

    O resultado dessa iniciativa é que Alceu e Geraldinho tiveram mais tempo para burilar seu trabalho e entraram no mercado fonográfico com o pé direito: seu disco de estreia, lançado em 1972, é um dos mais inventivos da década, com faixas de arranjos complexos, como Planetário, 78 rotações, Mister Mistério, Seis horas, Virgem Virgínia (que parece uma música da Belle and Sebastian, banda escocesa que surgiria 20 anos depois), e já trouxe, de cara, um hit, Talismã, que estava na trilha sonora da novela da TV Globo Irmãos Coragem. Nos seus créditos, o álbum ainda incluía arranjos de cordas do maestro Rogério Duprat, o mago por trás de gravações emblemáticas, como Tropicália ou Panis et circenses (1968), dos Tropicalistas, e Construção (1971), de Chico Buarque, respectivamente 2º e 3º lugar na lista da Rolling Stone dos maiores discos da música brasileira.

    Escute Alceu e Geraldinho em 1972:



    Apesar de funcionarem como dupla, os artistas pernambucanos tinham estilos diferentes. Por isso, decidiram não seguir juntos no mercado fonográfico. Dois anos depois, Alceu atuou em A noite do espantalho e participou de sua trilha sonora, feita em parceria com o diretor e compositor Sérgio Ricardo. A atuação foi elogiada, mas o pernambucano acabou enveredando mesmo pela música. Ainda em 1974, lançou, pela Som Livre, o primeiro disco solo, Molhado de suor, bastante elogiado pela crítica. Dentre as faixas, está Papagaio do futuro, que se tornaria uma das composições icônicas do seu cancioneiro.

    Nesse mesmo ano, outros músicos pernambucanos também estiveram no Rio de Janeiro para gravar seu primeiro disco: os membros da Ave Sangria, contratada da gravadora Continental. Após o álbum ser lançado, houve um imbróglio com relação à faixa Seu Waldir e o disco foi censurado, o que provocou o fim precoce do grupo. Alceu, então, convidou os integrantes para que o acompanhassem. Com exceção dos vocalistas Marco Polo e Almir de Oliveira, todos aceitaram o convite. E Alceu passava a ser ladeado pela melhor banda de rock de Pernambuco, que incluía instrumentistas brilhantes como o guitarrista Ivson “Ivinho” Wanderley e o baterista Israel Semente. No entanto, dos remanescentes só permaneceu o guitarrista Paulo Rafael.


    Em 1975, com esse pessoal, que incluía ainda o percussionista Agrício Noya e Zé da Flauta, e mais Zé Ramalho e Lula Côrtes, Alceu participou do Festival Abertura, da TV Globo, com a música Vou danado pra Catende, poema de Ascenso Ferreira que ele musicou. A interpretação rendeu um vídeo, hoje disponível no YouTube, extraordinário único registro ao vivo dos músicos da Ave Sangria na época. Alceu, cinco anos antes de estourar com seu primeiro grande sucesso, Coração bobo, que seria lançado em 1980, aparece, nessa espécie de videoclipe, esbanjando toda a sua presença cênica e a “energia dos doidos”, como um Mateus hippie e roqueiro.

    Sem dúvida, começa a ser erguida uma lenda. Numa época em que o mercado fonográfico já tinha os seus gigantes, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Alceu engata uma carreira com músicas inusitadas, que não se pareciam com nada que tocava no rádio e nem com o trabalho de contemporâneos como Zé Ramalho e Fagner. Canções como Tropicana, Como dois animais, Pelas ruas que andei, Anunciação, Solidão, Estação da Luz trouxeram, além da pernambucanidade na melodia, expressões pitorescas, como “olhar agateado”, e frases poéticas, como “Pele macia, ai, carne de caju!”.

    Assista a Alceu interpretando Como dois animais:



    O músico não formatou um gênero, como o fez Luiz Gonzaga, mas criou um estilo que só faz sentido com ele próprio. Por isso, ninguém das novas gerações de músicos trilhou seu caminho. O manguebeat, por exemplo, não se referia a ele. Das bandas da década de 1990, só a Jorge Cabeleira regravou Sol e chuva em seu primeiro disco, e, há três anos, a banda de hardcore de Surubim Hanagorik realizou um disco tributo com versões de algumas composições suas.

