• Clara Moreira: o privilégio do desenho

     

    O tempo de Clara Moreira parece ser outro. Existe uma espécie de leveza e desprendimento nela quando, por e-mail, escreve à reportagem da Continente: “viajei e passei alguns dias sem computador”. Clara também dá sinais de pertencer a outro tempo porque encara o ofício de desenhista como parte de sua vida mental. “Penso muito antes de desenhar. Posso demorar bastante para começar efetivamente um desenho, mas ele chega a ficar todo definido na minha cabeça. Às vezes, passo meses trabalhando uma imagem mentalmente. Outras, surge-me uma imagem inteira repentinamente”, afirma sobre seu processo criativo.

     

    Aos 32 anos, a pernambucana é formada em Arquitetura, já foi urbanista, professora, assessora parlamentar e, simultaneamente a tais atividades, sempre desenhou. Hoje, mora em Belo Horizonte e dedica-se exclusivamente à arte. Optar pelo desenho representa uma modificação no ritmo de sua rotina e impacta diretamente no trabalho que concebe, privilegiando procedimentos tradicionais e o uso de nanquim, lápis de cor e grafite. “Essa mudança foi e tem sido decisiva para o tipo de desenho que eu faço, que utiliza técnicas artesanais e necessita de tempo. Tenho mais tempo pra pensar em desenho e só penso nisso. Sinto-me muito bem”, comenta.

     

    Foi pelos corredores do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco que Clara iniciou seu percurso de desenhista profissional. Enquanto cursava Arquitetura, entrou em contato com alunos que organizavam o Cineclube Barravento, com sessões semanais de curtas-metragens. Ela passou a fazer os cartazes desses filmes, até que “vieram os festivais e os longas, convites de outros estados” e nunca mais parou. Não à toa, boa parte da produção da artista está atrelada ao cinema – ela já produziu cartazes de festivais como o Janela Internacional de Cinema do Recife e Semana dos Realizadores, além de pôsteres de filmes de Kleber Mendonça Filho, Tião, Gabriel Mascaro, Marília Rocha, entre outros.

     

    Por isso, Clara entende: “foi o cinema que me colocou no caminho do desenho”. A relação dela com a sétima arte, aliás, extrapola os limites profissionais e passa pelo vínculo afetivo que mantém com os filmes. “Diria que sou cinéfila, mas não posso afirmar de fato isso porque conheço cinéfilos e eles se dedicam muito mais ao cinema do que eu, viram e costumam ver mais obras que eu. Mas sou igual a eles naquele tipo de paixão obsessiva. Tenho saudades de filmes. Imito a vida neles. Quero me casar com um filme e posso sentir ódio de um deles.”

     

    Em tempos de interfaces e digitalização, Clara Moreira segue ilustrando no papel, e destaca: “Não sei usar o computador pra desenhar”. Não é que ela negue as ferramentas digitais nem desmereça o valor e as possibilidades desses aparatos, mas conta que nutre a intimidade com a folha em branco e o gosto pelo processo, transitando entre o planejado e o inesperado. “Gosto do fato de que o desenho no papel é fatal, é o registro de um tempo em que alguém ficou ali colocando pigmentos um a um, é um momento, uma umidade, uma poeira que adere, um erro incontornável.”

     

    Sobre as referências para o seu trabalho, Clara dá especial valor às parcerias profissionais que estabelece, além de um caldo difuso que engloba livros, filmes, conversas, lugares, outros artistas, memórias de infância e sua cidade natal, o Recife. Ela entende que “esse é um movimento constante, sem o propósito específico de buscar referências, mas acho que tudo me influencia”, conta ela, que, no momento desta entrevista, lia Moby Dick e ouvia Metá Metá. Clara trabalha, agora, em dois cartazes de filmes e organiza uma exposição conjunta com a artista Juliana Lapa, prevista para ocorrer no fim do ano, n’A Casa do Cachorro Preto, em Olinda. A respeito da mostra, a artista acredita que mantém um diálogo constante entre “as demandas exteriores e as questões internas”, produzindo, assim, desenhos de outros tempos, possivelmente, para citar Chico Buarque, do “tempo da delicadeza”.

