• Onde estão nossos mortos?

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    Quando a arte vai às ruas, abre-se uma porta para a imprevisibilidade. Uma mesma intervenção renova-se cada vez que é apresentada em um local diferente, adquirindo novos significados e tornando sua presença ainda mais potente a partir de determinado contexto, numa relação de troca mútua. Ao ocupar a Casa da Cultura, no último fim de semana (13 e 14/5), como parte do
    Trema! Festival, o Núcleo de Teatro do Sesc Petrolina e a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS) não só ressignificou sua ação, como também o próprio local e as relações de sentido que a palavra “cultura” possui para aquele contexto.

    A antiga Casa de Detenção do Recife, hoje um espaço "cultural", existiu por quase 120 anos. Na época de seu fechamento, nos anos 1970, abrigava uma superpopulação de 1 mil presos, distribuídos em celas inicialmente projetadas para três pessoas, mas onde se alojavam oito. Hoje, a Casa da Cultura é um local de grande visibilidade turística e mais voltado ao comércio, com inúmeras lojas de artesanato,comidas típicas e lanchonetes.

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    Em todo o percurso da intervenção, era notável o estranhamento de boa parte das pessoas que circulavam pelo local. Alguns turistas tiravam fotos, mas logo saíam de perto. É evidente que o público ali se interessava por outro tipo de arte. Levando ao espaço a performance Procura-se um corpo ação n. 3, um grupo de cerca de 15 pessoas vestidas de preto carregava pás em uma das mãos enquanto marchava lentamente. A esse passo, somavam-se batidas fortes no peito, que buscavam transpor o ritmo dos corpos. Era a história da ditadura militar brasileira que eles contavam com seus corpos e, mais precisamente, a históriaapagada. O grupogritava e se desesperava à procura dos corpos desaparecidos duranteos anos de chumbo.

    Ao parar a marcha, cada ator contava a história de um desaparecido para os espectadores mais próximos, entregando fotos dessas pessoas. Imagens capazes de ativar nossa consciência ou memória difusa. Como dito por dois espectadores durante o ato, em relação à foto, “parece alguém que conheço”. De alguma forma, quem assiste àperformancecria afeto e compaixão pela figura apresentada, e aquela imagem entregue pelos atores não era apenas uma fotoera uma pessoa em apuros, desaparecida. A potência da ação foi evidenciada quando uma senhora da plateia, ao ver alguns passantes pisando nas imagens “enterradas” no chãosimbolizando que nunca pôde ser realizado –, disse: “Cuidado, você está pisando em cima do morto!”.

    "Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação"Procura-se um corpo". Foto: Thiago Liberdade/Divulgação

    A história da ditadura não é bela nem tem apelo comercial; é feia e triste, assim como a história da Casa de Detenção e, por isso mesmo, deve ser lembrada. Aqui, o grupo não sóinterveio no espaço, mas tornou visível o que se quer esconder, cumprindo o papel que cabe à arte: incomodar.