    Até 1985, com pouco mais de 10 anos de profissão, Alceu Valença já possuía canções que fariam outros artistas, menos inquietos, se darem por satisfeitos. Nesse ano, mesmo realizando um som chamado de “regional”, foi convidado para integrar a programação do Rock in Rio. Algo bastante pertinente. Afinal, nenhum bandleader brasileiro possuía a postura rock’n’roll que ele transbordava no palco. Naquele ano em que o Brasil fazia sua transição da ditadura para a democracia, o músico encarava, no Maracanã, sua primeira grande plateia, algo que depois seria recorrente, principalmente quando começaram a ser promovidos os shows carnavalescos no Marco Zero e no Galo da Madrugada, bloco no qual costuma entoar seus frevos e os de J. Michiles, exibindo o seu talento como o melhor cantor de frevo de rua. 

    A propósito, o seu lado intérprete sempre é algo que fica em segundo plano, quando sua obra é abordada. Com sotaque carregado, voz rascante, ele se tornou um dos mais representativos cantores do Brasil, assim como foram Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, ambos de maneira completamente diversa. Sabe impor a uma canção sua personalidade, dando ênfase a palavras específicas, pulsando as frases curtas de suas estrofes. 

    Em quatro décadas de carreira, o artista lançou 36 discos (24 de estúdio, 10 ao vivo e duas trilhas sonoras), mais de 300 composições, dentre elas dezenas de sucessos. Tropicana, por exemplo, em menos de um ano, vendeu 1,6 milhão de cópias; o disco Anjo avesso, que tinha Anunciação, mais de 1,5 milhão; e La belle de jour, 800 mil unidades.

    Assista a Alceu interpretando Anunciação:



    Alguns desses álbuns lhe renderam prêmios e honrarias, como Amigo da arte (2014), indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Regional. Com o disco ganhou, em 2015, o 26º Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Cantor Regional. Por ano, realiza espetáculos de diferentes formatos: para o Carnaval, para o São João, para teatro (Valencianas, realizado junto à Orquestra Ouro Preto, com a qual fez shows em Portugal e na França) e para festivais de rock, como o Psicodália e o Rock in Rio. Por conta desses shows, o cantor viaja bastante. “A minha vida é o trem, é a estrada, eu vivo o tempo todo andando pra cima e pra baixo, sou um caminhador.”


    NOVOS FEITOS
    Hoje radicado no Rio de Janeiro, onde, inclusive, vota, ele diz que tem vontade de voltar a residir nessa casa onde concedeu a entrevista à Continente. “Gostaria de morar em Olinda, mas meus filhos todos moram lá (no Sudeste). Um mora em São Paulo e três no Rio, aí é meio complicado. Eu queria morar aqui. Eu gosto daqui, adoro meus amigos daqui”, ressalta. 

    No segundo semestre deste ano, será lançado o DVD Vivo! Revivo!, baseado no repertório do álbum Vivo!, de 1976, e que terá o acréscimo de canções de outros discos; e serão relançados em vinil Molhado de suor (1974), Vivo! (1976) e Espelho cristalino (1977). Para o próximo ano, está previsto o lançamento do documentário Vivo - Na embolada do tempo, roteirizado por Hilton Lacerda e dirigido por Cláudio Assis e Lírio Ferreira. 

    Além do talento como compositor, cantor e ator (exibido também na novela Mandacaru, de 1997), Alceu finalizou o seu primeiro filme, A luneta do tempo, cuja ideia nasceu há 14 anos. O longa, musical narrado em cordel, é protagonizado por Irandhir Santos e Hermila Guedes, que interpretam Lampião e Maria Bonita. O elenco traz familiares, como o filho Ceceu Valença, e amigos do diretor, como o cantor Tito Lívio. A história se passa em São Bento do Una e resgata suas memórias de infância. “Pra todo mundo que chegava perto de mim, eu lia o roteiro. Era gente em avião, em tudo que é canto”, conta, aos risos.