     

  • Curso de aprofundamento em ilustração abre inscrições

    O espanhol Diego Mallo é responsável pelo segundo módulo. Foto: DivulgaçãoO espanhol Diego Mallo é responsável pelo segundo módulo. Foto: Divulgação

    Ao longo das últimas décadas, a ilustração vem ganhando mais destaque, sendo reconhecida como coautoria em muitas iniciativas. Pensando nisto, o projeto Imersão Criativa: um aprofundamento teórico-prático na arte de ilustrar será realizado no Museu do Homem do Nordeste entre os meses de agosto a outubro. A proposta é dar visibilidade a essa teia produtiva da cultura no estado e, ao mesmo tempo, preencher lacunas de formação, conectar profissionais locais, além de criar uma interface entre eles e ilustradores com ampla experiência e reconhecimento pelo mercado editorial. As inscrições são gratuitas e estão abertas até o dia 19 de junho através do envio de 5 imagens representativas do trabalho do candidato à vaga (em baixa resolução), carta de intenção e breve currículo para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

    A artista responsável pelo projeto, Joana Velozo, reconhece a importância de iniciativas colaborativas de formação existentes no Recife e ressalta a necessidade crescente de espaços voltados para “oxigenar a vida de quem já está trabalhando”. E além disso, acrescenta: “Acho que a energia criativa precisa estar em movimento, se reinventar, criar novas conexões, novos começos. O curso foi pensado como uma ferramenta de aprofundamento e sedimentação, em diálogo com demandas reais de aprendizagem apontadas por profissionais em atuação no estado”.

    O curso terá início no dia 28 de agosto, com um panorama traçado pelo carioca Renato Alarcão acerca da ilustração contemporânea. O artista visual espanhol Diego Mallodas dá continuidade, no segundo módulo, com as práticas de aprofundamento no processo criativo e ampliação de recursos. O terceiro módulo fica a cargo de Mateus Rios, que ministra oficina de aquarela aplicada à ilustração de livros, e o quarto, e último, encerra-se com experimentos de combinação de diversas técnicas visando o encontro de uma voz própria, orientados pela argentina Anabella López. 


    Confira os módulos:
    Módulo I - Renato Alarcão | 28 de agosto a 01 de setembro | Ilustração Contemporânea
    Módulo II - Diego Mallo | 11 a 15 setembro | Três perguntas, mil respostas
    Módulo III - Mateus Rios | 25 a 29 de setembro |Oficina experimental de aquarela
    Módulo IV - Anabella López | 9 a 13 de outubro | Ritmos

    Serviço
    Curso Imersão criativa: um aprofundamento teórico-prático na arte de ilustrar
    No Museu do Homem do Nordeste (Av. Dezessete de agosto, 2187, Casa Forte), das 14 às 18h
    Inscrições abertas gratuitas até 19 de junho
    Divulgação dos selecionados: 24 de julho
    Início das aulas: 28 de agosto
    Informações: imersaocriativa.wordpress.com

  • João Lin ministra oficina de desenho em Olinda

    "Decifra-me", um dos desenhos de João Lin, que ministra a oficina"Decifra-me", um dos desenhos de João Lin, que ministra a oficina

    "Desenhar é uma forma de raciocinar sobre o papel", disse o cartunista norte-americano Saul Steinberg. Para o artista pernambucano João Lin, desenhar é, além disso, uma forma de sentir e sonhar. E com o propósito de potencializar a imaginação e a criação, ele ministra a oficina Desenho - Pesquisa e invenção, entre os dias 3 de maio e 14 de junho, sempre às quartas-feiras, das 13h30 às 17h30, no ateliê do pintor Roberto Ploeg. O valor do curso é R$ 480.

    O laboratório oferecerá momentos de reflexão conceitual sobre o desenho, experimentações dos elementos básicos (a linha, as possíveis texturas, o gesto) e passeios pelos universos de artistas como o próprio Steinberg, Paul Klee, Millôr Fernandes, Fábio Zimbres, Guto Lacaz, entre outros. Os processos de criação na arte, a intuição e a imaginação criativa são conteúdos que permearão todo o percurso da oficina. Em Desenho - Pesquisa e invenção,o fazer e a elaboração coletiva serão mesclados às vivências individuais e à exploração do desenho pessoal dos participantes, respeitando os traços de originalidade e autoralidade de cada um.

    Serviço
    Oficina Desenho - Pesquisa e invenção com João Lin
    Todas as quartas-feiras, de 3 de maio a 14 de junho, das 13h30 às 17h30
    Carga horária total: 28 horas
    No ateliê de Roberto Ploeg (Rua Herculano de Holanda Cunha, 26, Ouro Preto, Olinda)
    Valor: R$ 480
    Inscrições pelo email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou pelos telefones (81) 98649-0015/ (81) 98871-3849