• "Hoje é tudo e hoje é o que for"

    Entrevista vinculada à matéria de Palco da edição 199 da Revista Continente (julho 2017)

    Michel Melamed. Foto: Carolina Vianna/DivulgaçãoMichel Melamed. Foto: Carolina Vianna/Divulgação

    A entrevista que se segue foi realizada com o artista durante a temporada do
    Monólogo público, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp).

    CONTINENTEVou começar com uma frase de Artaud:“Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno”. Você é poeta, ator, performer, diretor, cineasta, roteirista, apresentador. Tem algum inferno por trás de tudo isso?
    MICHEL MELAMED Claro que sim! Por trás, pela frente e por baixo, principalmente. As chamas vêm de baixo. Mas, se tem o inferno, é porque tem a promessa de paraíso. Então, faz-se o trabalho porque existe uma sensação de inadequação continuada. Faz-se o trabalho porque o mundo é um vale de lágrimas, o mundo é inaceitável. Faz-se o trabalho porque é um grito de tentativa de qualquer coisa desesperada. Faz-se isso tudo numa condição desagradável, de muita angústia e contradições, conflitos de várias espécies e, curiosamente, e fugidiamente, durante poucos breves momentos após a realização, existe o paraíso. Os trabalhos que eu proponho são todo esse inferno, mas, na hora que estreia, cara, não tem uma vírgula. Era isso que eu queria mostrar. Agora, essa sensação demora menos que o inferno, então convivo mais com ele.

    CONTINENTEÉ um paliativo?
    MICHEL MELAMED Eu não diria que é um paliativo, porque seria subestimar a capacidade do paraíso. Quando ele chega, chega em gozo e esplendor. Mas, é a maior parte do tempo a condição natural da vida… É estranho eu falar isso também porque, enfim, tenho uma carreira, vivo do meu trabalho, sou um cara não tão feio, nem tão burro, sou branco no Brasil, nasci na classe média… é uma condição muito favorável, mas também fiz análise o suficiente pra saber que não vou abrir mão da minha singularização. Minha condição mental, minhas questões e minha sensibilidade em relação ao mundo são infernais.

    CONTINENTEVocê iniciou sua trajetória noCEP 20.000. É curioso olhar para esse percurso e ver que a palavra nunca bastou para você, ao passo que você também nunca pôde abdicar dela.
    MICHEL MELAMED A questão é exatamente essa, não vejo dessa maneira, não vejo com essa separação em que eu pudesse dizer “ah, estou na palavra e agora estou migrando da palavra para outro tipo de linguagem ou atividade”. Não me relaciono com as coisas nesse lugar, elas são muito mais promíscuas. Estou super na defesa do promíscuo. Na peça, o meu texto usa a promiscuidade entre o público e o privado, mas acho que é um desrespeito com a palavra promiscuidade. Retomei, esses dias, o dicionário, para me certificar disso, porque eu estava sentindo – e todas as leituras dela são muito mais lindas que a cotidiana – que é a ideia de uma mistura de algo inadequado, que não deveria ser feito. Ao contrário, promiscuidade é toda a sacanagem boa, toda mistura de coisas diferentes. Então, sou promíscuo.

    Leiatexto na íntegra na edição 199 da Revista Continente (julho 2017)

  • A arte “promíscua” de Michel Melamed

    "Monólogo público", espetáculo de Michel Melamed. Foto: Júlia Rodrigues/Divulgação"Monólogo público", espetáculo de Michel Melamed. Foto: Júlia Rodrigues/Divulgação

     

    A visão de que o estético e o político são indissociáveis e a mistura de meios e linguagens – como literatura, teatro e cinema – são marcas do trabalho performático do artista

    EmPintura Modernista, ensaio de 1960 que integra o volumeClement Greenberg e debate crítico, o crítico norte-americano Clement Greenberg, baluarte da arte moderna, afirma que “[a] essência do modernismo […] reside no uso de métodos característicos de uma disciplina, não no intuito de subvertê-la, mas para entrincheirá-la mais firmemente em sua área de competência” [1]. Àquela altura, 1960, a arte da performance já se desenhava, tanto nos Estados Unidos como na Europa, como um gênero artístico híbrido, que antecipava aspectos impuros do pós-modernismo e se constituiria, ao longo das décadas seguintes, como uma “indisciplina artística” (como aponta Tânia Alice, emPerformance como revolução dos afetos). No Brasil, artistas pioneiros como Flávio de Carvalho já perfaziam desde os anos 1930 uma obra mestiça, que transitava entre a arquitetura, a pintura, o teatro, a música e experiências que levavam o corpo a embates radicais no cotidiano urbano.

    De todo modo, a década que se iniciava quando Greenberg escreveu seu ensaio tenderia a implodir, no bojo da contracultura, os “aspectos essenciais” e os “efeitos exclusivos” de cada campo artístico, levando parte considerável dos artistas, especialmente aqueles ligados à performance, a manter o caráter autorreflexivo da arte moderna, mas a instaurar, a partir de então, uma visão promíscua, tanto no sentido de fundir as linguagens como de diluir as fronteiras entre arte e vida, entre o estético e o político, entre a “cultura genuína” e okitsch.

    O trânsito livre entre arte e vida, o recurso à chamada “baixa cultura”, a visão de que o estético e o político são indissociáveis e a mistura de linguagens são marcas do trabalho performático do artista brasileiro Michel Melamed. Poeta, ator,performer, diretor, cineasta, roteirista, apresentador de TV, Michel despontou para o grande público após o sucesso do espetáculoRegurgitofagia (2004): uma inovadora experiência teatral na qual o ator se colocava no palco como parte de uma engenhoca que transformava estímulos sonoros em descargas elétricas sobre seu corpo. Lá pelas tantas, Michel vomitava – cena quase ilustrativa para uma peça que se propunha criticar o conceito de antropofagia ou, pelo menos, a ponderar quanto à assertiva oswaldiana de que, no cerne da formação cultural brasileira, está nossa vocação para devorar o inimigo.

    Leiatexto na íntegra na edição 199 da Revista Continente (julho 2017)

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