    A ligação com o cinema começou em São Bento do Una, onde havia duas salas de projeção, as quais frequentava com a mãe (leia mais sobre isso na entrevista a seguir). No Recife, ia ao São Luiz para assistir aos filmes do neorrealismo italiano e da nouvelle vague, como Acossado. De tanto imitar o protagonista, interpretado pelo ator francês Jean-Paul Belmondo, que passava a lateral do polegar nos lábios enquanto segurava o cigarro entre os dedos, Alceu se tornou fumante, o que provavelmente contribuiu para que fosse submetido a uma cirurgia cardíaca aos 52 anos.

    O nome Alceu Valença pode ser pronunciado assim, com nome e sobrenome, pelo Brasil afora. Em Pernambuco, basta dizer “Alceu”, que já se sabe de quem se está falando e o que isso representa. Falar “Alceu” é lembrar, em poucos segundos, sua figura irrefreável no palco, num trio elétrico ou na sacada de sua casa em Olinda, onde sua aparição saudando os milhares de foliões é uma das tradições e atrações não previstas na programação oficial, mas na programação afetiva do carnaval pernambucano. A passagem rápida do tempo talvez não tenha nos dado a exata dimensão de que esse bicho maluco beleza é hoje o maior artista vivo da música pernambucana.

    Por baixo da cabeleira branca que insiste em empurrar a parte tingida (“A mulher pinta o cabelo, por que eu não posso pintar?”), das rugas de incontáveis expressões faciais, das marcas na pele de tantos raios de sol e da cicatriz da cirurgia no coração bobo, vive um jovem. Logo ao saber do motivo da entrevista, ele não espera a primeira pergunta e começa: “Eu não me sinto jamais com 70 anos, mas 70 é preocupante (risos). Nunca fiquei pensando nesse negócio de idade, agora é que tem essa coisa de 70. Fiquei com vontade de botar 70 07, porque eu posso ter 7 anos como ter 70. Eu sou um menino a vida toda”.

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    "Tempo é segredo senhor de rugas que eu tenho"

  • Olinda agora vira palco do Festival Cena Brasil

     Mestres do coco se encontram no festival. Foto: Pri Buhr/Secult-FundarpeMestres do coco se encontram no festival. Foto: Pri Buhr/Secult-Fundarpe


    Olinda, de cheiros, sabores, belezas naturais e grandes festivais. Olinda, palco também do 14º Festival Cena Brasil, no próximo fim de semana (26 e 27/11), a partir das 16h. No Mês da Consciência Negra, com o tema Diversidade cultural & sustentabilidade, a edição realizará ações culturais, educativas, fomentando o respeito à diversidade.

    Nos dias 26 e 27/11, o público poderá conferir, na Praça do Carmo, atrações musicais, a feira social de economia criativa, a ala da gastronomia de terreiros, oficinas gratuitas de rádio e fotografia (para alunos de escolas públicas), além da tradicional marcha da consciência negra que, este ano, vai sair do Mercado da Ribeira percorrendo as ruas da Cidade Alta. Além disso, no sábado (26/11), das 15h às 17h, na Biblioteca Pública de Olinda, os alunos da rede municipal e outros interessados poderão conferir uma aula-espetáculo que irá abordar a influência do povo africano na nossa cultura.

    Todos os anos, o Festival Cena Brasil realiza debates sobre diversos temas de interesse da sociedade civil e das entidades ligadas aos setores de minoria e resistência. O evento também reúne 15 atrações locais, selecionadas entre mais de 300 inscritos. Durante os dois dias de festa, os artistas selecionados poderão mostrar ao público seu valor.

    Confira as atrações musicais:
    A partir das 16h

    Sábado (26/11)
    Maracatu Estrela de Jacy
    Magnatas da Beira Mar
    Sasquat Man
    Aliados CP
    Etnia
    Juliano Holanda
    Café Preto
    E nos intervalos, DJ DaMata

    Domingo (27/11)
    Maracatu Leão das Cordilheiras
    Mestres do Coco Pernambucano
    Tambor da Terra
    Julio Samico
    Coco dos Preto
    Vibrações
    E nos intervalos, DJ Jedson Nobre (Abeokuta djs)

    Serviço:
    14º  Festival Cena Brasil
    Sábado e domingo, 26 e 27 de novembro, a partir das 16h
    Na Praça do Carmo, Olinda
    Acesso gratuito